Botão? Eu chamei-a de Pinhas. Andou aqui pela manhã toda, coitadinha. Viu-se logo que estava perdida. Depois veio aninhar-se aos meus pés. Então enfiei-a no carro, para não gelar cá fora sorriu o homem…
Leonor, mas como consegues ser tão azarada? Quantas vezes te avisei que aquele Manel não era para ti! ralhava a mãe para a Leonor.
Ela ficou ali parada, cabeça baixa. Apesar de ter acabado de fazer trinta e sete anos, sentia-se como uma miúda que trouxe negativa da escola para casa.
A Leonor sentia-se profundamente magoada e desgostosa por si, pela sua vida conjugal falhada e sobretudo pela filhota pequena. Porque, mesmo estando a chegar o Natal, acabaram as duas sem o pilar da casa.
Vou-me embora, Leonor disse-lhe o Manuel, como se nada fosse, naquela noite. Ela nem percebeu logo do que ele estava a falar.
Vais para onde? perguntou ela, como por instinto, servindo-lhe uma taça fumegante de caldo-verde.
Leonor, tu vives no mundo da lua. Não percebes as coisas sérias! Como é que aguentei todos estes anos contigo? dramatizou o Manuel, revirando os olhos.
Sem ela perguntar mais nada, ele explicou tudo em pormenor:
Não aguento mais! E ainda por cima, essa tua cadela sempre a fazer barulho. A miúda está sempre doente. Isto perdeu toda a graça, Leonor. Olha-te ao espelho. Em quem te tornaste? rematou, zangado.
Leonor espreitou o seu reflexo assustado na porta do armário, mas mal se reconhecia as lágrimas corriam-lhe pelo rosto e ali ficou, parada na cozinha.
O Manuel não suportava lágrimas. Olhou com pena para o caldo-verde, saiu da mesa e começou a fazer as malas…
A cadelinha Botão, pressentindo o caos, não saia de perto da dona, choramingando, tentando animá-la.
Pelo menos vou descansar, sem tanto barulho, exclamou o Manuel ao aparecer na porta já com o saco às costas.
Manuel, e a Eva? balbuciou Leonor, a pensar na filha de cinco anos que dormia, tranquila, no quarto ao lado.
Desenrasca-te! És mãe, não és? respondeu ele, e ao som dos uivos da Botão, foi-se embora…
Leonor passou a noite sozinha na cozinha, abraçada à cadela. A Botão lambia-lhe as mãos, tentando transmitir-lhe conforto. Parecia perceber tudo.
Durante dias, Leonor não soube como contar a novidade à mãe. Esta ligava com frequência a perguntar como estavam. Leonor respondia depressa que estava tudo bem e desligava imediatamente.
E emprego, já arranjaste algum? Olha que esse Manel vai-te deixar com uma mão à frente e outra atrás, comentou a mãe ao ir visitá-la.
E aí, Leonor não aguentou e desabou, contou que ninguém a chamava para entrevistas e que o Manuel tinha ido embora dias antes.
A mãe ficou chocada, não estava à espera daquele revés.
Eu bem vi ao que ele vinha! Cinco anos juntos, tiveram uma filha, e nunca se dignou a casar, indignou-se a mãe.
Claro que tinha pena da filha desajeitada e da netinha.
Então e agora? perguntou enfim.
Leonor encolheu os ombros:
Arranjo qualquer coisa. Fico como auxiliar na creche da Eva, disse, já sem esperanças.
Mas quanto vais tu ganhar como auxiliar? Ainda tens de dar de comer à cadela… rematou a mãe, que nunca fora fã de bichos e nunca suportou a pequena Botão, que a filha recolheu na rua.
Estava para dizer mais qualquer coisa, mas calou-se, ao ver as lágrimas correrem em silêncio pelo rosto da filha.
Pronto, não chores. Eu ajudo. E cuido da Eva, se for preciso, tentou animá-la…
Mais uma semana passou.
