«Não temos dinheiro para ir ao Algarve este ano», disse o meu marido, e foi logo de seguida em viagem de negócios. Passado um dia, vejo uma foto dele na praia… abraçado à minha irmã.
Margarida, vá lá, acalma-te! És uma mulher inteligente, contabilista! Faz as contas, tu que és boa nisso. Vês bem os números: o crédito do carro come mil e duzentos euros. A hipoteca da casa, mil e seiscentos. O arranjo da casa da tua mãe no Alentejo, mais oitocentos euros por mês, que o telhado já mete água se não taparmos, lá se vai tudo com a humidade. Que praia, mulher? Que Maldivas? Não dá! Poupamos na comida?
O Paulo vagueava pela nossa minúscula cozinha, a gesticular em nervos. Abria e fechava os armários, fazia barulho com loiças, despejava copos de água só para os deitar fora. Nem me olhava nos olhos, a evitar-me tal como eu soubesse de todas as suas dívidas.
Eu estava ali, encolhida à mesa, a olhar para o site da agência de viagens aberto no portátil. A imagem chamava-me com águas transparentes, areia branca e palmeiras sobre bungalows. Não era só imagem. Era um sonho. O sonho a que eu me agarrava há três anos.
Paulo, poupei para isto! Não mexi no extra do ordenado. Levava marmita para o escritório, fazia acertos de contas para três empresas até de madrugada, enquanto dormias. Estão três mil euros num depósito à parte, chega perfeitamente. Já fiz as contas. O carro pode esperar, a casa da tua mãe também não cai se ficarmos só mais quinze dias sem mexer nela as telhas até aguentam. Precisamos de descanso. Não temos férias verdadeiras desde que comprámos a casa. Tu andas sempre irritado, descarregas por dá cá aquela palha, eu estou a roçar o colapso nervoso. Precisamos de estar juntos, lembrar que somos marido e mulher, não só parceiros de dívidas.
O problema não é só o dinheiro! explodiu ele, e a chávena que tinha na mão quase se partia. Está o caos no emprego! A obra tem de avançar! O empreiteiro está impossível! O chefe não me dá folga! Não sou eu que decido nada, há prazos para cumprir! Se me vou embora agora, perco o emprego! E lá se vai a tua praiazinha e a casa também!
Mas na semana passada disseste que estava tudo parado e que a obra já estava entregue
Mudou tudo! O cliente quis alterações, está tudo a ser refeito! Olha, Margarida, assunto encerrado. Este ano nada de mar. Vamos no feriado à tua mãe ao Alentejo, damos um jeito na horta, avivamos o telhado e fazemos uns grelhados no quintal. É ar puro, campo, tens descanso, não?
Não quero ir para a casa da tua mãe sussurrei, sentindo as lágrimas a brotar. Aquilo não é férias. Aquilo é trabalho a dobrar: sachar, plantar, cozinhar para a família toda. Quero praia. Quero estar de papo para o ar.
Mas também só pensas em ti! e ele bateu com o punho em cima da mesa. Egoísta! Só tu queres isto ou aquilo! Eu tenho uma viagem marcada! Urgente. Para o Porto. Tenho que ir verificar as obras, chefe manda. Portanto, fica sossegada. E olha, vê de transferires uns euros do teu fundo das férias para os bilhetes e alojamento.
Porquê? perguntei espantada. Não é a empresa que paga as viagens?
Reembolsam depois! Preciso adiantar, e hotéis lá é caro. Quatro estrelas, jantares de negócio… Não vou apresentar sopa à mesa do director da Galp. Tenho de estar ao nível.
Quanto?
Dois mil euros.
Dois mil?! Isso é mais de metade do que juntei para as férias!
Depois devolvo! Reembolsam tudo, mais subsídio de viagem. Não confias no teu marido?
Olhou para mim como se eu fosse a ingrata do ano.
No fundo, a culpa era minha, claro. Ele ia trabalhar no frio do Porto, por nós, e eu só pensava em bronze.
