Como assim “telemóvel desligado”? Se há cinco minutos estava ao telefone com alguém! Mariana ficou parada no corredor, apertando o auscultador junto ao ouvido.
Lançou um olhar à cómoda.
A caixa de joias estava no mesmo sítio, mas algo estava estranho a tampa não estava fechada como de costume.
Rui! chamou ela, elevando a voz para o interior da casa. Estás na casa de banho?
Mariana caminhou devagar para junto da cómoda. Ao tocar na madeira polida, um arrepio percorreu-lhe a espinha a caixa estava vazia. Praticamente tudo tinha desaparecido.
Nem sequer o talão da joalharia, que usava como marcador de livros, lá estava.
Junto com as joias sumiu também o dinheiro. Verdade seja dita, ela própria lho entregara
Meu Deus… suspirou ela, deixando-se sentar no chão. Como é possível? Ontem ainda discutíamos sobre a cor das paredes Disseste que íamos ao Algarve em agosto…
E pensar que tudo começou de forma tão simples. Em junho do ano anterior, o Fiat Punto de Mariana começou a dar problemas no pistão.
No stand de automóveis pediram uma fortuna pela reparação, então, aborrecida, foi procurar ajuda no grupo “Auto-Ajuda Lisboa” no Facebook.
“Pessoal, alguém sabe se consigo destravar o pistão de travão sozinha se estiver preso? publicou, anexando a foto da roda suja”.
As respostas surgiram de imediato. Uns sugeriam não se meter, outros diziam para comprar a peça nova.
E foi então que apareceu uma mensagem do utilizador Ruianunes85:
“Senhora, não ligue ao que dizem. Compre um spray WD-40 e um kit de reparação por vinte euros.
Retire a roda, pressione o pistão devagar com o pedal, mas não ao máximo.
Limpe tudo com líquido de travões, lubrifique.
Se o espelho do cilindro estiver limpo, o carro anda bem novamente”.
Mariana reparou no conselho. Estava bem explicado, sem exageros.
“E se o espelho tiver buracos?” perguntou ela.
“Aí só mudando mesmo. Mas pelo aspecto do seu carro, parece bem estimado, não deve estar assim tão mau. Qualquer coisa, pergunte em privado, ajudo no que puder”.
E foi assim que começaram a falar.
O Rui era surpreendentemente habilidoso.
Durante uma semana, ajudou-a a escolher o óleo, as velas e até contou qual anticongelante evitar.
Mariana deu por si a ansiar pelas mensagens dele.
“Olha Rui, és o meu verdadeiro salvador escreveu ela no fim de julho. Estava a pensar Se calhar podíamos combinar um café. Eu pago. Ou algo mais forte, para celebrarmos o orçamento poupado”.
A resposta levou horas, mas chegou.
“Mariana, aceitava de bom grado. Mesmo. Mas estou agora longe, em missão de trabalho. Fora de Portugal, digamos”.
“A sério? surpreendeu-se ela. Para onde?”
“Mais longe era impossível. Não quero mentir-te. Gosto muito de ti como pessoa. Mas não estou em trabalho. Estou a cumprir pena. Em Leiria, se sabes do que falo”.
O telefone escorregou-lhe das mãos. Sentiu o peito apertado.
Presidiário? Ela, uma mulher séria, contabilista numa multinacional, a trocar mensagens com um criminoso?!
“Porquê?” digitou ela, as mãos a tremer.
“Artigo 217. Burla qualificada. Fui parvo, deixei-me ir, também fui apanhado por outros. Falta menos de um ano. Se não quiseres falar mais, compreendo”.
Mariana não respondeu. Bloqueou-o e andou três dias sem saber o que pensar. Os colegas perguntaram se estava doente.
Mas ela só perguntava a si mesma:
“Porquê? Porque é que um homem tão inteligente e habilidoso está ali?”
Uma semana depois recebeu uma notificação por email. O Rui havia-lhe pedido a morada, que ela nunca apagara. Só tinha fechado o chat.
“Mariana, não estou magoado. Juro. Sabia que ia acabar assim. Tu és uma pessoa boa, mereces alguém melhor.
