Helena passou o dia inteiro à volta do fogão. Tocou a campainha. Os parentes do Tó Zé chegaram e sentaram-se à mesa.

Helena passou o dia inteiro na cozinha. Já noite, a campainha tocou. Os parentes do António tinham chegado e prontamente se sentaram à mesa.

Onde está a carne? perguntou a tia Lurdes, com olhos de quem já esperava desapontamento.

Ali está o ganso recheado, tia respondeu Helena com um sorriso politicamente correto.

A tia Lurdes levantou-se teatralmente da mesa: Isto não é comida digna. António, vamos embora que aqui não se come.

António ergueu-se, asco estampado no rosto: Tu bem Fica, vive sozinha, se não sabes cozinhar!

E já de impulso começou a juntar coisas na mochila, ameaçando abandonar a casa.

***

Alô, Graça? Sou eu, Helena O quê? Helena, sim Terrível esta ligação. Queres saber porquê te ligo? É que, Graça, este ano não vou passar aí. Não vou, não adianta insistir. Para quê? Tu com o Victor, a tua filha com marido e miúdos, e eu, o quê? Encharcar-me em saladas e apanhar um táxi a dobrar a tarifa só para voltar a casa? Sabes que detesto dormir fora da minha cama. O que vou fazer então? Nada devo-me deitar cedo, é tudo dizia Helena, já misturada com ruídos e interferências, ligando à amiga de infância, casa onde há cinco anos, após o divórcio, passava todos os Natais e Passagens de Ano.

Como? Tu própria pensavas ligar-me? Vão onde? Ao Porto, para casa da tia do Victor? Boa viagem e que tenham boas festas, então Problema? Qual? Quem vai lá? A Sónia? Que Sónia? Ah, a sobrinha Olha, não sabes que não gosto de visitas cá em casa. Mas pronto, se precisa, pode vir. … Olha, a chamada caiu! resmungou Helena, pousando o telemóvel, já sem paciência.

Sentou-se na poltrona, pensativa. Talvez não fosse tão mau passar a festa, ao menos, com companhia. E foi assim, com este pensamento, que decidiu preparar uma salada. Para ela bastavam umas tostas e queijo, mas, para uma convidada, talvez melhorasse o cardápio. Deixou os vegetais a cozer e preparou as ervas aromáticas, quando caiu em si.

No tempo em que ainda era casada com o António, as coisas eram diferentes. Já no dia 30, a família inteira dele adultos, crianças, até o cão chegava da aldeia, e a casa ficava irreconhecível. Vapor, cheiros e barulho, nem as janelas abertas abriam espaço no calor. Havia sempre cozido à portuguesa, empadão, pastéis de bacalhau a fritar. Tudo pesado, tudo gorduroso. Helena corria pela casa, entre balcão e sala, a tratar ora da comida, ora a limpar. Não a deixavam sequer ajudar mais nem depois de ter tentado inovar, uma vez, com uma simples salada de abacate.

Que coisa sem jeito! resmungou logo a tia Lurdes e todos assentiram.

Mas na mesa deles, pensava Helena, ofendida, havia comida a escorrer de maionese, a dar para tudo e mais um par de botas. Os homens nem hesitavam: sentavam logo, brindavam com a aguardente da aldeia. À meia-noite do dia 31, pouco restava de energia.

No dia 2, todos partiam após terem despachado o que restava dos comes e bebes. O caos… era para ela. Uma semana inteira a lavar, esfregar, arrumar. António, já de regresso da aldeia, vinha carrancudo, por ouvir dos próprios parentes quanto azar tinha tido a casar-se com mulher que “não sabía cozinhar”. A discussão reabria, incansável. Ele sempre lembrava a Vera, que dizia ter-lhe sido roubada por Helena. Ela, pouca e resignada, aceitava as críticas, sentindo-se culpada. Não sabia fazer aqueles pratos, gordos e cheios de toucinho, aos quais ele se habituara desde pequeno.

Restava-lhe desabafar com a Graça, amiga da infância energética e espevitada. Um dia, cansada das lamúrias, a Graça engendrou um plano: fez Helena avisar os parentes de António, com a condição de que, no ano seguinte, ela própria faria o jantar de fim de ano. E assim, entre risos, prepararam juntas uma série de petiscos, leves mas ricos em sabor. No final, os parentes sentaram-se e começou outra vez.

Então e a carne? perguntou a tia Lurdes, desapontada.

Mas está aqui o ganso recheado devolveu Helena, afável.

E o puré? insistia a tia.

Lurdes levantou-se da mesa, recheada em desdém: Chega de silagem! Vamos embora, vamos!

Foi tudo num repente. Portas a bater, casacos postos à pressa.

Tu… suspirou António, parecendo quase agredir o ar.

Espera, vou contigo apressou-se ele atrás dos outros.

Não te esqueças do saco! disse-lhe Helena e entregou-lhe a mala.

Vive sozinha, rezingona! Eu nunca fico sozinho, mas e tu? arrumou rapidamente as coisas e desapareceu.

Quando reparou que a panela transbordava, Helena despertou do torpor. Levantou a tampa e logo tocaram à campainha. “Deve ser a Sónia,” pensou, e abriu a porta.

