Levei a minha querida mãe à aldeia do meu namorado, e logo ele me impôs uma condição…
Vi o autocarro a chegar pela estrada de terra batida da aldeia e, largando a bola, corri o mais depressa que pude até à paragem. A camisa de quadrados abriu-se, os meus cabelos louros levantados pelo vento. Só conseguia pensar: “A mãe chegou, a mãe chegou!” Quando, finalmente, o autocarro parou, a minha mãe saiu, mas não vinha sozinha ao lado dela caminhava um homem rechonchudo, de fato cinzento-claro, que com o seu ar importante parecia um daqueles chefes do escritório.
Corri até à minha mãe e agarrei-lhe a mão, olhando com alegria nos olhos dela.
Olá, filho, disse ela, baixando-se para me dar um beijo na testa.
Viva, rapaz! trovejou o homem, passando a mão pesada pela minha cabeça, fazendo-me perder o equilíbrio com o seu entusiasmo.
Entrem, cheguem-se à mesa, convidou com respeito a minha avó, Dona Leonor.
Muito obrigado, muito obrigado, minha senhora, respondeu o tal senhor, o Senhor António, observando a mesa farta com um ar satisfeito.
É isto que é bom na aldeia! apontou para os travessos. Na cidade é tudo pelas senhas, só se fala de crise e reformas, aqui o povo ainda come o que planta.
E o leite, e as natas caseiras, cantou quase a avó Leonor, e os legumes também do quintal.
Enquanto pudermos, mantemos tudo nosso, acrescentou o avô Manel, pai da mãe, homem magro e calado, que trabalhou a vida toda como operador de máquinas numa cooperativa agrícola.
Na cidade também não nos saímos mal, quis logo exibir-se o Senhor António, passando a mão pela careca, às vezes vou à base abastecer-me de produtos graças à minha irmã, ainda arranjo umas coisas boas. Dou sempre um jeitinho à Teresa trazendo-lhe guloseimas.
Eu fiquei a observar o tal senhor, à procura de uma razão para me aproximar. Na cidade, onde vivia com a minha mãe, ia à escola e jogava futebol com os meus colegas, várias vezes dei por mim a olhar para os pais dos outros meninos e a imaginar como seria o meu. Sonhava que um dia ia à bola com ele, ou que íamos juntos ao jardim zoológico. Pensava se seria parecido com o pai do Paulo, ou com o do Tiago, ou talvez não se parecesse nada com eles.
Agora, vendo aquele homem a conversar com a minha mãe à mesa, imaginei logo: talvez viesse para ser o meu pai.
Peguei no avião de madeira que o avô Manel tinha feito para mim, muito bem trabalhado, com hélice a girar e tudo, e fui mostrar ao Senhor António:
Veja aqui o meu avião! disse envergonhado, estendendo-lhe a brincadeira.
Eh lá! exclamou ele, dando um toque forte na hélice, mas esta soltou-se e voou para o lado. Não presta esta coisa, disse, devolvendo-me o avião.
Agarrei no pedaço do chão, olhando para o avô.
Depois pomos isso a funcionar, disse-me ele sorrindo.
O Senhor António é encarregado na fábrica, explicou a minha mãe, a Teresa, querendo mudar de assunto.
Ele ainda inchou mais as bochechas e olhou para ela de cima:
É verdade, sim senhora.
A minha mãe trabalhava como costureira e estava prestes a casar-se pela primeira vez, feliz por ter encontrado alguém sério, com emprego, mais velho e supostamente mais sábio. Ela enchia o prato dele constantemente, oferecendo-lhe peixe frito, panquecas com natas
Quando finalmente saíram todos para a varanda, o Senhor António respirou fundo e exclamou, abrindo os braços:
Isto é que é vida! E que ar puro há aqui!
Gostas, António? perguntou a mãe.
Se gosto! Muito mesmo.
Então aproveitamos estes dias, amanhã voltamos à cidade, e levamos o André connosco, que lhe faz falta comprar a farda da escola.
Ouve lá, Teresa, para que é que levas o rapaz contigo? Aqui não há escola?
Só faz o primeiro ciclo respondeu ela.
Que fique mais este ano aqui na aldeia, depois logo vai. A gente aproveita, arranja a casa, mobiliário novo, que esse está todo velho.
A avó Leonor ouviu aquilo e trocou olhares inquietos com o avô Manel, que franziu logo o bigode, sinal de que não gostava nada da conversa.
Não é assim tão fácil, António. É preciso tratar da escola, trazer as coisas para aqui murmurou a avó.
