Gatinho Gelado com Focinho Desajeitado Procura Ajuda Junto a um Supermercado Português

Um gatinho gelado, de carinha pouco simpática e coberta de crostas, apareceu junto ao minimercado da aldeia numa noite repleta de névoa, como se tivesse saído de uma fissura no tempo ou fosse deixado ali por um vento caprichoso. Era tão pequeno, uma bolinha desgrenhada, patinhas encolhidas, a tremer entre o frio e a humidade pesada do ar. Miava num tom rouco e triste, um “miauuu” que se perdia na indiferença dos que passavam aqueles olhos apertados e a pelagem rala no pescoço e nas orelhas afastavam simpatias instantaneamente.

Ninguém sabia de onde viera, nem da fome ou da aventura sem sentido que o levara ali. Os funcionários do mini-mercado, no entanto, deixavam-no entrar de vez em quando, davam-lhe um pouco de calor e até lhe aplicaram gotas contra parasitas, mas parecia só suavizar o destino, sem grandes milagres. O gatito surgia junto à porta, todos os dias, ritmado como um relógio antigo, insistia em aproximar-se das pessoas, pedindo colo aos que paravam.

O inverno aproximava-se e o pequeno corpo já tremia a -5 graus ficava claro, mesmo nos sonhos inconstantes, que nunca sobreviveria a uma noite de -15 ou -20 graus. Uma das empregadas lembrou-se então que, meses antes, leváramos outro gato abandonado desse sítio, e voltou a pedir-nos socorro.

Quando chegámos, debaixo de um céu surreal pintalgado de estrelas, a gata que agora se percebia ser fêmea dançava aos nossos pés, entre sacos e carrinhos, ora à volta da transportadora, ora encostada às pernas, como se soubesse que aquele seria o último bilhete para longe daquela rua gelada. Empinava-se nas patas traseiras, enrolava o rabo nas mãos estendidas, fazia, com as garras, gestos enérgicos de quem não quer ser esquecido.

Logo percebemos, pelo aspeto estranhamente onírico da pele, que tinha sarna. Não estava num estado terminal, felizmente, e o tratamento com gotas (uma chamada “Stronghold”, outra “Inspector”) resolveu grande parte do pesadelo em poucos dias.

Acolhida no calor macio de um lar de passagem, o pequeno ser estranho começou a ronronar com força de velho trator enferrujado e tornou-se uma máquina de afeto, alternando longos sonos com refeições que quase pareciam sonhos. Nos primeiros dois dias só comia e dormia, como se cada ciclo fosse uma viagem por realidades paralelas.

O nome nasceu, sem esforço, num daqueles cantos nebulosos dos sonhos: Batata. Muito simplesmente porque, naquele estado, ela parecia um pequeno tubérculo tosco, desengonçado e inesperadamente encantador. Mas essa imagem não ficou muito tempo: após as duas primeiras aplicações das gotas, de repente ali estava uma gata de olhos grandes e aparência dócil.

O pêlo nas orelhas e nas patinhas ainda demoraria a crescer, mas era só questão de tempo. A Batata já está inscrita para esterilização, e vai-se transformando, aos poucos, numa felina saudável, bonita e cheia de ternura, pronta para morar nos sonhos e nas casas de quem acreditar no improvável.

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