Fala comigo, Bolinho
Não tenhas medo, Bolinho! Vai ficar tudo bem! Eles agora ainda vão gritar mais um bocadinho e depois acalmam Acho eu
Leonor abraçou com força o seu melhor amigo e fechou os olhos. Não devia ter medo. Já era crescida. Pelo menos era o que a avó Rosa dizia já tinha cinco anos, já era uma menina grande. Para todos, já tinha deixado de ser bebé. Até deixou de chorar quando levava vacinas. Vergonha! Só com Bolinho, o seu urso, é que podia voltar a ser pequenina. Ele já a vira de todas as formas. Bolinho foi prenda da mãe, logo que a Leonor nasceu. Um urso meio torto, com uma perninha mais curta, o melhor amigo de sempre. Bolinho ouvia tudo, nunca ia contar nada à educadora, como a amiga Rita fazia quando queria fazer queixinhas. Ficava só a olhar para ela com aqueles olhos redondos e ficava calado. Mas compreendia tudo. E quando ela tinha medo como agora , era ele quem a acalmava. Era bom tê-lo por perto, tão fofinho e familiar. Os pais também eram bons, mas quando desatavam a gritar um com o outro ficavam cheios de picos, como os arbustos da história da Bela Adormecida. Ninguém se aproximava e gritar não valia de nada. Leonor não percebia porque é que os adultos se zangavam. Afinal, eram adultos! Deviam saber resolver as coisas, encontrar um idioma qualquer nunca se lembrava qual, mas falavam sempre de encontrar o idioma. Era assim que a avó Rosa dizia. Talvez não fossem só zangas pequenas como as dela com a Rita, talvez fossem mesmo Zangas Grandes, de Adultos. Zangas grandes devia ser muito assustadoras. As pequenas, que a Leonor já conhecia, eram tão más que tiravam a vontade até de comer um gelado; só apetecia chorar. Então, zangas grandes deviam ser piores ainda.
Leonor abriu os olhos e ficou a ouvir. Silêncio. Isso queria dizer que a mãe tinha ido chorar para a casa-de-banho e o pai estava na cozinha, a fazer cara de poucos amigos. Era o sinal para ela entrar em acção. Levantou-se do cantinho atrás da cama onde se tinha enfiado e suspirou. O quarto era bonito. A mãe tinha demorado séculos a escolher a cor dos autocolantes, da mobília, perguntou-lhe como queria. Cama branca com edredão cor-de-rosa, armário para tantos vestidos que ela já nem sabia onde punha todos, prateleiras cheias de brinquedos. Ali sentia-se bem. Quase tranquila agora que estava tudo em silêncio. Mas Bolinho fitava-a, e Leonor fungou:
Eu sei, eu sei Já vou! Tu ficas aí, está bem?
Deixou o ursinho em cima da almofada e saiu do quarto. Primeiro, a mãe era sempre o mais difícil. A porta da casa-de-banho estava trancada, como sempre. Leonor bateu ao de leve:
Mamã?
Sim?
Posso entrar?
A porta abriu-se e Leonor viu a mãe sentada no rebordo da banheira, olhos vermelhos.
O que foi? Precisas da casa-de-banho?
Não, é para estar contigo. Encheu-se de coragem e entrou no WC. Não gostava nada deste papelão. A mãe ia chorar mais, agarrar-se a ela, prometer que ia ficar tudo bem. E ela também ia acabar a chorar, não por pena mas porque tinha a certeza que já não ia mesmo ficar tudo bem. Porque era sempre igual. Como dizia a Rita: O bem dura pouco. E é mesmo verdade! O bem dura dois dias, depois renascem os arbustos com picos em casa.
Leonor limpou os olhos e encolheu os ombros.
Para quê?
Para quê o quê, filha?
Para que gritam tanto? Se já não gostam um do outro, se calhar era melhor ficarem afastados. A avó Rosa diz sempre que, quando me zango com a Rita, mais vale cada uma para seu lado. Assim já ninguém se zanga tanto.
Teresa ficou a olhar para a filha. Até hoje, a Leonor nunca tinha falado do que se passava em casa. Teresa achava que as discussões com o Rui passavam-lhe ao lado. Ainda é pequena, não percebe nada Pensava.
Mas Leonor porque dizes isso? Eu gosto do teu pai
Estás a mentir, mamã.
Leonor!
Se gostasses, não gritavas tanto. Não te zangavas assim. Também não gritas comigo, pois não?
A mãe ficou sem palavras. Como se explica a uma criança que relações são coisas complicadas? Que às vezes até se grita porque não se aguenta mais Leonor tinha feito a pergunta difícil para quê?
