Esta manhã, a minha esposa anunciou que vamos ter o nosso quarto filho. E acrescentou:

De manhã, a minha esposa veio contar-me que vamos ter o nosso quarto filho. E acrescentou:
Comprar casa não há dinheiro. Portanto, é melhor tentar arranjar uma do Estado. Já que tu não tens jeito para pedir nada, vou ter um filho por ano: se não conseguimos convencer pelo mérito do pai, convencemos pelo número de filhos!

Cheguei abatido ao Instituto e abri a porta da Direção com alguma hesitação. O gabinete estava cheio. O Diretor, doutor Matias Baldaia, e o seu adjunto, senhor Barriga, conduziam uma reunião.

Fala-se aqui do prestígio do nosso Instituto. Temos de ultrapassar todos os outros em resultados desportivos Ora cá está a nossa esperança! disse, olhando para mim.

Fiquei envergonhado.

Esperança não sou… Vim falar sobre a casa…

O prédio fica pronto daqui a uma semana, anunciou Barriga com voz solene. Tu és o primeiro da lista. Uns saltos e já tens a chave.

Onde é que salto? perguntei, quase a rir.

De paraquedas. Amanhã há competição.

Perdi imediatamente o sorriso.

De onde salto?

Do céu para o chão.

E pa-para quê?

Não vês televisão? estranhou o diretor. Agora a moda é: atores a patinar, cantoras a cantar em trapézios de circo E agora, grandes feitos de cientistas O professor Amaral lutou boxe ontem, apontou ele para o franzino Amaral sentado no sofá, com o nariz inchado e três pensos na cara. O doutor Ferrão, sábado, entrou em luta greco-romana está agora no hospital Agora é a tua vez. Foram sorteadas as modalidades: calhou-te o paraquedismo.

Ao ouvir sorteado, senti as pernas a fraquejar.

Quando salto? consegui perguntar.

Amanhã. Dia das Aves, declarou Barriga.

Procurei proteção junto do diretor.

O que é que ganham as aves se eu me matar?

O diretor pôs-me a mão no ombro.

Como pai de família numerosa, tens direito à casa de certeza. Mas Há apartamentos com varanda e sem. Uns virados para o jardim, outros para a fábrica de cimento Na atribuição, vamos valorizar a participação ativa na vida do Instituto

Fez-se silêncio. Tomei um valium e arrisquei perguntar:

E se não chegar ao chão? Ou passar ao lado? A minha família ainda apanha casa com vista para o jardim?

Barriga abriu um sorriso bondoso:

Conheces a regra: viúvas e órfãos passam à frente! E não te preocupes! bateu-me nas costas. Vais ter um parceiro experiente! apontou para um jovem pálido, de óculos, encolhido num canto.

É o estagiário, explicou Barriga, já está para ser dispensado por contenção de quadros.

Sempre tive pavor de alturas. Até subir a um banco já me dava vertigens. A palavra avião enjoava-me. À noite, em casa, tentei treinar: saltei várias vezes da cadeira para o chão.

No dia seguinte, levaram-me, a mim e ao estagiário, num furgão preto, tão comprido que parecia carro funerário. Atrás seguia o diretor Matias. Num elétrico vinha a claque: uns trinta professores, doutores e investigadores.

À chegada, estavam à nossa espera Barriga e a banda filarmónica que ele contratou tocaram uma marcha fúnebre, tão triste que fez até o piloto chorar. Três músicos sentaram-se connosco no avião, para tocarem uma música alegre quando saltássemos.

O instrutor, um homem calmo e de bom coração, olhou para mim e viu logo a minha barriga: mandou dar-me um paraquedas extra. Fiquei com mais um saco às costas. Se o estagiário parecia um camelo de uma corcova, eu era um de duas.

No ar, o instrutor repetiu, com detalhe, todos os cenários em que o paraquedas poderia falhar e beijou-nos três vezes. Depois abriu a escotilha, olhou-me com pena e sussurrou: Está na altura.

Entreguei-lhe em silêncio um envelope.