Transfere-lhe o dinheiro. Dois mil euros. Mãos a tremer.
Acreditei nele. Dez anos juntos. Sempre duro, sim, mas nunca tinha falhado.
No dia seguinte, ele foi.
Fiz a mala dele.
Não fiques triste, Magui! disse a cheirar ao perfume caro Dior Sauvage (que eu lhe tinha dado no Natal, a poupar em mim). Eu ligo, mas não te admires se não atender muitas vezes sabes como é o Porto, sempre a chover, rede péssima nas obras.
Cuida-te endireitei-lhe o cachecol. Leva a roupa quente, ainda faz frio lá em cima.
Levo. Olha, pus os calções também.
Para quê?
Tem piscina no hotel, aquecida. E sauna os homens vão lá ao fim do dia derreter o corpo.
Parecia lógico.
E lá se foi. Mala grande cinzenta, a arrastar os meus sonhos com ela.
Fiquei ali, sozinha, num apartamento abafado em Lisboa, com a cidade ainda em inverno, chuvosa e cinzenta.
Trabalhava como máquina, jantava sozinha, via telenovelas onde a felicidade era só para os outros.
Amei. Uma solidão cortante.
Decidi ligar à minha irmã, Teresa.
A Teresa é tudo o que eu não sou: loira, espalhafatosa, influencer, saltitava de festa em festa, de cidade em cidade, sempre em fotos felizes. Ela tem menos cinco anos que eu, mas age como se tivesse acabado de sair do liceu.
Nunca fomos próximas, demasiado diferentes, mas sangue é sangue. Quando estudava, ajudei-a com dinheiro, levantei-a de apuros.
Liguei.
A cliente que procura está incontactável ou fora de rede.
Estranho. Está sempre online. Mete stories de cinco em cinco minutos.
Fui às redes sociais. O último post tinha uma semana (no dia em que o Paulo partiu).
Uma foto da mala cor-de-rosa. Legenda: A caminho do sonho! Adivinhem onde? Dica: muito calor! Missão secreta! #Viagem #Sonho #Segredo.
Deve ter ido com algum namorado para Djerba, pensei.
Passou-se uma semana.
O Paulo ligava pouco. Dois em dois dias. Reunião, rede fraca, não posso falar.
Estava animado. Até estranho. E dava para ouvir um fundo que não era escritório, nem chuva nem vento do Porto.
Ondas do mar?
E música ao longe, daquela latina.
Ó Paulo, que música é essa? Estás onde?
É o rádio do táxi! Vamos para a obra, o taxista só mete música dos brasileiros.
E esse barulho?
É do vento, claro! No Porto é assim! Olha, tenho de ir, estou a perder rede!
Toque. Acabou.
À sexta à noite não consegui dormir. Qualquer coisa cá dentro não me deixava sossegar.
Na cozinha, chá frio na mão, desloquei-me por instinto às notícias e às redes sociais.
E então
Notificação no topo do ecrã: Teresa Figueiredo marcou-te numa fotografia.
O coração deu salto. Teresa? Voltou?
Carreguei.
Devagar, a internet a engasgar.
Azul intenso primeiro. Céu.
Depois turquesa. Mar.
Areia branca.
Praia.
A praia que eu via nas imagens da agência, a do meu sonho. Algarve. Mas não Maldivas! Reconheci aquela palmeira tombada, o pontão ao fundo. Mesmo o hotel Paradise Island, que decorei à força de ver fotos.
Primeiro plano: Teresa, num biquíni vermelho ridículo, óculos gigantes, cocktail com chapéu de papel. Bronze de fazer inveja, feliz, radiante.
E a seu lado
Um homem.
De mão cabeluda, relógio Casio no pulso (oferta minha há anos). De calções às palmeiras.
O Paulo.
O meu marido Paulo.
O tal que estava a trabalhar no Porto, a sofrer à chuva.
Um sorriso que não via há anos. Um olhar apaixonado para ela, como um gato para uma posta de peixe.
