Inveja à flor da pele
Sim, está perfeito! Ele nunca vai perceber que não está diante da própria noiva…
Beatriz estava diante do espelho, analisando cuidadosamente o reflexo. Levantou lentamente a mão e ajeitou com delicadeza uma madeixa teimosa, pondo-a atrás da orelha. O coração batia um pouco mais rápido o resultado tinha superado todas as suas expectativas! A maquilhagem, o cabelo, a expressão do rosto cada detalhe estava copiado com um rigor impressionante. Beatriz prendeu a respiração se acrescentasse o vestido preferido da irmã, nem a própria mãe seria capaz de distingui-las de imediato.
O pensamento arrancou-lhe um sorriso, mas logo se recompôs, lançando um olhar rápido ao relógio pousado na estante. Os ponteiros teimavam em avançar para a hora combinada faltavam vinte minutos para o Tiago chegar. Beatriz sentiu o nervosismo crescer-lhe dentro. Nada podia falhar nenhum gesto a mais, nenhuma sílaba fora de lugar! Se Tiago desconfiasse, todo o seu plano, cuidadosamente arquitetado, cairia por terra num instante. E isso queria dizer que, mais uma vez, a irmã sairia vitoriosa.
Respirou fundo, tentando controlar o tremor das mãos, e caminhou até à porta. No exato momento em que a campainha tocou, Beatriz já estava à entrada, pronta para encenar o papel. Abriu a porta e, avistando Tiago, transformou imediatamente o rosto. Iluminou-o com um sorriso caloroso, quase leve, e os olhos ganharam um brilho afável.
Tiaguinho, olá! saudou ela com uma suavidade estudada, como se cada palavra tivesse sido medida ao milímetro.
Sem esperar resposta, ficou nas pontas dos pés e deu-lhe um beijo leve na face. Tudo tal como observara em Mariana nem mais, nem menos. Nenhum gesto desnecessário, cada movimento meticulosamente calculado.
Entra, queres um café? convidou, afastando-se um passo, no tom alegre e despreocupado de quem está a viver mais um fim de dia banal, e não uma armadilha.
Por um instante, Tiago franziu o sobrolho, a tentar perceber se as palavras e os gestos tinham algum significado oculto. Depois, soltou um ligeiro sorriso como se, de repente, entendesse o que se passava. Isso só despertou ainda mais o seu interesse. O que pretendia a irmã da noiva? Por que se esforçava tanto para se fazer passar por Mariana? Fingindo nada notar, acenou e acompanhou Beatriz até dentro de casa.
Enquanto ela se apressava na cozinha, as bochechas já lhe doíam daquele sorriso delicado, quase angelical, tão diferente do que era hábito em si. Os gestos eram apressados: colocava chávenas, pires, colheres, lançava olhares fugazes à garrafa de vinho alentejano, discreta no móvel. Guardaria aquele trunfo para depois quando pudesse propor um brinde que ajudasse Tiago a relaxar.
Ela sabia bem: Tiago raramente bebia o corpo não lhe tolerava muito álcool. Mas em ambiente descontraído, especialmente se a companhia o cativava, aceitava um copo. Era isso que ela queria. Precisava, por tudo, que ele se descontraísse, baixasse as defesas só assim teria hipótese de levar o plano até ao fim.
Enquanto Beatriz pegava na cafeteira, Tiago sentou-se à mesa, cruzando os braços e observando-a com um olhar curioso, carregado de ironia. Por fim, não resistiu e quebrou o silêncio:
Bea, para que é isto tudo? perguntou com voz calma. E onde está, afinal, a Mariana? Se é para me pregares uma partida, não é das mais originais.
A jovem hesitou um segundo, buscando as palavras certas. Uma sombra de embaraço cruzou-lhe o olhar, mas logo controlou o tom, respondendo-lhe com um sorriso forçado, a esforçar-se por soar natural:
E como é que descobriste, se não é indiscrição? Não é uma brincadeira… é mais uma experiência. A Mariana não sabe de nada.
Tiago ergueu ligeiramente as sobrancelhas, rodou a chávena nas mãos, intrigado. Era-lhe interessante perceber onde queria Beatriz chegar, mas não demonstrou curiosidade em excesso preferindo deixá-la conduzir a conversa.
Vocês são tão diferentes, mesmo sendo gémeas, apontou ele, inclinando a cabeça. Como é possível confundirem-vos?
Sem responder, Tiago agarrou no telemóvel, enviou uma mensagem rápida à noiva para saber onde estava. O ecrã iluminou-lhe o rosto durante um breve momento e depois voltou ao bolso.
E então, qual é o objetivo deste teu experimento? insistiu, guardando o telefone.
