Eu estarei sempre contigo
Por favor, não voltes a este assunto! Já falámos disto mil vezes! Porque é que tens de trazer isso à baila de novo? Mariana abanou a mão no ar, exausta, e voltou-se para o fogão.
Aquele dia estava envolto num nevoeiro de tristeza tão denso que até o cheiro do café parecia ausente de aroma. Tudo começou cerca das cinco da manhã, quando Martim, seu filho, entrou aos tropeções no quarto e lhe tocou no ombro:
Mãe! Dói-me a garganta!
Ainda sem abrir bem os olhos, Mariana encostou os lábios à testa do filho, e logo o sono fugiu dela, como se fosse feito de neblina leve.
Tens febre, Martim. Vamos, meu querido! Mariana pegou nele ao colo e saiu do quarto, fechando a porta com cuidado para não acordar o Gonçalo, pois não lhe apetecia ouvir mais tarde as reclamações por uma noite mal dormida.
Depois de medir a febre ao filho e dar-lhe o xarope, aconchegou-o na cama. Olhou para o relógio e percebeu que já não fazia sentido voltar a deitar-se. Mais valia esperar que o centro de saúde abrisse para poder chamar o médico. Com Martim finalmente a dormir, dirigiu-se à cozinha, preparou o café, e ficou junto à janela.
Este ano, o inverno em Lisboa trouxera neve um fenómeno tão improvável que teria feito rir qualquer alfacinha. Agora, o pátio estava coberto por um manto branco, perfeito, apenas interrompido aqui e ali pelas pegadas apressadas de vizinhos que saíam cedo para apanhar o autocarro ou o comboio. Do canto do olho, apanhou um movimento tresloucado: era o gato da Dona Amélia, a vizinha do segundo andar. O Fofinho saltava na neve, desaparecia entre os montes e regressava, como se navegasse num mar de chantilly. Nem a neve grossa tirava a vontade de liberdade ao bichano! Ele recusava sempre usar a caixa de areia em casa, e Dona Amélia era chamada a abrir-lhe a porta com a frequência de um relógio avariado aos gritos pelos corredores. Mas, justiça lhe seja feita, o Fofinho nunca fez disparates em casa. Só ontem, quando Mariana tinha ido buscar Martim ao infantário, viu o animal descer as escadas como um comandante de cauda levantada, protestando alto.
Anda rapazinho, anda! Se pensas que mando aqui, estás enganado! Olha, Mariana! Vê só este maroto. Parece que é ele o dono da casa, não eu. Só me faltava mais esta!
Bom dia, Dona Amélia! Ele é mesmo um senhor, não há dúvida!
Querias outra coisa, minha querida? Estou destinada a educar homens de ar sério, seja a quem for
Mariana sorriu, acenou, e seguiu caminho. O filho da Dona Amélia, Manuel, era realmente sério e inteligente, com um humor discreto que poucos viam. Para a maioria, passava por apenas mais um miúdo franzino de óculos, pouco interessante para as raparigas. No entanto, Mariana era sua amiga desde que se lembrava de si mesma, e Manuel sempre estivera ao seu lado, especialmente naquele ano terrível em que tudo mudou.
A mãe de Mariana, Isabel, foi atropelada num passadeira. Foi atravessar, certinha mas as regras, naquele dia, não a salvaram. Para Mariana, foi o pior sempre lhe tinham dito que o certo protege, que não havia que temer. Na altura tinha dez anos, e a dor instilou nela um silêncio pesado. Não falava, só chorava. A qualquer tentativa de consolo, abanava a cabeça, implorando em silêncio para ser deixada em paz, fechando-se nas divisões ou trancando-se na casa de banho. Quando conseguia ficar sozinha, adormecia num canto qualquer, enrolada em si mesma. O psicólogo que o pai, António, encontrou, alertou para o perigo: se algo não fosse feito, a saúde da rapariga sofreria.
Quem a salvou foi Manuel. Ele tinha perdido o pai dois anos antes de a mãe de Mariana ter partido. Talvez por isso compreendesse melhor do que os adultos o que ela sentia. Praticamente mudou-se para casa de Mariana. Dona Amélia aceitava, de coração partido, aquela menina tão desamparada, e todos os vizinhos ajudavam como podiam: traziam comida, ficavam com ela quando António tinha de sair. Nunca a mãe de Manuel reclamou das noites passadas pelo filho fora, ao lado da amiga, forçando-a a fazer os trabalhos de casa, lendo-lhe em voz alta, convencendo-a a brincar, levando-a à ginástica, essa que a mãe inscrevera a pensar que a filha ficasse saudável Aos poucos, aquela dedicação transformou o inverno de Mariana em primavera. Um dia, quando os dois encontraram um gatinho recém-aberto aos olhos, levou-o para casa de Dona Amélia, e a menina, vencendo o luto, pediu leite para o alimentar. Dona Amélia, em segredo, agradeceu aos céus.