Se calhar devias sentar-te a pensar no teu comportamento. Isso diz a avó Rosa! Leonor limpou as lágrimas da cara da mãe com a palma das mãos.
Também foi a avó Rosa que te ensinou isso? Teresa sorriu, lavada em lágrimas.
Sim! E tem razão. Olha, eu fiz as pazes com a Rita. Agora já quase não nos zangamos. Só quando ela vai fazer queixa à educadora Filomena.
Estás tão crescida Teresa puxou-a para um abraço.
Ainda sou pequenina, mamã. Se fosse grande Leonor afastou-se e, em sussurro, não tinha medo destes gritos.
E tens medo de quê, Leonor? A mãe franziu o sobrolho.
Que um dia vocês gritem tanto, tanto, que se vão embora.
Vamo-nos embora para onde?
Para onde haja silêncio. Não se pode viver sempre num sítio onde tudo está mal, pois não, mãe? Tu não estás bem
Sim Espera aí! Achas que te vamos deixar? Tens medo disso?
sim E finalmente Leonor desatou mesmo a chorar. E vai ficar só o Bolinho. E se o Bolinho se perde como no táxi? Fico mesmo, mesmo sozinha? Perguntei à avó Rosa, e ela disse que já é muito velha para ser mãe!
Leonor, filha, para com isso! Nunca te vou deixar! Como podia? És a minha menina!
E quando vocês gritam assim, lembram-se que eu estou aqui?
Claro que sim Teresa parou subitamente. A filha tinha razão. Naqueles momentos, não pensava em ninguém. Só sentia mágoa, só dizia coisas más. Lá porque era adulta, não era menos estúpida às vezes. Quando se tornara assim?
Conheceu o Rui no 2.º ano da faculdade. Ia atrasada para um exame, trombou literalmente com um rapaz alto, desengonçado, os óculos voaram. Desculpa! gritou enquanto continuava a correr, sem tempo sequer para pedir desculpa a sério.
Tirou o exame com nota máxima e, ao sair a dançar de alegria, deparou-se com o rapaz, de olhos semicerrados.
Olá, comboio expresso! Ainda vais a correr para algum lado?
E assim ficou o meu comboio era o nome carinhoso dele, principalmente se ela fazia birra.
Bufas tão engraçado que nem consigo chatear-me contigo!
No parto, as enfermeiras rebolavam a rir com o Rui a gritar:
Não bufes, comboio! Faz força!
Quando é que ele parou de a chamar assim? Quando é que se tornou só zanga e não mais brincadeira?
Mamã?
Sim, minha querida?
Vocês estão mesmo zangados? Ou mesmo magoados?
Teresa enfiava os dedos nos caracóis da filha. Tão em versão mini do pai Quando estava grávida sonhava que a filha tivesse os caracóis do Rui.
Tudo menos o meu cabelo, que parece três penugens, dizia ela.
Deixa lá, tens cabelo bonito!
Tenho um bom cabeleireiro, é só isso. Se ela tiver o teu cabelo e os meus olhos, ui! Os rapazes vão todos atrás dela
Assim foi. Uma cabeleira dourada, olhos cor de água do mar. Linda Leonor, até já agora. Teresa sorriu com nostalgia. Como dizia a mãe? Importa é escolher o pai certo. Rui era óptimo especialmente para Leonor. Para ela, a filha era tudo. Teresa sentiu um aperto de ciúme. Ciúmes da filha? Talvez fosse isso. Leonor tinha razão.
Teresa lembrou-se de como o Rui chegava a casa, mal lhe dava um beijo e perguntava logo:
Onde está a minha princesa? Aqui está ela! Trouxe-te chocolate!
Depois de brincar com Leonor, punha um filme nos fones e perdia-se na televisão, enquanto ela sozinha arrumava a casa e tratava da filha. Mesmo no carro, cantava só com a Leonor, sem ligar nenhuma ao que Teresa dizia. Depois fazia perguntas como se não a tivesse ouvido. Quando Leonor ficou doente, Rui perdeu a paciência.
Foi há dois anos. A filha estava com febre alta, Teresa ficou de vigília sem dormir, a tentar baixar a temperatura e acabou, exausta, a chorar. E Rui berrou:
Por que é que estás a chorar? Achas que ela melhora assim? Aguenta-te, mulher, que mãe és tu?
Ela calou-se, mas só porque alguma coisa dentro dela quebrou. Sentiu-se miserável, má mãe O mundo ficou cinzento. Viu que a febre já tinha passado, mas aquele sentimento ficou. Mágoa. Sim, era isso.
Leonor observava a mãe, à espera. Como ela já não chorava, era hora de ir ao pai.
Eu já venho
Desfez-se do abraço e abriu a porta.
