Já não sou mulher dele
Artur, ó Artur, já mediste a tensão hoje? Tomaste o comprimido? Filomena espreitou à porta do quarto, limpando as mãos ao avental.
Ó pá, Filomena, deixa-te dessas coisas da tensão! resmungou ele, sem largar o telemóvel. Tenho reunião daqui a uma hora. Onde está aquela camisa azul clara, de algodão? Engomaste?
Então, engomei-te ontem três camisas, disseste tu próprio que essa era para levar à lavandaria, tinha uma nódoa…
Confundes sempre tudo! Não se pode confiar em ti para nada. Pronto, dá-me lá uma, qualquer uma. E faz um chá forte, não aquele de camomila que já não aguento.
Filomena enrijeceu os ombros, mas não respondeu, e foi para a cozinha.
Lá fora era novembro, molhado e cinzento. O prédio de oito andares em frente era só janelas escuras, só uma ou outra com luz acesa. Filomena Maria Nogueira Vasconcelos, 56 anos, encostada ao fogão, via a água ferver no velho fervedor já lascado. Pensava trocá-lo desde a primavera. Ainda não tinha trocado. Não houve tempo, nem vontade.
Pôs chá preto na caneca para ele, forte, sem camomila, sem hortelã. Pegou num prato com sandes que preparara às seis da manhã: pão com manteiga e queijo, sem côdea porque ele já não digere bem. Fatiou tomate fresco, mesmo sabendo que de novembro sabem a pouco, mas pronto, vitaminas. Colocou tudo numa bandeja e levou ao quarto.
Artur Manuel Nogueira Vasconcelos, 58 anos, estava sentado na poltrona, de olhos no telemóvel. Era chefe de secção há três meses. Antes era só mais um engenheiro, como nos últimos vinte anos. Quando o chefe se reformou, puseram o Artur por ser o mais velho. O novo cargo trouxe-lhe mais 250 euros no ordenado, gabinete próprio e, ao que parece, uma mudança total de atitude perante a vida, perante tudo.
Põe aí indicou ele com a cabeça para a mesinha de centro, sem tirar os olhos do telefone.
Filomena pousou a bandeja. Ficou ali uma fração de segundo.
Ó Artur, a sério, toma o comprimido, disseste ontem que estavas mal da cabeça.
Disse que ontem doía, hoje não dói. Pronto, vá lá, deixa-me, tenho uma chamada a fazer.
Ela saiu. Ficou à porta do corredor, onde estava o casaco dele, o dela de penas e o velho guarda-chuva de varetas tortas. Ficou a olhar para nada, sem saber o que fazer naquele momento. Depois pegou no pano e foi limpar o parapeito da janela.
Já estavam assim há umas três semanas. Desde que Artur recebeu a promoção e foi a um seminário qualquer da empresa em Cascais, de onde voltou como outro homem. De cabelo cortado, barriga encolhida, olhar diferente. Na altura Filomena até ficou contente: sempre era sinal de vida, pensou. Mas depois começou a notar diferenças.
Passou a criticar a comida. Antes comia sem protestos, agora o caldo verde estava salgado, as almôndegas secas, e bacalhau à Brás é comida de estudante, não de chefe. Filomena até lhe perguntou se ouvira bem, e ele com aquele ar de superioridade:
Ó Filomena, está na hora de fazeres uma comida decente. Umas boas douradas no forno, umas saladas a sério. Não o teu arroz de atum passado.
E ela fez peixe assado. E fez saladas. Ele comeu calado. Filomena achou, pronto, voltou tudo ao normal. Mas no dia seguinte chegou do trabalho carrancudo e disse que o novo colega, o Eduardo, disse que a mulher não trabalhava, só cuidava da casa e parecia uma senhora.
Filomena calou-se. Podia ter respondido que ela também está em casa há quatro anos, desde que foi despedida da contabilidade. Que se levanta às seis, deita-se depois dele, leva a rotina da casa, consultas, farmácia, receitas, pneus de inverno para trocar, porque ele não tem tempo. Podia ter dito, mas calou.
Dois dias atrás deu-se o que a fez não conseguir calar mais.
