Este é o filho do Igor…

É filha do Gonçalo…

Tudo isto aconteceu há pouco numa zona moderna de Lisboa, num apartamento bem arranjado no quarto andar de um prédio de nove pisos. Ali vivia uma jovem reformada trabalhadora, uma mulher sozinha chamada Bernardina.

A sua vida não prometia grandes aventuras ou acontecimentos extraordinários. Rotina tranquila: reforma, o emprego em part-time, amigas, visitas aos netos e ajudar a mãe idosa, que morava sozinha.

Aquele dia não foi exceção.

Logo de manhã, Bernardina telefonou à mãe para saber como se sentia.

Um dia vulgar. Era fim-de-semana. Ela trabalhava num consultório privado, fazendo atendimento telefónico e marcações em turnos prolongados de 24h de cada três dias. Nesse dia… Ora, preparar algo para a mãe e ir até lá o ritual de todos os dias. Para dizer a verdade, já um pouco cansada disso, suspirava enquanto revirava os olhos.

Ir até lá era só atravessar dois prédios. Sem problemas… Cozinhar também não era um drama, até porque restava borrego assado do dia anterior e bolinhos. O pior era o quinto andar da mãe, sem elevador… Santo Deus!

E ainda havia as constantes lamúrias da mãe. Ouvir os relatos dos picos e ondas das dores por todo lado era deprimente. Não era preciso decidir nada, porque os médicos já tinham diagnosticado de tudo, e a própria mãe reimaginava e misturava sintomas com histórias das vizinhas e conselhos tirados de alguma doutora famosa da TV portuguesa.

Os conselhos da filha eram sempre desvalorizados, como coisa de quem nada sabe do assunto, mesmo que Bernardina tivesse passado quase quarenta anos como enfermeira num bloco operatório reputado.

Ó rapariga, mas tu percebes lá! Só sabes entregar instrumentos!

Enfim, dia como outro qualquer.

E ainda faltava passar na mercearia a caminho. Pousou o saco do lixo no hall da entrada, foi ao espelho retocar a maquilhagem. Apesar dos mais de sessenta anos, parecia nova só uns leves pés-de-galinha nos olhos. De resto, rosto simpático, cabelo curto e grisalho, brincos grandes. Talvez as bochechas fossem um pouco mais descaídas…

“Pão de centeio para a mãe, e manteiga… não posso esquecer”, pensava, desenhando os lábios com lápis, interrompida pelo toque da campainha.

O prédio tinha vídeo-porteiro. Quem seria a esta hora? Talvez a vizinha, Dona Belmira, que ela convidava ocasionalmente para um chá.

Bernardina, com o baton ainda na mão, abriu a porta.

Diante dela estava uma rapariga morena, cabelo preso, t-shirt às riscas, casaco longo e jeans largas, mochila às costas. Só mais tarde Bernardina recordou todos os detalhes. No momento só viu a pressa no rosto da jovem e um bebé embrulhado num cobertor castanho.

Olhos semicerrados, queixo tenso, respiração funda, a rapariga entrega o embrulho sem cerimónia:

É para si!

Bernardina recebeu o bebé por instinto baton numa das mãos. Sentiu o peso, baixou o olhar… Meu Deus, uma criança!

Quando voltou os olhos para a rapariga, esta já descia a correr.

Bernardina ainda deu dois passos atrás.

É filha do Gonçalo, eu tenho de estudar… gritou a rapariga enquanto descia apressada.

A porta do rés-do-chão bateu.

E foi só isto…

Bernardina ainda ficou um pouco perplexa no patamar, à espera que a rapariga regressasse. Depois, entrou de volta em casa, olhou para o saco do lixo e, por estranho que pareça, pensou: “Quando for à minha mãe, não me posso esquecer do lixo.

No hall havia agora outro saco, que ela nem tinha reparado quando a jovem o pôs.

Só mais tarde lhe caiu tudo na real…

Santo Deus! Isto é… uma criança viva! E que tinha dito? Filha do Gonçalo?