Leonor arranjou emprego na creche. Agora seguia todos os dias para lá com Eva pela mão. A menina estava feliz.
Mamã, e se levássemos a Botão, podia ser nossa ajudante! A avó está sempre a resmungar porque tem de ir passear com ela…
E a Botão até podia ajudar-te a lavar os pratos e protegia-nos na sesta! dizia, sorrindo.
Leonor ria e abraçava a filha. Mas logo se entristecia com as perguntas insistentes da Eva:
Mamã, o pai volta para o Natal, não volta?
Nunca soube dizer-lhe a verdade. Inventou uma história de uma viagem de trabalho. Tentou telefonar ao Manuel, pedir que fosse ver a filha, mas ele fugia, sempre com desculpas:
Leonor, deixa lá isso, quero reorganizar a minha vida. Diz à Eva que fui chamado para uma missão ultra-secreta e não volto tão já. E por acaso viste meu cinto preto? Preciso dele para a passagem de ano, resmungava ele antes de desligar.
Leonor ficava a pensar: como irá ela passar o Natal este ano, sozinha? E como explicar à filha?
Entretanto, a avó levou Eva ao centro de saúde. A miúda estava constipada, mas já recuperava. Iam pelo passeio quando, de repente, Manuel apareceu ao virar a esquina.
Pai, papá! Voltaste? correu Eva para ele.
O homem hesitou, forçou um sorriso e disse baixinho à filha que ele e a mãe já não iam viver juntos. E foi-se à vida dele.
Talvez ainda passe por aí, se der, atirou por fim.
A menina ficou estática, repetindo baixinho:
Não voltes, papá. Não queiras voltar.
Nessa noite, Eva voltou a ficar com febre. Dois dias depois, tiveram de chamar o médico.
Eva não queria falar, nem parecia querer melhorar.
Deve ser pelo choque emocional, disse o médico ao ouvir o que se passava.
Leonor culpava-se:
Devia ter contado logo à Eva… Ela é perspicaz, teria entendido desabafou à mãe, que só abanava a cabeça…
Passados dois dias, novo desgosto. A avó, numa pressa, levou Botão à rua sem trela. E a cadela teimosa, cansada de ser puxada, decidiu fugir de vez.
Ah, é assim? Vais ver se não voltas a casa a tremer de frio! resmungou a avó, entrando no prédio.
Eva, ao saber do desaparecimento, recusou-se a comer ou beber. Leonor prometia que traria a Botão de volta, mas a pequena mantinha-se firme:
Quando a Botão aparecer, eu como, virou-se para a parede.
Isto é tudo culpa tua, Leonor. Deste tudo de mão beijada à miúda e ela perdeu-se… Estou sempre a avisar, começou a mãe.
Terias feito melhor em olhar pela Botão, mãe, em vez de falares tanto, respondeu, insolitamente zangada, a Leonor de sempre tão calma.
Bonito serviço, a trabalhar e a criar sozinha e ainda me respondes assim, ofendeu-se a mãe e saiu de casa…
Leonor ficou novamente sozinha. Passou horas a caminhar, noite fora, pelas ruas.
Eva dormia no seu quarto, mas Leonor rezava para a Botão regressar. Mas nada. Cheia de frio, entrou em casa e adormeceu sem consolo…
Eva acordou cedo:
Mãe, sonhei com uma árvore cheia de luzes! E encontrávamos a Botão! disse animada.
Leonor sorriu. Na mesa, havia uma pequena árvore de Natal de plástico. O Natal aproximava-se, preparava como podia.
Mas Eva não se conformava e insistia que tinha de ser uma árvore de verdade, grande.
Assim a Botão aparece. Como no sonho! choramingou.
Leonor suspirou. Comprar uma árvore natural estava fora de questão, era um luxo que não podia pagar. Ligou à mãe, mas esta recusou-se a vir ajudá-las.