Beatriz ajeitou-se na cadeira, baixou os olhos à chávena. Tomou um gole pequeno quase como a ganhar coragem antes de prosseguir, animada:
Percebes? Toda a gente nos confunde. Dizes que somos diferentes mas, se usarmos os mesmos vestidos, penteados idênticos, até a nossa mãe se engana. Imagina: vestidas da mesma maneira, com o cabelo igual ficamos, de facto, como duas gotas de água.
Fez uma breve pausa e parecia recordar maus momentos, antes de continuar:
Às vezes, isso é difícil… Especialmente quando envolve alguém de quem gostamos. Já tivemos situações estranhas. Houve uma vez em que o meu namorado pensava que me estava a convidar para sair e afinal convidou a Mariana ela simplesmente estava mais perto no local do encontro. Ou o contrário: a Mariana queria falar com o teu amigo, mas ele pensou que era eu, e contou-lhe coisas de que ela não gostou de ouvir…
Então porque não mudam o penteado? arriscou Tiago, recordando que a Mariana sempre referiu que a irmã detestava alterações no visual. Parecia-lhe até que Beatriz gostava da confusão das pessoas; Mariana apenas se adaptava a isso.
Beatriz fez logo um ar travesso, franzindo levemente o nariz.
Não teria piada, disse abanando a cabeça. Fizemos um pacto: nada de mudanças até ao fim da faculdade. É uma espécie de lei silenciosa entre nós. E, para ser sincera… parou por instantes e deixou surgir um sorriso matreiro às vezes dá imenso jeito. Até os professores confundem!
Soltou uma risada breve, sonora, orgulhosa da forma como, por vezes, contornavam as regras mais rígidas.
Hum, já percebi, concedeu Tiago, pensativo. De repente, o telemóvel vibrou. Espreitou-o rapidamente e acenou para si próprio. Mariana diz que está à minha espera na nossa pastelaria habitual. Parece que ela nem imagina onde estou.
Ergueu os olhos para Beatriz, deixando transparecer um vestígio de compaixão.
Não te preocupes, não vou contar-lhe nada deste teu experimento. Sei que só estás preocupada com ela. Não seria correto que vocês tivessem problemas por minha causa.
Beatriz relaxou visivelmente, agradecendo-lhe com um sorriso sincero.
Obrigada, Tiago. És mesmo uma boa pessoa.
Pronto, até logo então, despediu-se, levantando-se. Vou já, não quero que a Mariana comece a preocupar-se.
A porta fechou-se com um clique discreto, e Beatriz ficou sozinha. O silêncio tornou-se pesado como se o mundo tivesse parado, deixando-a a sós com o amargo da frustração. Sentou-se devagar sobre a cadeira, apertando o tampo da mesa com força, para não ceder à vontade de chorar. Porque falhara? Porque o Tiago não cedeu? Como é que um plano em que depositara tanto esforço se desmoronara tão depressa?
Pensava, incessantemente, no dia em que Tiago entrou no seu universo. Desde o primeiro encontro, a sua descontração, o sorriso, o à-vontade tudo tinha feito Beatriz apaixonar-se. Sempre que ele estava por perto, sentia um nervosismo bom, as mãos ficavam húmidas. Horas a imaginar conversas, a preparar o que lhe diria, a imaginar uma cumplicidade que nunca havia tido coragem de tentar, por medo da rejeição e por respeito à relação dela com Mariana.
Mariana, ao contrário, sempre foi mais resolvida. Um dia simplesmente apareceu com Tiago em casa, num gesto natural. Apresento-vos o Tiago, disse com um sorriso, enquanto os pais sorriram encantados ao ver a filha trazer para casa alguém tão simpático.
Beatriz recorda esse serão em cada pequeno detalhe. Via Tiago a conversar com a família, a rir das piadas do pai, a responder educadamente à mãe, e por dentro sentia tudo em ebulição, enquanto por fora mantinha uma atitude serena. Custava-lhe fingir calma, quando dentro de si crescia uma tempestade.
Era ela que devia estar ali, pensava Beatriz. Ela vira o Tiago primeiro, sentir a primeira atração. Ela passara dias e noites a imaginá-los juntos. Mas Mariana não hesitou simplesmente levou-o para casa. Sem pensar se a irmã poderia nutrir sentimentos.
Respirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos. Sabia que não devia deixar aqueles pensamentos encherem-lhe a alma. Tinha de resistir, mas como, quando ainda sentia tanta mágoa e desilusão?
A irmã sempre fora um íman para os rapazes. Mariana era como um raio de sol extrovertida, bem-disposta e com um sorriso contagiante. Adorava festas e estava sempre rodeada de amigos, sem nunca descurar os estudos os resultados eram sempre excelentes, apesar de pouco estudar.