O gatinho ficou com Manuel, pois António tinha alergia. E Manuel continuou a ser a presença constante: era como a própria extensão de Mariana. Ambos filhos únicos, descobriram um no outro tudo o que lhes faltava: apoio, amizade, cumplicidade rara.
Nunca precisavam de dizer tudo; bastava um olhar, Mariana começava uma frase e Manuel terminava. Os adultos, embora achando aquilo estranho, deixavam-nos estar. Sabiam que só assim, os dois órfãos de mãe ou de pai, podiam sarar.
Só no fim do secundário é que a equação se alterou. Mariana tornou-se uma jovem bonita, brilhante, e com uma fila de pretendentes. Manuel assistiu, em silêncio doloroso, a essa metamorfose. Até aparecer Gonçalo, com quem Mariana literalmente tropeçou na escadaria do pavilhão gimnodesportivo.
Está tudo bem? Dou-lhe uma ajuda? o rapaz alto e charmoso ofereceu a mão, tirando-a do chão, e comentou: Estas escadas são uma armadilha de gelo! Está inteira?
Mariana olhou-o e ficou sem voz. Sempre dissera que não acreditava em amor à primeira vista, mas nesse momento, foi obrigada a admitir que estava enganada.
Perdi-me, Manuel! Estou rendida! Ele é
Ele é o quê? O olhar dele era sério; ela, distraída.
Não sei explicar é o melhor! Mariana rodopiou, rindo. Devias ficar contente por mim!
Contente pois fico feliz por ti Manuel sorriu com custo e inventando uma desculpa, saiu.
A relação com Gonçalo durou mais de três anos até decidirem casar. Informaram os pais e deram entrada no registo civil. Mariana resmungava enquanto via o vestido ser ajustado ao espelho, dizendo:
Pena não poder escolher um ‘amigo da noiva’, só ‘madrinha’. Para quê?
Manuel, sentado no sofá da loja, observava-a. Entretanto, a costureira quase o expulsou da sala:
O noivo não pode ver a noiva vestida!
Ele não é o noivo! Mariana riu. Só amigo.
Pois, amigo… comentou a costureira de sobrancelhas arqueadas.
Mas qual é o problema? Não se pode ser amigo? Mariana, ainda temos que ir tratar do bolo. Vamos despachar isto.
Já vou! E Mariana correu a experimentar o vestido, enquanto Manuel, exausto, se deixou cair no sofá do átrio.
Anos depois, ao olhar para o casamento, Mariana pensava: “Como não vi logo tudo aquilo em Gonçalo que hoje me incomoda?” Cresceu numa realidade onde sempre existia o “cavaleiro fiel”, e julgava-se a princesa resgatada. Afinal, há príncipes muito diferentes.
Os sinais vieram seis meses depois de casados, quando ficou seriamente doente. Uma garganta inflamada, ignorada para agradar ao marido, complicou-se, e quando precisou de fazer exames que custavam dinheiro, Gonçalo exclamou:
Estás louca? O dinheiro está guardado para as férias! És nova, saudável, não precisas dessas coisas. Só querem roubar-nos mais euros!
Mariana olhou para ele, incrédula.
A sério?
Claro!
E uma dor antiga subiu-lhe à garganta. Ouviu as palavras com dificuldade.
Importam-te mais as férias do que eu?
Fizeste um drama. Vais ver que depois de uns dias algarvios passa tudo. Quem te manda stressar tanto? Gonçalo nem notou que, pela primeira vez, ela não lhe correspondeu no abraço.
O pai de Mariana pagou os exames e jamais teceu um comentário sobre Gonçalo. Um ano inteiro foi necessário para recuperar a saúde, ainda assim uma fragilidade ficou, sobretudo no coração. Por isso, quando engravidou e foi à consulta marcar acompanhamento, meteram-na logo na categoria de gravidez de risco.
Não me leve a mal: pense bem dizia a médica, folheando o processo. Pondere. Engravidar é um grande esforço para o corpo.
