Eu Sei Melhor: Uma História de Alérgenos, Conflitos Familiares e a Busca pelo Bem-Estar da Pequena S…

Eu sei melhor

Mas o que é isto… suspirei, agachando-me à frente da minha filha, a observar as manchas rosadas nas suas bochechas. Outra vez

A Leonor, com apenas quatro anos, ficava imóvel no meio da sala, paciente e incrivelmente séria para a idade. Já estava habituada a estes exames, aos rostos preocupados dos pais, às pomadas e comprimidos sem fim.

A minha mulher, Filipa, aproximou-se e agachou-se ao meu lado, afastando com cuidado uma madeixa de cabelo do rosto da Leonor.

Estes medicamentos não servem para nada. Parecem água, sinceramente. E os médicos no centro de saúde nem sei se lhes posso chamar médicos. Mudaram a medicação pela terceira vez e nada mudou.

Levantei e esfreguei a ponte do nariz. Lá fora, o céu estava cinzento, o dia prometia ser tão apagado como os anteriores. Saímos rapidamente embrulhámos a Leonor num casaco quente, e meia hora depois já estávamos sentados em casa da minha mãe.

A avó, Dona Alice, suspirava, abanava a cabeça e acariciava as costas da neta.

Tão pequenina e já toma tantos remédios. Isto é muito agressivo para o corpo sentou Leonor ao seu colo, e ela, já habituada, encostou-se à avó. Dá mesmo pena ver isto.

Nós não queremos continuar assim… Filipa sentou-se na ponta do sofá, dedos apertados. Mas a alergia não passa. Já retirámos tudo, mesmo tudo. Ela só come alimentos básicos e mesmo assim aparece a tal borbulha.

E os médicos? O que dizem?

Nada em concreto. Não conseguem localizar o problema. Fazemos análises, experiências, e… Filipa fez um gesto de desânimo. Olhe para o resultado, aqui está. Nas bochechas.

A Dona Alice suspirou e ajeitou o colarinho da Leonor.

Espero que seja destas coisas que passam com a idade. Há crianças que depois melhoram. Mas agora, de facto, não há consolo.

Olhei para a minha filha em silêncio. Tão pequenina, tão magra. Os olhos enormes e atentos. Passei-lhe a mão pela cabeça, e lembrei-me da minha infância dos pastéis que a minha mãe fazia aos sábados, dos rebuçados que pedia, dos doces que comia às colheradas. E ela… Legumes cozidos. Carne cozida. Água. Sem fruta, sem doces, nada daquilo que imagino para uma criança. Quatro anos e uma dieta mais rigorosa que qualquer pessoa com úlcera.

Já não sabemos o que mais retirar disse suavemente já quase não há nada.

Voltámos a casa em silêncio. Leonor adormeceu no banco traseiro, e não conseguia deixar de olhar para ela pelo espelho. Dormia tranquila. Pelo menos não se coçava.

A minha mãe ligou disse Filipa quer que a Leonor vá lá no fim-de-semana. Tem bilhetes para o teatro de marionetas, quer levar a neta.

Ao teatro? mudei de mudança. É bom. Que se distraia.

Também pensei nisso. Faz-lhe falta animar-se.

No sábado, estacionei à porta da casa da minha sogra, tirei Leonor do banco de criança. Ela piscava os olhos, esfregava-os com os punhos levantámo-la cedo, estava sonolenta. Peguei nela ao colo e encostou-se logo ao meu pescoço, quente e leve como um passarinho.

A Dona Rosário surgiu à porta de casa, com um robe colorido, e abriu os braços como se tivesse visto uma náufraga.

Ó minha querida, minha estrelinha! acolheu a Leonor, apertando-a contra o peito. Tão pálida, tão magra. Vocês estão a acabar com a criança com essas dietas, não tem saúde nenhuma.

Enfiei as mãos nos bolsos, controlando a irritação. Sempre a mesma conversa.

Fazemos isto pelo bem dela, como sabe.

Que bem? a sogra apertou os lábios, olhando para a neta como se tivesse regressado de um campo de concentração. Está pele e osso. A criança precisa de crescer, e vocês deixam-na quase a passar fome.

Ela levou Leonor para dentro, nem olhou para trás, e ouvi a porta fechar suavemente. Fiquei ali parado no alpendre. Algo inquietante rondava no fundo da minha cabeça, uma suspeita nascida mas esquiva, como neblina matinal. Esfreguei a testa, ouvi o silêncio do quintal, depois fui para o carro.

Um fim-de-semana sem filha é um vazio estranho, quase esquecido. No sábado, fomos ao supermercado, enchemos o carrinho de compras para a semana.

Em casa, passei a tarde a consertar a torneira da casa de banho que pingava há meses. Filipa arrumava os armários e separava roupa velha para deitar fora. Rotinas domésticas banais, mas sem a voz da Leonor, o apartamento parecia errado, demasiado silencioso.

À noite, pedimos pizza daquelas com mozarela e manjericão, que a Leonor não pode comer. Abrimos uma garrafa de vinho tinto. Conversámos na cozinha, sobre trabalho, férias, as obras eternamente adiadas.