Tinha a certeza de ter ouvido “Gonçalo”. Mas Gonçalo quem? O filho dela chamava-se Rafael. Era casado, dois filhos, morava em Coimbra com a família. Bernardina ficara em Lisboa. O marido, Augusto, falecera há cinco anos.

Nada fazia sentido… E a bebé mexeu-se nos braços dela. Ui!

Depressa pousou a bebé no sofá e abriu o cobertor: um conjuntinho de tricot bege, minúscula, com uma chupeta em forma de lagartinha. Nem teria um mês.

Oh, pequenina… murmurou, acariciando-a suavemente, e a bebé, satisfeito, tornou a dormir.

Bernardina procurou explicações no saco: duas biberons, uma lata de leite, fraldas e roupinhas.

Ainda esperou. Achava que a rapariga bateria à campainha, pediria desculpa e tudo voltaria ao normal: lixo, mercearia, mãe…

Até terminou de pintar os lábios e foi ver à janela.

Mas… quem seria aquela rapariga?

A bebé acordou e Bernardina ficou ali especada.. Devia tratar da fralda? Alimentar? Não tinha direito, era uma estranha, mas… não podia ignorar. Aproximou-se da janela, continuou à espera.

Mas lá teve de despir o fato. Por baixo, uns collants, uma camisinha.

Era menina.

Só aí caiu sobre Bernardina o peso da responsabilidade. Tinha-lhe sido deixada uma menina!

Gonçalo… Gonçalo…

E se…!

O filho dela gostava de namoricos na juventude. Quantas vezes o tinha repreendido por trocar de raparigas como quem muda de camisa! Chegou a levá-las a casa, chatice. Mas isso era passado, antes do casamento.

Parecia estar bem no matrimónio. Sim, há sempre preocupações com o negócio, a família, mas estavam estáveis livraram-se do empréstimo da casa, compraram carro novo, os filhos cresceram…

Não chores meu coração, já te mudo a fraldinha…

Deus do céu! Será que a mãe abandonou esta pequena?

A cabeça ainda não aceitava, mas os braços automatizaram Bernardina trocou a fralda com destreza, agasalhou a menina, pegou nela ao colo e foi para a cozinha preparar o biberon.

Nesse instante, o telefone tocou. Com uma mão, atendeu.

Então, por que não atendes? era a mãe.

Estava ocupada, mãe.

Já foste à mercearia?

Ainda não.

Traz-me peras, mas não das que trouxeste da última vez, quero das anteriores. Aquelas de abacate afilado e uma mancha encarnada. Mas certifica-te de que são macias!

Está bem, mãe.

Sabes comprar as certas?

Sei, sei. Lembro-me.

A bebé brincava nos braços, resmungava baixinho.

Pronto, mãe, vou ver. Adeus.

Mas o que se ouve aí?

É a televisão…

Desliga isso, vai já comprar o pão, que depois não tens!

Desligando, embalou a bebé, leu as instruções na lata de leite. Afinal, tinha de decidir.

E quanto a Rafael?

Final de maio. Então… Bernardina começou a contar os meses.

Pois no verão ela sabia que o Rafael tinha estado numa conferência em Viseu. Terá usado nome falso, Gonçalo? Seria possível?

Se foi só um caso de passagem, talvez. Para Bernardina, o filho parecia impecável, mas quem sabe?

Testou o leite no pulso quente demais, arrefeceu debaixo da torneira.

A mão já doía de segurar a menina. Não tinha mais força já não estava habituada a bebés! Chegou a cuidar de sobrinhos de 9 quilos, mas agora…

O que fazer? Ligar para a polícia, número de emergência? Mas… e se era filha do Rafael? Olhou atentamente. Tinha algo da neta Matilde…

Se fosse, então ia haver escândalo: a nora, Joana, não perdoava. E depois, os netos?

Que confusão…

Toma lá, meu amor. Que bem mamas…

A menina deliciava-se, olhos quase a fechar de contentamento. Bernardina enterneceu-se: que ternura, talvez tinha até saudades de bebés pequenos.

Quando ela dormiu, Bernardina deitou-a no sofá e foi ligar ao filho. O número estava indisponível.

