Fiel Até ao Fim: A História de Fedor, dos Amores e dos Segredos de uma Aldeia Portuguesa

MONOGÂMICO

No dia do funeral da esposa, o Teodoro nem uma lágrima deixou cair.
Olha só, eu bem dizia que ele nunca amou a Zélia sussurrava Otília ao ouvido da vizinha.
Cala-te, mulher, agora já não interessa. Os miúdos ficaram orfãos com um pai daqueles respondeu-lhe a Lídia.
Vais ver que ele casa com a Cátia, é certinho atirou Otília, toda confiante.
Com a Cátia? Tens cá uma ideia A Glória, sim, é que foi sempre o caso dele! Ou já te esqueceste dos dois às escondidas no palheiro? A Cátia tem juízo e família, já o esqueceu há muito!
Ai não?
Claro que não. A Cátia tem marido trabalhador, para quê meter-se com o Teodoro e a criançada dele? Ela é pessoa prática. Agora a Glória anda num martírio com o Micael vais ver que eles ainda se enrolam de novo garantiu Lídia.

A Zélia lá foi enterrada. Os gémeos, Miguelinho e Paulinha, com oito anos feitos, davam as mãos com força.

Zélia casou apaixonada com o Teodoro. Se ele a amava mesmo, nunca ninguém percebeu nem ela nem ninguém lá na aldeia.

Dizia-se que só casaram porque ela engravidou. A Cláudia, a primeira, nasceu antes do tempo e não viveu muito. Depois a Zélia e o Teodoro ficaram anos sem filhos. O Teodoro, sempre calado e cara fechada, era conhecido por Ermita. Ele poupava nas palavras, e também no carinho disso a Zélia bem sabia.

Mas rezou tanto aquela pobre mulher, que só Deus sabia. E acabaram por vir ao mundo os gémeos, Paulinha e Miguelinho.

O Miguel era todo coração como a mãe. A Paulinha, uma ilha palavra dela só quando a tiravam a ferros, sempre fechada, a cabeça trancada. Era alma gémea do pai tão reservada como ele.

O Teodoro, no barracão a serrar madeira, a Paulinha ali à volta a ouvir-lhe as histórias de vida. O Miguel, sempre à perna da mãe: varria o chão, enchia baldes de água, fazia tudo o que podia. Zélia adorava os dois, mas pelo Miguel tinha um apego especial. À Paulinha, nunca a descodificou.

E quando a Zélia sentiu que não tardava, chamou o Miguel:
Filho, eu não duro. Vais ser o homem da casa. Cuida da tua irmã, protege-a. Tu és o rapaz, tens de ser forte e tomar conta dela, que ela, sendo rapariga, precisa mais.
E o pai? perguntou Miguel.
O quê?
O pai vai tomar conta de nós?
Não sei, filho. A vida dirá.
Então não morras, mãe, como é que a gente se arranja sem ti? chorava o Miguelito.
Ai, meu filho, se dependesse de mim disse ela, com um suspiro. E nessa mesma manhã, partiu.

Teodoro, sentado ao lado dela, agarrado à mão já fria. Sem fala, sem lágrimas. Só um homem mirrado e triste. Pronto, era isto.

A vida seguiu como pôde. Paulinha tomou as rédeas da casa. Queria cozinhar, limpar, mas era novinha demais. A tia Natália, irmã do Teodoro, vinha sempre ajudar e foi ela que ensinou a miúda como se governava uma casa.

Ó tia Natália perguntou um dia a Paulinha , achas que o pai se vai casar outra vez?
Não sei, filha, só o teu pai sabe o que lhe vai no espírito. Ele comigo não partilha nada.

A tia Natália tinha o seu lar feliz, com filhos e o marido, o Vasco, sempre atento.
Se acontecer alguma coisa, tu levas-nos a viver contigo, tia?
Não digas disparates. O teu pai gosta de vocês, jamais vos deixava ao abandono garantiu a Natália.

Entretanto, na aldeia, já corriam rumores de que o Teodoro e a Glória estavam a reacender uma velha chama

Olha a Glória, toda doida cochichava a Otília , voltou-se a meter com o Teodoro e esqueceu-se da família!
Aquela Glória é mesmo tola diziam as mulheres à porta do minimercado.
Pronto, acabou o ajuntamento! interrompeu o presidente da Junta, o senhor Maximino Lopes.
Só falam da vida dos outros mas na verdade não conhecem nada de ninguém! ralhou ele, defendendo o Teodoro.

