Jovem sofisticada empurra um cão abandonado para dentro do carro e parte. Mas quem poderia imaginar

Diário,
Lisboa, 12 de novembro

Hoje foi um daqueles dias em que a cidade parece mais fria do que o habitual e o vento vindo do Tejo atravessa-nos até aos ossos. No caminho para casa, vi algo que não me sai da cabeça. Mas antes de contar, preciso recuar umas páginas deste meu caderno e escrever sobre tudo o que tem acontecido com a Vitória Esteves.

A Vitória sempre foi um mistério na faculdade. Filha única de um grande empresário de construção, chega sempre em carros de luxo praticamente um modelo diferente todos os meses e nunca se mistura connosco, os normais. Hoje as conversas no corredor ferviam mais do que nunca:

Viste o carro novo dela? Ouvi dizer que foi presente de aniversário do pai dela cochichava a Rita, sempre atenta a todos os detalhes.
E a carteira? Aposto que custou uns quinhentos euros!
Olha, esquece a carteira. Tens é que ver o verniz das unhas só as pedrinhas que ela tem devem ter custado tanto como o meu subsídio! ria a Joana, revirando os olhos.

Eu tentava não dar muita atenção, mas a verdade é que também olho, às vezes, para a Vitória. Sempre impecável, cabelo louro platinado a cair em ondas perfeitas, maquilhagem cuidada como se nem fosse deste mundo. Mas por detrás desse ar de boneca de porcelana, sempre me perguntei no que é que ela pensa?. Em dois anos de curso, raramente abriu mais do que uma dúzia de palavras com alguém. Chega, cumpre, tira sempre notas altas e desaparece sem nunca se envolver nas conversas ou nos jantares de curso.

A Maria que já sabia que tinha ficado pensativa lançou:
Aposto que só pensa em roupas e viagens. É uma patricinha, tipicamente lisboeta. Ontem ouvi-a ao telefone, era só Paris para cá, Milão para lá
Assenti, meio contrariada. Várias vezes, reparei numa expressão nos olhos dela como se estivesse algures longe, muito longe daquele brilho todo.

Depois lembrei-me: Vitória fez o projeto de final de semestre em Ecologia, sobre o impacto do ser humano nas populações de animais selvagens Um tema nada típico para uma rapariga como ela, pensava-se.
Perdi a conta às vezes que a vi sair a correr das aulas, ou com uma caixa de biscoitos para cão dentro da mala, mas achei que era coisa de quem tem um cão de raça em casa confidenciei à Maria.
Ela encolheu os ombros. De certeza que é tudo trabalho dos assessores do pai dela.

Mas eu nunca me esqueci daquele olhar quando Vitória apresentou o trabalho: parecia verdadeiramente preocupada com os animais abandonados, a voz até lhe tremeu quando mostrou as estatísticas do abandono e maus-tratos. Por instantes, a máscara caiu e era apenas uma rapariga muito humana.

Hoje, quando saía do supermercado do Saldanha com o saco das compras, parei em seco. Ali mesmo, em frente ao prédio, Vi-a Vitória, de camisa cara e sobretudo de lã, de cócoras a dar comer a um cão enorme, sujo, com o pêlo emaranhado e uma pata claramente ferida. Encostou-lhe as mãos, dedos imaculadamente arranjados e, num tom de voz que nunca lhe tinha ouvido ouvir, murmurou:
Calma, amigo. Sei que tens fome mas não precisas de engolir tudo de uma vez, o mundo não vai fugir.
O vento batia-lhe no casaco de marca, os joelhos já deviam estar a molhar-se da calçada húmida, mas ela ignorava tudo.
E de repente fez-me sentido. Todas as saídas à pressa, chamadas misteriosas E aquele pacote de ração visto de relance na mala não era para nenhum cão de pedigree.

Sabes, percebo-te, juro que sim sussurrou ela, afagando a cabeça do cão, olhos fixos nos dele. Quando era pequena, pedia aos meus pais um cão, mas diziam-me sempre: Porquê adotar um de rua, filha? Compramos um bom, com pedigree. Mas eu queria mesmo era um amigo, alguém que me gostasse de verdade, não por aquilo que eu tenho.

Senti aquele nó na garganta. Ali estava a Vitória não a princesa do Instagram, mas alguém a esconder-se como eu própria tantas vezes me senti na vida.

Pronto, chega de lamentos Vá, vamos contigo ao veterinário. Depois logo se vê disse a Vitória levantando-se e limpando as mãos, já frias e sujas.
O cão, mancando, seguiu-a.
Ela abriu a porta imaculada do BMW e, com um gesto, ajudou o cão a entrar.

És louca? escapou-me, aproximando-me.

Vitória virou-se, com um olhar calmo, triste mas determinado:
Só faço o que acho certo, respondeu. Às vezes só precisamos ser nós próprios, mesmo que ninguém entenda.

Entrou no carro e partiu. Fiquei ali, embasbacada, a olhar para ela, e não consegui parar de pensar no que tinha visto.

