Luísa regressou do supermercado para casa e começou a arrumar as compras. De repente, ouviu barulho estranho no quarto do filho e da nora e decidiu ir ver o que se passava.
Beatriz, onde vais com tanta pressa? admirou-se Luísa ao ver a nora a colocar roupas numa mala.
Vou-me embora, Luísa! disse Beatriz entre lágrimas.
Como assim, embora? Para onde? Que aconteceu? Luísa não queria acreditar.
Beatriz, em silêncio, entregou-lhe uma carta. Luísa leu e ficou gelada com o que descobriu.
O filho, António, trouxera Beatriz, sua noiva, da cidade para a aldeia. Vieram viver para a casa que fora do pai dele. A mãe, aliviada por finalmente aos trinta e tal anos António se casar, ficou feliz. Já tinha sido tempo de correr mundo Agora regressava. Iria, finalmente, ter alguém que a ajudasse na velhice.
O pai de António morrera e deixara uma casa sólida e uma quinta próspera. Tudo fizera para que nada faltasse à família. Só que tiveram apenas o António. Entre o trabalho duro e a lida diária da quinta, Luísa só conseguiu criar um. Depois, ficou com a saúde abalada e acabou por tratar o marido até ao fim. Aprendeu a conduzir o trator, a cuidar das vinhas e das árvores, a fazer o que fosse preciso, dia e noite.
Beatriz parecia bastante mais nova que António, talvez uma dezena de anos. Era delicada, de gestos suaves. Luísa recordava-se dela própria, quando chegou à aldeia, de mala pequenina na mão e poucos pertences. Mas António tinha escolhido Beatriz. Que vivessem juntos, pouco importava de onde vinha. Era orfã se calhar, até era melhor assim.
As raparigas da aldeia invejavam Beatriz. Felizardos, diziam. Tão bonito e agora o mais bem tratado, casara-se com uma citadina. António ignorava as investidas, ia sempre para casa, para junto dela e dos filhos. Beatriz, com coragem, deu-lhe dois rapazes e uma menina.
Quando o mais novo fez cinco anos e o mais velho dez, António decidiu partir para Lisboa com um amigo, à procura de uma vida melhor.
Falta-te dinheiro? Temos o suficiente, dizia-lhe a mãe, comida não falta, vocês têm os dois o ordenado, e a minha reforma. E quem fica a cuidar disto tudo? Eu já não posso tanto.
Cansaço deste campo, mãe! Quero mudar, quero levar-vos também e dar estudos aos miúdos. É hora de vender a casa. Vais connosco.
António, a escola é aqui ao lado, tentava Beatriz fazê-lo ficar.
Tu és de Lisboa, vais voltar a sentir-te em casa.
Eu cresci num orfanato, só sei que era em Lisboa porque me contaram. E a tua mãe? Vai deixá-la? E nós, na cidade, com três filhos?
Já chega, não se fala mais nisso. Olha para ti, estás exausta.
Luísa e Beatriz tiveram sempre uma relação próxima, quase como mãe e filha. Luísa via-se nela, tratava-a até como filha sua. Beatriz retribuiu-lhe o carinho, chamava-lhe “mãe” e sentia-se sempre acolhida.
Um dia, em lágrimas, Beatriz confessou:
Se quer ir, que vá. Nós cá ficamos, pensamos depois.
António partiu para Lisboa. Escrevia cartas, ligava pouco. Voltou seis meses depois, trouxe presentes, deixou algum dinheiro e desapareceu outra temporada. O amigo de António voltou mais cedo, e a mulher deste contou a Luísa que António vivia em casa de uma mulher rica para quem tinha estado a trabalhar. Luísa não disse nada a Beatriz, até porque logo as más-línguas começaram a correr aldeia fora.
Acabou por ser Beatriz a arrumar os seus poucos pertences numa mala.
Para onde vais?
Beatriz calada entregou-lhe o tal papelucho:
“Beatriz, desculpa, mas tenho outra. A casa da mãe fica para mim. Vai à tua vida, cuida dos miúdos, podes recomeçar. Deixo algum dinheiro para começares. O resto depende de ti. António.”
Ele que vá com a nova vida dele. A ti e aos miúdos não vos largo. Não vais para nenhum lado. E eu sem vocês não consigo. Aqui ninguém vos expulsa. Não permito.
Um dia, António regressou, desta vez acompanhado da nova mulher, num carro novo. Não esperava ver ali os filhos na casa da mãe. Não sabia sequer, porque a mãe escolhera não o avisar. A filha, já com doze anos, correu para ele em lágrimas. O filho mais velho aproximou-se. António tentou abraçá-lo, mas o rapaz afastou-se em silêncio levando a irmã. O outro filho seguiu-os.
Traidor é o que és, não és pai nenhum. Vamos trabalhar!
António observou em silêncio o filho entrar no trator e ir lavrar o campo atrás da casa. O outro filho e a menina tratavam dos coelhos que agora criavam na quinta. O negócio até cresceu. António percebeu que pouco vira o crescimento dos filhos.
E a mãe deles? Foi-se embora, deixou-os para ti? perguntou à mãe.
Olha que não julgues os outros por ti. Ainda se chama Beatriz, já esqueceste? Daqui a pouco chega do trabalho. E vocês, vieram em dupla, para quê?
Viemos buscar-te.
Pensei que era pelos teus filhos.
A mãe deles tem, tu devias era viver connosco. Vende a casa e vais para perto de nós em Lisboa. O dinheiro chega-te para um bom apartamento.
E os miúdos? Que lhes fazes?
Eles que vão também para Lisboa, terão mais oportunidades.
Oportunidades há, só lhes falta é vontade. Se quisessem, já tinham ido.
Avisámos-te. Temos já comprador interessado. Mas não demores muito.
Não há nada para pensar. Aqui não mando em nada.
Não digas isso, mãe!
Beatriz entrou entretanto em casa.
Vejam só quem cá está.
Durante os anos em que António não a viu, Beatriz floresceu. Estava elegante, usava uns brincos antigos da mãe de Luísa e tinha o cabelo arranjado com estilo. Da mulher desfeita de antigamente, nada restava. Bela, serena nem comparação com a nova mulher de António. Ele não conseguiu disfarçar o olhar, até a companheira dele lhe deitou um olhar de lado.
Então, mãe, não pões a mesa para o convidado? perguntou Beatriz, irónica.
O convidado já está de saída. Disse o que tinha a dizer. Obrigada por visitares a tua mãe, António. E tu, minha senhora, desejo que nunca mais por cá apareças.
Fica, mãe, o meu número. Decide e liga-me, António deixou o papel e saiu.
António só voltou para se despedir da mãe. Beatriz telefonou-lhe, afinal era filho. Os filhos de António, agora crescidos, já com famílias, tratavam-no como um estranho. A filha nem lhe dirigiu palavra.
Beatriz, os filhos são adultos, mas a casa é minha. Tenho direito a viver aqui. Já me divorciei, quero voltar para trás. Se queres, ficas. Se não, fazes o que entenderes.
Beatriz, sem palavra, tirou do aparador um documento. A casa fora passada pela Luísa a ela, Beatriz, no ano em que António lhe escreve aquela carta. António saiu em silêncio. Nada mais os unia. Ela seguia, feliz, rodeada dos filhos e agora também dos netos.
Assim, por entre dificuldades, o tempo mostrou que uma família pode crescer e tornar-se ainda mais forte, mesmo depois de tudo parecer perdido. Na vida, devemos sempre valorizar quem nunca vira as costas nos momentos difíceis porque são esses os laços que realmente nos fazem ficar de pé.







