Vou viver melhor que vocês
Como é que conseguem viver assim, nesta pobreza? Margarida torceu o nariz. Olhem para isto, em vinte anos nem uma obra fizeram! E ainda se acham capazes de me ensinar a viver!
Maria Leonor deixou cair os ombros com cansaço. António Manuel pegou na chávena de café e deu um gole, sem encarar a filha. Margarida, de rosto corado de raiva, ficou parada no meio da cozinha, esperando alguma resposta dos pais. Mas o silêncio deles aumentava ainda mais a sua irritação.
O Nuno é um bom homem continuou Margarida. Vocês não sabem nada da vida!
Maria Leonor levantou o olhar, já marcado pelo cansaço.
Margarida, filha, nós não somos contra o Nuno abanou a cabeça. Só queremos que estudes primeiro, que tenhas uma base, alguma estabilidade.
Estabilidade? revirou os olhos. Como a vossa? Vinte anos neste apartamento, sempre igual, sempre a cair de velho!
Tens dezanove anos continuou Maria Leonor, já mais suavemente. Ainda é cedo para casar, entende.
António Manuel pousou a chávena e fitou finalmente a filha. Não havia julgamento naquele olhar, apenas uma tristeza profunda.
Depois constróis a tua vida, não dizemos que não retomou Maria Leonor. Só pedimos que penses, que não tenhas pressa.
Vocês só querem estragar a minha felicidade! gritou Margarida, pisando com força como fazia em criança. É só isso!
Margarida virou costas de repente e agarrou a mala que estava na cadeira do corredor. Maria Leonor levantou-se da mesa e deu uns passos atrás da filha.
Espera, Margarida estendeu-lhe uma mão.
Mas Margarida vestia com pressa o casaco, trocando as mangas e sem fazer caso da mãe.
Eu e o Nuno vamos ser felizes! Só para vos contrariar!
António Manuel levantou-se com esforço e chegou-se ao corredor, apoiando-se no batente da porta da cozinha.
Filha, tu não percebes tentou António Manuel, mas Margarida não o deixou terminar.
Eu é que vou viver bem! Vou ter dinheiro, uma vida boa, tudo o que vocês nunca tiveram! Margarida agarrou a maçaneta. Não quero ser como vocês!
Saiu porta fora, atirando-a com força atrás de si. O último som que Margarida ouviu foi o suspiro da mãe e o som abafado de algo a cair no chão
Desceu as escadas sem olhar para trás, cada passo reforçando a sua convicção de estar certa
Quatro anos depois, Margarida estava de novo diante daquela porta antiga, com a tinta a descascar. Segurava com força a mão pequena do João, o filho de três anos, que olhava curioso para aquela casa desconhecida. Margarida levantou a mão, pronta para bater à porta, mas não conseguiu. Os dedos, inseguros, pararam no ar. Deu por si incapaz de ser corajosa. João puxou-lhe pela mão, esperando uma explicação.
Mamã disse João, balançando de um pé para o outro.
Margarida olhou para o filho, depois para a mala gasta, com uma roda a cair, a seu lado. Era tudo o que lhe restava dessa antiga vida e das promessas exuberantes que fez. Não via nem falava com os pais havia quatro anos. Sempre julgou estar acima deles, mais forte, mais inteligente. Agora, ali estava, rosto marcado pelas lágrimas e os sonhos desfeitos
Por fim, bateu três vezes. O toque foi hesitante, nada parecido com o estrondo de há quatro anos. Do outro lado, passos apressados, como quem já aguardava, e a fechadura rodou. Maria Leonor abriu a porta e ergueu uma sobrancelha, surpresa. A mãe estava mais velha, as rugas e o cabelo grisalho não enganavam ninguém.
Maria Leonor fitou o rosto da filha lavado em lágrimas, com rímel borrado. Viu também o menino agarrado à perna da mãe e a mala gasta atrás deles. Um olhar de compreensão passou-lhe nos olhos. Não perguntou nada, não lembrou mágoas antigas. Apenas se colocou de lado e deixou filha e neto entrarem em casa.
Ao passar o limiar, Margarida reparou que tudo estava igual, só mais desbotado. A mesma estante no hall, o mesmo cheiro a comida caseira que tanto desdenhou. João olhava tudo com espanto miúdo.
João, vai ali à sala ajoelhou-se Margarida junto ao filho. Há lá brinquedos, vai ver, pode ser que gostes.
Margarida apontou o caminho e João encaminhou-se obediente para o corredor. Ela endireitou-se e voltou-se para a mãe, parada ali, calada.
Tentou explicar-se, encontrar justificações, mas não havia explicações, só uma verdade dolorosa e as ilusões partidas. Avançou devagar e, em silêncio, caiu nos braços da mãe. Chorou rápida e violentamente, desabando no ombro materno com cheiro ao mesmo detergente de sempre.