Não há nada a pensar. Vou ter o meu filho!
Então vamos dar o máximo.
E deram. Mariana passou os últimos três meses internada, mas Martim nasceu saudável. Só ela, o pai e Manuel tinham consciência do que isso custou. Gonçalo, quando soube que tudo correra bem, bebeu tanto em celebração que se esqueceu todo um fim de semana da mulher e do filho. Mariana quase perdeu o juízo, a pedir ao pai que descobrisse se estava tudo bem. Quando António entrou de rosto grave e só a abraçou, disse:
Está tudo bem, filha. Não podes ficar nervosa!
Nesse momento, caiu-lhe a ficha: a história dela não era conto de fadas; não era princesa nenhuma. Só não avançou para o divórcio porque Gonçalo, ao ver Martim, pareceu render-se ao filho acordava de noite, mudava fraldas, ia passear , embora tivesse episódios de impaciência, voltando depois ao papel de melhor pai do mundo. Essa alternância deixava Mariana confusa: era amor a sério ou só quando lhe dava jeito? Contudo, os momentos bons abafavam os maus por enquanto.
O casamento tornou-se uma estrada paralela: cada um na sua faixa, raras vezes cruzando o outro.
Martim, pequeno, adoecia muito e Mariana passava os dias em consultas, evitando pedir favores ao marido porque nunca sabia como este reagiria. Ora era solícito, ora explodia por qualquer motivo. Farta dessa gangorra, preferiu resolver sozinha. O pai ensinou-a a conduzir e ofereceu-lhe um Fiat Punto usado, para não depender do humor volúvel de Gonçalo.
António nunca se intrometeu, esperando que a filha falasse ou decidisse autonomamente. Só uma vez, quando Martim ficou doente e Mariana, exausta, entregou-lhe o filho finalmente adormecido, caiu no chão da sala e adormeceu ali mesmo. Quando acordou, o pai esperava-a e murmurou:
Filha, não me meto, mas lembra-te: nunca estás sozinha.
Obrigada, pai! Mariana abraçou-o. Só que ainda não estou pronta. Nem para falar nem para decidir. Enquanto não decido, Gonçalo é o meu marido.
António acenou e abraçou-a de volta.
Nesses tempos, sempre que Mariana precisava, Manuel aparecia de mansinho: comprar medicamentos, levar Martim à urgência quando o carro avariava, tratar de papeis, resolver problemas. Mariana sentia que talvez abusasse da bondade do amigo, mas não conseguia evitar: ele era a única pessoa em quem confiava absoluta e cegamente.
Agora, olhando o pátio nevado, os pensamentos dela viajavam em espiral: hoje Manuel regressaria da tal missão de trabalho, e, se precisasse, podia sempre pedir-lhe boleia até ao centro de saúde, pois o carro avariara de novo e desta vez parecia sério. O dinheiro era um problema, Gonçalo dizia gastar tudo no negócio novo, e o ordenado de Mariana só chegava para o essencial. Moravam na casa que fora herdada do pai dela, enquanto António vivia agora na casa de campo, fugindo ao ruído citadino.
Mariana olhou para o relógio e ligou para a receção do centro de saúde. Teve sorte: a médica de família estava de regresso e aceitaram o pedido.
Pousou o telemóvel e começou a preparar o pequeno-almoço, quando Gonçalo entrou, despenteado.
Outra vez? Porque é que andaste de um lado para o outro a noite inteira?
O Martim está doente respondeu ela, seca.
E tinhas de fazer tanto alarido? Não dormi nada. Vou tomar banho, prepara-me o pequeno-almoço, que tenho um dia cheio.
Mariana virou-se sem dizer palavra, continuou a cozinhar, mais para Martim, que em dias de doença gostava de “comida para sarar”, uma tradição que Mariana inventara. Hoje fazia panquecas, porque Gonçalo também gostava e assim não haveria discussão.
Então, já falaste com o teu pai?
Não!
E o que estás à espera?
Já disse que não vou pedir-lhe para passar a casa para o nosso nome.
Esse teu orgulho irrita-me! Estou a pagar tudo, mas vivo aqui por favor. Só queres dinheiro tu, Martim, sempre a precisar disto ou daquilo. Não paro de trabalhar, há anos que não tenho férias, e para ti nunca está bem!