Ele chegou já quase oito. Filomena estava ao fogão a terminar sopa de galinha leve, sem gordura, por causa do colesterol dele. Cozinhou duas horas. Cheirava a salsa e cenoura.
Porque demoraste? perguntou ela, espreitando da cozinha.
Atrasei-me largou os sapatos no corredor, nem quis saber deles.
A sopa está pronta. Vem jantar.
Veio, olhou a panela, torceu o nariz.
Mais sopa de galinha?
Tens colesterol, o médico disse…
Eu sei do colesterol. Já chega de comida de hospital em casa.
Ela serviu sopa, cortou o pão. Ele sentou-se, comeu calado, levantou-se. Nem levou o prato. Foi para o quarto. Filomena lavou loiça, limpou o fogão, passou um pano à mesa. Depois foi à sala.
Ele estava sentado colado ao telemóvel, no ecrã brilhava qualquer coisa cor-de-rosa não percebeu o quê , e virou logo o aparelho.
Artur, queres compota?
Olhou-a, demorando.
Não. E depois de um tempo: Olha para ti, Filomena.
Ela ficou sem perceber.
Desculpa?
Olha para ti. Quando é que foste ao cabeleireiro? O cabelo todo desalinhado, esse roupão de xadrez… Pareces velha de aldeia.
Na cozinha pingava a torneira. Na vizinha do lado zumbia qualquer novela na TV.
Artur disse, num fio.
O quê? Digo-te a verdade. Agora tenho que ir a eventos, conhecer pessoas. Uma mulher tem que se apresentar bem, e tu assim…
Conhecer pessoas? repetiu lentamente. Não chamaste ninguém aqui em três meses.
Porque tenho vergonha! ergueu a voz. Aquela vergonha caiu pesada, como pedra na água. A mulher do Rodrigo, uma senhora. Arranjada, cuidadosa. E tu? Engordaste, andas num roupão, cabelo nem pintas…
Artur Manuel disse ela pausadamente, que só usava o nome completo nas conversas mais sérias. Faltam-te uns meses para os sessenta. Eu tenho cinquenta e seis. Não somos miúdos.
Justamente! Por isso era bom cuidares de ti! Eu comecei a ir ao ginásio. E tu o dia inteiro em casa e não és capaz de
O dia inteiro em casa repetiu, voz plana, quase estranha, surpreendeu-se com a calma. Está certo, Artur. Entendi.
Saiu do quarto. Encostou a porta. Foi à cozinha, guardou o pão, apagou a luz do fogão. Tudo como sempre, automática. Mas por dentro, sabia, as peças mexeram-se. Não partiram, não ruíram. Mexeram-se, como móveis a meio da noite. Estranha-se. Depois percebe-se: já era tempo.
Naquela noite não dormiu. Deitou-se de costas, ele adormeceu logo. Ela ouvia-lhe o ressonar e pensava.
Pensava há dez anos vivia para servir. Acordava, cozinhava, lavava, fazia recados, organizava consultas, pagava o táxi quando venderam o carro porque ele não podia conduzir com a tensão e cuidava de toda a papelada. Os comprimidos: de hipertensão, colesterol, anti-inflamatório para as articulações, tudo organizado por ela. Ia à farmácia, fazia a lista, nunca deixava falhar.
E agora ele dizia que lhe envergonhava. Que ela parecia uma velha do campo. Que a mulher do Rodrigo era melhor.
Filomena deitou e, à uma da manhã, percebeu a coisa mais simples do mundo: basta.
Não vou-me embora, não vou divorciar-me, nem faço escândalo. Basta fazer o que ninguém valoriza. Basta ser recurso como a torneira: abre, usas, fechas. Agora, cada um por si.
De manhã acordou às seis, como sempre. Fez o seu chá de camomila aquele que ele não suporta. Sentou-se com a caneca e o telemóvel. Entrou no site do cabeleireiro novo, aquele do centro comercial em Sete Rios, caro, doze euros o corte, nunca lá foi porque achava caro. Marcou para quarta-feira. Depois descobriu aulas de marcha nórdica no parque de Monsanto, grátis, às terças e quintas de manhã. Apontou no telemóvel.
Quando Artur entrou na cozinha às sete, estava lá só a caneca dele. O pão, manteiga e queijo tudo no frigorífico. Desenrascava-se.