Bem…

Decidiu esperar. Não queria meter o filho em apuros, e ainda esperava que a rapariga voltasse atrás. Não parecia marginal só uma miúda frágil, com ar de estudante.

Ah… à mãe não devia contar nada. Se começasse, teria longas horas de desgraça, previsões trágicas, conselhos aterradores.

Ligou ao neto mais velho, Simão, e soube que o pai tinha ido trabalhar fora de Lisboa, para um sítio em Trás-os-Montes sem rede. Só dali a dois dias voltaria. Mas à noite ligava à mãe, tudo bem.

Credo, Simão, podiam avisar-me! protestou Bernardina.

Apesar de tudo, percebia: Rafael viajava muito e não tinha de relatar todos os passos a ela. Mas, desta vez, bem precisava de falar com ele. Ligou então à nora, pedindo para lhe dizer que esperava o telefonema do marido.

Aconteceu alguma coisa? perguntou Joana.

Não, nada. Só queria muito falar com ele. Por favor…

Joana prometeu.

Depois mentiu à mãe ao telefone: Torci o tornozelo, hoje não vou passar aí, mãe, mas tens sopa e pão suficientes.

A mãe lamentou, fez perguntas, ameaçou ir ela carregar o cesto (mas cinco andares…), telefonava cinco vezes seguidas cheia de nervoso.

Bernardina, aliviada, tirou as calças brancas, vestiu roupa de casa, e sentou-se junto à bebé. Olhava para ela e pensava, devagar: Se calhar, não estava bem da cabeça quando aceitou a menina. Afinal, também largavam bebés à porta de estranhos. Podia ser igual.

Então, por que não ligava à polícia e tirava o assunto dos ombros?

Primeiro, por medo que fosse filha do filho (mesmo que não era Gonçalo). E se ele enganara uma rapariga? Segundo, não lhe apetecia nada ir à esquadra, explicar o inexplicável. Em terceiro lugar, não tirava a miúda da cabeça o olhar dela, entre o desespero, a raiva e a convicção.

Mas precisava de conselho. Quem melhor que a amiga de sempre?

Graça, vais-te passar: deixaram-me uma bebé…

Graça, calma, indagou como uma detetive astuta, prometeu passar lá em casa depois do trabalho.

Não vamos entrar em pânico, Bern. Primeiro, descobre quem é o Gonçalo.

Achas que não devia ligar à polícia?

Espera. Pode ser erro de porta.

Gonçalo? Mas qual? Nove andares, não conheço os vizinhos todos!

Pois. Pesquisa. O teu Rafael também não é flor que se cheire! Tenta falar com ele.

O resto do dia passou rápido, ocupada com a menina. Bernardina foi ler sobre bebés na internet, tentou massagens, banho, fez tudo como ensinavam. Deu música, mudou a fralda, voltou a acarinhar.

E a dor no pé, já passou? Amanhã consegues vir cá? perguntava a mãe.

Bernardina dizia que sim, amanhã estaria tudo resolvido.

Quando Graça chegou, iniciou as investigações. Foi ver o saco, as roupas, bateu a porta dos vizinhos: não falou em criança, mas em carta para um Gonçalo…

Já sei! anunciou ao fechar a porta com um estrondo.

Mais baixo! Acabou de adormecer a pequenina!

Eles nesta idade não acordam por tudo… espreitou para dentro. Mas a bebé acordou e chorou. Encontrei! Há um Gonçalo no sexto andar, no mesmo lado do prédio.

Deve ter trocado o andar, só pode, foi erro! sussurrou Graça excitada. Vamos!

Fazer o quê?

Falar com o homem, claro. Descobrir a verdade.

E se ele nos escorraça?

Pressionamos, desenrola-se…

Graça, é de loucos. Ele vai pensar que fugimos à casa de repouso…

Queres ou não saber?

Quer, claro.

Subiram as escadas silenciosas, tocaram à campainha.

Quem é? voz envelhecida.

É para falar com o Gonçalo, respondeu Graça.

A porta abriu-se, apareceu uma velhota encolhida, olhar desconfiado. Chamou, Gonçalo! É para ti!