O amor entre a Glória e o Teodoro era antigo, daqueles que dão para enredos de novela. Mas houve uma altura em que mandaram o Teodoro ajudar um primo lá para Trás-os-Montes, no tempo das sementeiras. Ficou lá dois meses e, entretanto, a Glória meteu-se com o Micael, o filho do carteiro. Quando Teodoro voltou e soube, encheu o Micael de razões e cortou relações com a Glória.

Ela acabou por casar com o Micael, que era um desavergonhado sempre a correr atrás de saias e vinho. A Glória bem chorou, incapaz de o segurar em casa. Já o Teodoro, homem de poucas falas, mas trabalhador e que não tocava em álcool.

Foi aí que o povo percebeu que ele começava a dar atenção à Zélia. Ela parecia flor nova, ninguém tirava os olhos dela.

Vês como o amor faz milagres dizia o povoado.

A Zélia era apaixonada pelo Teodoro desde miúda, mas nunca se atreveu a fazer frente à Glória. Mas é como a vida manda

Começaram a namorar e, de repente, estavam casados na Junta. Casamento simples: o Teodoro só tinha mesmo a Natália da família, a Zélia apenas a mãe, velhota. A mãe da Zélia era assunto tabu: todos sabiam que tinha tido uns amores com o presidente Vasco Proença, homem de má fama, mas ninguém falava muito. Nunca casou, sempre alegre, mas levava tudo a brincar; a Zélia, que saía à parte, nem parecia filha dela. E filha não é responsável pelos pecados da mãe.

Nunca ninguém achou que o Teodoro gostasse particularmente da Zélia.
Ai, coitadinha da rapariga vai sofrer sem ser amada suspirava a Noémia, a mais coscuvilheira da aldeia.

Mas verdade seja dita, nunca faltou fidelidade. No campo, nada se esconde. Quinze anos de vida partilhada, sem discórdias o povo acalmou, até ao ano passado, quando a Zélia ficou doente. Disseram logo: aquilo não tem volta, é doença má.

Num dia desses, a Glória apanhou o Teodoro regressado do trabalho:
Ó Teodoro, posso passar aí uma horinha? Trago bolinhos para os teus filhos
Obrigado, Glória, mas ontem já a Natália cá veio com fornada.
Mas eu trouxe com carinho, Teodoro
E a minha irmã também só faz de coração.
Ó Teodoro, passa hoje pela azenha, assim que anoitecer
E para quê, Glória?
Então? Já te esqueceste do que fomos?
O que passou, já lá vai… Quero os meus filhos, amei a Zélia.
Não há volta para ela murmurou a Glória.
O amor não morre respondeu o Teodoro.

Nunca a amaste, só casaste comigo por despeito!
Glória, vai para casa disse o Teodoro, baixo.

E arrancou para casa, sem olhar para trás, onde os filhos o esperavam.

Glória ficou plantada no meio da estrada.

Os anos passaram. Os miúdos cresceram. Tia Natália continuava a visitá-los, mas já percebia que o irmão era de amores únicos.

Paulinha, ouvi dizer que andas com o Gonçalo, o filho da Rosa disparou tia Natália.
Sim, porque não? respondeu a já crescida Paulinha. Está uma mulher bonita, pensou a Natália.
Nada, só perguntei. Olha que tenhas cuidado com ele.
Porquê?
Sabes bem porquê, já não és criança respondeu a tia, séria.
Ó tia, eu gosto tanto dele, parece que é para a vida toda!
Isso é o que tu achas agora
Não é. Tenho a certeza.
Tu podes ter, mas e ele?
Se o Gonçalo me trair, nunca mais vou gostar de outro.
Isso eu acredito riu-se a Natália.

Ao fim do dia, Miguel e Paulinha esperavam pelo pai.
O pai está a demorar disse Miguel.
É sexta-feira, ó cabeçudo!
E depois?
O pai vai sempre às quartas, sextas e domingos à campa da mãe.
Como sabes? espantou-se o Miguel.
És mesmo baldas, Miguel! Não sentes nada do teu próprio pai!?

Foram calados pelo atalho do vizinho, até ao cemitério. Paulinha ia na frente.
Olha, ali está ele apontou, vendo o vulto curvado do pai.

Miguel escutou. O pai falava sozinho:
Então Zélia, cá estamos. Em breve, a nossa Paulinha vai casar. Já lhe tenho o enxoval a jeito, a Natália ajudou. Nada de especial, mas cá nos vamos aguentando.
Perdoa-me, Zélia, se em vida fui avaro nas palavras doces. Mas olha que o meu coração falou por mim. Não sei falar, sou mais de sentir sussurrou rouco o Teodoro, arrastando-se para o portão.

Paulinha fitou o irmão. As lágrimas pendiam-lhe nos olhos, paradas.

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