Inimigos de Sangue

Inimigos de estimação

Manuel mal tinha se deitado para descansar um pouco, quando o estrondoso latido do seu cão irrompeu pela janela aberta. Aquilo era estranho, pois o Tobias, normalmente, era um cão sossegado, mas naquele dia parecia não encontrar paz ladrava desde o amanhecer, e não era um latido comum, era feroz, como se algo o tivesse irritado profundamente.

Manuel já tinha saído várias vezes para o quintal, mas nunca encontrou nada de suspeito.

Acreditou que talvez alguns cães dos vizinhos tivessem passado por perto, provocando aquele alvoroço todo. O Tobias era muito protetor não gostava de estranhos junto ao seu território. Não era de admirar, portanto, que quando Manuel se aventurava fora de casa, já não encontrava viva alma por ali.

Com os latidos tão assustadores do Tobias, qualquer um fugia. Os cães dos vizinhos sabiam bem disso e rapidamente se afastavam, sem saber que o urso peludo, como Manuel dizia muitas vezes, estava trancado no seu canil. Durante o dia, ele deixava sempre o Tobias fechado por precaução. Mas à noite, soltava-o para vigiar. Se alguém aparecesse, bem, quis o azar, como se diz.

Uma vez, três rapazes da aldeia ao lado tentaram entrar no seu terreno. O resultado foi extraordinário: um deixou as calças penduradas na ponta do portão, outro abandonou uma sapatilha junto ao muro, e o terceiro refugiu-se num pinheiro, no topo, sem conseguir descer. Manuel teve de chamar os bombeiros para o resgatar. Tobias não brincava em serviço, e aquele episódio ficou marcado para sempre.

O mais importante é que o Tobias nunca ladrava sem razão. Mas naquele dia, parecia possuído.

Vá lá, Tobias, chega de barulho! exclamou Manuel, levantando-se e indo à janela.

O cão calou-se, mas poucos segundos depois voltou a ladrar, como se nunca tivesse parado.

Manuel resolveu ir ao quintal averiguar a razão para tanta agitação do seu enorme serra da Estrela.

Tal como pensava, não havia ninguém por ali. O Tobias acalmou assim que viu o dono.

Então, por que estás a cantar de galo, hein? perguntou Manuel, sorrindo ao aproximar-se do canil.

Tobias abanou a cauda de alegria e olhou com um ar de desculpa para Manuel, como quem diz que não queria incomodar. Mas ladrava sempre por uma razão verdadeira. Desta vez, lançou um olhar rápido para o portão e recomeçou o seu latido furioso.

Manuel virou-se e, de relance, viu uma sombra cinzenta a correr à velocidade de um foguete. Chegou ao portão a tempo de ver…

um simples gato.

O olhar do animal era descarado, de quem não teme nada.

Então, amigo, perdeste-te? disse Manuel com ironia. Olha eu aviso: aqui não é lugar para gatos. Se o meu Tobias te apanha…

O gato fez uma expressão arrogante, e Manuel jurou ter visto um sorriso no seu rosto.

Apanhar-me? Com esse cão gordo que mal se mexe? Daqui a pouco já estou do outro lado do muro, pensava o gato no seu olhar. Alimenta menos o Tobias.

Manuel até se sentiu ofendido com aquele gato atrevido que rebaixava o seu cão sem dizer uma palavra.

Vai-te embora! ordenou Manuel, entrando de novo no quintal e fechando o portão.

Mas o gato não lhe deu ouvidos, claro. Pelo contrário, começou a passear pelo quintal todos os dias.

Sentava-se ao lado do canil, esticando-se ao sol, mostrando claramente que era ele o «dono» daquele espaço. Tobias só podia latir, impotente.

Manuel tentou afugentá-lo várias vezes, mas mal regressava a casa, o gato reaparecia.

Não havia solução. O gato sentia-se cada vez mais rei do quintal.

Até se atreveu a roubar um pedaço de carne da tigela do cão. A tigela estava dentro do canil, e Tobias estava cansado demais para reagir o oportunista aproveitou bem, saboreando a carne mesmo diante do enorme cão.

Manuel presenciou tudo e ficou indignado.

Então é assim? Vais pagar pelo atrevimento! Vais ver o que é bom para a tosse!

Decidiu, então, deixar a porta do canil entreaberta durante o dia. O Tobias podia sair e confrontar o intruso se quisesse.

Finalmente, pensou Manuel, o cão iria restaurar a ordem no seu quintal.

Mas nesse dia, o gato não apareceu. Nem no seguinte. Nem no terceiro.

Tobias olhava para Manuel, como quem pergunta: Onde está o nosso adversário?

Talvez seja melhor assim agora está tudo mais calmo, sorriu Manuel, embora não estivesse totalmente convencido.

Na verdade, sentia falta do gato. Era estranho, mas o quintal parecia mais vazio. Tobias também parecia desanimado, sem o seu inimigo para provocar o caos.

Uns dias depois, Tobias começou a pedir a Manuel para procurar o gato, através de olhares insistentes.

Achas que se passou algo com o nosso rebelde? Com aquele temperamento, não é de admirar Vamos, Tobias, vamos à rua ver se encontramos o nosso gato.

Manuel abriu o portão, e ambos percorreram a estrada. O cão cheirava o ar, procurando o odor familiar e irritante.

Mas o cheiro do estrume de um quintal próximo sobrepunha-se a todos os outros.

Manuel caminhou para um lado, depois para o outro, mas nada. Ia já fechar o portão quando ouviu ao longe miados desesperados e latidos furiosos.