Graça entrou, Bernardina ficou no hall. Da sala saiu um rapaz de barba, baixo, ar atordoado.

Vêm pelo computador?

Pelo quê? Não, viemos por uma questão diferente. Olhe, a Bernardina ficou hoje com um bebé… que disseram ser filha do Gonçalo.

Silêncio. Ele olhava de uma para a outra.

Bebé? Não é meu jurou de olhos arregalados.

Só pode ser. Neste prédio só há um Gonçalo!

Mas eu nem tenho filhos, protestava ele aflito.

Até pode negar, mas bebes não caem do céu! insistia Graça.

Eu? Mas… Acho que se me tivesse acontecido, saberia!

Rapaz, teve alguma amiga especial no verão passado? perguntou Bernardina, mais suave.

Namorada? Só mesmo virtual. Estão a confundir-me, desculpe.

Não sabe o nome da rapariga? Bernardina ficou triste. Pois não, esqueceu-se de se apresentar…

Começaram a descer.

Se quiserem, posso ajudar? Sou youtuber, posso fazer um apelo, pôr a foto da bebé… publicamos! sugeriu Gonçalo, os olhos a brilhar.

Não, obrigada… É mais complicado. Temos de seguir pelo lado legal.

Pena. Se mudarem de ideias, estou sempre em casa. Trabalho online…

Juventude… abanava Graça a cabeça, Achas que mentiu?

Não… vê-se que é caseiro, nerd qualquer. Não é daquele tipo.

Bernardina continuou sem notícias do filho, ligou à nora.

Ai, esqueci, mãe! Tanta coisa, a Matilde com a natação, o Simão com o futebol… e o Rafael até já telefonou entretanto… Este dia foi uma loucura!

Se ao menos ela soubesse…

“Pronto, amanhã ligo à polícia!”

Mas, mal se deitou, surgia na mente aquela rapariga, o olhar misto de medo e esperança. O que espera agora àquela bebé, se ligar amanhã para a polícia?

A noite foi inquieta. Bernardina acordava com qualquer rumor da menina, andava com ela nos braços pela sala, preparava leite. Só de madrugada adormeceram as duas.

De manhã, tocou o telefone, era a mãe:

E o pé, filha, vais conseguir vir?

Bernardina olhou a menina, a janela.

Vou sim, mãe.

Traz-me as peras, e se vires bom queijo fresco…

Pois claro que os bebés precisam apanhar ar. Fez uma espécie de sling de cachecol, vestiu a menina, e no caminho sentiu um estranho prazer de fazer compras acompanhada nem que fosse por um sonho estranho.

Só que… o quinto andar dos infernos.

O que é isso? a mãe abriu muito os olhos.

Não é “o que”, é quem. Toma as compras Bernardina lhe despachou os sacos, e foi pousar a pequenina no sofá.

De onde vem essa menina?

A Nésia da pastelaria pediu-me para tomar conta da neta enquanto fazia madeixas. É só por uma hora.

E o pé?

Já está melhor.

Admiravam a bebé, sem lamentos sobre doenças e mais doenças.

Viste só como agarra o dedo! Oh, linda! Que nome tem esta princesa?

Não perguntei. Vim só para uma horita, nem me lembrei.

Assim não se faz, Bernardina! Trazer crianças sem saber o nome, tss…

E Bernardina saía dali a escolher nomes para a menina, sem saber porquê, mas com vontade enorme de adivinhar o nome que lhe teria dado a mãe.

Chegando a casa, recebe finalmente mensagem do filho: disponível!

Sentou-se com a menina ao colo, ligou:

O quê, mãe? Estás a brincar? Sou casado! exclamou Rafael após o relato desordenado.

Mas deixaram-na aqui, percebes? Podia ser tua!

Oh, mãe… eu sou o Rafael! Foste tu que me deste este nome… Vai à polícia, por favor! Ou vou eu!

Já vou. Mas ela tem fome, preciso só de mais um biberon…

Mãe, anda… Já estou a preocupar-me a sério!

