Este sem-abrigo salvou a minha vida com um simples aviso

Sabes, às vezes passamos por pessoas sem abrigo nas ruas e nem lhes olhamos nos olhos. Damos umas moedas, só para aliviar a consciência, mas esquecemo-nos logo delas. Mas já pensaste que, se calhar, alguém que consideramos invisível pode ser a única pessoa a ver o perigo que se aproxima de nós?

Olha, isto aconteceu mesmo à Matilde, uma rapariga comum que trabalha num escritório e cuja vida mudou num instante.

Primeiro, foi só um gesto daqueles que nem se pensa. O dia estava a ser uma correria. A Matilde ia à pressa, como sempre. Naquele banco do jardim estava o Sr. Joaquim, um sem-abrigo de barba branca, que ela via ali todos os dias. Nesse instante, a Matilde, sem saber bem porquê, deixou-lhe um folhado de fiambre e umas moedas de euro no colo. O Joaquim só acenou com a cabeça e ficou a olhar para ela com aquele ar entre o sábio e o triste.

Quando anoiteceu, a rua já estava quase deserta. A Matilde ía distraída, a mexer no telemóvel, a ver as notícias. Ia passar pelo banco, quando o Sr. Joaquim se levantou de repente, a tremer e com um ar assustador. Barrou-lhe o caminho.

A Matilde recuou logo, agarrada à mala, convencida de que ele lhe vinha pedir dinheiro outra vez.
Ó homem, hoje não tenho mesmo moedas, desculpe.

Mas ele abanava a cabeça com força. Agarrou-lhe o braço do casaco e sussurrou, quase a medo:
Não é dinheiro! Não vás para casa agora.

A Matilde tentou livrar-se dele, completamente em pânico.
Por favor, largue-me, você está a assustar-me!

Mas ele não a largou. Apontou com o dedo a janela do prédio dela, ali em frente.
O homem que tens visto por perto de manhã… Vi-o agora entrar em tua casa com uma chave, há cinco minutos!

Ela ficou gelada. Um arrepio percorreu-lhe o corpo todo. Olhou, muito devagar, para as janelas do seu terceiro andar. Ao mesmo tempo, a luz da sala, que ela se esqueceu de apagar de manhã, apagou-se mesmo ali e viu uma sombra a passar. Tapou a boca com a mão para não gritar.

O Joaquim não perdeu tempo. Sussurrou-lhe ao ouvido:
Não faças barulho. Vai já embora. Liga para a polícia!

A Matilde pegou no telefone, tremendo, e ligou para o 112. Enquanto explicava tudo à senhora da emergência, o Joaquim ficou ao lado dela, de guarda.

Sete minutos depois que mais pareceram sete horas chegaram duas carrinhas da PSP, a chiar. Os polícias correram para dentro do prédio. Passados dez minutos, trouxeram cá para fora um homem algemado. A Matilde quase desmaiava: era o estafeta que lhe entregava comida todas as semanas há meses. Tinha no bolso um molde da chave dela e uma navalha.

Quando tudo acalmou, a Matilde virou-se para o Joaquim, para lhe agradecer. Ele já estava sentado outra vez no banco, a olhar para nada.

Como é que percebeu? perguntou a Matilde de lágrimas nos olhos.
Quando se passa o dia todo no mesmo sítio, nota-se tudo. Ele andava a observar-te há quase um mês. Hoje, vi-lhe uma coisa estranha no olhar.

A Matilde não ficou só pelo agradecimento ajudou o Joaquim a ter uma cama quente num abrigo e ainda lhe pagou consultas no centro de saúde. Aprendeu que não se deve julgar uma pessoa pelo aspeto. Às vezes, o nosso anjo da guarda é quem menos esperamos.

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Este sem-abrigo salvou a minha vida com um simples aviso