Então e o pequeno-almoço? ficou à roda.
Tens pão, manteiga, o queijo está no frigorífico disse ela, olhando o telemóvel.
Ele ficou parado. Serviu-se de chá. Cortou o pão. Mastigou em pé encostado à bancada. Saiu para o trabalho sem mais palavra.
Ela olhou a porta fechar-se e sentiu quase um alívio.
Na quarta-feira foi ao cabeleireiro. A cabeleireira, uma rapariga nova de cabelo rapado de um lado, muitas argolas nas orelhas, analisou-lhe bem o cabelo:
Há quanto tempo não pinta?
Uns três anos confessou Filomena. Faltava sempre tempo.
Cresceu bem. Vamos dar uma corzinha, um pouco de madeixas suaves, e cortar melhor as pontas.
Ficou lá duas horas e meia. Viu-se ao espelho e percebeu: não ficou jovem, isso não, mas ficou mais ela mesma uma versão que já tinha esquecido.
Gastou cinquenta euros. Na volta comprou para si um creme de rosto bom, aquele de linhas maduras, vinte euros. Pareceu-lhe caro, mas pensou na mulher do Rodrigo e comprou-o na mesma.
À noite, Artur notou o cabelo. Não disse nada. Ela também não ficou à espera.
Na semana seguinte, acabaram-se-lhe os medicamentos para a tensão. Antes era Filomena quem controlava: checava caixas, ia à farmácia atempadamente. Agora, ao ver que estava vazio, deixou ali a embalagem.
Ele chegou, foi ao quarto não deu por nada. Não lembrou.
No dia seguinte, ao procurar o comprimido, percebeu a caixa vazia.
Filomena! chamou do quarto. Os comprimidos acabaram!
Já sei respondeu ela da cozinha.
Então não compraste?
Tu já não és menino, Artur. Vais à farmácia.
Demorou a resposta.
Mas eu trabalho.
Eu também tenho vida.
E vida, finalmente, havia. Às terças e quintas ia à marcha nórdica, conheceu duas senhoras, Amélia e Hermínia. A Amélia era vice-diretora de escola e ria de tal forma que até os pardais fugiam. A Hermínia, já reformada, cuidava netos. Andavam pelo parque, conversavam, respiravam. Aquilo era um prazer novo.
Artur, claro, comprou ele mesmo os comprimidos, e voltou com ar de quem fez uma grande aventura. Pousou a caixa na mesinha. Nem uma palavra. Ela também nada disse.
Por esses dias, Filomena ligou à amiga de sempre, a Zita.
Zita, estás aí sábado?
Para quê?
Vamos sair, cinema ou café.
Estás bem? Zita estranhou, já não saíam há anos.
Estou melhor até.
No sábado encontraram-se em Entrecampos. Zita viu-lhe o cabelo, exclamou:
Filomena, que mudança! Fica-te mesmo bem.
Fui ao cabeleireiro.
Já era tempo! Pensava: quando é que tu
Já foi. Agora foi. Respondeu, sorrindo, e foram ao café.
Pediram dois galões e uma fatia de bolo cada, junto à janela. Caía o primeiro frio, miudinho, que mal tocava o passeio e logo se desfazia.
Conta lá pediu Zita.
E Filomena contou. A promoção dele, o seminário, a nova pose. O caldo verde, a mulher do Rodrigo, o olha para ti, a vergonha. Falou com calma, sem lágrimas, como se fosse história alheia.
Zita ouvia mexendo o café com a colher.
Então e agora, o que decides?
Não foi decisão disse Filomena. Só parei de fazer o que ele não aprecia. Não é birra. É só desnecessário.
Desnecessário repetiu Zita, compreendendo. Fazes bem.
Não sei se faço bem. Mas não consigo mais ser como antes.
Zita assentiu, colheu mais bolo.
Ele nota?
Que não lhe vou buscar comprimidos? Noto que notou. Que já não lhe engomo camisas todos os dias? Notou também. Ontem pegou numa toda amarrotada, calou-se e saiu.
E escândalo?
Nada. Parece que não sabe o que dizer. Antes eu calava-me a tudo. Agora, calo, mas de outra forma.