Calma, filho… Deixei-me levar, é só isso. É uma bebé extraordinária…

Devias era ter ficado com o filho do Joaquim, se querias uma criança! Estou a falar a sério, mãe…

Parvoíces. Já resolvo isto hoje. Graça está a ajudar-me.

Não hoje, AGORA!

Mas Bernardina não obedeceu. A miúda voltou a chorar, trocar a fralda, havia sempre coisas a fazer… Depois liga a Graça, e então…

Suspiro. Ia ter de entregar a menina, mas depois para onde? Haviam de levar para uma instituição. Ela, como enfermeira, conhecia as casas analisava mentalmente cada hipótese, e todas pareciam piores que aquela sala, com sol e tranquilidade.

Mas amanhã ia trabalhar era certo. E, claro, era crime guardar uma criança alheia…

O filho, por fim, tinha razão.

Tomando conta da bebé, pensava: que dias intensos, tão estranhamente cheios! Adormeceu, a menina adormeceu esbaforida, ambas coladas sob a mesma manta, mão apertada na dela.

Foram acordadas pelo toque insistente da campainha.

Bernardina, a meio do sono, foi ver pelo óculo e gelou. Abriu.

Onde está ela? Onde a entregou? Porque não disse logo a verdade?

Na porta, alquebrada, estava a mesma rapariga, visivelmente em choque, em trajes leves apesar do frio, cabelo despenteado, respiração ofegante.

Porque não disse logo que não era a mãe da miúda? quase gritava a jovem.

Se calhar porque sou. Ou então, você fugiu tão depressa…

Pronto! Mas sabe dela, não sabe? Por favor, diga-me que sabe!

O olhar pedia “por favor, ajude!”

Bernardina recuou.

Entre, por favor.

A rapariga só queria saber para onde levaram a filha. Não esperava ser recebida ali, não percebia. Mas, ao ver a criança deitada, ficou paralisada, caiu de joelhos, chorou convulsivamente no tapete, soluçou até Bernardina ter de a colher na cozinha, dar-lhe água e um pouco de chá.

Toma um quadradinho de chocolate, ou cais para o lado!

Entre lágrimas, a verdade: o nome da moça era Marizélia, a bebé, Benedita.

História banal, igual a tantas. Marizélia era de um vilarejo perdido no interior do Alentejo. Apaixonou-se perdidamente no verão pelo Gonçalo, estudante em Lisboa, que prometeu casamento, prometeu uma vida. Foram juntos, uma só vez, ao apartamento 21. Gonçalo nunca negou o filho, fez juras de apoio.

Com o tempo calou-se. Mudou de número, transferiu-se para o Porto, ninguém no prédio sabia outra morada.

Em casa, o pai chamou-a nomes, pôs-na fora de casa. Só uma tia lhe deu um apoio mínimo, mas não podia sustentar a sobrinha com filha às costas. Marizélia queria terminar o curso de enfermagem, como Bernardina aliás tinha feito há mil anos, no velho Instituto de Saúde de Lisboa.

Depois, nada. A amiga pediu que deixasse o apartamento, as economias sumiram, e ela, esgotada, só conseguia pensar na promessa: “A minha mãe vai ajudar.” Assim, com a cabeça tomada de vazio, foi até ao prédio mas trocou o bloco, nos bairros iguais ao lado.

Largou a filha, fugiu, chorou a noite, mandou mensagem na net ao Gonçalo dizendo que ia buscar a miúda depois dos exames. E só aí soube que o Gonçalo nunca ouvira falar de nada, que não tinha mãe ali.

Ela correu de volta, apavorada. Tinha errado tudo!

Vi a mãe dele nas fotografias balbuciava em lágrimas. Igualmente de cabelo curto, igualzinha à senhora! Ai, o que eu fui fazer!

Como se diz cá: o maior disparate é criar uma obra-prima e não assinar! E eu, ao olhar para esta menina, pensava: que mãe conseguiria abandonar isto? Ainda bem que voltou. E agora? Vai ao apartamento 21, falar com a Mãe dele?

Nem pensar… Marizélia abanava, Esta noite quase enlouqueci, a Benedita só se sossega comigo. Volto para a residência, depois logo se vê…

Não se preocupe comigo, suspirou Bernardina. Pensei logo no meu filho, assustei-me… E ainda temos de pedir desculpa ao vizinho do sexto andar!