É uma questão de arrumo, para o rapaz até é bom: ar puro, leite, legumes, fruta… Cresce mais saudável. E cá está bem guardado convosco. Na cidade, nós a trabalhar, quem o ia vigiar? Durante um ano aprende cá, nós casamos, organizamo-nos. Que dizes, Teresa? Não é boa ideia?
Boa ideia uma ova resmungou o avô Manel, isso não é proposta, é condição.
No dia seguinte, enquanto a minha mãe tentava explicar-me porque não podia levar-me, eu acenei com a cabeça a concordar, mas não disse nada. Quando chegou a hora do Senhor António e da mãe apanharem o autocarro, ninguém me encontrava. A avó Leonor procurou em todo o lado nem no sótão, nem na oficina do avô.
Onde é que ele se meteu? Ainda agora estava aqui e a bicicleta está lá fora suspirava a avó.
Já aparece, deve estar a brincar com os miúdos encolheu os ombros o Senhor António.
A mãe ainda olhou ansiosa para o quintal antes de sair. Eu espreitava tudo escondido na casa do carvão. Queria tanto correr até ela, agarrar-lhe a mão, mas fiquei quieto, de coração apertado. Sentia no fundo que, com a chegada daquele senhor, eu era agora o “a mais”.
Segurei o avião partido e as lágrimas começaram a cair-me pela cara. Não era rapaz de chorar, nem quando o avô me deu uma palmada por ter desamarrado a barca e tentado remar sozinho pelo rio; sabia que ele só fazia aquilo quando merecia. Mas agora, sem ninguém me tocar, as lágrimas caíam-me e eu limpava-as com os punhos, envergonhado.
Olha que te apanhei! exclamou depois a avó, quando já só estávamos nós. Não chores, amorinho, daqui a um mês a tua mãe volta, como prometeu. Entretanto, compramos-te a farda na vila, tu gostas de cá estar, não gostas?
Baixei a cabeça, os cabelos caíram-me para os olhos. Pensei nos meus colegas da escola, nos amigos do bairro, e apetecia-me ir logo com eles. É verdade, também tinha amigos por aqui, mas sabia que o verão era para os avós, e no outono voltava sempre à cidade, onde também gostava de viver.
A semana passou num instante. Entre brincadeiras com os outros miúdos, distraía-me, quase esquecia que a minha mãe me deixara ali.
Até que um dia a avó quase deixou cair o balde das mãos: à porta estava a minha mãe.
Filha, não estávamos nada à espera!
A mãe sentou-se no banco, cansada:
Disse que voltava daqui a um mês, mas voltei em quinze dias. Vim buscar o André.
Mas tínhamos combinado deixá-lo cá. O Senhor António mudou de ideias?
Fui eu, mãe, fui eu mesma. Não posso deitar o meu filho fora. E aquele António, olha, não vale nada, agora anda metido com a contabilista, a dona Sílvia. Até já lhe leva produtos da irmã da base. Diz que eu é que tenho “prenda”: o filho, e que só caso se deixar o André na aldeia.
A avó Leonor olhou para ela, triste, mas também aliviada.
Se calhar foi melhor assim, filha.
Foi, sim, mãe. Levo o André, compro-lhe a farda, uma mochila nova, meto-o no segundo ano, e tudo volta a ser como dantes. Nunca precisamos das coisas dele da base, precisamos era de uma família.
Vi a minha mãe no pátio e fiquei sem palavras. Apeteceu-me tanto correr até ela que não me lembrei de mágoas:
Mãããe!
Filho! Que saudades que tinha! agarrou-me, olhando para o meu rosto bronzeado. Vim buscar-te, amor; está quase aí a escola.
Olhei para ela surpreendido.
Vamos voltar a ser como antes: tu a estudar, eu a ajudar-te, ainda te inscrevo no clube e na bola, que tu estavas sempre a pedir.
Quis meter o máximo possível na minha mochila, para que a mala dela ficasse mais leve.
Deixa, filho, assim vai-te custar muito.
Não vai nada! Eu sou forte!
O avô e a avó acompanharam-nos à paragem. O autocarro chegou, rodando pela berma poeirenta, e com as portas abertas esperei pela mãe. Sentei-me à janela e acenei até os ver desaparecer. Levava o avião de madeira arranjado pelo avô nas mãos e olhei para a minha mãe com orgulho no coração. Ia para casa. E sentia uma alegria tão forte, por estar ao lado da minha mãe, aquela que mais amo neste mundo.