Zita olhou-a longa.
Pensas em separar?
Penso. Mas não já. Primeiro quero saber quem sou, sem comprimidos, sem caldos verdes, sem camisas. Há quantos anos não me vejo a mim?
Ainda ficaram um bocado, pediram mais café. Foram-se embora de noite, em silêncio e no frio. Abraçaram-se junto à estação. Zita disse-lhe:
Liga. E para a semana, combinamos de novo?
Combinamos.
No metro, Filomena pensou: a última vez que tinha estado tão simplesmente a conversar com Zita assim, à volta de uma mesa, fora há uns seis ou até oito anos. Tempo nunca havia, sempre a casa, sempre o Artur, sempre o que ele precisava.
Em casa, Artur estava à TV. Na cozinha ficou a caneca e o prato onde ele fritara ovos sozinho. Filomena entrou, viu a loiça. Antes lavava logo. Agora deixou.
Onde estiveste? perguntou, sem desviar o olhar.
Estive com a Zita.
Demoraste.
Pois.
Foi lavar-se, aplicou o creme novo. Olhou-se ao espelho. Nada de grave: 56 anos, cara não nova, mas viva. Rugas, linhas de expressão, cabelo com madeixas que lhe ficava bem. Era uma mulher, já sem juventude, tudo bem.
O dezembro chegou gelado. Filomena comprou botas novas, boas, de pele, não aquelas baratas de borracha. Custaram 90 euros, mas não se arrependeu nada.
A casa foi mudando. Continuava a cozinhar, mas já não só para ele fazia o que lhe apetecia, caldo verde de verdade, carne assada, às vezes raviolis de pacote, porque sim. As almôndegas de dieta já não eram para ela. Se ele quisesse, que cuidasse disso, sabia as recomendações do médico.
As camisas dele passaram a lavar-se junto à roupa de casa, e não separadas como antes. Antigamente lavava-lhe a roupa à parte para não se amarrotar. Agora era tudo igual.
Artur reparava. Calava. Às vezes lançava um comentário seco:
Outra vez raviolis?
Sim, raviolis respondia ela, calma.
Já quase não cozinhas.
Porque não? Ontem fiz sopa. No domingo foi carne assada.
Isso calava-o. Não podia dizer: porque já não giras à minha volta? Soaria demasiado óbvio, até para ele.
Filomena mantinha a rotina do parque. Tornou-se mais próxima da Amélia, que conhecia um bom ginecologista há anos que adia exames, marcou agora. Também se inscreveu em aulas gratuitas de aguarela na biblioteca, às quartas. Nunca sonhara ser artista, nem era preciso justificar: duas horas só para ela, sem pensar em nada, pintar o que lhe viesse à cabeça.
Em meados de dezembro, Artur começou a chegar mais tarde do trabalho. Antes isto era preocupação, jantares frios, chamadas. Agora ela jantava sozinha quando lhe apetecia, deitava-se quando queria. Ele voltava às nove, dez. Uma vez quase meia-noite. Ela não perguntava. Ele não explicava.
Que havia outra, percebeu não pelo telemóvel, mas pelo cheiro: entrou e vinha um perfume estranho, doce, nada de normal. Sentiu aquilo logo no hall pronto, é assim.
O estranho? Não doeu. Esperava dor, ficou apenas com um alívio cansado e outra coisa: perceber que não era dela a responsabilidade, que se ele saísse, era problema dele.
Não disse nada. Deitou-se. Dormiu bem.
Isto durou três semanas. Ele trabalhava, atrasava-se, às vezes recebia chamadas fechado na casa-de-banho. Ouviu-o um dia: Pronto, Leonor, no sábado… Leonor. Pois.
Nessas três semanas, Filomena pensou muito. Trinta e dois anos juntos, um filho, Miguel, agora em Évora, com mulher e dois filhos. No início ele era diferente: divertido, brincalhão, ia à pesca com o filho. Não sabia dizer quando mudara. Foi aos poucos, como água a invadir o porão: de início não se sente, depois não se consegue drenar.
Pensou nela. Todo o esforço para cuidar dele, esquecendo de cuidar de si. Não só por fora. Por dentro já nem sabia o que gostava, que música, que livros, para onde iria se pudesse. Tudo abafado por anos de trabalho, caldos, comprimidos.