Que alívio… disse Filipa, e logo se calou, mordendo o lábio. Quer dizer… percebes. Só está… tudo calmo.

Percebo coloquei a mão sobre a dela. Também sinto saudades. Mas fazer uma pausa sabe bem.

Domingo fui buscar a Leonor ao fim da tarde. O sol punha-se, tingindo as ruas de laranja. A casa da sogra estava escondida entre macieiras antigas, aconchegada pela luz dourada.

Saí do carro, empurrei o portão rangente, e parei.

No alpendre estava a minha filha. Sentada ao lado da Dona Rosário, que sorria de felicidade desmedida. E na mão tinha um pastelão. Grande, dourado, brilhante de azeite. E a Leonor comia-o com vontade, bochechas sujas, migalhas no queixo, os olhos radiantes como há muito não via.

Fiquei a olhar, petrificado. Depois, a raiva subiu-me ao peito, quente e amarga.

Corri, cheguei em três passos, arranquei o pastel da mão da sogra.

Mas o que é isso?!

Dona Rosário recuou, envergonhada, o rosto afogueado de vergonha.

É só um pedacinho… balbuciou, gesticulando. Ora, um pastel não faz mal

Não ouvi mais nada. Peguei na Leonor ela agarrou-se ao meu casaco, assustada levei-a ao carro. Sentei-a no banco, apertei-lhe o cinto. As mãos tremiam de raiva. Ela olhava-me assustada, quase a chorar.

Já está, querida disse, acariciando-lhe o cabelo, tentando soar calmo. Fica só um bocadinho, o papá já vem.

Fechei a porta e voltei à casa. Dona Rosário estava parada, mexendo inquieta no robe.

Ricardo, não entendes

Não entendo?! detive-me diante dela, e desabafei. Seis meses! Seis meses sem sabermos o que se passava com a Leonor! Exames, análises, testes, já viu quanto dinheiro isto custou? Quantas noites sem dormir?

A sogra afastou-se da porta.

Eu só queria ajudar…

Ajudar?! avancei. A mantemos com água e frango cozido! Retirámos tudo do menu! E você, em segredo, dá-lhe pastéis fritos?!

Estava a fortalecer-lhe a imunidade! engrossou a voz, olhos arregalados. Aos poucos, para o corpo habituar. Logo passava tudo, por minha causa! Eu sei o que faço, criei três filhos!

Olhei para ela e nem a reconhecia. Anos de paciência só pela paz familiar e pela minha mulher e ela fazia mal propositadamente à minha filha, achando-se mais esperta que médicos.

Três filhos, pois… murmurei, e ela empalideceu. Mas as crianças são todas diferentes. E a Leonor não é sua, é minha. E não a vê mais.

Quê?! ela agarrou-se à grade. Não podes fazer isso!

Posso.

Virei costas e fui para o carro. Ouvi os seus gritos atrás de mim, mas não olhei. Liguei o motor, vi a figura dela no espelho do carro, aos gestos na rua. Acelerei sem hesitar.

Em casa, Filipa esperava-nos no corredor. Viu a minha expressão, a filha chorosa e percebeu tudo sem uma palavra.

O que aconteceu?

Contei-lhe. Seco, rápido, sem sentimento já me tinha esgotado emocionalmente ali atrás. Filipa ouviu sem falar, o rosto fechando-se de raiva, e pegou logo no telemóvel.

Mãe. Sim, já ouvi. Como foste capaz?

Levei a Leonor para o banho para lavar os restos de pastel das bochechas e das lágrimas. Ouvi a voz da Filipa, dura como nunca a ouvi. No fim, veio um firme: Enquanto não houver solução para as alergias, não vês a Leonor.

Passaram-se dois meses…

Os almoços de domingo na casa da Dona Alice tornaram-se tradição. Hoje havia bolo à mesa: pão-de-ló, com creme e morangos frescos. E a Leonor comia, já sozinha, de colher na mão, toda lambuzada. E nem um sinal nas bochechas.

Quem diria… Dona Alice abanou a cabeça. Azeite de girassol. Uma alergia raríssima.

O médico disse que só acontece a um em mil Filipa barrava pão com manteiga. Assim que trocámos para azeite de oliva, em duas semanas tudo passou.

Não me cansava de olhar para a Leonor. Bochechas coradas, olhos brilhantes, creme no nariz. Uma criança feliz, finalmente a comer comida normal. Bolos, biscoitos, tudo feito sem óleo de girassol. Afinal, não faltavam opções.

Com a sogra, ficou-se pelo frio. Dona Rosário ligava, pedia desculpa, chorava. Filipa mal falava com ela. Eu, cá, não falava de todo.

Leonor espetou novamente a colher no bolo, e Dona Alice puxou-lhe o prato.

Come, minha pequena. Come à vontade.

Recostei-me na cadeira. Lá fora chovia, mas dentro da casa era quente e cheirava a pão acabado de sair do forno. A minha filha estava finalmente bem. O resto era secundário.

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