Quero agradecer a tua companhia. Foram as melhores duas semanas em três anos. Sê feliz. Adeus”.
Ela leu aquilo na cozinha e desatou a chorar. Teve pena dele, dela própria, e desta vida injusta.
Porque será que só me aparecem homens casados ou mimados pela mãe, e quando encontro alguém decente, está atrás das grades? pensava ela.
E uma vez mais, não respondeu…
***
Mariana tentou ir a encontros, mas nada resultava.
Um só falava de selos, o outro apareceu com as mãos imundas e pediu para dividir a conta no café.
Em março, no seu 35º aniversário, sentiu-se mesmo só.
De manhã, recebeu nova mensagem.
“Parabéns, Marianinha! escrevia Rui. Sei que não devia incomodar, mas não resisti. Espero que tudo te corra bem.
Mereces ser tratada como uma rainha.
Eu fiz uma coisa para ti, de pão e arame… Se pudesse, dava-ta pessoalmente.
Só quero que saibas que hoje, aqui em Leiria, há alguém a brindar à tua saúde com um chá horrível”.
“Obrigada, Rui, não resistiu ela. Fico mesmo contente.”
“Respondeste! ele parecia eufórico. Como estás? E o Fiat, portou-se bem no frio?”
E tudo recomeçou.
Agora falavam diariamente. Rui ligava sempre que podia.
A voz dele era grave, com uma rouquidão simpática.
Contava sobre a infância, o irmão que agora criava os sobrinhos, o sonho de recomeçar do zero.
Não volto a Setúbal, Mariana dizia ele, enquanto ela aquecia o jantar. Demasiado passado, más amizades. Quero ir para um sítio novo, fazer-me à vida. Sei trabalhar, numa obra ou oficina arranjo sempre lugar.
Para onde é que gostavas de ir? perguntava ela, em suspenso.
Para junto de ti. Alugava um quarto ou um estúdio barato, só para saber que vivemos no mesmo sítio, respiramos o mesmo ar…
Depois logo se via. Não quero pressionar-te, não penses mal
Em maio, Mariana estava completamente apaixonada.
Sabia o calendário dele, os dias de visita ao balneário, de trabalho na marcenaria.
Mandava-lhe encomendas: chá, chocolates, meias quentinhas, peças para as engenhocas que fazia.
Rui, aguenta-te só até ao fim, suplicava. Nada de confusões.
Por ti, meu bem, nem dou nas vistas, ria-se ele. Em abril sou livre.
Vou esperar por ti.
***
Em abril, Mariana foi buscar Rui ao portão do estabelecimento prisional. Comprou-lhe um blusão, umas calças e ténis novos.
O coração parecia explodir-lhe do peito.
Quando ele saiu, baixo, robusto, cabelo curto já grisalho, ficou surpreendida.
Na foto era diferente.
Mas quando sorriu e disse:
Olá, chefe, ela correu a abraçá-lo.
Estás vivo murmurou ela, enternecida.
Onde me ia meter eu? e apertou-a forte. Cheiras tão bem. Perfume floral.
Foram para a casa dela.
A primeira semana foi um sonho. Rui pôs logo mãos à obra: arranjou a torneira, consertou o fecho da porta, que emperrava havia meses.
À noite bebiam vinho doce na cozinha, e ele contava histórias engraçadas do “tempo antigo”, sem tocar nos assuntos sensíveis.
Olha, Rui, disse ao décimo dia. Falaste em alugar casa.
Se calhar não é preciso. Tenho espaço, juntos é mais animado.
E poupas para comprar ferramentas ou o que precisares.
Mariana, não está certo protestou, mexendo o açúcar no chá. Sou homem, tenho de garantir casa. Ainda por cima estou a viver à tua custa.
Deixa-te disso! cobriu-lhe a mão com a dela. Não somos estranhos. Mal comeces a trabalhar, tudo muda.
O meu irmão ligou ontem confessou de repente, sem a encarar. O meu sobrinho está doente, precisa de uma operação cara.
Pediu-me dinheiro, mas eu, como vês, não tenho um tostão. Sinto-me mal com a minha família, Mariana. Chega a ser vergonha.
E quanto precisam? perguntou ela, cautelosamente.