As aulas de aguarela tornaram-se fundamentais. Sentada na biblioteca, a professora, Natália Batista, 52 anos, ensinava como misturar cores. Filomena pintava maçãs, paisagens, uma jarra. A última vez que tinha desenhado fora na escola. Afinal não era assustador: aquele verde a misturar com amarelo, muito bonito.
Num dia em janeiro, Natália disse: Sabe, Filomena, tem muito olho para a cor, a sério. Disse como quem não quer nada, mas foi importante. Artur não lhe dizia nada assim há séculos.
No início de janeiro, pareceu que Leonor acabou. Filomena percebeu não por conversa, mas por ele voltar à rotina: sete da noite em casa, telejornal, chamadas desapareceram. Estava mais abatido, tossia.
Ela cozinhava, ele comia. Um dia sentou-se ao lado dela na cozinha e disse:
Está mesmo frio hoje.
Está sim respondeu ela. Avisaram menos doze.
Hum.
E calou-se. Só isso.
Soube depois, por um telefonema do Sérgio Valença, amigo comum, que Leonor despachara o Artur em pouco tempo. Filomena disse que já ouvira falar. Sérgio riu e mudou de assunto.
Provavelmente a moça queria um chefe abonado, restaurantes e vida fácil, e encontrou um homem de 58, cheio de manias, quer o chá certo e camisas engomadas, sempre a queixar-se da saúde. Não há quem aguente.
Dela, pena não sentiu. Era como aquela dor de dente que passa e sabe bem só o alívio.
Em fevereiro, a saúde do Artur piorou. Sem sistema, tomava os medicamentos quando lembrava. Chegou a engolir dois no mesmo dia porque se esquecera antes. Ela não disse nada: o médico já avisara, agora era com ele.
A tensão subia, estava mais pálido, queixava-se de zumbido, acordava às vezes à noite.
Sinto-me tonto disse um dia de manhã.
Vai ao médico.
Vais marcar?
Telefone está no cartão do centro de saúde, vê lá.
Olhou-a: ela estava a beber chá.
Não me lembro como se marca.
Artur, és chefe de secção. Orienta-te.
Lá marcou ele. Foi. Trouxe nova prescrição, mais medicamento.
Toma, está aqui o papel.
Bem, quando for para aquele lado compro. Dá-me o dinheiro.
Ele ficou surpreendido antes ela comprava tudo do saldo comum. Agora era assim.
Deu-lhe o dinheiro. Ela comprou, entregou. Não explicou, não deixou lista com horários. Só deixou lá.
Março trouxe o degelo. Filomena passeava no bairro, comprou uma gabardina nova, clara, com cinto. Olhou-se no espelho e lembrou-se: há quanto tempo não comprava nada para si sem ser porque precisava?
Em março vieram Miguel e Inês de Évora, com filhos para uns dias. Miguel, quarenta, alto, parecido ao pai, mas mais querido. Inês, mulher simpática. Trouxeram mel e uma caixa de bombons.
Ao jantar, Filomena preparou batatas assadas, bacalhau com natas, salada russa. Artur calado. Miguel falava do trabalho, dos miúdos. Inês quis saber das aulas de pintura.
Pintas, mãe? admirou-se Miguel.
Estou a aprender aguarela.
Fixe. Mostras?
Mostrou-lhe os desenhos maçã, jarro de flores, paisagem. Miguel viu com atenção, Inês elogiou muito.
Mãe, estás mais nova, a sério!
Foi só mudar de cabeleireiro respondeu ela.
Reparou no olhar de Miguel ao pai. Artur comia calado. Havia desconforto, mas Miguel não quis perguntar nada à frente da mulher.
No dia seguinte, com Inês fora, Miguel ficou na cozinha enquanto Filomena fazia rissóis.
Mãe, está tudo bem convosco?
Está, porquê?
O pai está estranho.
Tem estado mal da tensão, foi ao médico, faz ele as coisas agora.
Miguel ficou calado a brincar com pedaço de massa.
Não discutiram?
Não disse Filomena, e era verdade: já nem discutiam. Só existiam em paralelo.
