Debaixo do domínio da mãe
Com trinta e cinco anos, Benedita era uma mulher reservada e, como se diz por aqui, calada e tímida. Nunca tinha namorado, mesmo trabalhando há anos como contabilista, desde que saiu do curso técnico. Sempre ficou na mesma empresa.
Não ligava muito para o visual, usava roupas largas, estava acima do peso, com um ar sempre triste e os lábios caídos. Benedita foi fruto da juventude da mãe, Matilde, que a teve aos dezoito anos nunca se soube ao certo quem era o pai, Benedita nunca o conheceu. Cresceu numa aldeia, aos cuidados da avó. Fez lá o ensino básico e só foi viver com Matilde quando entrou para o curso.
Enquanto Benedita crescia na aldeia, Matilde passava os dias em Lisboa, onde trabalhava, mas acima de tudo vivia entre festas e namorados, era bonita e vivia sem pensar no amanhã. Ia à aldeia uma vez por mês, às vezes menos, levava um brinquedo qualquer à filha e voltava a desaparecer. A avó de Benedita era rígida, por isso a neta nunca soube o que era carinho, nem da mãe, nem da avó.
Hoje, Benedita continuava a viver no apartamento com a mãe. Matilde, já com mais de cinquenta, mantinha uma aparência jovem e cuidada, fazia questão de usar cosmética cara, frequentar cabeleireiro e ainda saía de vez em quando em encontros. Era o oposto total da filha.
No último dia de trabalho, Benedita entregou finalmente os documentos à colega que a ia substituir nas férias, e saiu para a rua.
Pronto, lá vai mais uma férias pensava Benedita o dinheiro das férias vem na carteira. Que pena, a mãe vai tirar-me tudo de novo, e vou passar as férias em casa. Já estou farta disto. Porque é que não consigo dizer-lhe não? Já não sou criança, mas ela obriga-me a ficar junto dela. Quer sempre o meu ordenado, tudinho, não posso nem usar o meu dinheiro. Não vejo saída…
Ao abrir a porta de casa, encontrou a mãe já à espera.
Até que enfim chegaste disse Matilde Então, recebeste o dinheiro das férias? Dá cá.
Recebi, respondeu Benedita. Só deixa-me despir o casaco.
Despiras depois…
Benedita abriu a mala à procura da carteira.
Santa mãe, andas sempre com essa mala velha, parece coisa de avó, não tens vergonha? comentou Matilde, irónica.
Benedita ficou sem palavras, os olhos marejados.
Como posso comprar uma mala nova, se tu me tiras tudo até ao último cêntimo? saiu-lhe, surpreendendo-se por contrariar a mãe.
Não é só a mala que é feia, tu estás sempre desleixada, gorda, nunca te arranjas. Emagrece e toma conta de ti, dizia Matilde, gozando. É vergonhoso sair contigo.
Vergonhoso? gritou Benedita. E tirar-me o dinheiro não é vergonhoso? Nem sequer vamos a lado nenhum juntas! e saiu a correr do apartamento, já com lágrimas.
Correu pelas escadas, saiu do prédio e sentou-se num banco, tapando o rosto com as mãos. Não sabia quanto tempo passou ali, até ouvir uma voz.
Benedita, o que fazes aqui sentada? Era Dona Ana, uma senhora do prédio ao lado, que se sentou ao lado dela e pegou-lhe na mão. Estás a chorar? Conta-me lá, o que se passa, menina?
Benedita não aguentou e contou-lhe tudo.
A minha mãe leva-me todo o dinheiro, gasta em cosméticos e roupas caras, e eu ando com coisas velhas. Sempre fui passiva, desde criança, nunca enfrentei a avó, agora a mãe. Ela é dura, má… Dona Ana abanava a cabeça. Benedita sentiu vergonha.
Ai, estou aqui a dizer mal da minha mãe… vai pensar que sou mexeriqueira, e fracassada…
Dona Ana conhecia bem Matilde, nunca gostou dela, sempre teve pena de Benedita. Percebia que a filha vivia sob jugo da mãe.
Benedita, basta de chorar. Já tens idade, tens de cuidar de ti!
Que idade… nunca fui amada, não sirvo para nada…
Ouve-me: tens de sair de casa da tua mãe disse Dona Ana, firme.
E ir para onde? Com o meu ordenado, não tenho como pagar uma casa, e ela vai zangar-se comigo. Nem lhe dei o dinheiro das férias, saí em desespero…
Recebeste o dinheiro e ela ainda não o tirou disse Dona Ana, pensativa. Olha, a tua mãe não vai morrer de fome, ela arranja-se. Pensa em ti. Se quiseres, podes ir para a minha casa de campo, lá fora. O meu falecido marido construiu aquele lar a pensar que íamos envelhecer juntos, mas a vida decidiu o contrário… Agora que estás de férias, vai lá, nem te vou cobrar nada.
Não tem receio de me receber, Dona Ana?
Tu és de confiança, já te conheço há tantos anos. Espera aí, vou buscar as chaves e o endereço, e dou-te também o meu número.
Benedita foi até à estação, comprou o bilhete de comboio, e sentou-se junto à janela, observando as pessoas na plataforma. Nunca tinha saído de Lisboa, era sempre casa-trabalho. Sentiu-se invisível, e acalmou-se, olhando a paisagem a passar. Quando chegou ao destino, foi rápido até à casa de campo, abriu a porta e entrou.