Durante os dias seguintes Vitória não apareceu à faculdade. O lugar dela no fundo da sala parecia ainda mais vazio. A curiosidade virou preocupação. Acabei por perguntar ao Pedro, o único que às vezes conversava mais com ela:
Alguma ideia de onde anda a Vitória?
Ele encolheu os ombros: Se calhar foi até ao Porto Mas ouvi dizer que o carro dela tem sido visto ali para os lados das Docas, junto daqueles armazéns velhos.

Lembrei-me de algo que tinha ouvido a Vitória dizer num telefonema: Não posso, pai. Tenho mais que fazer agora. Mais importante que o desfile de Milão, acredita!

Era tarde, já nem sei porque, mas fui até aquela zona industrial junto ao Tejo. Dei por mim a caminhar nervosa à volta dos armazéns, até que vi, meio escondido, o BMW dela. E atrás de uma vedação improvisada, ouvi latidos.

Espreitei por uma brecha. E nem acreditei: dezenas de cães, de todos os tamanhos, corriam, brincavam, aqueciam-se ao sol. No meio deles, de jeans e casaco velho estava Vitória, cabelo apanhado em rabo de cavalo, sem maquilhagem, a distribuir ração e água por todos com um ar sereno, feliz.

Pensei que demoravas mais a descobrir disse ela, sem sequer olhar.

Esteve a acontecer há muito?

Vitória suspirou: Vai quase um ano. Comecei a cuidar de alguns cães na rua depois deixei de conseguir parar. Gastei quase todo o dinheiro do carro nisto, o armazém era barato, eu própria fiz as obras.

Por isso nunca ias aos jantares, às saídas?

Ela sorriu: Nunca foi a minha cena. A moda, os carros, isso é do meu pai. Aqui sinto-me eu mesma.

Vi, de repente, aquela expressão profunda nos olhos dela. Não era frieza. Era amor. Por tudo aquilo que era deixado para trás.
O cão do supermercado já foi adotado, está feliz disse ela. Se quiseres ajudar, preciso sempre de alguém, não chego para tudo.

Sorri. Tanta vez desejei fazer algo assim.
Por onde começo? Perguntei, a arregaçar as mangas.

Passámos semanas assim, eu e ela, a conhecermo-nos melhor através dos cães. Vitória arranjava donativos, mantinha a página do abrigo nas redes, escrevia sobre as histórias de cada animal sem floreados, só factos e carinho verdadeiro.

As pessoas precisam saber que estão a adotar um amigo, não apenas um cão dizia ela, enquanto ajudava a dar banho a um rafeiro assustado. É a única maneira de diminuir a traição.

Numa noite fria, sentámo-nos as duas no velho sofá do abrigo, enquanto os cães já dormiam.
Sabes qual é o meu sonho? perguntou. Queria um abrigo digno, grande, com veterinários, para ajudar cães e gatos, de verdade.

Perguntei porque não o fazia, com o dinheiro que tinha.

Vitória encheu os ombros: O meu pai acha isto tudo uma tontice. Quer que eu trabalhe na empresa, siga o caminho dele. Nem sabe que gasto dinheiro nisto, pensa que é tudo roupa e viagens.

O telefone dela tocou. No visor, Pai.
Não posso, pai. Tenho um compromisso importante disse ela, tentando soar calma, enquanto as mãos tremiam.

Arrisquei: Porque não lhe contas? Mostra-lhe este lugar é o teu projeto.
Ela ficou calada. Depois assentiu:
Tens de ficar comigo, amanhã, se ele vier. Não sei se consigo sozinha.

Fico, claro. Vais ver que ele entende.

No dia seguinte, Vitória lá estava, nervosa. O BMW do pai surgiu, negro, brilhante. O senhor Esteves saiu, rígido, de fato caro, olhar desconfiado.

Então é aqui que andas afirmou.

Vitória reuniu toda a coragem e apresentou-lhe o projeto, mostrou-lhe os cães, contou-lhe o sonho. Por fim, um cãozito velho, chamado Tuga, foi arrastar-se até ao senhor, e deitou-se aos seus pés. O empresário emocionou-se:
Tive um igual, em miúdo. Chamava-se Bolinha. Salvou-me a vida uma vez. Sempre quis ter um sítio destes

Olhou para a filha, emocionado:
És melhor do que alguma vez esperei. Mostra-me os teus planos para isto.

Semestre seguinte, lá estava o novo abrigo Abrigo Amigo Fiel a ser inaugurado nos arredores de Lisboa, orçado em milhares de euros, mas dedicado de coração. Vitória e o pai, ambos em t-shirts do abrigo, cortaram a fita lado a lado.

Vês? segredei-lhe Tornaste-te a mulher de negócios que o teu pai queria Só que à tua maneira.

Ela encolheu-se a rir, os olhos tão cheios de vida:
Às vezes basta coragem para tirar a máscara. E descobrir quem realmente somos. Afinal, debaixo do brilho, somos todos apenas coração.

Ao nosso lado, o Tuga ladrava, feliz e, por segundos, parecia que todo o tempo do mundo estava, finalmente, no sítio certo.

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Jovem sofisticada empurra um cão abandonado para dentro do carro e parte. Mas quem poderia imaginar