Inimigos de Sangue

Inimigos jurados

Pedro está a deitar-se para descansar um pouco, quando o barulho frenético do seu cão invade pela janela aberta. Normalmente, o Gaspar é um animal silencioso, mas hoje parece completamente fora de si desde cedo que não para de ladrar E não é um ladrar qualquer, é um furor que nunca lhe vi.

Pedro já saiu de casa algumas vezes para ver o que se passava, mas não encontrou nada de especial.

Pensou que talvez os cães dos vizinhos tivessem passado e o Gaspar não gostou nada disso.

É típico dele detesta que se aproximem do seu território. Não é de admirar que, sempre que Pedro sai, já não há ninguém por perto.

Com aquele ladrar ensurdecedor, qualquer um foge logo. Provavelmente os cães vizinhos deixam-se afastar sem pensar duas vezes.

Eles nem imaginam que o urso peludo, como o Pedro o chama às vezes, está na casota agora, preso por razões de segurança. Pedro nunca o solta durante o dia para evitar problemas.

Mas assim que anoitece, Gaspar ganha a liberdade. Como se costuma dizer, quem entra, entra por sua conta e risco.

Já houve uma vez em que três ladrões da aldeia ao lado tentaram entrar no quintal dele.

Resultado um perdeu as calças, que ficaram presas nos espigões do portão, outro deixou uma sapatilha debaixo da cerca, e o terceiro subiu a uma árvore. À ponta mais alta.

O guarda da GNR teve de chamar os bombeiros para o tirar lá de cima, porque sozinho não conseguia. Gaspar deu-lhes tal susto que eles nunca mais se meteram com ele.

E o Gaspar nunca ladra sem razão. Mas hoje parece mesmo descontrolado.

Gaspar, já chega de ladrar! grita Pedro, levantando-se da cama e indo à janela.

O cão fica calado, mas segundos depois volta a ladrar intensamente.

Pedro acaba por sair de casa para perceber o que é que está a irritar o seu enorme serra da estrela.

Como esperava, não há ninguém estranho no quintal. O Gaspar cala-se logo ao ver o dono.

O que é que andas a cantar agora, pá? pergunta Pedro, sorrindo enquanto se aproxima da casota.

Gaspar abana a cauda com entusiasmo e olha para o dono com um ar de quem pede desculpa.

O Pedro percebe que o cão só queria protegê-lo. Mas Gaspar volta a olhar para o portão e começa novamente a ladrar.

Pedro vira-se rapidamente e vê algo pequeno, cinzento, a fugir velozmente. Corre até ao portão, sai para a estrada e vê um gato.

Um gato vulgar, mas com um olhar atrevido, seguro e descarado.

O que é que andas aqui a fazer, amigo? ri Pedro. Olha que o Gaspar ele não suporta gatos. Se te apanha

O gato faz uma careta e Pedro até acha que ele se riu.

Apanhar-me? era o que se lia no olhar do gato. Ele nem chega a sair da casota e eu já estou fora da cerca. Demasiado gordo o teu cão, devias alimentá-lo menos.

Pedro sente-se ligeiramente ofendido, como se o gato, sem dizer nada, tivesse insultado o Gaspar com estilo.

Vai lá embora! Pedro afasta o gato com a mão, entra no quintal e fecha o portão.

O que acham, o gato foi embora? Claro que não. Pelo contrário, começou a aparecer todos os dias.

Circula pelo quintal, senta-se perto da casota, mostrando que quer ser o chefe ali. Gaspar só pode ladrar-lhe.

Pedro tentou afugentar o felino atrevido, mas sempre que regressa a casa, o gato reaparece.

Pedro não consegue livrar-se dele.

Depois de ganhar esta pequena batalha, o gato cinzento sente-se o rei do quintal.

Um dia rouba um pedaço de carne da taça do cão. E veja bem, a taça está dentro da casota! Gaspar, cansado de ladrar em vão, nem se mexe e o gato aproveita.

Depois ainda mastiga o pedaço de carne à frente do enorme cão.

Pedro testemunha a cena e sente uma onda de indignação.

Ah é assim? resmunga ele. Vais ver quem manda aqui. Vais arrepender-te de mexeres com o meu cão.

