Festa na Família Entrada Sem Fronteiras
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Ora bolas disse Sofia, levantando com cuidado um caco da jarra de faiança portuguesa, incapaz de a deitar fora, colocando-o no parapeito da janela. Tia Lídia, desculpa murmurou para o vazio.
O apartamento cheirava a champô, espumante e, por qualquer razão, a tangerinas, embora ninguém tivesse descascado tangerinas no dia anterior. No tapete, atrás do sofá, estava largada uma coroa plástica com purpurinas. Na gaveta da mesa de centro, apareceu um lenço de seda com Despedida de Solteira dos Sonhos escrito em dourado.
E debaixo do radiador repousava envergonhada uma única luva de borracha cor-de-rosa, com o laço já todo roído. Parecia mesmo que tentara escapar à noite anterior e ficara presa a meio caminho.
Sofia, de robe amarrotado e com a ponta do cinto desfiada, atravessou a sala de saco do lixo na mão. A cada passo, os papéis de rebuçado faziam um estalinho abafado.
No parapeito, destacava-se um copo de vinho ainda com um resto seco de tinto no fundo. Na jarra, em vez de flores, três palhinhas de plástico com estrelinhas brilhantes olhavam para o teto. Na parede, pendia uma grinalda de corações de papel um deles, visivelmente trincado.
A cozinha esperava por ela como um campo minado.
Na mesa, reinava solitária metade de um bolo de andares. O creme derretia à maneira de um boneco de neve ao sol, e nas laterais espetaram-se velas tortas com os números 3 e 8, embora na véspera nem o aniversário se tivesse celebrado foi só um encontro de amigas.
Na pia, os copos estavam frios e tingidos de batom. Ao lado, pratinhos com restos secos de húmus. E numa cadeira, espalhado, um baralho de cartas de adivinhação: metade virada para cima, metade para baixo como se o destino da noite se tivesse trocado das voltas
***
Sofia pegou quase automaticamente numa carta era o rei de ouros, olhando para ela, cansado mas soberano. Na noite anterior, as mulheres tinham adivinhado casamentos e viagens, murmurando previsões entre goles de espumante e gargalhadas.
Baixou-se para recolher uma purpurina e, ao levantar a vista, puxou debaixo do sofá algo macio: era uma meia de liga alheia, toda rendada, já sem elástico troféu dos bailes de improviso de cima do banco. Abanou a cabeça, seguiu para o quarto ali pelo menos reinava o sossego.
No quarto havia um ar de normalidade, se se excluíssem as três almofadas no chão e o edredão amarrotado em forma de lesma gigante. Pôs a almofada no seu lugar e, debaixo dela, encontrou uma folha rosa dobrada.
O coração deu-lhe um beliscão.
Seria mais um recado esquecido de algum Artur do bar para uma das amigas da Olívia? Mas a letra era inconfundível grande, inclinada, cada o sempre um pequeno balão: era mesmo dela.
És a melhor anfitriã do mundo! Olívia.
Sofia ficou a olhar para o ponto de exclamação, como se tremesse. Sorriu de lado: A melhor anfitriã com a jarra da tia Lídia desfeita e purpurinas no poliban, onde agora cada banho parecia um fogo de artifício.
Quantas vezes já prometi a mim própria nunca mais murmurou, sentando-se na borda da cama.
***
Por baixo dos pés fez-se um chuac desconfortável.
Sofia saltou, tirou o chinelo tinha dentro dele uma tangerina impecável, de casca brilhante. Com um elástico e um palito, vinha presa uma notita: para a vida ser mais doce.
Na véspera, tinham-se rido desse brinde. Agora, a tangerina parecia um gozo.
O telemóvel vibrava na mesinha de cabeceira. No visor lia-se: Olívia (furacão).
Claro disse Sofia para a sala vazia, atendendo com voz limpa. Estou?
Sofiaaa! do outro lado tudo era barulho, como se a festa nunca tivesse acabado, apenas trocado de sítio. És uma deusa, a sério! As miúdas adoraram! Ainda está cá a Sónia-manicure, estamos a rir-nos da cena em que enxotaste o espírito do armário!
Ao fundo uma voz gritou: Diz à Sofia que só nela é que quero ter filhos! e gargalhadas gerais.
Obrigada, Sofia disse Olívia, já mais baixo. Tu tu sabes. Aqui sente-se em casa.
Sofia olhou para a tangerina no chinelo.