No momento seguinte, o gato cinzento saiu a correr pela estrada, mancando de uma pata. Atrás dele, vinha um cão não um qualquer, mas um doberman, elegante, vindo da cidade.

Manuel sabia de quem era aquele doberman era de uma família lisboeta que vinha à aldeia nas férias, trazendo o cão.

Pelo visto, o gato quis desafiar o citadino como fazia ao Tobias, mas teve azar.

O gato estava ferido, com manchas de sangue na pelagem.

Manuel focou-se no gato, esquecendo-se por instantes do Tobias, que sem hesitação correu para o gato, ao contrário do habitual, sem esperar autorização.

Tobias! Aonde vais? gritou Manuel, temendo pelo destino do gato, já maltratado pelo doberman e agora prestes a enfrentar o seu próprio cão. Para!

Tobias não ouviu. Correu decidido, mirando o gato.

O gato, assustadíssimo, parou no meio da estrada, percebendo que o seu fim podia estar próximo na verdade, dependia de uma simples decisão.

E sabem o que aconteceu? Pois claro. Apenas Manuel ainda não imaginava.

Tobias parou junto ao gato, cheirou-o, e então…

em vez de o atacar, com um rugido digno de leão ou urso, lançou-se contra o doberman.

E perseguiu-o até ao fim da rua. O doberman, ágil, escapou por pouco, voltando para trás rapidamente, orelhas coladas à cabeça.

Caso contrário, não teria tido boa sorte. Não havia cão na aldeia que enfrentasse Tobias.

Aproveitando-se, o gato fugiu. Manuel observou o cão e perdeu o rasto ao gato. Mais tarde, ao alimentar Tobias, quase deixou cair a tigela ao ver o gato ali, vivo, saudável, e com olhos cheios de gratidão.

O gato encostou a cabeça na perna do Tobias, ronronando. Tobias olhou para Manuel, como quem diz:

Desculpa, chefe, mas salvei-o, agora é minha responsabilidade cuidar dele para sempre.

Era verdade, não era brincadeira. Tobias estava disposto a proteger o gato.

Até o deixou comer da sua tigela uma generosidade rara para um cão tão sério e robusto. O gato conseguiu derreter o coração do cão, e já não eram rivais, mas grandes amigos.

Mas a história não acabou aqui.

Manuel levou o gato a Lisboa, ao veterinário, para tratar a ferida na pata. Era grave e precisou de pontos. O gato ficou com Manuel para recuperar.

Manuel cuidou dele, Tobias vigiava-o, preocupado. Há pouco tempo estavam prontos a persegui-lo; agora faziam o papel de guardiões. A vida dá voltas.

Pouco depois, surgiu no portão uma mulher jovem e bonita.

Tobias quis ladrar, mas conteve-se. Manuel ouviu e saiu de casa.

Boa tarde cumprimentou a desconhecida. Procura alguém?

A mulher perguntou se Manuel tinha visto um gato cinzento pela rua.

Ou se entrou no seu quintal? O meu gato, sabe, é muito atrevido. Tento mantê-lo em casa, mas o meu Tomás foge sempre, vagueia até ao fim do dia. Em Lisboa era um gato de apartamento, mas desde que estamos aqui, na terra da minha mãe, ele enlouqueceu. A minha mãe ficou doente, preciso de cuidar dela, e o Tomás desaparece. Normalmente voltava, eu lavava-o e alimentava-o, mas desta vez já não voltou e estou preocupada.

Penso que sei onde está o seu Tomás, disse Manuel, sorrindo. Entre, não tenha medo do Tobias, ele não lhe faz mal.

Mas ao seu cão? Porquê?

Vai ver.

A mulher hesitou, mas o olhar de Manuel era sincero. Decidiu confiar.

Ao chegar junto ao Tobias, viu quem estava encostado a ele e ficou em choque.

Tomás! Como vieste parar aqui? O que te aconteceu? perguntou aflita, ao reparar na pata enfaixada. Olhou para Manuel, o seu cão foi quem o mordeu?

Não, de todo, respondeu Manuel embaraçado. Pelo contrário, salvámos o seu gato.

De quê?

Se tiver tempo, conto-lhe tudo. Vale a pena ouvir.

Manuel contou tudo a Beatriz (ficaram a conhecer-se durante a conversa), e ela riu às gargalhadas.

Não acredito O meu Tomás deu-vos nos nervos e vocês salvaram-no.

Somos de boa alma, eu e o Tobias, sorriu Manuel. Agora o Tomás está a recuperar, tanto fisicamente como de espírito. Ficou um mimo. Já não nos incomoda.

Ele sempre foi assim Talvez o ar da aldeia lhe tenha feito bem. Ou talvez esteja magoado por receber menos atenção. Tenho de cuidar da minha mãe, ajudando-a a caminhar de novo. É um processo lento.

Venha visitar-nos, se quiser, disse Manuel, tímido. Com o Tomás.

Vou pensar nisso respondeu Beatriz, com um sorriso malicioso.

Seis meses depois, a aldeia celebrou o casamento de Manuel e Beatriz. Tobias e Tomás estiveram presentes, claro. Até o doberman que feriu Tomás apareceu. Reconheceu o gato, mas ao cruzar os olhos com Tobias, fingiu que se enganara.

A vida mostrou ali que, mesmo aqueles que começam como inimigos, podem tornar-se amigos e mudar o rumo dos nossos dias. Às vezes, só precisamos de dar uma nova oportunidade a verdadeira força está no perdão e na união.

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