Pedro decide deixar Gaspar solto durante o dia.

Na verdade, deixa-o na casota mas com a porta aberta para que o cão possa sair quando quiser.

Vamos ver se assim o Gaspar põe ordem neste quintal pensa Pedro.

O gato já cansa, tanto o Pedro como o cão, já ninguém tem sossego.

Mas nesse dia, em que Gaspar e o dono aguardam o visitante indesejado, o gato cinzento não aparece.

Sentiu qualquer coisa ou aconteceu-lhe algum imprevisto Ninguém sabe. Pedro até fica frustrado, o seu plano falhou. No dia seguinte não aparece. Nem ao terceiro.

Gaspar olha para o dono, confuso, Pedro só encolhe os ombros.

Talvez seja melhor assim, não é? sorri Pedro. Agora está tudo tranquilo.

Mas na verdade Pedro não está convencido.

É estranho, mas sente falta daquele gato malandro. Sim, parece absurdo, mas é verdade.

Gaspar também habituou-se a ladrar ao seu velho inimigo, a protestar contra as suas traquinices.

Agora é só uma monotonia.

Após uns dias, Gaspar pede ao dono para procurar o gato.

Pede com o olhar. Aproxima-se de Pedro, olha fixamente e ele percebe logo.

Achas que aconteceu algo ao nosso bandido cinzento? pergunta Pedro pensativo. Com aquele temperamento dele, não é difícil meter-se em sarilhos. Vamos lá ver, Gaspar, vamos à estrada procurar o nosso cinzento.

Pedro abre o portão, sai para a rua, para junto do carro e olha em volta.

Gaspar segue-o, vira a cabeça peluda para os lados, farejando com esperança de sentir o odor familiar e tão irritante do gato.

Mas o cheiro de estrume vindo do quintal vizinho atrapalha tudo.

Pedro percorre a rua de um lado ao outro, volta ao portão e já se prepara para metê-lo de volta ao quintal.

Nem podem ficar ali o dia todo à espera do gato que lhes deu tanto trabalho antes.

Mas ao agarrar o portão, Pedro ouve algo insólito à esquerda.

Ali perto, alguém berra num miado desesperado e ouve-se um ladrar enfurecido.

Depois, surge um gato a correr pela estrada poeirenta, o mesmo gato cinzento, a coxear e a fugir de um cão.

Não é um cão qualquer, é um com pedigree. Um doberman de Lisboa.

Pedro conhece-o. Todos os anos, no verão ou até no inverno, a família vem da cidade, trazendo o doberman. O gato, provavelmente, quis brincar com o urbano como fazia ao Gaspar, mas correu mal.

Parece que o doberman até o mordeu, porque Pedro repara em manchas na pelagem do gato.

Enquanto Pedro observa o gato, esquece-se do Gaspar.

Gaspar, sem pedir licença coisa que nunca fazia atira-se ao caminho.

Gaspar! Onde vais?! grita Pedro, preocupado pelo pobre gato. Já apanhou do doberman, e agora ainda o Gaspar Gaspar, pára!

Mas Gaspar não o ouve. Corre em direção ao gato.

O gato percebe, pára e fica petrificado no meio da estrada.

Dá bem para ver que percebe o perigo: a sua vida está por um fio, ou melhor, por um pêlo.

E sabem como terminou? Claro que sabem. Só Pedro estava a hesitar.

Gaspar chega junto do gato, cheira-o, e depois

Em vez de atacar o gato, lança-se, a rugir, ao doberman.

Corre atrás dele até ao fim da rua. O doberman, com reflexos rápidos, vira a cabeça e foge a toda a velocidade.

Caso contrário, teria sido um desastre. Na aldeia não há cão que bata o Gaspar.

O gato aproveita, foge e desaparece. Pedro, focado no cão, nem vê sair o gato. Mas mais tarde, ao alimentar Gaspar, quase deixa cair a tigela. O gato está ali. Vivo, com olhar agradecido. Encosta a cabeça à perna do Gaspar e murmura algo. Gaspar olha para Pedro de uma forma que ele não consegue conter o riso.

No fundo, salvei-o, por isso agora vou cuidar dele até ao fim dos meus dias era o olhar do Gaspar.

Era sério.

