Hoje foi um daqueles dias que parecem marcar a vida da gente para sempre. Ainda me lembro do cheiro da terra húmida e do som dos pardais nos figueirais da aldeia do meu avô, ali em Trás-os-Montes. Corri a perder o fôlego, largando a bola no terreiro mal vi o autocarro a subir a estrada de saibro. A camisa aos quadrados quase se desprendia por causa do vento macio só conseguia pensar: A minha mãe chegou, a minha mãe chegou!
Mas ela não vinha sozinha. Ao lado dela saiu um homem forte, vestido com um fato cinzento-claro. Andava com ar importante, a balançar a pasta. Fiquei a olhar para ele a tentar perceber se seria simpático. Antes que pudesse pensar em fugir, já a minha mãe se agachava, beijando-me o cabelo:
Olá, filho, disse ela, sorrindo com aquela doçura que só as mães sabem ter.
O homem também falou, voz grave:
Então, rapaz! e deu-me uma palmada nas costas que quase me fez perder o equilíbrio. Senti que queria meter conversa, mas faltavam-me as palavras.
A avó Maria Clara, toda orgulhosa, chamou-os para dentro:
Venham sentar-se à mesa. E o avô António só assentiu com a cabeça, calado como sempre.
Isto sim, é aldeia! exclamou o tal senhor, olhando para o bacalhau com grão, o pão caseiro, as azeitonas pretas, e o frango assado. Em Lisboa é só senhas e filas, aqui cada um tem o que planta.
O leite ainda é nosso, e as couves vêm da horta lembrou a avó, cantando as palavras como fazia ao contar histórias antigas.
O homem, a quem chamavam Sr. Vítor, não perdeu tempo:
Nós também damos o nosso jeito. Tenho umas cunhas no armazém da minha irmã, arranjo sempre qualquer coisa para a Rosa gabou-se, passando a mão careca pela cabeça.
Eu fiquei a observar esse novo senhor, pensando como seria ter um pai assim. Lá em Lisboa, via muitas vezes os meus colegas irem ao parque com os pais, ou jogarem à bola juntos. Gostava de imaginar que o meu seria parecido com o pai do Pedro ou o do Marco. Agora este homem, sentado à mesa ao pé da minha mãe, talvez viesse a ser esse pai.
Fui buscar o avião de madeira que o avô António fizera para mim, com tanto cuidado, lixando cada asa até ficar igual ao de verdade. Cheguei perto do Sr. Vítor, mostrei-lho orgulhoso:
Veja só, que avião bonito!
Ele agarrou no brinquedo, rodou a hélice com força, mas ela soltou-se e caiu ao chão.
Fraquinho este avião, hein? resmungou, devolvendo-mo.
Quis dizer-lhe que o avô podia arranjar, mas calei-me. O avô António sorriu:
Deixa, eu dou-lhe um jeito.
A minha mãe, a Rosa, olhou para o Sr. Vítor como quem muda de assunto:
O Sr. Vítor é nosso chefe de armazém lá na fábrica, já viu?
Ele ficou ainda mais inchado, enchendo o peito de orgulho.
A minha mãe estava feliz. Notava-se na forma como lhe punha os croquetes e a compota de figo à frente. Era a primeira vez que se animava tanto com um namoro. A avó observava tudo, firme mas calada.
Quando foram para o alpendre, o Sr. Vítor abriu os braços e encheu o peito de ar:
Que maravilha isto! Que saudades de campo!
Gostas mesmo, Vítor? perguntou a minha mãe.
Claro! Amanhã vamos a Lisboa, levo o Dioguinho comigo, é preciso comprar-lhe a farda para a escola.
Mas porque é que não pode ficar cá a estudar mais um ano? perguntou ele de repente. Está perto da família, aprende a dar valor ao campo. Nos arranjamos casa, compramos mobília nova, tudo com calma.
Ao ouvir aquilo, a avó lançou um olhar preocupado ao avô. O avô ficou ainda mais calado, torcendo o bigode.
Ora, isso é uma condição, não um convite murmurou, quase sem mexer os lábios.
No dia seguinte, enquanto a mãe tentava explicar porque me ia deixar na aldeia, apenas acenei, sem dizer palavra. Quando ela e o Sr. Vítor partiram para o autocarro, ninguém me encontrava. A avó procurou em todo lado, até no galinheiro! Eu tinha-me escondido no palheiro, com o avião partido na mão. Queria sair a correr, abraçar a minha mãe, mas fiquei quieto, a perceber que de repente já não cabia mais ali, desde que chegara o novo homem.
As lágrimas correram-me sem pedir licença não era de chorar, nem quando o avô me ralhava por mexer no barco junto à ribeira. Mas agora doía demais.
Aqui está ele! gritou a avó, quando já todos tinham ido.
Não chores, meu menino, a mãe volta daqui a mês, prometeu. Até lá compramos a farda nova na vila. Não gostas de cá estar com os avós?
Baixei a cabeça, o cabelo tapou-me a cara. Pensei nos meus amigos de Lisboa, no recreio, no futebol. Na aldeia, também gostava dos amigos, mas era diferente. Sabia que o verão era tempo de estar com os avós, e que no Outono voltava ao bairro onde tudo me parecia mais simples.
A semana voou e fui-me distraindo. Mas, passado pouco tempo, ouvi passos no terreiro. Era a minha mãe, cansada, a sentar-se no banco da entrada.
Vieste tão cedo, mãe!
Prometi regressar só daqui a mês, mas não consegui. Vim buscar-te, filho.
Mas o Sr. Vítor?
O Vítor ficou por Lisboa. Andou feito galã, agora até vai a casa da Simone, a nossa contabilista Leva-lhe presentes do armazém. A mim queria que te deixasse aqui de castigo, para não lhe estorvar. Achei que não valia a pena.
A avó suspirou de alívio.
Talvez seja o melhor, filha.
É o melhor, mãe, acredita. Vou-te comprar a farda, um estojo novo, vais para o segundo ano comigo em Lisboa. Não te faz falta nada, filho. Preciso é de família, não de favores.
Olhei para ela, tão feliz e aliviado. Corri para os braços da mãe:
Mãe!
Meu menino bonito! Estava cheia de saudades. Vamos para casa, tens de te preparar para a escola.
Posso jogar futebol e ir ao clube, mãe?
Claro, tudo como dantes sorriu.
Dei o meu melhor para ajudar a arrumar as coisas, para a mãe não levar tanto peso. Ela ria-se, disse que eu era forte. O avô e a avó acompanharam-nos ao autocarro. Sentei-me à janela, a acenar até eles desaparecerem na curva.
No colo, o avião já concertado pelo avô. No olhar da mãe, o mundo inteiro. Fui-me sentindo outra vez eu. Sabia, no fundo do coração de criança, o que é regressar a casa e isso encheu-me de alegria.







