– Esta é a criança do Igor…

Este é o filho do Ivo…

Sabes, contei-te aquela história doida? Aconteceu mesmo há pouco tempo aqui em Lisboa, num prédio mais ou menos recente de nove andares, sabes aqueles de vidrinhos e portas pesadas. Lá morava uma mulher sozinha, a Dona Graça, recém-aposentada, mas ainda activa, sempre com energia.

A vida dela seguia o ritmo do costume: reforma, uns biscates na clínica privada aqui do bairro, cafés ao domingo com as amigas, visitas aos netos em Cascais, e, claro, aquele apoio quase diário à mãe, velhota, já morando noutra ponta de Lisboa.

Pois nesse dia, nem se esperava nada de especial, era um sábado normal. Logo de manhã, a Dona Graça ligou à mãe, ver se estava tudo bem, parecia tudo nos conformes.

Nesse dia, e como era habitual, ela cozinhar qualquer coisa e ir a casa da mãe era rotina diária, mas que já lhe pesava, confesso-te. São só dois prédios de distância, mas o quinto andar sem elevador… ui! Pior ainda, as lamúrias da mãe então… Deus me livre, parecia consulta de saúde, com diagnósticos tirados dos programas da RTP1, da sabichona Dra. Lurdes Saúde & Companhia. Sendo que a Graça tinha sido enfermeira de bloco quase quarenta anos, imagina a paciência dela para ouvir sermões de medicina popular…

Bem, mas lá continuava, vida em andamento. Antes de sair, a Graça foi arranjar-se em frente ao espelho: para os sessenta e dois estava toda janota, só um bocadinho de rugas ao canto do olho e pouco mais, cabelo curtinho cinzento, brincos grandes, sorriso bonito.

Estava a pensar para ela própria: “Tenho de levar pão escuro para a mãe, que a velha não come outro, e manteiga daquele tipo que só há no Continente.” Estava a acabar o batom quando tocaram à porta.

Sabes que já ninguém toca à campainha, há videoporteiro! Só se é a vizinha Dona Rosa, que lá aparece para dois dedos de conversa e um chá de tília…

Mas não, quando abriu a porta, à pressa, de batom na mão, estava ali uma rapariga nova, loirinha, toda moderna, camisola às riscas, casaco escuro, mochila às costas, e nos braços tinha… um bebé pequenino enrolado numa manta castanha.

Nem deu para perceber! A rapariga olhou-a nos olhos, cara tensa, passos rápidos, encostou-se e, sem hesitar, entregou-lhe o embrulho: “É para si!”

Por impulso, a Graça recebeu, ainda com o batom na mão… só percebeu que era um bebé quando sentiu o peso. Baixou os olhos, ficou em pânico! Quando levantou a cabeça, a rapariga já ia a descer disparada.

Ainda a ouviu gritar pelas escadas: “É filho do Ivo, preciso de voltar a estudar…” E zás, porta do prédio a bater!

Graça ficou ali pregada, espera lá, deram-lhe um bebé nos braços sem explicação. Só pensava “Quem é que me diz ‘é filho do Ivo’? Quem é o Ivo?!”

Entrou para casa transtornada, pousou o saco do lixo, viu outro saco que nem se lembrava de ter ali (da rapariga, claro), e aí é que gelou: “Ai meu Deus, e agora?”

Foi para a sala com o bebé, pousou-o no sofá, abriu a manta. Era um bebé minúsculo, de um mês talvez, fato de algodão, chupeta verde em forma de rã. Tão pequenina, tão indefesa.

Ainda suspeitou se seria mesmo dela pegar, dar de comer, mexer… mas ninguém vinha buscar.

Estava ali um saco com biberons, leite em pó, pacotinho de fraldas, roupinhas. Ainda esperou uns bons vinte minutos, a ver se a rapariga voltava arrependida a buscar a criança, mas nada.

Quando não conseguiu identificar sinais dos pais, resignou-se, tirou o casaquinho ao bebé ao ver se estava tudo bem. Era uma menina.

