Eu Sempre Estarei Contigo
Por favor, não voltes a esse assunto! Já falámos disto vezes sem conta! Para quê voltar sempre ao mesmo tema? Filomena abanou a mão, cansada, e voltou-se para o fogão.
Aquele dia tinha sido especialmente cinzento. Começou bem cedo, às cinco da manhã, quando Simão caminhou até ao quarto dela e lhe tocou no ombro:
Mãe! Dói-me a garganta!
Ainda meio adormecida, Filomena encostou os lábios à testa do filho e, naquele instante, o sono dissipou-se por completo.
Sim, estás com febre, meu querido. Vá, vem cá! Pegou nele ao colo, saiu do quarto e fechou a porta com cuidado. Não queria ouvir depois António reclamar que não conseguia dormir.
Depois de medir a febre ao filho e dar-lhe um xarope para baixar, Filomena deitou-o de novo e, ao olhar para as horas, percebeu que já não valia a pena voltar à cama. Resolveu esperar até o centro de saúde abrir para chamar o médico. Certificou-se de que Simão dormia, foi até à cozinha e, enquanto preparava café, chegou-se à janela.
O inverno daquele ano estava a mostrar-se surpreendentemente frio e nevado algo raro em Lisboa. O pátio estava coberto por um manto branco, que caía durante toda a noite. Aqui e ali, rastos de pegadas mostravam por onde a pressa dos trabalhadores da manhã já tinha passado. Filomena viu com o canto do olho um vulto e, ao virar a cabeça, não conseguiu conter uma gargalhada o gato da vizinha, a Dona Amélia, pulava e quase desaparecia nos montes de neve. Em dias assim, só mesmo o Fígaro para se aventurar pela rua fora! O bichano era tão independente que se recusava terminantemente a usar o caixote dentro de casa, e a Dona Amélia tinha de o deixar sair sempre que ele miava. E quando pedia para ir à rua, toda a escada ouvia era impossível ignorar aquele brado! Mas, justiça seja feita, o Fígaro nunca fez asneiras em casa.
No dia anterior, ao ir buscar Simão ao infantário, Filomena viu o Fígaro a comandar a marcha para a rua, resmungando alto.
Vai lá, vai Olha para este desavergonhado, Filomena! Parece que é ele o dono da casa, não eu. Já viste bem? Hoje saí tarde do trabalho e veja só a recepção que tenho!
Bom dia, Dona Amélia! De facto, tem um verdadeiro senhor aí em casa!
Ai, nem diga nada! Só eu Deve ser destino, este de criar homens de feitio forte
Filomena sorriu e seguiu o caminho. Não havia muito mais a dizer. O filho da Dona Amélia, Tomás, era também um jovem sério e bondoso, com uma inteligência aguçada e fino humor, ainda que poucos reparassem nele para a maioria, era apenas mais um rapaz magro, de óculos e discreto, a quem as raparigas raramente dirigiam olhares. Filomena era amiga dele desde que tinha memória. Tomás esteve sempre ao seu lado, especialmente quando a mãe dela, Teresa, morreu atropelada numa passadeira. Fizeram tudo certo, mas isso não a salvou. Para Filomena, que sempre ouvira dizer que seguir as regras era sinónimo de segurança, aquilo foi devastador.
Tinham os dois dez anos nessa altura e Filomena, sem saber o que era perder alguém, fechou-se num sofrimento mudo, deixou de falar e passava os dias a chorar, procurando sempre um canto onde se enfiar. Qualquer tentativa de consolo era rebatida com um abanar de cabeça e um afastamento silencioso. O psicólogo uma recomendação do pai, Joaquim alertou para os perigos do trauma não resolvido.
Foi Tomás quem lhe soube valer. Ele próprio perdera o pai dois anos antes e compreendeu a dor da amiga melhor do que qualquer adulto. Passava longas horas em casa dela, ajudava-a com os trabalhos de casa, lia-lhe contos, tentava convencê-la a brincar ou acompanhava-a às aulas de dança e ginástica, onde a mãe sempre quisera que Filomena aprendesse a dançar e fosse saudável Aos poucos, o empenho daquele pequeno mas maduro rapaz foi transformando a tristeza em coragem para recomeçar.
Foi numa dessas tardes geladas que os dois encontraram um gatito abandonado e resolveram levá-lo para a Dona Amélia. Foi nesse momento que, pela primeira vez desde a morte da mãe, Filomena falou, pedindo leite para alimentar a cria. Dona Amélia, emocionada, entregou o biberão à menina:
Graças a Deus! Já estás a voltar
O gatinho ficou com Tomás, porque o pai de Filomena era alérgico.