Ficou espantada: E a Sónia?

Um homem de cerca de quarenta anos sorriu, confiante: Sou eu mesmo. Posso apresentar-me? Alexandre Igor da Costa, sobrinho do Victor. Vim surpreender, mas afinal eles foram para o Porto. E você é a Helena, não é?

Ela acenou maquinalmente: Mas… pensei que vinha a Sónia, disseram-me no telefone.

Alexandre sorriu franco: Pode que tenha ouvido mal, com aquela ligação

Helena lembrou das interferências e concordou: Pois é. Bem, já que cá está, entre.

Não se preocupe comigo. Tenho bilhete para amanhã à noite, só consegui para dia um. Não vou dar muito trabalho.

Helena foi para a cozinha, escorreu os legumes e deixou-os arrefecer.

Alexandre perguntou, divertido: Vai celebrar só com a salada?

E quer mesa farta, não? Carne, travessas de salada russa? respondeu Helena, já enervada.

Ele riu alto: Credo, detesto esses exageros. Prefiro peixe, se for para ser sincero.

Helena encolheu os ombros: Não tenho peixe. Para dizer a verdade, nem sei prepará-lo como deve ser.

Alexandre foi buscar o casaco, a rir-se: Não se preocupe, eu trato disso. Já volto!

E, sem mais, fechou a porta ao sair. Helena não conseguiu reprimir uma gargalhada pela situação absurda esperava uma senhora de meia-idade, recebeu um forasteiro enérgico.

Alexandre demorou quase duas horas. Helena começou a ficar preocupada, até achou que se havia perdido. Quando finalmente a campainha soou, correu ansiosa.

Onde esteve? Já estava preocupada!

Mas a sua voz perdeu-se, pois ao abrir, surgiu uma pequena árvore de Natal, com Alexandre carregado de sacos.

E isto?

Alexandre pousou a árvore: Qual é a passagem de ano sem pinheiro?

Helena aspirou aquele cheiro a resina, e sorriu: Só faltavam as tangerinas.

Alexandre piscou o olho: E espumante, não? Está tudo comprado. Venha ajudar-me com os sacos.

Entre gargalhadas e brincadeiras, foram enfeitando a árvore, preparando as iguarias. Sob orientação de Alexandre, Helena limpou camarão, aprendeu a fazer peixe assado no forno.

Quando soaram as doze badaladas, tinham tudo pronto. O espumante chiou nas taças.

À entrada num novo ano, com nova sorte! brindaram e beberam tudo num só fôlego.

A conversa seguiu noite dentro.

Sabe, quando casei com o António, ele era alguém diferente. Talvez só eu achasse… Quem ama, não vê defeitos sorriu tristemente Helena. Depois veio a rispidez, sempre a criticar: não faço bem, não cozinho como quer. Mas, chega de mim, conte-me de si. É casado?

Alexandre suspirou: Já não. História daquelas corriqueiras. Quando cheguei de viagem, já me esperava um papel de divórcio. Enfim. Mas estamos demasiado sérios. Que tal esquecer os dramas e recordar parvoíces de infância?

Uma vez apostei com os rapazes e subi à árvore mais alta do bairro, mas descer… nem pensar. Fiquei a chorar até o senhor Mário do terceiro andar me ir buscar. Depois castigo: noite inteira de cara à parede riu Helena.

Eu, na escola, colei a cadeira do diretor ao chão. Quando o meu pai soube, levei uma bela tareia riu Alexandre também.

E assim, entre histórias e gargalhadas, passaram a noite. Quando Helena bocejou, Alexandre alertou: Fale já são horas, ponha-se a dormir!

Dormir? Ainda tenho que arrumar tudo…

Deixe, arrumo eu! respondeu Alexandre, firme.

Helena, cansada, rendeu-se e caiu no sono assim que chegou ao quarto.

De manhã, Alexandre acordou-a:

Helena, acorde. Tenho de ir agora. Venha trancar-me a porta.

Helena saltou da cama: Já de noite? Por que não me acordou antes?

Ele acariciou-lhe o cabelo com ternura: Dormia tão bem… Não quis incomodar. Agora tenho de ir mesmo, senão perco o comboio.

Helena acompanhou-o até à porta: Obrigada por tudo, pela noite. Mesmo.

Alexandre hesitou, e por fim entregou-se: Posso voltar? Quando estiver livre, posso vir ter contigo?

Helena sorriu emocionada: Vem quando quiseres eu espero.

E, num gesto impulsivo, ele beijou-a e afastou-se, desejando apenas: Então, até já!

Helena ficou de braços cruzados junto à porta, leve e feliz, tocando nos lábios. Às vezes, passamos uma vida a pensar que conhecemos alguém e afinal nada. E outras vezes, num só dia, do acaso nasce algo novo e verdadeiro.

Pois há mesmo milagres de Ano Novo. Um acaso, e talvez finalmente, um novo amor. E, com ele, uma nova vida.

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Helena passou o dia inteiro à volta do fogão. Tocou a campainha. Os parentes do Tó Zé chegaram e sentaram-se à mesa.