Contou, entre risos e lágrimas, a estória da visita ao Gonçalo errado. Marizélia já sorria, ainda envergonhada.

Olhe, podia pedi-lo desculpa eu mesma…

Nada disso, que está um oito, olhos inchados. E, olhe, fique por cá hoje. Moro sozinha, sempre procuro inquilina… Fique no quarto de hóspedes.

Mas não tenho dinheiro, nem posso pagar renda. Aguento-me na residência, vou para a minha tia depois dos exames…

Fique ao menos até aos exames, minha querida. Quando são?

Daqui a dois dias…

Ora ótimo. Hoje recolha as coisas, amanhã descansamos.

Mais tarde, Bernardina foi ter ao quarto Marizélia adormecera no cadeirão, a Benedita no berço colada a ela.

Graça, ouve bem: não é da família nem do vizinho… está aqui comigo, sim. A miúda ficou comigo. Não berras, hein! Ainda bem que não telefonei à polícia, Graça…

***

O leite materno não faltou. Os exames foram passados com mérito. Agora, mais frequentemente, quem ia ajudar a mãe de Bernardina era Marizélia. O calvário do quinto andar já parecia mais leve.

E, milagre! A mãe seguia os conselhos de Marizélia sem pestanejar.

São conhecimentos frescos, filha esperta!

Depois dos exames, Marizélia arranjou trabalho como assistente temporária numa clínica foi a própria Bernardina, antiga colega, que ajudou.

O Gonçalo do sexto andar, entretanto, percebeu que a avó precisava mesmo de tratamentos. Quem fazia as injeções era… Marizélia.

E, quando veio o outono, mudaram-se para o andar de cima Marizélia, a Benedita, os livros e os sonhos. Para tratar da avó do Gonçalo, para refazer o argumento daquilo a que chamava, em segredo, o guião novo da sua vida.

***No inverno seguinte, numa manhã fria, Bernardina estava à janela a ver a cidade acordar. Lá em baixo, o bairro fervilhava, mas dentro de casa sentia-se um silêncio de calma nova. A vida, tão rotineira, dera voltas estranhas e agora tudo parecia em movimento, como se cada dia tivesse algo de imprevisto, a promessa de qualquer surpresa.

O telefone tocou era a mãe, claro. Mas desta vez, Bernardina deixou-a falar e sorriu, enquanto Benedita, já de pé no tapete, tentava balbuciar Be-be-dina, entre gargalhadas de Marizélia e a voz quente de Graça, que chegava com pãezinhos doces.

Na sala, havia chá, brinquedos espalhados, livros de enfermagem antigos e fotografias novas, tiradas por Gonçalo, agora amigo da casa e vizinho de cima. Pelas paredes, a sombra de outras saudades, outras vidas, mas também o eco de uma escolha: Ninguém abandona ninguém quando se fica, mesmo sem obrigação.

Entre leite morno, chá de limão e as pequenas alegrias diárias, Bernardina percebeu que a vida afinal lhe dera, sem pedir, uma última aventura. Não teria neta chamada Benedita, nem filho chamado Gonçalo mas tinha, agora, outro papel. E era bom pela primeira vez em muitos anos, sentia que a solidão se desvanecia, como neblina ao sol nascente.

A bebé ria, Marizélia estudava, a mãe queixava-se menos, e até Graça, incrédula, arranjara namorado no prédio do lado.

Bernardina encheu a chávena, colocou uma manta sobre as pernas da mãe, chamou Marizélia para junto da janela e, entre risos, apontou o céu de Lisboa:

Vês? Esta cidade está sempre a mudar. E nós ficámos.

E ali ficaram, três mulheres e uma criança à janela, vendo as manhãs prometerem sempre mundos possíveis um mundo refeito a cada dia, por um acaso chamado coragem e um sobressalto chamado amor.

E, por fim, Bernardina pensou: há verdadeiras famílias que não se explicam nunca. Apenas acontecem.

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Este é o filho do Igor…