Não chores mais, está bem?
Teresa não respondeu. Passou os próximos minutos a recordar a vida a dois houve mesmo assim tanto de mau? E o bom, onde ficou?
Houve, claro.
Os encontros antes do casamento, a maneira como Rui a olhava. Olhos escuros por detrás dos óculos.
Olhas para mim de forma estranha
És bonita! Só não entendo porquê eu.
E eu?
Nada, também és bonito! Quando fazia graça, o brilho voltava-lhe ao olhar. Pois claro!, pensava.
Como sabia o que dizer dantes? Agora, já não sabia.
O nascimento de Leonor, os primeiros passos, as férias juntos, a primeira vitória no trabalho. Ele até fez um bolo! Nunca mexia na cozinha. O bolo era horrível de tão doce, quase chorou a deitá-lo fora.
Faço outro, não chores. Ou então embalamos e guardamos como nos casamentos reais!
A compra do apartamento, comer no chão porque não havia móveis. Celebrar a filha a dormir no colchão de encher.
Temos de ter outra rapariga, agora.
Outra?
Não ficas só com uma?
Não sei
Eu sei. Mas enquanto não tivermos casa maior, só há Leonor!
O segundo filho nunca chegou. Problemas miles. As primeiras discussões, depois cada vez piores. Palavras pesadas, que enchiam o pequeno T2 mais do que ele comportava. Teresa só agora perceberia o quanto as palavras eram como picos, tal qual a Leonor imaginava.
Abriu o chuveiro, lavou a cara com água fria. Chega! Mais valia decidir: ou fazem as pazes, ou cada um para seu lado. Imaginou a vida sem Rui ele sair de casa, nunca mais ver a Leonor. Estremeceu.
Leonor foi à cozinha. Rui estava de costas, a olhar pela janela.
Pai?
Nocas! Não devias estar a dormir?
Ainda é cedo! Sentada ao colo dele Estavam a gritar
Desculpa.
Para quê?
Gritar?
Sim.
Não sei.
Também estás zangado com a mãe? Leonor fitava-o. Devia ter falado antes, em vez de se esconder no quarto com o Bolinho. Tão estúpido! Quando se zanga com a Rita, a educadora Filomena senta as duas e pergunta se vale a pena deixarem de ser amigas.
A mãe disse-te que está zangada comigo?
Não. Eu é que sei.
Como?
Quando gosta, abraças a mãe e ela sorri. Se estão zangados, gritam. Assim, não é?
Rui afastou-a para a olhar bem.
Estás tão crescida!
A mãe disse o mesmo.
E mais?
Que gosta de ti. E de mim.
Leonor viu o pai mudar. Os olhos perderam o ar zangado. Ela sorriu para si, desceu do colo.
Vou para o Bolinho. Está sozinho e tem medo.
Vai, meu amor Rui pensou. Quando tinha começado a perder a cumplicidade com Teresa? Com o nascimento de Leonor? Os cuidados da bebé, a casa Teresa sempre tinha sido calorosa, o seu sol da Primavera. Já não era. Agora, até conversar sobre coisas banais era discussão à vista. Ele sentia-se sempre culpado. Mais valia evitar. Afastou-se, e Teresa também o evitava. Um dia, ela chorou com Leonor nos braços. A primeira reacção dele foi atacar:
Porque choras? Achas que ajudas?
E logo percebeu o erro: pedras lançadas, ergueram muralhas entre eles. Ele já não conseguia sequer pedir desculpa. E Teresa também não, já não havia O Teresinha por detrás dos olhos dela.
Rui suspirou e levantou-se. Silêncio na casa. Sabia que Teresa ia adormecer a filha. Olhou pela janela para o prédio ao lado, em cada janela uma vida, melhor ou pior. Se Teresa se fosse embora com a filha, o que seria dele? Uma caverna vazia. Toda a vida resumia-se àqueles olhos verdes.
Lembrou-se do que a mãe lhe dissera, em miúdo, sobre mulheres.
Assume a responsabilidade. Uma mulher reconhece isso.
Como assim?
Mesmo quando achas que a culpa é dela, pensa o que poderias ter feito diferente. Numa casa, a responsabilidade é sempre mais do homem geralmente!
Porquê?
Porque sim. A mulher precisa de apoio. Se não lhes deres um pouco de descanso, problemas aparecem. E se a tratares sempre como antes do casamento, és um campeão. Para ti, ela tem de ser como uma jarra preciosa. Mas, depois do casamento, esqueces-te. E ela, sabes, nunca esquece!
Mãe, estás sempre a falar de casamento
Porque todas acabam alguém. Vais lembrar-te do que digo.
Rui passou as mãos pela cara e sorriu sozinho:
Obrigado, mãe.
