Faço um monte de dinheiro, não faço? A irmã da minha esposa pediu dinheiro emprestado e foi para a praia.
Neste verão, a querida irmã da minha esposa resolveu aparecer por cá para uma visita. Cá em casa, chamávamos-lhe a mascote da família, porque em toda e qualquer reunião, tanto a mãe, como o pai, como qualquer tia ou vizinha, só falavam dela foi excelente aluna, terminou o curso, arranjou emprego na área dela, não é a filha perfeita?
Já a mais velha, nem chegou a terminar os estudos e casou-se logo. Mas ninguém se importou, porque eu próprio tinha as coisas arrumadas: algum dinheiro, um pequeno negócio, apartamento e carro no centro de Lisboa, rendimento certo. No entanto, continua a filha de ouro a ser a irmã mais nova da minha mulher.
Pois nesse verão, a tal irmã mais nova veio até à nossa casa pedir um empréstimo. Queria fazer um crédito para comprar casa própria mas não tinha dinheiro para a entrada inicial. Para mim não era uma quantia de outro mundo acabei por aceitar sem hesitar. Garantiu-me que trabalhava numa repartição pública e que ia devolver a quantia direitinha, mês após mês.
Mal lhe emprestei o dinheiro, quase fez promessa de devolver sempre, sem falha. Apenas uma semana depois, embarca para o Algarve. Não vou mentir, fiquei atordoado, com aquele rasgo de sonho estranho em que as imagens se desfazem: quem diz não ter dinheiro para um crédito arranja de repente para apanhar sol na praia?
Disse a toda a família que tinha poupado o ano todo para aquela viagem, mas, curiosamente, o tal crédito nunca apareceu. Perguntei-lhe sobre a casa, e respondeu num sussurro translúcido: Mudei de ideias, como quem se dissolve no ar salgado.
Quando pedi por favor para me devolver o dinheiro, explicou serenamente que já não tinha: tudo se foi nas noites de sardinhas e gelados à beira-mar. Percebi então, naquele rasgo onírico, que nunca houve intenção de comprar casa alguma.
Pedi, com toda a educação, que me devolvesse a dívida assim que possível, porque eu tinha emprestado o dinheiro para uma casa e não para o areal dourado do Algarve. Mas ela, rindo-se num eco distante, respondeu:
Vou ganhar muito dinheiro, espera só mais um bocadinho, agora não tenho.
Imaginem o resto: logo contou à sogra que eu lhe pedi o dinheiro antes do prazo, e que isto não se faz a familiares e que ricos como nós é que somos uns monstros. Assim, a menina dos olhos da família voltou a ser a filha perfeita, e nós, criaturas endinheiradas e cruéis, perdidos num sonho meio nebuloso entre o Atlântico e a lua.