Gonçalo ainda continuou, mas Mariana já não o ouvia. Sentiu dentro de si um estalido fino, como uma corda a partir. Era a última ligação que os unia: as memórias felizes, os beijos, a ternura de outrora, o dia do casamento, o nascimento do filho Tudo desfez-se em silêncio.
Largou a espátula, voltou-se devagar e interrompeu-o num tom calmo:
Vou dizer isto uma vez só: hoje arrumas as tuas coisas e sais. Vamos divorciar-nos, Gonçalo. Não quero mais viver assim. Tens há muito perdido o interesse, eu também. Não vamos discutir o que cada um pagou ou vai pagar. Temos o Martim, e só quero que ele possa ter ambos os pais. Mesmo que não vivamos juntos.
Gonçalo ficou primeiro chocado, depois tentado a retrucar, mas abdicou. Atirou os talheres para a mesa.
Já disseste tudo? Pensa bem até à noite, a ver se voltas à razão. À noite falo contigo, espero que mudes de ideias.
Não entendeste. Decidi, Gonçalo. E tu sabes bem o que isso quer dizer.
Só pode ser loucura tua. Achas que alguém te quer com um filho? Boa sorte! Quando mudares de ideias, estarei em casa dos meus pais.
Como quiseres. Mariana virou-se, lutando para que as lágrimas não lhe saltassem.
Ele saiu e, passado pouco, a porta da entrada bateu forte. Mariana desabou numa cadeira e deixou as lágrimas correrem, sem reservas, enquanto Martim dormia. Quando ouviu os passinhos dele na cozinha, enxugou rapidamente a cara e tirou-lhe uma tigela.
Então, jovem mais saudável do mundo! Vais comer?
Não tenho muita fome, mãe. Agora dói-me a cabeça
Achas que panquecas curam isso?
Sim! Martim sorriu malandro. Com doce de morango!
Sempre!
Depois da médica ir embora, com o receituário feito, Mariana preparava-se para ir à farmácia, já com o telemóvel na mão para ligar ao pai, quando ouviram-se batidas na porta. Só podia ser Manuel era o único que não usava campainha, uma espécie de código secreto deles.
Olá!
Olá! Como estão? Manuel trazia uma caixa de brinquedo nas mãos. Mariana pensou que já não se lembrava da última vez que Gonçalo dera um presente ao filho. Todos os presentes vinham dela, ou de Manuel, que nunca chegava de mãos vazias.
O Martim está doente. Ficas com ele? Preciso de ir à farmácia.
Deixa isso para mim. Tens lista?
Ela tirou o papel da carteira e passou-lho.
Logo que Manuel saiu, o telemóvel de Mariana tocou.
Dona Mariana Pereira?
Sim, sou eu.
Da parte do Hospital de Santa Maria. O seu pai foi admitido agora.
O que aconteceu? Mariana apertou o telefone, branco nos nós dos dedos.
Ataque cardíaco. Está estável, mas o caso é grave.
Vou já para aí.
Atirou-se a correr pela casa, sem saber o que agarrar. O pai nunca se queixava do coração. E de repente, viu como era fácil perder o que mais se amava.
Ligou a Gonçalo, sem pensar.
Gonçalo
O que é? Já mudaste de ideias?
O meu pai está no hospital. Ataque cardíaco.
E? Queres o quê? Estás a divorciar-te, não é? Não somos família, certo?
Mariana olhou o telemóvel, incrédula, e desligou.
Manuel voltou da farmácia, encontrou-a vestida e pronta.
Vais onde?
O meu pai está no hospital. Ataque cardíaco.
Mais nada foi preciso dizer. Manuel foi chamar Dona Amélia para ficar com Martim, e juntos, ele e Mariana, correram para o hospital.
Ficaram horas ali, sentados a olhar o tempo passar. Finalmente, num êxtase de silêncio, Mariana murmurou:
Obrigada Como é bom que estejas aqui.
Eu estarei sempre contigo
Eu sei, Manuel. Agora sei de tudo
O médico veio uma hora depois. Mariana dormia sobre o ombro de Manuel. Ele acordou-a com cuidado.
O seu pai já está na enfermaria. A recuperação vai ser longa, mas o pior passou. Podem ir para casa. Informem-se das visitas amanhã.
Mariana abraçou Manuel, e deixou que todas as mágoas e dores se escoassem em lágrimas, sentindo-se, como nunca, tranquila, pois sabia mesmo num sonho de neve e silêncio que nunca, nunca estaria sozinha.