Parece que dás mais valor a uma cadela do que à tua mãe! acusou a mãe, ofendida.
Leonor resignou-se. De nada valia esperar pela mãe.
Eva estava abatida e continuava a recusar-se a sair da cama. Quando tudo ficou preparado para a noite de Natal, Eva chorou baixinho:
Não temos árvore, mãe. E a Botão também não volta, tal como o pai…
Leonor afagou o cabelo da filha, esforçando-se por não chorar. Pediu à vizinha do lado, uma senhora de idade, para olhar pela Eva, e saiu porta fora…
O ar gelado fustigou-lhe o rosto, os flocos começaram a rodopiar na rua. As pessoas cruzavam-na, felizes, mas Leonor não via ninguém. Procurava desesperada pela Botão.
Onde te meteste, minha querida? murmurava, subindo e descendo as ruas.
Sem dar conta, chegou a uma venda de árvores de Natal. Um homem robusto, de boné e sobretudo, saltitava para se aquecer junto às últimas árvores. Leonor parou.
Quer uma árvore? Só tenho duas, faço-lhe preço, despachava o homem.
De certeza que a família já o espera… A mulher pôs a ceia na mesa, os filhos espreitam pela janela… pensava Leonor.
De repente, um casal feliz apressou-se e levou uma das árvores.
Então? Fica com a última? Se quiser, levo-lhe a casa, insistiu.
Leonor olhou para ele, envergonhada. Não tinha dinheiro consigo. Mesmo o pouco que restava em casa, não daria para uma árvore daquelas.
Sentiu-se embaraçada. Reparou então em ramos partidos na carroçaria da carrinha do homem.
Posso levar uns raminhos?… Se não fizerem falta murmurou.
O homem desviou o olhar para os ramos partidos e suspirou:
Leve, claro. Ajudo-a já respondeu, entregando-lhe o molho.
Agradeceu, justificando-se:
Sabe… a minha filha está doente… só queria uma árvore verdadeira… a cadela fugiu… Está tudo de pernas para o ar…
O homem ouviu. Percebia aquele desgosto. Também ele fora deixado recentemente pela mulher e sentia-se sozinho na noite de Natal.
Apareceu então outro homem:
Quanto pela árvore? perguntou.
Já está vendida. Tente do lado, aquele vizinho ainda deve ter, respondeu o vendedor.
Leonor olhou-o surpreendida.
Eu ajudo a carregar até sua casa, sorriu de repente o homem.
Ao olhar, viu-lhe uma expressão afável. Não era assim tão severo.
Mas eu disse, não tenho dinheiro… corou, mais uma vez.
Lembro-me bem. Não faz mal, disse ele com doçura.
E aí, deu-se o mais inesperado: aquilo que só acontece mesmo na noite mais mágica do ano.
O homem abriu a carrinha e ali estava a Botão, enroscada a dormir num velho casaco de lã, mal se apercebendo do que acontecia.
Como é que tem aqui a Botão? sussurrou Leonor, já a chorar, de tanta emoção.
Botão? Eu chamei-lhe Pinhas. Andou por aí toda a manhã. Mal a vi, percebi o que se passou. Depois ficou aos meus pés, aninhada. Enfiei-a no carro, que estava a gelar cá fora, pobrezinha, sorriu o homem.
Chamava-se Paulo. Gostava de animais e dava-se bem com miúdos.
Pouco depois, a casa da Leonor tornou-se quente e acolhedora. Talvez tenha sido a magia do Natal, talvez o destino… Quem sabe.
Uma coisa é certa agora havia de novo felicidade naquela casa. E à Botão, de vez em quando, ainda a chamam Pinhas.
Neste Natal, aprendi que nos momentos mais difíceis pode surgir esperança. Às vezes, é preciso perder para ganhar algo ainda melhor e acreditar que há sempre lugar para milagres.