Tomou balanço e foi à cozinha.
Leonor não conseguia dormir. Apertava Bolinho, do outro lado dormia a mãe, com a cara cansada e triste. Leonor alisou-lhe a testa onde agora havia um vinco novo. Antes, não tinha. Teresa suspirou, relaxou. Leonor aninhou-se, fechou os olhos: amanhã podia ser um bom dia? Só que, normalmente, só se dizia, na prática nem sempre era. Apertou outra vez os olhos e fez um desejo.
O despertador de Teresa, claro, ficou por ouvir ficava sempre no quarto. Acordou stressada, olhou para o despertador-gato divertido no quarto da Leonor e praguejou. Iam atrasadas para a creche. E ela para o trabalho, claro. Sorte que de manhã não tinha reuniões. Ouviu sons na cozinha e estranhou Rui ainda estava em casa? Muito raro. Levantou-se sem acordar a filha e foi para a casa-de-banho. Pensou que, se ele saísse depressa, evitava uma conversa. Mas não teve sorte. Ao entrar na cozinha, deu de caras com Rui ao fogão, o café quase pronto.
Bom dia ele virou-se, olhos vermelhos, olheiras.
Ia responder, mas paralisou. Em cima da mesa: um bolo, com rosas de creme, do género homem que passou a noite nisto. Para quê? Se foi obra dele, andou à procura dos bicos de pasteleiro que ela perdera há meses.
Olhou para Rui, ele deu-lhe um passo.
Desculpa. Desculpa tudo. Sou mesmo um nabo de marido. A culpa é toda minha não te dei atenção, sempre a acusar-te disto e daquilo. Tu e a Leonor são o melhor da minha vida. Sem ti não havia a nossa filha. Sei que não se volta atrás, mas pensas nisso?
Teresa mirava-o, a tentar decifrar se aquilo era verdade. Depois avançou, tapou-lhe a boca com a mão.
Os dois estavam mal. Também errei. Mas tens razão, preciso de pensar A sério, em muita coisa.
Vai demorar muito?
Uns sete meses, mais coisa menos coisa.
Rui ficou a olhar para ela, sem perceber.
Porque olhas assim? Já percebeste.
Rui tentava decifrar quando Leonor entrou, com Bolinho e olhos inchados.
Já fizeram as pazes?
Olhar cúmplice entre os pais.
Uau! Bolo ao pequeno-almoço?! Pode-se?
Hoje vale tudo! Rui abraçou Teresa e sussurrou: Amo-te. Dá-me uma oportunidade.
E tu a mim! respondeu Teresa, voltando-se para Leonor. Meninas sem lavar a cara, não comem bolo!
Já vou! Bolinho, senta aí. Dois pedaços para nós! Um para mim, um para o Bolinho.
Ursos não comem bolo.
Então para que sirvo eu? Tenho de ajudá-lo!
Anos mais tarde, Teresa andava com o carrinho de bebé no parque, a correr para buscar Leonor à escola primária. O pequeno Tiago choramingava, ela ia acudir, mas Rui chegou por trás:
Deixa estar. Pegou no bebé, piscou-lhe o olho. Esperamos aqui.
Teresa sorriu e lá foi. No dia seguinte começavam as férias. Bilhetes comprados, malas feitas, o Tiago ia ver o mar pela primeira vez. Teresa lembrou-se dos últimos três anos. Tanta coisa aconteceu tentativas e erros, meses separada e depois o reencontro, graças à avó Rosa. E o falecimento da mãe do Rui, num momento difícil para todos. O nascimento do Tiago, os primeiros passos, dentes e a primeira palavra
Que nem foi mamã, para orgulho do Rui, que não se calava com brincadeiras:
Boa filho, papá é que manda!
Leonor no primeiro dia de aulas, séria, nervosa, quase branca, mas desenrascou-se e nem olhou para trás ao entrar.
Mãe!
Leonor! Como foi?
Melhor que todas! A professora disse que só eu e a Rita fomos perfeitas.
Que orgulho! Teresa abraçou-a.
E o pai? E o Tiago?
À espera no parque.
Ainda bem. O Bolinho?
Como é que era pôr o Bolinho fora? Está no carrinho, claro!
Leonor respirou de alívio. Deu o Bolinho ao irmão era preciso partilhar o melhor com quem mais amava. Mas sentia-lhe a falta, segredo só partilhado com a mãe.
Olhando para os pais, Leonor baixou-se, sussurrou ao ursinho:
Achas que agora está tudo bem?
Bolinho só a olhava com olhos redondos, calado. Mas Leonor sentiu, cá dentro, que tinha ouvido a resposta.