Dê à minha mulher. Se for um rapaz, ponha-lhe o meu nome.

O instrutor tentou sossegar-me:

O medo só é no início, depois nem dás por nada.

Força, homem! incentivou o piloto.

Os músicos atacaram o Heróis do Mar, fechei os olhos e saltei. Quando os abri, ainda estava no avião ou melhor, metade de mim ainda estava dentro, as pernas já penduradas fora: fiquei entalado na escotilha. O instrutor e o estagiário empurraram-me, mas nada.

É preciso engraxá-lo! sugeriu o estagiário.

O bom do instrutor começou a ganhar ansiedade:

Liberte o caminho! gritava. Está a bloquear o concurso!

Como? gritei de volta.

Deite o ar fora!

Soltei um Uuuu… e esvaziei os pulmões. Caí no vazio. Puxei o anel ainda dentro do avião, o paraquedas agarrou-se ao trem de aterragem e lá fiquei pendurado ao avião.

O piloto começou a fazer manobras para me sacudir, mas eu estava bem preso.

Pare de brincar! berrava o instrutor. Largue o avião já!

Mas eu não largava.

O instrutor saiu meio corpo da escotilha para me tentar soltar, o estagiário agarrou-lhe as pernas. Quando o instrutor quase tocava na fita, o avião abanou e ele saiu disparado. E com ele, o estagiário, que lhe segurava as pernas. Por sorte, o instrutor ainda me conseguiu agarrar pelo casaco. O estagiário ia pouco abaixo, preso nas pernas do instrutor.

Não vos minto quando digo que pareciam acrobatas de circo pendurados no trapézio.

Os músicos tocaram “Voem, pombos, voem!”

O instrutor gritava que o estagiário lhe estava a cortar a circulação e ia gangrenar-lhe as pernas!

Para ajudar, ofereci ao estagiário as minhas pernas estavam livres, afinal. Mas ele recusou: preferia as do instrutor, mais finas, mais fáceis de agarrar.

O avião, com este trio pendurado, não podia pousar. Começou a voar baixinho, a dar voltas no aeródromo, deixando-nos tentar atirar-nos para a relva. Mas tínhamos que sair por ordem: estagiário primeiro. Voávamos tão baixo que o estagiário já arrastava os pés pelo chão, mas não largava as pernas do instrutor, e ao fim da pista lá subíamos outra vez.

O instrutor praguejava contra as suas pernas e desejava-lhe que caíssem com o estagiário.

A banda tocava Ó Céu nosso, lar acarinhado!

O combustível quase acabava. Da escotilha lançaram um pau com laço, laçaram as pernas do estagiário, puxaram-no de volta ao avião, depois foi o instrutor, e por fim eu. Só que fiquei entalado na escotilha: cabeça já dentro, pernas de fora. Mas já não me assustou: o avião estava a aterrar. Só tive de correr meio quilómetro agarrado à fuselagem pelas pernas.

Não morreu ninguém, todos radiantes.

A banda tocou a marcha mais alegre que sabiam.

Só o instrutor não se conseguia mexer: o estagiário ainda agarra-lhe as pernas, como uma trava de ferro. Foi preciso usar alicate para lhas destrinçar.

Quando finalmente se libertou, o instrutor pôs-se de pé e todos vimos que as calças lhe ficaram tão curtas que mais pareciam uns calções. Depois percebeu-se o porquê: as pernas tinham-lhe esticado durante o tempo pendurado, parecia um avestruz.

Amanhã há mais prova, anunciou Barriga.

Com esta notícia, o instrutor ficou branco como o meu paraquedas fechado, e fugiu para o telefone com as pernas de avestruz. Não se sabe para onde ligou, nem o que disse. Mas deram-me a vitória naquela prova, na seguinte, em todas as que vêm nos próximos dez anos. Validaram também o meu recorde de corrida: afinal, corri à velocidade de um avião. Como só correram as minhas pernas, e o resto do corpo voava, dividiram o resultado por dois.

Mesmo assim, foi recorde!

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