O silêncio era profundo; olhando em volta, sentou-se numa velha poltrona.
Que sossego… Que estranho é este mundo de liberdade e silêncio pensou.
Já não tinha a mãe a controlar tudo. Viu o comando da televisão, ligou o aparelho. Passava um programa qualquer, mas a mãe nunca deixava ver o que queria, mandava mudar de canal para os seus preferidos, sem se importar com as vontades da filha.
Olha para ti, e para o que gostas de ver dizia Matilde, sempre a humilhar.
Benedita nunca respondia, cabia-lhe abaixar a cabeça cada vez que era insultada, nunca pensara sequer em enfrentá-la.
Deu uma volta pela casa, ligou o frigorífico e guardou lá uma caixa de raviolis, queijo e iogurtes, comprados antes de embarcar. Cozinhou, comeu e finalmente sossegou.
Que maravilha estar sozinha pensou.
Pouco depois, o telemóvel tocou; era a mãe.
Então, fugiste? Vi-te sentada com a Dona Ana. Vive aí sozinha, vais ver se gostas. Vais correr de volta para casa, não te iludas. Arrependes-te de ouvir essa gente. Ninguém te vai ajudar, tu sem mim não és nada. Vais desaparecer sem mim…
Benedita desligou antes de começar a ouvir os insultos de sempre. E pela primeira vez não ficou triste. À noite, Dona Ana ligou.
Benedita, já te instalaste?
Sim, Dona Ana, obrigada.
Amanhã o meu sobrinho Estêvão vai à casa, leva-te as tuas coisas.
Que coisas?
É que a Matilde apareceu com um saco cheio dos teus pertences, disse: Já que levaste a minha filha, leva também as tralhas…”
Está bem, Dona Ana. Como reconheço o Estêvão?
Vai de carro, sabe bem o caminho, alto, usa óculos…
É mesmo oportuno isso?
Benedita, larga essas dúvidas, tens de aprender a ser independente incentivou Dona Ana. E começa a gostar de ti. Arranja-te, compra roupa nova, és bonita, só precisas de cuidar de ti. Força, boa noite!
Com a relva molhada de orvalho, ao longe ouvia cães a ladrar e pássaros a cantar.
Benedita pensou nas palavras da vizinha, foi ao espelho.
É verdade, estou mesmo desleixada. Os meus olhos são bonitos, mas tristes. O cabelo é grosso, mas ando sempre com ele atado num carrapito, pareço uma velha. Tenho de perder peso, nisso a mãe tem razão.
Dormiu profundamente no novo espaço. Pela manhã, os raios de sol entravam pela cortina, abriu a janela: a relva brilhava com o orvalho, ouvia-se um cão ao longe e os pássaros chilreavam.
Que manhã maravilhosa! pensou, espreguiçando-se.
Tomou café na varanda, viu televisão. Occorreu-lhe mudar de emprego e alugar um apartamento, ali longe não era prático. Nem se lembrou da mãe. O coração batia com expectativa.
Enfim vou ter vida própria, sem dependências pensava, quando ouviu uma batida suave à porta.
Quem será? pensou, abrindo com cautela.
À porta estava um homem alto de óculos e uma mala grande.
Bom dia sorriu ele. Sou Estêvão, és a Benedita?
Sim, entre. Fez-lhe passagem.
A minha tia Dona Ana pediu para trazer as tuas coisas e dar-te uma ajuda. Se quiseres ir ao mercado, tenho carro. Diz à vontade, Benedita, falou ele, com voz gentil. A tia avisou que eras tímida e reservada, desculpa, sei um pouco da tua vida… pelas palavras dela.
Assim Benedita conheceu o futuro marido. Estêvão apaixonou-se por ela, até porque o primeiro casamento dele tinha sido infeliz. A paixão mudou Benedita, desapareceu a timidez e o olhar triste. Perdeu peso, queria sentir-se bonita para ele. Foi ao salão de beleza e transformaram-na de tal forma que nem se reconheceu.
Sou mesmo eu? sorria, vendo o reflexo, os olhos brilhando.
Estêvão levou-a para Lisboa, para o apartamento dele.
Benedita, sempre sonhei com alguém como tu: simpática, sincera e cuidadosa. Não vale a pena enrolar, já não somos crianças. Quer casar comigo?
Ela aceitou, sentiu-se verdadeiramente sortuda com Estêvão, eram parecidos. Foi um casamento simples, convidaram Matilde, que armou confusão à mesa, mas Dona Ana cortou logo a conversa. Matilde foi-se logo embora; ninguém sentiu falta, e Benedita nem se preocupou.
A família de Estêvão adorou Benedita. Ele olhava-a com amor e pensava:
Mais cedo ou mais tarde a felicidade chega a todos, chegou a nós também.
Pouco depois, Benedita engravidou e sentiu-se ainda mais feliz. Afinal, mesmo que tarde, encontrou a felicidade. Esqueceu o que era viver controlada, ganhou coragem e mudou de vida. Transformou-se não só fisicamente mas também por dentro, porque finalmente aprendeu a amar-se e ao Estêvão.
Obrigada por lerem, pela vossa amizade e apoio. Que a vida vos sorria!