Legenda: A felicidade ama o silêncio Mas não resisti! O meu amor levou-me ao paraíso! Meu tigre, meu herói! Obrigada por este sonho! #Maldivas #Amor #MeuHomem #Férias #DesculpaIrmãNotSorry.
E marcou-me, mesmo na cara do Paulo.
Acidente? Que nada.
Preto no branco: Eu ganhei. Eu sou melhor, mais nova, mais gira. Tu? Ficaste em casa, a pagar o nosso luxo.
Olhou para o ecrã, e o mundo girou.
O meu marido.
Com a minha irmã.
Com o MEU dinheiro. Os dois mil euros, mais algum emprestado algures, porque Maldivas não é para todos, que eu poupei três anos, abdicando até de collants novos.
Roubaram-me o sonho, a vida.
Não há férias.
Só pensas em ti.
Não dá dinheiro.
Palavras do Paulo, agora ecoando em tom de gozo. Ele mentia-me, olhos nos olhos, provavelmente já a pensar em meter bronze nas costas dela.
Corpo a tremer. A rir e a chorar.
Corri para a casa de banho, deitei tudo cá para fora.
Lavei-me à água fria. Olhei ao espelho.
Do outro lado, uma mulher de cara cinzenta, olhos de choro, rasto de rugas. Uma tiazinha.
E a Teresa? Fresca, solta, leve.
Claro. Para quê ele me querer a mim? Dívidas, hipoteca, chatices Com a Teresa era festa.
E eu a pagar.
Voltei ao computador. As mãos tremiam, mas a cabeça estava um gelo.
Print-screen. Outro. Gravei a tela stories com champanhe na executiva, o quarto com cisnes de toalha, o Paulo a levá-la ao mar.
Fui ao banco online.
Vasculhei.
O crédito do carro (o orgulho dele, Land Cruiser), no MEU nome. Restava vinte e quatro mil euros. Era ele que depositava a quantia, mas titular sou eu.
A hipoteca: ambos, mas ele titular e eu co-signatária.
O cartão por onde saíram os dois mil euros? Zero. Pagamento à Abreu Viagens.
Chorei. Mas cedo aprendi que há lágrimas que matam o passado.
De manhã, nasci nova.
Sem medo. Sem pena. Só vontade de fazer justiça.
Estavam nas Maldivas, a rir-se de mim.
Pois iam sentir o frio de Bragança mesmo no Equador.
O Paulo esqueceu de um pormenor: a procuração geral do carro.
Fez comigo, no ano anterior, antes de ir trabalhar uns meses para o estrangeiro. Se precisares de renovar seguro, ou de vender se for preciso pelas despesas, disse ele. Prazo: três anos. Com direito a venda.
O carro? O tesouro dele. Um Toyota Land Cruiser 200. Preto, um tanque. Que amor.
Vesti-me. Fato, saltos altos, batom vermelho (à la Teresa, por pirraça).
Juntei documentos: livrete, registo, procuração, chaves suplentes.
Fui ao stand de usados, do Mário, um amigo da faculdade.
Olá, Mário. Preciso despachar este Land Cruiser.
Ele apitou.
O Paulo longínquo deixou? Ele adora isto.
Foi teve de se ir embora. Urgente. Dívidas no casino lá fora, não sabes.
Chegou o dia. Da para fazer à pressa. Valor menos mil euros do mercado, claro.
Faz já. A pronto.
Vinte mil euros.
Feito.
Duas horas depois, saí do stand com um envelope pesado. O peso da justiça.
Fui ao banco. Liquidei o crédito do carro (vinte e quatro mil euros). Fiquei com certificado de dívida paga.
O resto dezasseis mil euros para conta minha, em nome de solteira, sem acesso do Paulo.
Cheguei a casa.
Chamei a transportadora.
Pus todas as coisas dele em caixas: fatos, canas de pesca (a colecção de luxo), playstation, portátil, caneca do Benfica.
Para onde envio?
Montijo, Rua das Laranjeiras, número 22, para Fernanda Oliveira (sogra).
Assim pode respirar ar puro.