Tomás tornou-se presença constante e indispensável. Ambos, filhos únicos, encontraram ali uma espécie de irmandade verdadeira, raramente vista até entre irmãos de sangue. Não precisavam de palavras para se entenderem; bastava um olhar, uma frase começada por um, terminada pelo outro. Os adultos estranhavam aquela cumplicidade, mas ninguém se intrometia, talvez conscientes de que, naquela amizade, os órfãos encontravam o amparo contra a tristeza.
Só nos últimos anos de liceu começaram os dilemas. Filomena floresceu numa jovem bonita e inteligente, sempre rodeada de pretendentes. Tomás via tudo em silêncio, sabendo que ela não parecia interessada em ninguém até que apareceu António. Conheceram-se no escorregadio lance de escadas do ginásio municipal, onde ela praticava ginástica.
Tudo bem, menina? Precisa de ajuda? perguntou António, estendendo-lhe a mão. Estas escadas estão um perigo com esta chuva! Maguou-se?
Filomena, ainda meio estonteada pela queda, olhou para aquele rapaz alto e simpático e sentiu algo estranho um clique, como um raio. Sempre dissera não acreditar em amor à primeira vista, que isso era coisa de romances, mas ali, naquele instante, percebeu o contrário.
Tomás, estou perdida! Completamente! Ele é tão
Tão como? Tomás franziu o sobrolho, mas Filomena nem reparou, perdida nos próprios pensamentos.
Não sei explicar É o melhor! rodopiou pelo quarto. Devias ficar feliz pela tua amiga!
Feliz claro! Estou contente por ti. Tomás forçou um sorriso e arranjou desculpa para sair. Filomena nem notou.
Namoraram mais de três anos, até decidirem casar. Deram a novidade às famílias e logo foram tratar do registo no conservatório.
Pena não se poder levar o melhor amigo da noiva em vez de uma madrinha! Para que quero eu uma madrinha? dizia Filomena, rodopiando em frente ao espelho com o vestido que estavam a ajustar-lhe.
Tomás, que a levara à costureira, esperava sentado, até que quase o puseram na rua por superstição.
Não pode ver a noiva vestida, rapaz!
Ele não é o noivo! riu-se Filomena. É só o meu amigo.
Um amigo muito especial retorquiu a costureira com um sorriso maroto.
Que importa, por acaso? Não podemos ser apenas amigos? rematou Tomás. Temos ainda o bolo para tratar, Filomena, despacha-te, que preciso passar pelo trabalho.
Não demoro! disse ela, embrenhando-se na prova do vestido, enquanto Tomás se deixava cair, cansado, no sofá da antecâmara.
Hoje, olhando para trás, Filomena pensava: como é que não percebi logo em António tudo o que, mais tarde, tanto me irritaria? Viver habituada ao cavaleiro andante de sempre fazia-lhe crer que nunca deixaria de ser a princesa protegida, resgatada sempre que preciso. Mas, afinal, os príncipes não são todos iguais.
Os primeiros sinais surgiram meio ano após o casamento, quando Filomena adoeceu seriamente. Uma amigdalite banal, ignorada para agradar ao marido, evoluiu para graves problemas de saúde. Foi-lhe recomendado um exame especial, parcialmente pago. António protestou:
Achas? O dinheiro é para as férias! És nova e saudável, querem é sacar dinheiro! Isto são exageros.
Filomena não queria acreditar no que ouvia.
Estás mesmo a falar a sério?
Claro!
António a voz dela vacilou, o nó antigo na garganta regressava. O teu descanso é mais importante que o meu bem-estar?
Está tudo bem contigo, mulher! Vamos ao Algarve, apanhas sol, ficas nova. É só cansaço disse ele, abraçando-a, sem notar que pela primeira vez ela não retribuía.
O pai, Joaquim, pagou o exame e nada comentou ao genro, apenas franziu o sobrolho, retirando conclusões.
Demorou quase um ano a recuperar, e parte dos problemas de saúde ali ficaram. Quando soube da gravidez, colocaram-na logo sob vigilância apertada.
Não leve a mal, minha senhora explicou a médica mas tem de pesar bem os riscos. Uma gravidez exige muito do corpo. Por agora está tudo estável, mas como será depois?
Não há nada a pensar. Vou ter o meu filho!
Então faremos tudo ao nosso alcance.