Pois cá em casa,
Pronto, não chateio mais! Descansa, rainha dos pitéus! e linha desligou-se, devolvendo-lhe o silêncio.
***
Sofia tirou os óculos, pousou-os junto à nota da Olívia. No espelho da porta do roupeiro, viu-se: mulher de cinquenta, rosto cansado, olhar ainda verde de juventude, cabelo puxado num carrapito apressado com uma purpurina presa.
O telemóvel cantou de novo, desta vez videochamada: Tatiana filha dela.
Sofia suspirou, passou a mão pelo cabelo, mas a purpurina teimava em não sair.
Sim, filha? aceitou a chamada, e no ecrã apareceu o rosto da Tatiana, com a franja despenteada e a caneca de café na mão.
Mãe! Tatiana semicerrava os olhos, a espreitar. Lá está Eu bem sabia. Mais purpurinas na gata?
Em mim. A gata depois do tumulto meteu-se sabe-se lá onde. Deve estar deitadinha na gaveta dos lençóis
E contou-lhe tudo em pormenor.
Mãe, a Tati sorriu, mas logo ficou séria. Estás a ouvir-te? A gata escondida, faiança em cacos, tangerinas nos chinelos Não consegues mesmo dizer não à Olívia?
Sofia sentiu a doçura e a zanga da filha, duas marés.
Ela anda com a vida difícil, resmungou Sofia. Tu sabes
E tu? Não te custa? cortou a Tatiana, doce. Quando é que repousaste sem ser a anfitriã?
Sofia olhou para a luva rosa debaixo do aquecedor, para o bilhetinho nas mãos, para a casa vazia e carregada das risadas dos outros.
Não sei, respondeu, sincera. Acho que também ando escondida nalgum canto. Com a gata.
Tati soltou um pequeno riso.
Mãe, eu adoro-te. Mas a sério, pensa. Da próxima vez, se calhar, só tu e eu a beber um chá. Sem cartas nem purpurinas.
O ecrã vacilou, ficou um segundo em silêncio, voltou. E nessa pausa caiu um não-dito.
Logo veremos, disse Sofia.
Mas, pela primeira vez em muitos anos, esse logo veremos não parecia sim, Olívia, mas um começo de algo novo.
***
A primeira vez que Olívia apareceu em casa de Sofia assim só foi pela primavera, ainda restava frio na rua, mas já uns rebentos verdes espreitavam no parapeito.
Sofia, abre lá que vim de paz! já falava antes do toque à porta. E trago bolo!
Sofia abriu e recuou, Olívia entrou com gás, cheiro a perfume doce e ar gelado, trazendo uma travessa enorme.
Bolo de couve, caseiro, como as da avó! mal tirou os sapatos, já ia para a cozinha. Que entrada, a tua! Até parece de revista!
Sofia sorriu tímida, ajeitou o cachecol no cabide. O seu T2 na Amadora era o seu pequeno orgulho cortinados a condizer, manta de lã da mãe, cozinha de armários brancos e bancada de madeira, janelas cheias de vasos.
Que aconchego, diziam todos. E para Sofia era mesmo obra feita.
Anda, despe, disse com rotina, pegando no tabuleiro. Credo! Isto pesa.
Como a minha vida, fez Olívia, olhos a rir. Olha, Sofia Aquilo lá em casa acenou como quem quer dizer minha casa é um buraco, paredes apertadas, cozinha de seis metros. E em cima gritaria, em baixo martelos elétricos. Aqui
Rodopiou na sala/cozinha, onde Sofia espalhou uma mesinha redonda e um sofá largo junto à janela.
Aqui respira-se! Olívia abriu os braços. Não se pode ficar aqui só? Fazemos um serão? Só nós. Trago duas amigas, vais gostar!
A expressão pecado estar sozinha cravou-se em Sofia.
Lembrou-se dos serões em silêncio, do sofá apenas com as suas tricotagens, da família que só se lembrava dela nos Natais.
Um serão? repetiu. Olha porque não. E tenho agora bolo piscou o olho, forçando leveza.
Olívia ergueu as sobrancelhas, surpresa.
Aceitas assim? Trouxe bolo já a contar que precisava de suborno, riu-se. Então sábado? Sem motivo, só para ensaio.
Sofia aqueceu o bolo no forno. Sábado parecia distante e quase irreal.
Amanhã então, disse. Faço qualquer coisa, não te preocupes.
