Guerra de Almofadas, Tapetes Armadilhados e Peixe Frito: Como um Gato Rabugento, Uma Esposa Divertid…

O gato dormia com a minha mulher. Espetava-se todo nela, de costas, e empurrava-me com as quatro patas, sem vergonha nenhuma. E de manhã, ainda me lançava um olhar atrevido, daqueles de quem sabe perfeitamente quem manda ali. Eu resmungava, claro, mas não podia fazer nada afinal, falamos do queridinho da casa. A minha Filipa ria às gargalhadas, mas eu não achava a menor piada à situação.

A tal estrela recebia peixe grelhado ao pequeno-almoço feito na frigideira com todo o cuidado depois a Filipa tirava-lhe as espinhas uma a uma e empilhava a pele estaladiça, ainda quentinha, cuidadosamente ao lado dos pedaços suculentos na sua tigela. E tudo isto ia para o prato do Figo, o nosso gato cinzento.

Ele olhava para mim com aquele sorriso torto, que em linguagem felina deve querer dizer:
“És um triste. Aqui o verdadeiro dono da casa sou eu.”

O que calhava para mim? Os restos do peixe que o fino do Figo achava indignos. No fundo, gozava comigo sempre que podia. E eu? Bom, vingava-me à minha maneira empurrava-o de mansinho para longe da minha bifana ou atirava-o do sofá. Era uma espécie de guerra fria… Versão felina.

De vez em quando, apareciam minas não detonadas escondidas nos meus chinelos ou sapatos. E a Filipa sempre na risada, dizendo:
Não o chateies e ele deixa-te em paz!
E fazia-lhe festas, chamando-lhe meu raio de sol. O Figo olhava-me por cima do ombro, com ar de rei do Castelo. Eu só conseguia suspirar. O amor é assim, não é? Uma pessoa só tem uma Filipa na vida. E por isso lá ia aguentando.

Mas naquela manhã…

Aquela manhã, enquanto me preparava para sair para o trabalho, ouvi um berro desesperado da Filipa, vindo do corredor. Cheguei a correr só para levar com a cena mais surreal do ano: seis quilos de pelo, unhas e mau feitio em modo touro, atiravam-se à Filipa como quem vê uma camisola do Benfica no Dragão.

Assim que me viu, o bicho saltou-me para cima do peito com tamanha força que fui parar ao chão da entrada. Levantei-me num ápice, agarrei uma cadeira, estendi-a à frente como escudo, peguei a Filipa pela mão e corremos para o quarto. O Figo ainda saltou, bateu com a pata numa perna da cadeira e soltou um berro que parecia vindo do inferno.

Mas nem assim desistiu! Continuou a tentar atacar-nos até conseguirmos fechar a porta. Ficámos em silêncio, a ouvir o gato bufar do lado de lá. Depois, lá fomos ao armário dos medicamentos, passar álcool e Betadine nas dezenas de arranhões. A Filipa telefonou para o trabalho, dizendo:
O nosso gato passou-se, arranhou-nos todos e agora vamos ao hospital.
Quando ela acabou, foi a minha vez de repetir a mesma lenga-lenga ao chefe.

Foi aí que…

A terra tremeu, como quem recebe uma martelada de Zeus. O vidro da cozinha estalou e saltou pelo ar, o espelho da casa de banho rachou ao meio. O telemóvel caiu-me das mãos, tal o susto. Ficou um silêncio de chumbo. Nem me lembrei do gato. Corremos até à cozinha e debruçámo-nos pela janela da rua.

À nossa porta, um cratera coisa dos filmes! Peças de carro deitadas por todo o lado. O pequeno carrinho do senhor Manel, que fazia entregas de gás, tinha explodido, e as garrafas de gás ainda estavam ali, espalhadas. Os carros no parque rodopiavam desamparados, como tartarugas ao sol. Ao fundo, o barulho das sirenes da polícia e dos bombeiros.

Galgámos para dentro e virámos os olhos para o Figo, de novo.

Estava encostado a um canto, com a pata dianteira direita torta e a choramingar baixinho.
A Filipa soltou um ai de partir o coração, correu e agarrou-o com todo o cuidado, como se fosse uma jóia. Eu fui buscar a chave do carro, e aviámo-nos para a rua, a descer os sete andares a saltos, quase a cair uns em cima dos outros.

Que me perdoassem as vítimas da explosão, mas nós tínhamos o nosso ferido de estimação.

O nosso carro, felizmente, estava inteiro, atrás do prédio. Enfiámo-nos lá dentro e arrancámos diretos ao veterinário. No rádio, para aumentar a sensação trágica-cómica, ouvia-se o Carlos Paredes tocar Verdes Anos, que ainda me deixou mais moído.

Uma hora depois, a Filipa saiu do consultório com o seu precioso Figo ao colo e o bicho a exibir, cheio de orgulho, a sua pata engessada a todos os outros donos e bichos da sala. Quando souberam o que tinha acontecido, até os outros donos vieram dar-lhe festas.

Em casa, claro, Filipa foi logo preparar peixe para o Figo, do jeitinho que ele gosta sem espinhas, a pele do peixe arrumadinha num monte, tudo perfeitinho. Para mim, sobraram as migalhas.

O Figo, a coxear, lá foi trôpego em direção à tigela e olhou-me, com ar de dor, a tentar fazer o ar de desdém habitual, mas saiu-lhe só uma careta.

Eu, cheio de trabalho, despachei-me à pressa. Quando terminei, fui até à tigela dele e pus lá o que sobrou do meu peixe já sem espinhas, claro.

O Figo olhou para mim, espantado nunca tinha visto tal coisa! Encolheu a patinha, miou baixinho, como que a perguntar se estava a alucinar.

Peguei nele ao colo e disse-lhe ao ouvido:
Se calhar sou um trambolho, mas com uma mulher destas e um gato como tu, não podia ser mais feliz na minha trambolhice. E dei-lhe um toque no focinho.

O Figo fez ronron, encostou a cabeça à minha cara, e eu voltei a pô-lo no chão, onde, apesar da dor, voltou a comer o seu peixe. Ficámos a vê-lo, abraçados, ambos a sorrir.

Desde esse dia, o gato dorme só comigo. Olha-me nos olhos e eu, de mãos postas, já só peço uma coisa: muitos anos para ver a Filipa e o Figo ali ao meu lado.

Nada mais me interessa.

Juro.

Isto sim, é a verdadeira felicidade.

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