Troquei as fechaduras. Alarmes novos.
O chaveiro perguntou: Houve assalto?
Invadiram uns ratos.
E ainda não chega.
Sabia a password do email dele (a minha data de nascimento).
Lá estava a confirmação dos voos, a reserva no Paradise Island Resort.
Liguei para o hotel, o meu inglês não me falha.
Good afternoon, I am Mrs. Margarida Mesquita. I need urgent assistance with a guest Mr. Paulo Mesquita, bungalow 105. There is a situation of card fraud; the company card was used without authorisation. Please be advised the payment will be cancelled and reported to the police. I suggest you act immediately.
Do outro lado: Oh, madam! That is serious! We will check!
Please tell him: The partys over. Margarida.
Uma hora depois, chega alerta do banco: Attempt to charge 2.000$ declined (o hotel a tentar sacar mais um pouco).
Pouco depois
Telefonema. Paulo.
Não atendi.
Telefonema. Teresa.
Não atendi.
Chovem mensagens:
Paulo: Margarida, o que fizeste?! Ficámos sem cartão! Querem-nos expulsar! Não tenho dinheiro vivo!
Paulo: Atende, sua maluca! Estamos na praia com malas, 40 graus! A Teresa já chora!
Teresa: Maninha, calma! Não é o que pensas! Só nos encontramos por acaso, não houve nada! Não faças mais isto! Por favor ajuda, paga o hotel senão ficamos presos aqui!
Paulo: Vendeste o Land Cruiser?! O Mário ligou-me! Isso era MEU! Como foste capaz?! Quando voltar faço-te pagar!
Ri-me às gargalhadas. Só podia.
Enviei-lhes a foto do escândalo nos stories.
E a mensagem: A felicidade ama o silêncio. Aproveitem o sossego. Vão a pé para o Porto. Carro vendido, dinheiro para necessidades da família (prejuízo moral). Coisas vossas na vossa mãe. Fechaduras mudadas. Processo em Tribunal. Adios, amigos.
O Paulo voltou três dias depois.
Teve de pedir dinheiro emprestado a amigos (enganados também eles com a história do Porto) para o bilhete de avião. O hotel deixou-os na recepção mais de um dia até resolverem com transferências criptos.
Chegou queimado, sem tusto.
Lutou com a minha porta.
Abre! Esta casa é minha! Vingo-me em tribunal!
Casa hipotecada, já dei entrada no tribunal, respondi porta fechada Tua fatia é só a dívida. Não entras cá mais. Tenho ordem do juiz.
O senhor Joaquim, polícia reformado e vizinho, esperava ao lado, cassetete na mão.
Vai-te embora, Paulo. Ou passas uns dias no tribunal mesmo.
Ameaçou, praguejou, desistiu.
O divórcio foi feio.
O carro tentou contestar. Que o vendi sem direito.
A juíza leu:
Procuração notarial em vigor? Sim. Direito de venda? Sim. Dinheiro foi para liquidar crédito e resto para despesas do agregado e medicamentos, stress do trauma. Tem como provar o contrário? Não tinha recibos.
Com a Teresa não falei mais.
Os meus pais tentaram reconciliar.
É tua irmã! Só errou! O Paulo seduziu-a! Perdoa, estão ambos arrasados!
Não tenho irmã. Morreu o que havia.
Mal voltou, a Teresa largou o Paulo. Não quero encalhado, quero vida boa. Já postava de novo de Copacabana, deve ser justo castigo.
E eu
Peguei nos dois mil euros que juntei (que já não lhe dei), juntei ao dinheiro do carro.
E comprei viagem.
Para as Maldivas. Mesma ilha, um bungalow melhor ainda.
Sozinha.
Agora escrevo deitada no espreguiçadeira, com Piña Colada na mão, olhos no azul impossível à minha frente.
Cura mesmo, este mar.
Respiro fundo.
Sou livre. Sou rica (dezasseis mil euros é almofada e pêras). E nunca mais deixo um homem dizer-me o que mereço ou não. Mereço tudo.






