Miguel, ainda cá estou: uma história de amor e esperança à beira-mar
Miguel, ainda estou viva. Ela aproximou-se devagar, deixando a água acariciar-lhe a pele. Promete-me não me chores antes do tempo.
Miguel, olha só para isto! exclamou com entusiasmo Inês, a pele dourada pelo sol, os olhos cheios de vida. Com os braços abertos, parecia querer abraçar o Atlântico inteiro.
Os seus caracóis castanhos, aclarados pelo sol da Ericeira, dançavam ao sabor da aragem. Eu disse-te que este mês ia ser o melhor das nossas vidas!
Ali ao lado, Miguel ajeitou o chapéu de palha e sorria. Por fora, parecia sereno, mas lá dentro o coração apertava de angústia. Aquela sensação de que podia ser a última oportunidade de recuperar a felicidade que lhes escapara não o largava.
Sim, Inês, este mês vai ser mesmo especial respondeu, forçando algum ânimo na voz. Tu tens sempre razão, sabes disso.
Mas não conseguia esquecer as palavras do médico, há dois meses “Oncologia, já avançada, dois ou três meses”. E foi por isso que vieram para a costa, porque a Inês decidiu que queria viver, não desistir.
Vamos nadar? sorriu, agarrando-lhe a mão com força. Ânimo, Miguel! Lembras-te de quando éramos miúdos e saltávamos para o rio na aldeia da avó? Tu morrias de medo que a corrente levasse os teus calções!
Ele desatou a rir, e por momentos a dor ficou em segundo plano. Só a Inês conseguia arrancá-lo à sombra da tristeza.
Eu não tinha medo, era só cauteloso! retorquiu a brincar. Pronto, bora mergulhar, mas se aparecer por aí um tubarão a culpa é toda tua!
Riram os dois, como adolescentes despreocupados, e correram para a água. Inês brincava entre as ondas e Miguel, de olhar terno, admirava a mulher que sempre amou. Nunca quis imaginar perdê-la, tão impossível quanto assustador.
“O amor dá-nos força para ter esperança, mesmo quando o tempo parece fugir-nos das mãos.
A história deles começou no décimo ano, num vila pequenina perto de Aveiro, onde toda a gente se conhecia. A Inês apareceu na escola vinda de Coimbra um furacão de sorriso brilhante e cabelo comprido, castanho, que parecia derreter os corações.
Apesar de um pouco desajeitado e sempre com os livros debaixo do braço, Miguel achou impossível que ela reparasse nele. Mas, num baile de escola, tomou coragem e convidou-a para dançar.
Tu és diferente confessou ela, olhando-o nos olhos. Não tentas ser melhor que os outros.
E tu não tens medo que eu te pise os pés? perguntou ele, meio a brincar. O riso dela ecoou e, desde essa noite, aproximaram-se como nunca.
Acabada a escola, Miguel rumou a Lisboa para estudar engenharia, Inês foi para o Porto, para Letras. Escreviam longos emails, ansiando pelas férias para estarem juntos. A distância acabou por os unir ainda mais.
Com vinte e dois anos, mal acabaram os cursos, casaram-se. A cerimónia foi simples no Salão Nobre do Centro Cultural da terra, decorado com flores de plástico. Ao fundo, tocava um disco do Rui Veloso. Não precisavam de mais; estavam felizes.
Vieram os dias da rotina, às vezes difíceis. Alugaram um T1 minúsculo perto de Setúbal, trabalhavam sem parar e sonhavam ter casa própria e uma pastelaria. O cansaço fazia estragos e o stress trazia discussões.
Discutiam por tudo e por nada pratos sujos, contas esquecidas. Por fim, Miguel bateu com a porta, exclamando:
Achas que devíamos separar-nos?
Inês calou-se e sentou-se no sofá. Depois de um silêncio pesado, murmurou:
Miguel, amo-te demais para desistir. Vamos tentar outra vida.
Passaram a reservar um dia por semana só para eles. Nada de trabalho, telemóveis ou discussões. Passeavam, bebiam chá na varanda, recordavam os tempos de namorados. O amor voltou, fresco como uma primavera depois de frio demorado.
