Gravidez de cinco a seis semanas informou a médica, largando o instrumento na bandeja de aço e retirando as luvas de borracha…
Vai querer ter o bebé?
Beatriz permaneceu em silêncio.
Quarenta e dois anos, a quarta criança, que ela não desejava de todo. O dinheiro era curto, sempre a esticar o salário até ao fim do mês.
Os mais velhos ainda a estudar, a mais nova só agora ia entrar na escola primária e precisava de um vestido novo, uma blusa, uma mochila, sem contar com os cadernos e os livros… E agora, mais este presente caído do céu!
«Vou falar com o Manel, logo se vê o que ele diz», decidiu ela.
Fui à médica disse Beatriz ao jantar. Sim, estou grávida. Seis semanas.
O marido parou de mastigar, pousou o garfo.
Olha, que hei-de eu dizer? Vamos ter. Fica giro: dois rapazes, duas raparigas. A família completa.
Família completa! E com que dinheiro é que vamos viver?
Ela pôs-lhe tudo em pratos limpos: os mais velhos, a pequenita que precisava de tanta coisa agora para a escola, e cada vez mais sentia que era loucura avançar com mais uma gravidez naquela idade e situação.
Vou pedir os exames para a IVG.
Fez todas as análises, e Beatriz ficou de rastos.
Tinha pena daquele serzinho que crescia dentro dela. Talvez fosse uma rapariga… loirinha, bonita, traquina.
A caminho do centro de saúde, ia de eléctrico, apertada entre a multidão. Na paragem, saiu quase empurrada. De repente, sentiu uma coisa a deslizar do ombro. Só depois percebeu o que tinha acontecido: era a alça da mala.
Tinham-lhe cortado a alça e levado a mala lá se foram todos os euros e exames.
Beatriz não teve outro remédio senão voltar para casa. Teve de repetir alguns exames, outros conseguiu recuperar.
Da segunda vez, ao sair do autocarro, caiu e magoou-se numa perna.
«À terceira ainda parto o pescoço», pensou supersticiosa. E resolveu: o bebé vem. E, no instante dessa decisão, sentiu uma paz inesperada.
A gravidez correu bem, e Beatriz já sabia que esperava uma menina. Mas, no segundo ecografia, a médica lançou-lhe um balde de água fria: suspeita de Síndrome de Down.
Vai ter de fazer amniocentese explicou, preenchendo o pedido.
Tenho de a avisar: existe risco de infeção e até de aborto, é perigoso para o bebé.
Beatriz ponderou, mas aceitou fazer o exame.
No dia marcado, ela e o Manel foram juntos ao centro de saúde. Ele ficou no corredor, ela entrou, sentindo as pernas tremer.
A médica ouviu o batimento do coração do bebé disparado.
Vamos esperar decidiu. Vai levar sulfato de magnésio para acalmar.
Assim foi feito, e mandaram-na esperar no corredor.
Passado algum tempo, chamaram-na de novo. O coração do bebé estava calmo, mas a criança tinha-se virado de costas. Assim, não era possível fazer a colheita.
Esperamos mais um pouco, pode ser que se vire de frente repetiu a médica.
À terceira tentativa, tudo estava bem: o bebé de frente, o coração tranquilo.
Prepararam-lhe a barriga.
Fazia um calor sufocante; a janela estava escancarada para o ar circular. A enfermeira pegou na bandeja com os instrumentos. Nesse momento, entrou um pombo pela janela. Assustado, rodopiou pela sala, esvoaçou entre os médicos. A enfermeira, num trambolhão, deixou cair a bandeja e os instrumentos espalharam-se pelo chão.
Mandaram Beatriz novamente para o corredor, enquanto tentavam agarrar o pombo e preparavam novos equipamentos esterilizados.
O que se passa? perguntou Manel, inquieto.
Entrou um pombo, semeou o caos na sala.
Beatriz, isto não é sinal em vão.
Vamos para casa.
E foram.
No tempo devido, Beatriz deu à luz uma menina.
Hoje tem dez anos.
Lourinha, bonita, traquina…