Nesse momento começou a entrar-lhe o tal pânico pela responsabilidade. Sentou-se, as ideias aos ziguezagues: “Será da família? Não. O meu filho é o Luís, vive em Cascais, casado com a Sílvia, dois netos já bem criados. Eu estou sozinha, o Manel morreu há cinco anos…”

Ainda tentou ligar ao filho, mas o telemóvel dele estava fora de serviço; à nora também tentou, explicou que precisava de falar urgente com o Luís, mas ela descansou-a que estava longe, sem rede, nos trabalhos dele das obras…

A Graça não sabia muito bem o que fazer. Deveria ligar para a polícia? E se fosse mesmo filha do filho (por engano, claro, porque chamaram-lhe Ivo), estava armada. Pensou que a melhor amiga, a Fernanda, saberia ajudar.

Ligou-lhe: “Nanda, vais-te rir. Deram-me um bebé para as mãos, dizem que é do Ivo!”
Fernanda só se riu: “Ai Graça, isto parece história de novela…”

As duas investigaram. Foram perguntar ao vizinho do sexto andar, o senhor Ivo. Coitado, todo atrapalhado, jura que nunca viu a rapariga nem tem bebé nenhum.

Voltaram para casa. O bebé dormia como um anjinho a Graça antecipava já ter de chamar a polícia, mas era sábado, bateu-lhe aquela ternura, não conseguiu. “Amanhã resolvo.”

No dia seguinte, lá foi ela levar produtos à mãe, arranjou-se, explicou: “Pronto, mãe, hoje trago uma menina para fazer-me companhia.” Inventou que estava a ajudar a neta da vizinha, para o caso de perguntas.

Ao voltar para casa, já cansada, o telemóvel tocou: Uma mensagem! O filho respondeu finalmente, e ela contou-lhe tudo. Ele apressou-a: “Mãe, liga mas é à polícia. Isso é sério.”

No meio deste rebuliço, toca a campainha.

Desta vez era a dona da criança, com ar de ter chorado rios, cabelos despenteados, camisola fina em junho, olhos ansiosos: “A senhora sabe onde está a minha filha? Eu confundi o prédio!”

A Graça acalmou-a, pôs-lhe chá quente nas mãos, deu-lhe um quadradinho de chocolate, sentou-a na cozinha. Entre lágrimas, a história saiu.

A rapariga, chama-se Madalena, estudante em Setúbal, apaixonou-se perdidamente por um Ivo (não aquele vizinho) num verão qualquer. Ivo jurou mundos e fundos, mas desapareceu, trocou de número e campus. Quando engravidou, ficou sozinha. O apoio em casa era zero. Uma tia dava-lhe uns trocos, foi morando num quarto emprestado.

Um dia, de cansaço, sentiu-se sem saída. Lembrou-se daqueles promessas a mãe dele ajuda, recordava-a antes do desaparecimento. Entrou no prédio errado, subiu as escadas, bateu à porta que achava ser da sogra, despejou o bebé, fugiu.

Quando percebeu que tinha trocado o prédio (os blocos por aquele bairro são todos iguais, sabes como é), o susto foi tanto que voltou logo, a ver se apanhava a filha.

A Graça ouviu tudo, emocionada, com aquela vontade meio portuguesa de tomar conta das pessoas.

Olha, Madalena, fica por aqui o tempo que for preciso. Tenho espaço, comida não falta, aliás, a minha casa está mais animada contigo e a bebé por aqui.

A rapariga agradeceu (e chorou, claro), mas realmente não tinha para onde ir. Concordaram que ficava temporariamente, a Graça ajudava nas noites, nos biberons, nos banhos.

Entretanto, a mãe da Graça, ao saber das novidades, adorou a miúda e passou a não reclamar tanto da vida finalmente tinha com quem conversar sem discussões de saúde.

A Madalena acabou por passar nos exames com nota alta. Foi ela própria quem sugeriu à Graça: “Vamos pedir desculpa ao senhor Ivo!”

Assim fizeram, num fim de tarde cheio de risos embaraçados. E nem o senhor Ivo levou a mal, pelo contrário, disse que até sentia falta de movimento naquela casa.

As duas lá ficaram: Madalena tirou o curso (a Graça arranjou-lhe uns turnos como auxiliar de saúde no hospital), a bebé cresceu saudável. O círculo de mulheres, entre cafés, histórias e partilhas, ficou mais forte.

E, como tu costumas dizer, amiga: em Lisboa, nunca sabemos quem vai tocar à nossa porta às vezes é uma história dessas a pedir colo e chá, que muda tudo.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

– Esta é a criança do Igor…