E assim fizeram. Filomena passou os últimos três meses de gestação de repouso, mas Simão nasceu saudável. Só ela, o pai e Tomás sabiam o que custara. Nessa altura percebeu claramente que António lhe dava cada vez menos espaço na própria vida. Ao saber que Filomena e o filho estavam bem, o marido festejou com tanto afinco que desapareceu três dias, telefone desligado. Filomena desesperou, pedindo ao pai que o localizasse. Quando Joaquim chegou, silencioso e sombrio, limitou-se a abraçá-la:
Está tudo bem, filha, mas não te podes desgastar.
Ali Filomena compreendeu que aquela não era a sua história de princesa. Só não pediu o divórcio logo por ver a paixão de António pelo filho Simão era o encanto do pai, que se desdobrava entre noites mal dormidas, fraldas, passeios e brincadeiras. Por vezes, porém, irritava-se com o rapaz e pedia a Filomena para o afastar. Parecia haver dois Antonios e esta bipolaridade deixava Filomena inquieta.
No que dizia respeito a eles os dois, marido e mulher, passaram a viver como linhas paralelas, quase sem se tocarem.
Simão esteve doente vezes sem conta em pequeno, e Filomena mal tinha tempo para refletir sobre o seu casamento. Corria de médico em médico, raro era o pedido de ajuda ao marido, pois nunca sabia como seria recebido. Por vezes António era o pai perfeito, noutras fazia birras, recusando-se sequer a ir à consulta. As oscilações cansavam Filomena, que começou a preferir resolver tudo sozinha. O pai ajudou-a a tirar carta de condução, ficando com Simão nas aulas, e depois comprou-lhe um carro em segunda mão, simples mas fiável, para não depender do marido.
Joaquim compreendeu rapidamente a verdadeira natureza do genro, mas nunca se intrometeu, esperando que Filomena tomasse as rédeas do destino. Só uma vez falou com ela, quando Simão, com dois anos, teve uma febre violentíssima e Filomena, exausta, adormeceu no chão da sala depois de entregar o miúdo ao avô. Quando acordou, Joaquim disse-lhe:
Filomena, não te venho dar conselhos nem exigir decisões. Só quero que saibas que nunca estás sozinha.
Obrigada, pai, sei disso. Mas ainda não estou pronta, percebes? Por enquanto António ainda é o meu marido.
O pai apenas acenou em silêncio, abraçando a filha.
Nessas alturas difíceis, Tomás estava sempre por perto: comprava remédios, conduzia ao médico, ou levava o carro à oficina, sempre disponível para resolver o que fosse preciso, sem nunca medir esforços. Filomena sabia que, às vezes, talvez abusasse da dedicação dele, mas não podia evitar: Tomás era o único em quem confiava cegamente.
Agora, vendo a neve cair no pátio, Filomena pensava que Tomás regressava hoje de Coimbra e, caso fosse preciso, podia pedir-lhe que levasse Simão ao médico, já que o carro dela voltara a avariar e desta vez parecia grave. O dinheiro era pouco; António dizia investir tudo no negócio, e o ordenado dela mal dava para as despesas, pois ainda não conseguir voltar a tempo inteiro ao trabalho devido às constantes doenças do filho. Ainda bem que viviam no apartamento do avô, pois Joaquim preferia a casa renovada nos arredores, longe do ruído da cidade.
Filomena olhou para o relógio e ligou para marcar uma consulta no centro de saúde. Por sorte, a médica da família já tinha voltado de férias e agendaram logo a visita domiciliar.
Deixou o telefone de lado e começou a preparar o pequeno-almoço quando António apareceu, ainda meio a dormir.
O que foi agora? Para que tanto barulho a noite toda?
O Simão está doente, respondeu Filomena, sucinta.
E é razão para fazeres barulho toda a noite? Enfim, não dormi nada. Vou tomar banho, despacha o pequeno-almoço, tenho imenso que fazer.
Silenciosa, Filomena voltou-se para a frigideira. Preparava sobretudo para Simão, que, adoentado, gostava sempre das suas comidas para convalescentes, como a mãe costumava chamar. Hoje havia filhoses, porque também António gostava, e assim ninguém reclamava.
Então, já falaste com o teu pai?
Não!
Sempre a adiar
Já disse que não vou falar com ele desse assunto. Nem pedir para pôr a casa no nosso nome.
O teu orgulho já me começa a cansar. Sempre a mesma história! Pago esta casa e vivo aqui sem direitos nenhuns. Sempre a pedir dinheiro, tu e o Simão. Trabalho desde manhã cedo, não tiro férias há um ano e tudo é errado!