Mãe, avisa se precisares
Está tudo bem, Miguel. Verdade. Estou bem.
E Miguel acreditou. Porque ela estava, realmente, bem era o estranho.
No domingo, já com a casa vazia, Filomena limpou tudo, arrumou, o marido via televisão.
Tarde, ele entrou na cozinha, serviu-se de água, ficou à janela.
O Miguel está com bom aspeto disse.
Está sim. E suspirou.
E os miúdos
Pois.
Bebeu água, pousou o copo, saiu. Ela ficou à janela da cozinha, a olhar para o escuro lá fora.
Abril começou com um susto: o Artur teve um pico de tensão. Não grave para chamar o INEM, mas ficou sentado no chão do corredor, cabeça a girar. Chamou por ela.
Filomena, sinto-me mal.
Ela viu-o: cara vermelha, suado, encostado à parede.
Anda para o sofá guiou-o.
Medisse a tensão: 18,511. Muito alto.
Toma já o captopril, está na mesa de cabeceira. Repousa, daqui a meia hora volto a medir.
E tu vais para onde?
Fico na cozinha.
Ela pôs o fervedor ao lume, ouviu-o procurar o comprimido. Uma hora depois, melhor: 169,5.
Fica quieto avisou. Hoje não sais.
Tenho trabalho
Telefona, diz que não vais. É melhor assim.
Ele ficou em casa. Ela levou-lhe chá, tostas. Não porque ele pediu, mas porque era a coisa certa a fazer. Há diferença entre não quero cuidar de ti e não vou ver-te sofrer.
Ele ficou a olhar o teto.
Filomena chamou passado um bom bocado.
Diz.
Fui um parvo nos últimos meses.
Ela não respondeu logo. Sentou-se à beirinha do sofá.
Foste, Artur disse, calma.
Bom Olhava o teto. Foi a promoção, subiu-me à cabeça. Pensei que tudo ia mudar, que finalmente consegui alguma coisa.
Conseguiste: és chefe.
Pois. Pausa. E tu sempre igual, sempre cá… hesitou. Não queria dizer assim.
Entendi, Artur.
Ela levantou-se, levou a caneca. Não era reconciliação. Nem abraços, nem lágrimas, nem nada dessas coisas solenes. Só ele admitiu, ela aceitou, e pronto.
Veio maio, os passeios, a pintura. A Amélia convidou Filomena para o teatro, compraram bilhetes para a peça no Politeama, plateia da frente. Filomena não ia ao teatro há dez anos. Gostou de estar ali, com sumo de laranja comprado no bar, a ouvir as histórias dos outros no palco.
Tinha 56 anos e começou a perceber que aquilo não era fim de nada, mas talvez princípio.
Com o Artur o convívio manteve-se em paralelo. Já não criticava a comida, não falava da mulher do Rodrigo. Perguntava só do básico. Às vezes passavam a noite na mesma sala: ele via TV e ela lia um livro que a Amélia lhe indicou. Era calmo, quase habitual, mas ela já não sentia obrigação.
Um dia pediu-lhe para mandar vir os comprimidos da internet, que era mais barato.
Não sei como se faz reclamou ele. Tu fazes.
Ó Artur, é fácil. Procuras o nome, metes no carrinho, escolhes farmácia perto.
Tu sabes fazer melhor.
Sei, mas também aprendes.
Sentou-se, tentou, chamou-a uma vez. Ela explicou. Ele lá fez sozinho.
Percebeu: não era preciso fazer tudo por ele não era ajuda, era hábito de tomar conta de tudo.
Em junho veio o calor. Filomena comprou vestido novo, colorido. Vestiu e achou-se bem. Não velha da aldeia. Mulher normal, que se arranja para si.
Cada casal envelhece à sua maneira. Conhecia casais em guerra, em amizade, nem água nem vinho. Ela e Artur estavam na quarta via cada um por si, mas sob o mesmo teto.
O futuro? Pensava às vezes no divórcio, sem pressa. Primeiro, descobrir-se. Decidir depois.
O verão andou devagar. Foi a Évora visitar Miguel, pela primeira vez sozinha em anos. Ele ficou, por causa do trabalho. Levou prenda para a neta, uma almofada bordada que aprendeu a fazer no YouTube.