Sofia, és uma jóia! Olívia apertou-lhe um abraço, partindo-lhe quase as costelas. Quase irmãs!
O quase ficou-lhe atravessado, mas Sofia engoliu com o bolo que estava por vir.
***
A Páscoa desse ano também se passou em casa da Sofia. Evidente: ideia da Olívia.
Só em casa da Sofia é que é casa! dizia Olívia a quem perguntasse. Folares de capa, ovos dignos de capa de revista. E a gata que patrulha tudo.
Na verdade, era uma gata tigrada chamada Bia mais porte de porteira do que de rainha, mas importância nunca lhe faltou.
Olívia não chegava sozinha veio logo com três amigas.
Sofia, habituada a jantares familiares, ficou atrapalhada ao ver-se invadida pelos risos de uma ruiva de gabardina amarela, uma morena alta de casaco de pele, e uma baixinha de gargalhadas estridentes.
A Carolina, a Inês, a Marta, acenou Olívia. Meninas, é a famosa Sofia do aconchego e da boa mesa.
Sofia despia-lhes os casacos, oferecia chinelos, exibia cabides. Fazia contas mentalmente cadeiras dava, folares eram dois, ovos onze. Saladas e gelatina, para parecer composto.
Foi pouco. Passada uma hora, Olívia, a meio da conversa sobre glacé no folar, tirou o telemóvel:
Ai! Esqueci-me que a Catarina e a Júlia estão ali perto! Esperem, mando já mensagem. Sofia, não te importas? Elas trazem os ovos delas!
Sofia mal abriu a boca a campainha do forno fez-se ouvir justo nesse momento, e foi-lhe verificar os folares. Quando voltou, o grupo crescia.
Tudo tratado, vêm já!
***
A festa virou barraca alegre num instante.
Discutiam-se massas à moda antiga e fornos verdadeiros. A Carolina, reivindicando a tradição, atirou a colherada de chocolate a mesa ficou salpicada de gotas castanhas.
Ai! Carolina ficou parada, sorriso sem graça. Isso é sinal de fortuna?
Olívia rebentou a rir, todas cantaram de gozo. Sofia pegou logo no guardanapo, mas já estava marcada.
Não há problema, disse. Sai com lixívia.
Nessa hora, encontrou nos olhos de Olívia um brilho quente como se Sofia não tivesse salvado uma toalha, mas um mundo inteiro.
No fim da tarde, as janelas estavam forradas a ovos pintados, uma coroa de papel pendurada na parede, sandálias esquecidas debaixo da mesa. Olívia, erguendo cálice de vinho do Porto, declarou solenemente:
Malta! Em casa da Sofia é sempre festa de verdade!
Todos aplaudiram. Sofia corou, sentindo aquele festa de verdade bater-lhe debaixo das costelas como se a cozinha e o sofá fossem palco do que realmente importa.
***
Na infância era ao contrário. O festejo verdadeiro era sempre na Olívia.
Olívia era líder nata espalhafatosa, charmosa e irresistível.
Os miúdos juntavam-se à porta dela, onde ela montava desfiles de moda com o robe da mãe e os clubes secretos escondidos nas arrecadações. Até as avós do bairro lhe chamavam nossa artista.
Sofia era discreta, metódica vinha à hora, devolvia livros intactos à biblioteca, limpava os sapatos à risca.
Sofia, tu que és exemplar, dizia tia Lídia, mãe de Olívia. Vai lá ver se a Olívia aprende alguma coisa.
Na adolescência separaram-se. Olívia voltou cedo cheia de relatos de festas noturnas. Sofia foi para o curso técnico, depois faculdade à noite. Viram-se pouco fora festas em família.
Morreu a tia Lídia. Foram velórios, lágrimas, mágoas do passado. Nessa noite, ficaram ambas na cozinha até às três da manhã, a afogar o travo amargo no chá.
Com a mãe foi-se a casa, disse Olívia, olhando para a chávena. Não sei como é viver isto sem ela.
Sofia, que há anos perdera a própria mãe, respondeu baixo:
Não é melhor nem pior, só diferente.
Desde então ligaram-se mais, primeiro para tratar de papelada, depois só porque sim. Aos poucos, Olívia puxou Sofia para o redemoinho da sua vida.
Queremos ser primas e viver lado a lado sem nos vermos? protestava Olívia. Vou a tua casa, tu vens à minha.