António continuou, mas Filomena já não ouvia. Algo dentro dela se rompeu uma ligação antiga, frágil, mas que ainda segurava os restos do casamento: as primeiras juras de amor, o dia do casamento, o nascimento do filho Tudo aquilo parecia agora irremediavelmente distante.
Calmamente, pousou a espátula e virou-se para o marido.
Vou dizer só uma vez e quero que me oiças. Hoje, arruma as tuas coisas e vai-te daqui. Vamos divorciar-nos, António. Não quero continuar a viver estes últimos três anos. Nem tu, não tentes enganar-te. Dinheiro, contas e discussões não são conversa para agora nem para depois. Interessa-me apenas que temos um filho, e por ele devemos garantir que continua a ter pai e mãe, mesmo que não vivam juntos.
António escutou, atónito, tentou retorquir, mas calou-se e, finalmente, empurrou o prato.
Já acabaste? Pensa bem, até à noite. Quando voltar, talvez penses melhor.
Não, António. Desta vez a decisão é minha. E tu sabes o que isso significa.
Achas mesmo que alguém vai querer-te? Ainda por cima com um filho. Boa sorte. Se mudares de ideias, sabes onde me encontrar. Vou para casa dos meus pais.
Como quiseres. Filomena tornou a virar-se, lutando contra as lágrimas que ameaçavam romper.
António saiu sem dizer palavra e, pouco depois, Filomena ouviu a porta fechar-se. Sentou-se e ali ficou a chorar até se sossegar, ao som dos passos lentos do filho a caminho da cozinha. Rapidamente limpou as lágrimas e serviu o prato ao filho.
Ora, o mais valente convalescente do mundo! Vai tomar o pequeno-almoço?
Não tenho muita fome, mãe. Agora também dói a cabeça.
Talvez filhoses ajudem, que dizes?
Achas que sim? Com compota, então!
Sempre!
Depois da médica dar a medicação adequada, Filomena preparou-se para ir à farmácia e ia a ligar ao pai quando alguém bateu à porta. Só podia ser Tomás era o único que sempre entrava assim, sem usar a campainha, sinal tácito entre eles.
Olá!
Olá! Como estão? Tomás trazia uma caixa de carrinhos para Simão. Filomena percebeu que não se lembrava da última vez que António tinha comprado alguma coisa para o filho. Nas festas, aniversários ou Natal, era ela que comprava os presentes; Tomás, ao contrário, nunca aparecia de mãos vazias.
O Simão está outra vez doente. Vês-lo um bocadinho? Vou buscar os medicamentos.
Vai descansada. Ou queres que vá eu, se me deres a lista?
Ela entregou o papel e Tomás saiu.
Mal ele fechou a porta, Filomena recebeu uma chamada.
Senhora Filomena Joaquim?
Sim.
Da parte do Hospital de Santa Maria. O seu pai foi internado.
O que aconteceu? A mão dela apertava tanto o telemóvel que lhe doía.
Teve um enfarte. Está em estado delicado.
Já vou para aí.
Andou de um lado para o outro, sem saber por onde começar. O pai nunca se queixara do coração. Agora percebia como a vida podia mudar num segundo.
Ligou maquinalmente a António.
António
O que foi? Já pensaste melhor, não?
António, o meu pai está internado. Teve um enfarte.
Então? E eu? Tu não me queres, ou queres?
Filomena ficou espantada, desligou sem responder.
Tomás regressou da farmácia e encontrou-a já pronta à porta, casaco vestido.
Vais aonde?
O meu pai está no hospital. Um enfarte.
Não foi preciso explicar mais. Tomás de imediato foi chamar a mãe, e Dona Amélia ficou a olhar por Simão. Filomena e Tomás foram juntos para o hospital.
Esperaram até à noite por novidades. Sentados na sala de espera, partilhavam o silêncio até Filomena, com um fio de voz, murmurou:
Obrigada É tão bom ter-te comigo.
Eu estarei sempre contigo
Eu sei, Tomás. Agora sei mesmo
O médico apareceu uma hora depois. Filomena adormecera, recostada no ombro de Tomás, que a despertou com cuidado.
O seu pai está estável, transferimo-lo para o quarto. A recuperação vai ser longa, mas o pior já passou. Vão descansar, amanhã já o poderá visitar.
Filomena abraçou Tomás, chorando baixinho e sentiu que, enfim, toda a dor dos últimos tempos se ia embora com aquelas lágrimas.