Gaspar quer agora ser o guarda-costas do gato cinzento.

Até lhe deixa comer da sua tigela algo nunca visto em tão grande e sério cão. O gelo foi quebrado. Já não são inimigos jurados, mas aliados.

E se acham que acabou, enganam-se.

Pedro leva o gato ao veterinário na cidade, para tratar a ferida na perna. Era grave, só mesmo com pontos. Depois, claro, fica em casa dele.

Pedro cuida do gato, Gaspar não o larga, preocupado, e há pouco tempo queriam matá-lo. A vida dá voltas.

Depois, ao portão, aparece uma jovem bonita.

Gaspar pensa em ladrar, mas só solta um tímido latido. Pedro ouve, sai e

B-b-bom dia cumprimenta Pedro, meio atrapalhado. Procura alguém?

A moça pergunta se Pedro viu um gato cinzento pela rua.

Ou se entrou no seu quintal? O meu, sabe, é um atrevido. Tentei prendê-lo em casa, mas o meu Simão foge sempre. Na cidade estava em apartamento, agora vim para Braga ajudar a minha mãe, depois do AVC, e o meu gato está descontrolado. Quase nunca volta. Costumava regressar, eu tratava dele, mas há dias que nem aparece. Já não sei o que pensar.

Olhe, acho que sei onde está o seu Simão sorri Pedro. Entre, não tenha medo do meu Gaspar. Ele não lhe faz nada. Venha.

Entrar? E para quê?

Vai ver.

Ela hesita, mas Pedro tem um olhar bondoso. Arrisca. Quando chega perto do Gaspar e vê o quem está encostado ao seu lado, fica pasmada.

Simão! Como aqui? O que te aconteceu? pergunta, assustada pelo gato com a perna e parte da coxa enfaixadas. Olha para Pedro foi o seu cão?

Não, não, nada disso diz Pedro, acanhado. Nós até salvámos o seu gato.

De quem é que o salvaram?

Se não estiver com pressa, conto-lhe tudo. Vai gostar.

Pedro conta tudo à Inês (entretanto ficam a conhecer-se), e ela ri-se com vontade.

Que giro O meu Simão irritou-vos dias a fio, e vocês salvaram-no!

Somos bons por natureza, eu e o Gaspar ri Pedro. Mas agora o seu gato está a recuperar. Fisicamente e psicologicamente. Está um amor. Já não nos dá trabalho.

Sempre foi ri Inês. Deve ser o ar da aldeia a influenciá-lo. Ou ficou triste por lhe dar menos atenção. A minha mãe precisa de mim, estamos a aprender a andar outra vez, é um processo longo.

Venha visitar-nos, se quiser diz Pedro, embaraçado. Com o seu gato.

Vou pensar nisso! responde Inês, a sorrir.

Daí a seis meses, a aldeia inteira festejou. Era o casamento de Pedro com Inês. Simão e Gaspar estavam presentes, claro. Até o doberman compareceu, aquele que mordeu Simão.

Reconheceu o gato, olhou com desconfiança, mas ao cruzar olhar com Gaspar, fingiu que nem era ele. E assim termina esta históriaQuando os convidados se despediram, a festa já ia alta. Gaspar, cansado de tanta animação e afagos, deitou-se junto à casota, enquanto Simão, agora recuperado e confiante, se instalou a seu lado, enrolando-se sobre a cauda do cão. Pedro e Inês, de mãos dadas, observaram os dois, sorrindo.

Nunca pensei que uma rivalidade pudesse dar nisto segredou Inês.

Pedro apertou-lhe a mão.

Às vezes, aquilo que começa com um ladrar ou um miado pode acabar em amizade. Ou algo mais.

O sol desaparecia sobre a aldeia, tingindo o quintal com tons dourados. Lá dentro, Simão olhou para Gaspar e, como quem sabe que está protegido, fechou os olhos devagar. Gaspar suspirou, satisfeito, e repousou a cabeça no chão.

Naquele momento, e por muitos anos, a paz reinou no quintal, onde um cão e um gato, antigos inimigos jurados, partilharam não só o território mas também um novo lar, uma nova família, e as tardes tranquilas que só os grandes aliados merecem.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Inimigos de Sangue