Na verdade, Sofia quase nunca ia a casa da Olívia. Dava sempre jeito evitar o trabalho, a Tatiana, o cansaço. Já Olívia aparecia cada vez mais.
***
A expressão em casa da Sofia virou senha universal.
Amigas, até está visto: é em casa da Sofia, dizia Olívia ao telemóvel, de agenda na mão. Não vamos para a minha, aquilo é um cubículo, a da Sofia é sala aberta, qualquer influencer adorava!
Onde é o Ano Novo? perguntavam à Olívia.
Em casa da Sofia! Tem as luzes, e a salada russa à Sofia é de chorar por mais.
Páscoa? Em casa da Sofia.
Anos da Marta? Óbvio, na Sofia, há sempre bom bolo.
Encontro por tudo e por nada? Ora, só podia, a Sofia tem aconchego e fartura.
No início, até lisonjeava Sofia.
A casa era o centro das outras, o lugar de encontro. Deliciava-se a escolher guardanapos, testando tapas novas, experimentando receitas online. Gostava que as amigas da Olívia ficassem deslumbradas com a sua loiça branca. E ouvi-la dizer:
Sofia, isto é digno de revista!
Com o tempo, tornou-se apertado. Apareciam mesmo sem convite.
Sofia, olá! Sou a Carolina, lembra-se? Queremos dar um salto rápido, a Inês tem novidades, Olívia está presa no salão. Estás em casa?
Certa vez, à terceira visita espontânea nessa semana, abriu a porta: ali estava, inesperada, a Nazaré, amiga de outros tempos de quem Sofia nunca esqueceu a cena em que foi publicamente acusada de mexericos. Evitavam-se desde aí.
Olá, hesitou Nazaré. Olívia disse que era aqui, vim cedo ajudar
Sofia sentiu um ardor desconfortável a subir pela coluna acima. Pensou: Olívia enganou-se, não espero ninguém. Mas recuou.
Entra, disse. Queres chá?
A pano de cozinha apertou-se-lhe nas mãos.
***
O primeiro protesto de Sofia foi quase de criança.
Queres estragar a festa? Compra bolachas más, pensou.
Sofia comprava sempre rosquilhas artesanais na padaria do bairro crocantes, docinhas, leite indulgente. Desta vez ignorou-as, comprou pacotão barato de supermercado, das que se desfazem antes do chá.
Vêem que nem tudo cá em casa é de chef, teimou, despejando-as na taça.
A reunião, claro, correu às mil maravilhas. Toda a gente riu, as más bolachas calaram-se com boas notícias, houve queijos, azeitonas, Olívia puxou pela sua especialidade: tomates à algarvia.
A certa altura, Marta pôs-se a pendurar um colar de plástico enorme na maçaneta da porta de entrada. Esqueceu-se, ficou a baloiçar no dia seguinte Sofia foi tirá-lo, pronto para o saco achados, quando bateram à porta.
Sofia! disparou Olívia sem anúncio. Ah olha só! viu o colar, riu-se a bandeiras despregadas. Até as portas fazem festa aqui!
Sofia quis retrucar isto não é festa, é caos. Mas havia tanto calor na alegria da Olívia que só suspirou:
Festa, sim
E a festa recusava-se a ir embora.
***
Especial foi aquele serão noite de adivinhação, invenção da Olívia.
Meninas, hoje é para olhar o futuro, proclamou ela no grupo do WhatsApp, puxando Sofia à socapa para o chat. Sofia, és a nossa vidente! Até a tua chaleira fala!
Sofia sorriu, desconfiada do seu velho fervedor de calcário. Agora era oráculo?
Uma das convidadas, a Carolina, chegou com baralho de tarot, velona de vidro e um espelhinho trabalhado.
Isto não é um serão qualquer, anunciou. Até parece sessão espírita.
Sofia riu, tensa.
Quais espíritos, Carolina? Aqui só há resquícios de sopa.
Então relaxa, Sofia, isto é só brincadeira.
As luzes apagaram-se, acenderam uma vela. A sala encheu-se de sombra dourada. Bia encolheu-se junto ao fogão, pêlo á riste.
Carolina espalhou cartas e o espelho, pronto para perguntas sérias ao universo.
Sofia ficou no sofá, a sentir-se deslocada da própria festa. Via a chama da vela a dançar nos olhos das outras. E todas aquelas perguntas amor, dinheiro, viagens soavam a histórias dos outros.