Beatriz sentia-se uma estranha ao lado dela. Era reservada, ponderada, meticulosa. Para ela, o melhor de um dia era um livro calmo ou uma conversa em pequeno grupo. Recusava festas e distrações, preferindo um serão de estudo ou leitura.
Agora, olhando para trás, Beatriz questionava-se: teria feito melhor em aceitar os convites da irmã? Talvez, se tivesse saído mais, Tiago a tivesse notado e valorizado a sua responsabilidade. Mas ele apaixonou-se por Mariana impulsiva, espontânea, encantadora…
No fundo, Beatriz entendia que não era apenas o comportamento. Mariana conquistava todos porque era naturalmente ela própria sem esforço. Beatriz, pelo contrário, vivia assustadoramente consciente de cada gesto, cheia de dúvidas, acabando por se apagar na sombra da irmã.
Quem sabe, pensava ela, um dia as pessoas iriam valorizar o seu lado racional e sereno. Mas, nas noites solitárias, a Beatriz imaginava mil vezes um futuro diferente, se ao menos fosse um pouco mais parecida com Mariana.
Quando a irmã anunciou, no jantar de família, o casamento iminente, Beatriz sentiu uma quebra interna. Sorriu, deu os parabéns, abraçou Mariana, fingiu felicidade, mas por dentro estava vazia.
As noites seguintes quase não dormiu. Remoeu tudo por dentro, mil ideias, alternativas. Acabou por idealizar um plano que lhe parecia perfeito.
Se Tiago me confundir com a Mariana… ceder ao meu charme… e depois Mariana nos apanhar juntos, tudo estará perdido para eles. assim pensava. Ele não será de nenhuma será justo.
Pré-determinou cada pormenor: desde o vinho a cada frase e gesto, ensaiava ao espelho expressões, poses, imitava os maneirismos da irmã.
No dia D, Beatriz estava transtornada de nervos. Tudo parecia alinhado até Tiago entrar e, de imediato, perceber o logro.
Foi um fracasso total. Tiago manteve-se cordial, mas firme, e foi ao encontro da verdadeira noiva.
Beatriz ficou sozinha, sem planos, sentindo a urgência de um novo golpe. Passavam os dias, a data do casamento aproximava-se não tinha como mudar o destino.
Preciso de pensar rápido, repetia, apertando o pano da mesa. Nenhuma hipótese parecia bastante segura. Atingia-se uma conclusão dura: uma próxima vez teria de ser ainda mais calculada. Porque uma segunda oportunidade não aparece todos os dias…
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Semanas depois, Mariana apareceu em casa cheia de luz, reunindo todos à mesa para dar a boa-nova estava grávida. O entusiasmo era notório: olhos brilhantes, voz embargada, todos a felicitarem, a antecipar projetos de futuro.
Beatriz manteve-se em silêncio, agarrando a chávena de chá já frio. Forçou uma expressão neutra e um sorriso ensaiado, acenando entre os elogios. Mas cada palavra, cada olhar de felicidade, era como uma picada afiada.
Imaginou como seria a vida dali para a frente. Os jantares em família com Tiago casado com Mariana, as festas, a partilha das alegrias, os rituais domésticos. Beatriz via cada cena e não suportava a ideia. Não se sentia capaz de aguentar tamanha provação vê-lo sempre, saber que pertencia a outra…
Solução? Planeou. Urgência. Evitar o inevitável, enquanto era tempo.
E assim, lentamente, um novo plano foi surgindo-lhe no pensamento. O mais cruel de todos prejudicar a irmã de forma definitiva, com a perda daquele filho tão aguardado. Era impiedoso, mas a dor no seu interior tornava-lhe tudo lógico.
Aproximou-se de um antigo conhecido, médico, que por uma quantia aceitável poderia disponibilizar-lhe um comprimido inofensivo suficiente para causar problemas.
Sorriu sozinha, um sorriso estranho e amargurado. Quando Mariana lhe devolveu o sorriso, crente na cumplicidade entre ambas, Beatriz pensou: A vossa felicidade não vai durar muito.
E assim se decidiu.
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Queres sumo de laranja? perguntou Beatriz à irmã, forçando um tom casual. Sorriu, daquela forma amiga que tanto treinara.
És uma querida! respondeu Mariana, apertando-lhe a mão com afeto. Não há melhor irmã que tu!
Beatriz hesitou, sentindo um aperto interno. Mas controlou-se.
Já trago. manteve o tom seguro.
Na cozinha, pegou no pacote de sumo, verteu cuidadosamente no copo. A mão foi ao bolso, procurando o pequeno comprimido. Fechou-o na palma da mão. E estacou.
O que estava prestes a fazer? Olhou para o copo, olhou para o comprimido. Imaginou Mariana, risonha, feliz, a projetar o futuro; os pais orgulhosos; Tiago, carinhoso.