Mãe soluçava Margarida, sem conseguir parar. Perdoa-me, mãe.
Maria Leonor abraçou-a, passando-lhe as mãos nas costas como fazia quando era pequena. Margarita chorou a infância, o casamento falhado com alguém que mal conhecia, o orgulho e o vazio que esconderam tanto ressentimento dos pais.
Tinhas razão disse por fim, rosto molhado, olhando a mãe. Tu tinhas razão em tudo.
Maria Leonor apenas apertou a filha mais.
Anda, vamos à cozinha. Faço um chá.
Margarida assentiu, limpou os olhos e sentou-se no seu antigo lugar à janela. Maria Leonor pôs a chaleira ao lume e tirou as chávenas do armário. Margarida olhava para ela, a pensar no tempo perdido longe.
Onde está o pai? balbuciou, notando a ausência.
O pai está a trabalhar respondeu Maria Leonor, pousando a chávena à frente da filha. Não deve demorar.
Margarida sentiu um nó na garganta, sem saber o que fazer com as mãos.
Disse-vos coisas horríveis… sobre serem pobres, sobre a casa…
Maria Leonor sentou-se em frente e cobriu-lhe a mão com a sua.
O importante é teres voltado apertou-lhe os dedos. O resto não conta.
Ele traiu-me, mãe confessou Margarida, chorando de novo. E depois pôs-me na rua, como se nada fosse.
Maria Leonor acariciou-lhe a cabeça, como dantes.
E eu acreditava nele fungou Margarida. Agora, como é que acabo o curso? Como recomeço, sozinha, com um filho?
Maria Leonor abraçou-a apertado.
Vamos arranjar uma solução, Margarida. Juntas ultrapassamos isto. Pode demorar, mas vamos conseguir…
…Os meses passaram desde o regresso à casa dos pais. Os sonhos de luxo desfizeram-se em pó. Sentada a um canto da pastelaria do bairro com duas amigas, Margarida escutava-as trocar confidências amargas. A Sílvia rodava a chávena de café vazia, carrancuda. O Tiago deixara-a e ficara-lhe com dívidas.
Os cobradores ligam todos os dias queixou-se Sílvia. E ele foi embora para Coimbra.
Margarida assentiu e olhou para a outra, a Beatriz, que criava a filha sozinha porque o namorado nunca chegara a casar.
O meu foi-se embora sem dívidas, ao menos isso disse Beatriz com um sorriso triste. Só não quis responsabilidades.
O meu parecia pronto para tudo amargurou Margarida. Só era responsável com outra mulher.
Sílvia soltou uma gargalhada amarga.
Que parvas que fomos encostou-se para trás. Pensávamos que tínhamos encontrado príncipes.
E saíram-nos palhaços de feira rematou Beatriz.
Margarida escutava, sentindo uma afinidade dolorosa. Três mulheres jovens, sonhos despedaçados, à mesa de uma pastelaria barata a acariciar mágoas.
Chega de lamúrias bateu Sílvia na mesa. Vamos pedir um pastel de nata.
Margarida sorriu ao levantar a mão para chamar o empregado, grata por aquele pequeno sossego dos seus pensamentos pesados.
À noite, no regresso a casa pelas ruas do bairro, Margarida abriu a porta do apartamento de sempre. Dos fundos vinha o riso de João e vozes familiares.
De mansinho atravessou o corredor e espreitou à porta da sala. António Manuel estava no chão a construir torres de blocos de madeira. João batia palmas, em êxtase, sempre que a torre crescia mais. Maria Leonor, na poltrona com as malhas, sorria-lhes.
Margarida ficou a observar, presa àquela imagem. Recordou o desprezo que sentira pela casa modesta, pelos pequenos prazeres de família. Recordou como batera a porta, convencida de que seria diferente.
E agora via o que nunca enxergara através do seu orgulho cego. Maria Leonor e António Manuel estavam juntos há trinta anos, enfrentando tudo. Passaram crises, desemprego, doença e perdas. Tinham um apartamento pequeno, velho, mas era deles. Tinham sempre trabalho, sempre uma casa para todos.
Os pais não iam ao Algarve todos os anos, nem compravam carros novos. Mas eram uma verdadeira família, unidos independentemente das circunstâncias.
Margarida estava agora sozinha, com um filho nos braços e o coração partido. O orgulho ainda a roía por dentro, tentando negar o óbvio. Insistia que eram só dificuldades passageiras, que ainda ia triunfar. Mas, finalmente, Margarida aceitou aquilo que lhe custava tanto admitir.
A derrotada não era a mãe, com a casa humilde. Nem o pai, com o blazer velho. A verdade é que a derrotada era eu, que fui atrás das aparências e perdi tudo.
Hoje sei que a felicidade está onde há amor e união, e que o resto não vale tanto como pensava.