De repente, como se em sintonia com a brincadeira, as luzes começaram a piscar. Uma lâmpada, depois outra. Ouviu-se um estalo ficou tudo às escuras.
Ai! alguém arfou.
É um sinal! murmurou Carolina, seguida de risos histéricos.
Sofia puxou do telemóvel para acender a lanterna, quando uma sombra escura escapou-lhe pelos pés. Era Bia, a gata, que atravessou a casa a miar e desapareceu dentro do roupeiro do quarto, batendo a porta com estrondo.
Sinal claro, disse Sofia rouca. Que já nem os espíritos aqui cabem.
A luz voltou minutos depois. Tinha sido um curto-circuito do prédio. Mas Bia não saiu do armário no dia seguinte todo soltava só arranhadelas e um miau triste das profundezas.
Quando duas noites depois Bia arrastou-se, zangada e coberta de pó, Sofia passou-lhe a mão e murmurou:
Então, Bia vamos ambas passar a esconder-nos?
A gata bufou e foi para a cozinha onde restavam ainda algumas purpurinas caídas.
***
Sofia demorou a decidir-se.
Primeiro, ficou só sentada, olhando para o ecrã do telemóvel, onde o campo de mensagem em branco piscava, insistente.
Os dedos digitaram: Olívia, da próxima celebra-se em tua casa. Apagou logo.
Tentou alternativas:
Olívia, não aguento mais
Olívia, não quero mais festas cá em casa por um tempo
Olívia, estou cansada
Todas soavam um pouco de menos ou demasiado duras. Ecoavam na cabeça as frases da Olívia: Sofia, és tão querida, Sabes como ninguém dizer sim, Não te custa
Respirou fundo, largou o telemóvel e foi ao quarto, colocou-se diante do espelho. A luz tremeu, projetando-lhe sombras no rosto. Pegou na escova de cabelo, mas em vez de se arranjar, olhou-se:
Olívia, da próxima celebra-se na tua casa.
A voz tremeu, mas continuou.
Sem desculpas, dizia-lhe a voz da filha ecoada. Tens esse direito.
Sofia endireitou-se, fitou-se com outra postura.
Olívia, repetiu, olhos nos olhos, adoro os nossos encontros. Mas cansei de festas no meu lar. Próxima vez na tua casa.
Ainda vacilou para explicar-se, mas cortou: nada de advogados.
Voltou ao telemóvel e digitou devagar:
Olívia, estou mesmo cansada. Na próxima vez, que tal em tua casa? Preciso de descanso dos convidados.
O dedo flutuou sobre o botão Enviar. O medo de perder, de magoar, de ouvir: Sabia que eras uma seca, apertou-lhe o peito.
Enviou e largou o telemóvel.
Agora é conversar, sussurrou. Frente a frente.
Diante do espelho, ensaiou o discurso mais umas vezes.
Olívia, este é o meu lar, custa-me ter sempre visitas
Olívia, gosto muito de ti, mas não tenho de ser a sala de festas de todos
Olívia, precisamos de limites.
A cada limites a voz murchava, ficava-lhe um nó na garganta. Via no espelho uma mulher que ainda ensaiava o não, como se fosse palavra estrangeira a tropeçar nos dentes.
Mas, entre ensaio e ensaio, acendeu-se outra nota no olhar não zanga, não cansaço, mas determinação.
Pronto, disse à manhã. Vai ser assim. Vou a casa dela. Não é na minha.
***
Sofia foi até Olívia de propósito sem avisar.
Se ela pode aparecer com bolo e amigas sem perguntar, então também posso simplesmente aparecer. Não como anfitriã, mas como visita. Como testemunha.
O prédio de Olívia era antigo tetos altos, paredes descascadas e caixas de correio entupidas de jornais. Em tempos, Sofia achava piada ao ar de história. Agora o cheiro era de humidade e tabaco velho.
Sem elevador, subiu a escada larga, fixando cada degrau gasto. No terceiro patamar, o cheiro a ambientador barato misturava-se a sopa requentada.
A porta de Olívia era fácil: pendia uma coroa de louro artificial e uma tábua tosca Aqui mora um milagre. Antes era enternecedor. Agora, um bocadinho triste.
Bateu. Silêncio. Tocou à campainha uma chinfrineira. Por fim, passos pesados e voz rouca:
Quem é?
Sou eu, Sofia.
O trinco demorou, como se a porta resistisse. Finalmente, abriu.