Cinco anos depois compraram uma casinha com quintal e abriram uma pastelaria. Pouco depois chegaram as gémeas Leonor e Matilde que encheram a casa de alegria; Inês era a mãe perfeita: carinhosa, paciente, cheia de histórias para adormecer. Miguel pensava muitas vezes: Que sorte a minha.
O tempo passou, as filhas voaram para estudar em Coimbra, o ninho ficou vazio e eles enterraram-se no trabalho para preencher o silêncio. Abriram uma segunda pastelaria e davam o litro, noite após noite. Um dia, Inês desmaiou no balcão, lívida.
Inês! Acorda! Miguel chamou a ambulância em pânico. O diagnóstico: excesso de trabalho. Mas ela logo brincou “Só estou cansada, Miguel, isto passa.”
No dia seguinte, voltou a cair. O médico, sério, disse-lhe: Tumor, inoperável, provavelmente só mais dois meses.
Em casa, Inês foi serena:
Miguel, não chames as meninas. Não quero que me vejam assim. Quero ir para o mar contigo. Lembras-te como sonhámos? Deitados na areia, cocktails, dança nas noites quentes. Vamos já.
Quis convencer-lhe do contrário, mas percebeu que era o último desejo dela e aceitou.
Miguel, estás longe? veio um salpico de água para os pensamentos dele. Olha que já te vi a divagar.
Estou aqui sorriu, engolindo em seco, antes de mergulhar. Estava só a pensar no jeito que ontem me ganhaste às cartas!
Então anima-te! ela ria-se alto, aquele riso de quem contagia. Logo jantamos no restaurante de fado? Apetece-me dançar até não poder mais!
Tens força para isso? Se calhar é melhor descansares… arriscou Miguel, sem querer falar da doença.
Estou viva, Miguel, quero viver! afirmou, determinada. Promete-me que não me vais enterrar antes do tempo. Promete-me.
Prometo sussurrou ele, apertando-a nos braços, juntos nas águas mornas como se abraçassem o próprio destino.
Fica a lição: O amor e a fé mudam o rumo das piores notícias.
Aquele mês tornou-se um sonho perfeito: passeios pela marginal, gelados à tarde, dança sob as estrelas ao som do grupo de música popular no coreto. Inês parecia renascer: rosto rosado, olhos brilhantes. Miguel pensava se os médicos não se teriam enganado. Seria milagre?
Certa noite, no terraço do hotel, Inês abraçou-o e murmurou:
Miguel, não tenho medo. Se for o final, fui feliz. Tenho-te a ti, às minhas filhas, e este pôr-do-sol. Vivi bem a minha vida.
Não digas isso e sentiu a voz vacilar. Ainda vais dançar nos casamentos dos nossos netos.
Ela sorriu e apertou-lhe a mão.
De regresso a casa, Inês insistiu numa nova bateria de exames. Miguel receava esse dia, como quem teme uma sentença final.
Mas o médico observou atentamente os resultados e, surpreendido, disse:
É quase impossível. Os exames não deixam dúvidas: a massa desapareceu quase por completo. Isso é raríssimo. Tem aqui uma força incrível, Inês.
Miguel olhava de olhos arregalados. Inês chorou, finalmente. Abraçaram-se ali mesmo, e o médico, atrapalhado, saiu.
Foi o mar, Miguel sussurrou. Foi o nosso amor que nos salvou.
Foste sempre tu que me salvaste respondeu ele.
Voltaram à rotina: pastelaria cheia de clientes, amigos, esperança renovada. Inês ainda tomou uns remédios por mais um mês, mas a doença recuava. As filhas voltaram a casa, e o lar encheu-se de risadas.
A observar a esposa, Miguel pensava: Como fui tão cego antes? Mas Inês, como se adivinhasse, piscou-lhe o olho:
Miguel, não te ponhas triste. Vai antes fazer as tuas panquecas, aquelas que eu adoro e já nem me lembro ao certo!
Foi para a cozinha, e juntos jantaram na varanda, a ver o sol descer sobre o pinhal e o mar.
Sabiam que, enquanto fossem um do outro, nada os devastaria.
Esta é uma história de amor, esperança e coragem, que nos mostra como até nos dias mais negros é possível encontrar luz e acreditar em milagres. Inês e Miguel provaram que o amor e o apoio podem, de facto, fazer maravilhas.