As duas semanas ali com filhos e netos foram maravilhosas. Ir ao parque, fazer papas para eles, banhar a pequena, contar histórias. Era outro tipo de cuidar, não cansava, sabia bem dar.
Miguel conversava todas as noites. Ela dizia a verdade: cá em casa havia paz, mas era difícil. Ele não opinava, sorria era bom filho, disso não tinha dúvidas.
Voltou bronzeada, descansada. Artur recebeu-a na entrada: Já chegaste. Ajudou com a mala. Era pouco, mas era.
Agosto veio abafado. Ela pôs ventoinha no quarto, comprou melancia para si. Comeu metade, deu-lhe o resto. Ele agradeceu pela primeira vez, obrigado pela comida.
Em setembro, os dias arrefeceram e as folhas caíam silenciosas. A sexta-feira fatídica chegou.
Ele entrou às oito, com o rosto cinzento. Ela estava a ler na cozinha.
Filomena, sinto-me mal.
O que se passa?
A tensão, a cabeça, o peito está a apertar cá.
Ela olhou-o bem.
Há quanto tempo sentes isso?
Desde o almoço, pensei que passava.
Tomaste comprimido?
Às três, mas não ajudou.
Senta-te.
Ele obedeceu. Ela trouxe o aparelho. 1911,5. Pior do que em abril.
Artur, isto é grave. Precisas de ir ao hospital.
Não é preciso, posso tomar mais um comprimido…
Não. Com esta tensão e pressão no peito, não passa. Tem de vir médico.
Liga tu, então…
Aí, ela parou. Ficou com o aparelho nas mãos a olhar para ele.
Viu-lhe o rosto, olhos assustados, mão ao peito. Viu um homem doente, envelhecido e com medo.
E também viu outra coisa: esse homem este ano olhou-a como quem olha nada. E disse-lhe coisas que não se esquecem. Que ela deixou de ser gente para ele muito antes de ela deixar de se preocupar.
E decidiu ali o que faria.
Artur disse, calma. Tens telemóvel. O número do INEM sabes.
Ele olhou, sem perceber.
O quê?
Liga para o 112. Diz o endereço, explica. Eles vêm.
Filomena a voz dele quase de menino assustado. Não me ajudas?
Já medi a tensão e expliquei o que tens de fazer. Agora és tu.
Mas eu
Artur. Pousou o aparelho. És adulto, chefe de secção. Consegues.
Saiu da cozinha. Atravesou o corredor, fechou a porta do quarto, sem barulho, só encostou.
Da cozinha, passado uns minutos, veio o som fraco da voz dele:
Alô? Sim, preciso de uma ambulância. O endereço é
Ela fez chá de camomila, porque era o que gostava. Pegou na caneca, passou à cozinha, ao lado dele, que falava com o INEM já aflito. Ele olhou de lado. Ela foi à janela, ficou a olhar para o escuro da noite.
O pátio lá em baixo vazio, as luzes dos candeeiros amarelas, as folhas dos plátanos caídas no chão.
Ele pousou o telemóvel.
Já vêm.
OK respondeu ela.
Vens comigo ao hospital?
Virou-se devagar do vidro. Olhou bem para ele. Cinzento, mão ao peito, olhos de medo. Teve pena, pena verdadeira, sem cinismo. Era só um homem velho e doente, assustado. Nem vitória, nem derrota.
Não, Artur. Vão ver-te os médicos.
Filomena
O INEM resolve, é o trabalho deles.
Pegou na caneca, voltou ao quarto, encostou a porta. Sentou-se à janela agora via o outro lado, o plátano, as luzes ao longe. Da cozinha vinham ruidos. Depois, silêncio. Depois o elevador.
A ambulância chegou 20 minutos depois. Ouviu a porta, passos apressados, vozes: tensão alta, cardiograma, provavelmente hospital. Ele respondia, voz já embaraçada, de miúdo.
Depois: Tem esposa em casa?
E a voz dele:
Está, mas não vai.
Pausa. E um médico, neutro:
Está bem. Vista-se. Vamos.
A porta, o elevador, silêncio.
Fim.