Olívia espreitou, porta como escudo. Vestia fato de treino largo, com apenas uma meia de lã. A outra na mão. Rabo-de-cavalo desalinhado, olhos pisados de sono.
Sofia? surpresa genuína. Vieste assim de repente?
Tu também me visitas sem avisar, não é? disse Sofia, calma.
Olívia piscou, mas deixou-a entrar.
A casa batia logo: não pelos móveis, nem papéis, mas por vazio. Daquele que se sente na pele.
Nada de tapete de entrada, nem sapateira. Cabo de vassoura encostado à parede, uma bota torta, ténis, um sapato. No chão, nódoa seca de algo entornado.
Sofia avançou e o coração murchou.
Havia só um sofá, outrora verde, agora desbotado. Roupas espalhadas, amontoadas como onda. Pelo chão garrafas de vinho vazias, latas de energético, revista sem capa. Um portátil aberto no banco, cinzeiro abarrotado.
Debaixo da mesa, duas canecas. Uma tombada, desenhando um círculo seco no linóleo. A outra à beira do tapete, com restos de café já empedrados e cinza a flutuar.
Café bêbedo, pensou Sofia, recordando ver Tatiana usar esse termo para cafés esquecidos enquanto acontecem as urgências do dia.
No parapeito nada de vasos ou flores. Só copos de plástico, saco de batatas fritas, limão seco junto ao radiador.
Sofia sentiu tudo virar-se-lhe dentro.
Não era só desarrumação. Era vida largada e ninguém a tomar conta.
***
Não olhes assim, cortou Olívia, trémula ao ver-lhe o olhar. Ainda não arrumei desde desde a mãe.
Desde o quê? perguntou Sofia, suave.
Desde a mãe, o trabalho, essas coisas gesticulou para as garrafas. Desde a vida, no fundo.
Olívia entrou na cozinha, Sofia ficou de pé, agarrada à mala. Imagens recentes passaram-lhe diante dos olhos sua casa, mesa posta, folares, gargalhadas. Num mundo à parte, ali, não era gargalhada era silêncio e sujidade.
Ficou-lhe claro: para Olívia, seu lar não era só prático. Era refúgio.
Vieste por quê? perguntou Olívia à porta da cozinha. Inspeção?
Vim, respondeu Sofia. Mas veja-se lá também é isso.
***
Pensei que ainda me estavas chateada, disse Olívia, sentando-se subitamente.
Os olhos brilhavam, mas não era riso era lágrima engolida.
Estou, respondeu Sofia. Bastante. Já não quero ser palco de festas. Ontem atingiu o limite.
Pousou a mala, afastando latas e sacos.
Só sentiu a voz tremer, mas manteve-se firme. Só queria perceber.
Olívia esfregou o rosto, borrando a maquilhagem.
Perceber o quê?
Porque é que Sofia abriu os braços, está assim. E porque toda a casa tem de ser na minha.
Olívia riu-se amargo.
Porque tu tens uma casa a sério, disse. E eu varreu o olhar pela desarrumação, só cenário de aluguer.
Puxou o ar, as palavras jorraram.
Aqui, não me sinto em casa, Sofia. Sem a mãe, sem os gritos, a partilha da herança. Estas paredes não são minhas. Moro aqui como extra. Só há tralha, mas não há chão. Entendes?
Sofia lembrou-se dos primeiros meses de luto da mãe: arrumou móveis, mudou cortinados, para o espaço deixar de parecer estranho.
Mas contigo Olívia prosseguiu, ao ir aí, tenho sofá arrumado, chávenas limpas, a gata a dormir na janela. Sabes onde está tudo. Sabes como ser dona da tua vida.
Chorou.
Ainda ontem em tua casa, pela primeira vez em anos, não tive medo. Nem solidão.
Sofia sentiu um nó quente crescer-lhe dentro.
E eu, Olívia riu-se nervosa, achei mesmo que gostavas do rebuliço És tão boa anfitriã.
Enlaçou os dedos.
Julguei mesmo que era espetacular para ti ver a casa cheia. Não vi isto apontou para as canecas. Não quis ver, talvez. Só escapava para o teu aconchego.
Sofia engoliu em seco.
Por isso disse baixo, o meu lar virou prolongamento do teu caos?
Olívia tapou o rosto.