Bastante uns dez mil euros. Diz que já reuniram parte.
Pensei em ir para o Norte, trabalhar na construção civil. Pagam bem, talvez desse para ajudar.
Mariana ficou muda. Os tais dez mil estavam guardados na caixa de joias. Juntara-os em três anos, poupando em tudo.
Planeava renovar a casa de banho, trocar os azulejos, pôr um poliban com hidromassagem
Tenho esse dinheiro, disse baixinho.
Rui ergueu a cabeça abruptamente.
Nem penses! Esse dinheiro é teu. Não posso aceitar.
Rui, é o teu sobrinho. Família Disseste que era o mais importante. Leva, depois devolves. Agora estamos juntos.
Ele recusou muitas vezes. Ficou calado, cabisbaixo, passou a fumar à janela, coisa que lhe prometera nunca fazer.
No fim, Mariana é que colocou o envelope com dinheiro em cima da mesa.
Leva. Vai entregar ao teu irmão. Ou transfere-lhe.
Prefiro entregar em mão, disse enquanto a abraçava. Vejo com ele se há trabalho por lá, talvez haja solução.
Vou e volto em dois dias. Só dois dias, Mariana
***
Mariana estava sentada no chão do corredor há uma hora. As pernas dormentes, alheia à dor.
Revivia a noite anterior. Tinham visto uma comédia disparatada, ele ria, abraçava-a, e ela sentia-se a mulher mais feliz do mundo.
Se calhar vou sair mais cedo depois de amanhã, dissera ele antes de se deitar.
Mas fugiu um dia antes. Ela dormia, nem o ouviu a vestir-se.
Só sonhou com a porta de entrada a bater, mas pensou que fossem os vizinhos.
Às duas da tarde, acabou por ligar ao irmão dele. O contacto que Rui “deu só por precaução”.
Sim? atendeu uma voz áspera. Quem fala?
Boa tarde, sou amiga do Rui. Ele foi ter convosco hoje?
Silêncio. Depois, um suspiro pesado.
Rui? Não conheço nenhum Rui. O meu irmão chama-se diferente e ainda está preso, só sai lá para outubro.
A cabeça de Mariana rodopiou.
Como assim, outubro? Mas ele saiu em abril Eu própria fui buscá-lo em Leiria.
Olhe, disse a voz já impaciente. O meu irmão, Carlos, cumpre pena em Coimbra.
O Rui era quem partilhava a cela com ele, saiu há dois meses.
Roubou-me o telefone quando estava a trabalhar, copiou todos os contactos.
Quem sabe, é mais uma das muitas namoradas por correspondência que ele enrola. O homem é um artista nisso.
Formação em engenharia, fala bem.
Mariana pousou o telefone no chão. Lembrou-se como ele a ensinara a mudar velas no carro.
Só não apertes demasiado, avisara ele. Senão estragas a rosca, ficas sem arranjo.
Estraguei mesmo, sussurrou Mariana. Arranquei tudo pela raiz arranjei problemas sozinha.
De repente, Mariana percebeu que não sabia nada sobre aquele homem. Nunca viu o BI dele, nunca lhe mostrou papelada da liberdade.
Afinal, será que se chamava mesmo Rui?
***
Mariana, claro, dirigiu-se à polícia e apresentou queixa. Exibiu a fotografia e ficou a saber muitas novidades sobre o tal companheiro.
Chamava-se de facto Rui e isso foi a única verdade que lhe dissera.
Tinha sido condenado por crimes graves, metade da vida passada em prisões e conheceu Mariana durante a terceira pena.
Mariana fez o sinal da cruz, mudou as fechaduras e, depois de tudo, concluiu que ainda assim teve sorte. Bem vistas as coisas, quando comparou a sua história à de outras mulheres enganadas, percebeu que a confiança não se deve dar sem merecimento e que, por maiores que sejam as carências do coração, nunca devemos sacrificar o respeito próprio.
No final, aprendeu que a vida ensina sempre às vezes de modo duro a ser cautelosa. Porque confiar em quem não merece é como apertar demais um parafuso: acabamos sempre por danificar o que temos de mais precioso.