Seria capaz de um gesto tão monstruoso? Não. Não era esse tipo de pessoa. Era uma sombra, sim, mas não um veneno.
Apercebeu-se disso a tempo. A mão abriu-se, deixando o comprimido cair na bancada silenciosamente. Respirou fundo, num esforço para acalmar o tremor.
Bea? Sentes-te bem? perguntou Mariana, já à entrada, preocupada com a irmã. Estás tão pálida! Precisas de ir ao médico?
Beatriz levantou os olhos e, naquele olhar de Mariana, viu toda a confiança, carinho e alegria genuína pela sua presença. O momento era de pura harmonia e partilha algo valioso, que não se compra nem se recupera se for destruído.
Não, só me deu uma tontura forçou um sorriso, controlando o tom. Está tudo bem. Tenho aqui o teu sumo, vou preparar um chá para mim.
Virou-se para a banca, fingindo-se ocupada. O corpo tremia levemente, mas esforçava-se por não dar parte disso. Movia-se devagar, como se tentasse atravessar uma tempestade.
Por dentro, Beatriz voltava sem parar ao segundo em que tinha o comprimido na mão. Tão perto estivera de passar a linha que não tem regresso! É tão fácil deixar a inveja crescer quando nos entregamos a ela dia após dia.
Preparou o chá de ervas, sentindo o aroma familiar e reconfortante. Olhou para Mariana: tranquila, a falar dos próximos fins de semana, feliz. Era quase doloroso, mas também era a lição que precisava.
Como fui capaz de sequer pensar… pensava Beatriz. É minha irmã, o meu porto seguro.
Finalmente entendeu: a inveja, a dor e a solidão tinham-se acumulado durante anos, tornando-se um veneno interno quase imparável. Se não reagisse agora, poderia perder tudo o que realmente importava.
Inspirou fundo. Sabia: precisava de ajuda. De falar com alguém, de pedir conselho, de tentar, sem vergonha, admitir: Estou perdida. Preciso de mudar.
Em que pensas? perguntou Mariana, com ternura.
Só no trabalho forçou um sorriso. Talvez peça ajuda a alguém para organizar tudo melhor.
A irmã pareceu satisfeita. Continuou a contar planos, enquanto Beatriz ouvia, respondendo, mas já com uma decisão tomada.
Nunca mais deixaria que aquelas emoções a voltassem a dominar. O caminho para recuperar a paz começava ali, com honestidade e a coragem de pedir ajuda.
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Quando Mariana deu à luz uma menina encantadora, toda a família se rendeu de imediato. A bebé trouxe luz a casa numa tranquila noite de junho. Pela manhã, já todos a puderam ver pela janela da maternidade pequenina, bochechas gorduchas, pestanas negras, dormindo num ninho de mantas.
Os primeiros dias seguiram-se em momentos ternos. Mariana e Tiago aprendiam juntos a cuidar da filha. Os pais traziam presentes, a avó tricotava meias, o avô exibia a neta às vizinhas.
Mas quem mais se encantou com a bebé foi a tia Beatriz. Desde que se libertara do seu tormento, começou a passar cada vez mais tempo com a sobrinha. Primeiro, ajudava só para aliviar a irmã; depois, perdeu-se nos detalhes admirava-lhe os dedinhos, encantava-se com os primeiros sorrisos, fazia questão de lhe comprar as roupinhas mais fofas do comércio tradicional: fatos cor-de-rosa com flores bordadas, ou conjuntos azuis com ursinhos.
Com o passar das semanas, Beatriz tornou-se a melhor companhia da pequena. Fazia teatros, lia livros de animais, ensinava-lhe as primeiras palavras. Quando a menina começou a dar os primeiros passos, Beatriz estava lá para a apoiar, festejando cada conquista com aplausos e muitos beijos.
Mariana apercebeu-se desse laço especial. Uma noite, ao ver a irmã a arrumar brinquedos depois de a deitar, murmurou emocionada:
Obrigada. Tu amas mesmo a minha filha. Ela tem tanta sorte em ter-te como tia.
Beatriz sorriu, um pouco envergonhada. Também ela não esperava que cuidar da sobrinha lhe trouxesse uma alegria tão genuína. Na ternura dos gestos, no brilho dos olhos da bebé, encontrou um sentido de pertença, calor e um amor sem barreiras.
Agora, ao olhar para a sobrinha feliz, Beatriz percebia: a vida guarda-nos presentes inesperados. Muitas vezes, é através do cuidado pelos outros que encontramos, finalmente, a serenidade e a felicidade tão procuradas. E que a verdadeira grandeza está em saber perdoar, recomeçar e, sobretudo, amar.