Tenho pânico de ficar sozinha, Sofia. Juro. Ao fim do dia só oiço a mãe, o voz dela. Ligo música, encho a casa fujo para ti porque chorou é o único sítio que parece o antes.
Sofia sentou-se à frente. Todo o discurso que ensaiara já não vinha amargo. Só restava o essencial.
Olívia, doce mas firme. Lamento-te a solidão. E alegra-me seres feliz no meu espaço. Mas
Pousou as mãos na mesa, quase a tremer.
Não posso ser o único escape.
Olívia baixou os olhos. Sofia respirou.
Vamos tentar de outra maneira, sugeriu.
***
Como se faz?, perguntou Olívia, assoando-se ao guardanapo.
Por exemplo, Sofia olhou ao redor, nem tudo em casa da Sofia.
Olhou para o café esquecido no chão, o sofá atafulhado, o saco do lixo no canto.
O lar, continuou, não é só onde há festa. É onde não há vergonha de si mesma.
Olívia riu-se através das lágrimas.
De mim já tenho vergonha há tempo.
Então começamos a mudar aqui, Sofia levantou-se. Se continuamos com as tuas amigas só em casa da Sofia, isto aqui nunca muda. E eu canso.
Encostou-se à cadeira, fitando a prima.
Assim: encontros uma vez em cada. Uma em minha casa, uma em tua casa. Pequeno grupo, não multidões. E só uma vez por mês.
Vais mesmo que eu receba lá gente?
Proponho parar de usar o meu lar como o único palco, respondeu Sofia. E fazer do teu casa de verdade.
Olhou para Olívia com mais brandura.
E sugiro algo mais. Começa-se pequeno não com convidados, mas connosco.
Olívia franziu o sobrolho.
Como assim?
Sofia arregaçou as mangas.
É assim: hoje limpamos aqui, lavamos as canecas, limpamos a mesa e fazemos umas panquecas. Só as duas. Sem amigas, sem purpurinas, sem espiritismo. Só tu e eu.
Panquecas? riu-se Olívia, mas brilhou-lhe o olhar familiar. Faço melhor sonhos.
Então são sonhos, acedeu Sofia.
***
Começaram.
Primeiro desajeitadas. Sofia pegou num saco de lixo, amarrou o velho, foi à porta. Olívia, envergonhada, recolheu canecas do chão. Sofia abriu a torneira, achou a esponja.
Também não nasci com os sofás em ordem, riu Sofia. Aprendi com a minha mãe. Depois com a vida. Tu sobrevives à tua maneira.
Olívia só lavava, calada e atenta.
Na cozinha cheirava a fritura. Finalmente relaxada, Olívia preparava sonhos naquele instante, Sofia viu nela a miúda dos desfiles do bairro, só que agora rodeada de paredes trincadas e batatas mal fritas.
Sentaram-se à mesa, a comer os primeiros sonhos com compota, tocaram à campainha.
Quem será agora? Olívia assustou-se.
Sofia espreitou ao óculo e sorriu.
Da casa, comentou.
Era Tatiana, mochila às costas e saco na mão.
Vim pelo cheiro, desculpou-se. Mãe, mandei mensagem e nada. Resolvi aparecer.
Olívia, encavacada, ajeitou o cabelo.
Anda, disse Sofia. Estamos numa estreia do novo formato.
Tatiana olhou a casa, a mesa, elas as duas, analisou tudo estampou-se-lhe aprovação no rosto.
Ah, comentou. Agora a tia Olívia também tem purpurinas.
Purpurinas? Olívia perplexa.
Olha para cima, sorriu a Tatiana.
Levantaram o olhar. Da lâmpada pendia uma estrela prateada, provavelmente vinda agarrada a uma camisola de Olívia.
Sofia riu-se.
Pronto, agora há purpurinas nas duas casas, não só na minha.
O importante, gracejou Tatiana, fazendo-lhe piscadela, é que estejam com consentimento!
Sofia sentiu algo abrir-se dentro de si. Ainda se irritava com Olívia, ainda temia ser recriada para mais festas. Mas agora, havia escolha. E também para Olívia.
Sentaram-se as três à humilde cozinha, comeram sonhos do mesmo prato, riam quando encontravam farinha na cara de Olívia.
E nesse riso já não havia casas usadas sem permissão. Era o primeiro, pequeno, verdadeiro serão. Sem rainhas dos jantares ou melhores anfitriãs do mundo. Só Sofia, Olívia e Tatiana.






