Esposa grávida envia SMS ao marido — mas quem lê é o director-geral, que aparece e arromba a porta trancada do seu apartamento

Mafalda acorda sobressaltada, sentindo o peso enorme da barriga. São três da madrugada. No silêncio do apartamento em Lisboa, só se ouve a respiração pesada do marido e o tique-taque de um velho relógio no corredor.

Tenta virar-se de lado, mas o velho sofá range traidoramente. Rui, que dorme junto à parede, resmunga, já de mau humor:

Mafalda, ainda não te ajeitaste? Daqui a quatro horas tenho que me levantar. Tem piedade, por favor.

Ela fica imóvel, receosa até de respirar. Nos últimos meses, esta tornou-se a frase preferida de Rui. Ele parecia esquecer-se de que gémeos não eram um capricho, mas uma carga séria. Tornara-se um estranho: contava cada cêntimo, analisava os talões do supermercado, torcia o nariz sempre que Mafalda pedia fruta fresca.

Já leste os preços? sibilava Rui ao olhar para o recibo. Come maçã, é nossa, da época. Pêssego é luxo. Sou só eu a batalhar, e tu ficas em casa.

De mansinho, Mafalda sai do sofá, indo até à cozinha, apoiando-se nas costas. Os pés estão tão inchados que já nem os chinelos cabem bem. Senta-se junto à janela, olhando a rua deserta. Uma inquietação apreensiva agarra-a. Sente medo do parto que se aproxima e de ter de voltar com dois bebés a uma casa onde só há cobranças e críticas.

De manhã, Rui prepara-se para o trabalho aos arrancos: atira a roupa, procura as meias, bate com portas.

Passaste-me a camisa? pergunta sem sequer a olhar.

Está nas costas da cadeira, Rui.

Podias era ter cosido o botão, está pendurado. Mas pronto, já vou. Hoje vou chegar tarde, temos reunião com o diretor-geral. Não me ligues, o patrão é exigente, fica com os telemóveis de toda a gente.

Sai sem sequer um beijo de despedida. A porta bate forte e Mafalda ouve o clique do trinco de cima aquele que prende por dentro e só abre com muita força, usando as duas mãos e o corpo todo.

Durante a tarde, Mafalda decide finalmente arrumar o corredor e tirar a caixa das roupas do bebé, que veio da prima. Puxa do banco de madeira.

Só vou ficar na ponta tenta convencer-se.

Ergue-se, estica o braço. De repente, tudo escurece: sente-se fraca. O pé escorrega no banco polido. Um tombo, um estrondo.

Cai de lado sobre a carpete, batendo com a anca. Dá um grito, e uma dor aguda atravessa-lhe o baixo ventre, cortando-lhe a respiração.

Não, por favor… ainda não… sussurra numa tentativa de se erguer, mas outro espasmo intenso paralisa-lhe o corpo. Percebe que é chegada a hora.

O telemóvel está na mesinha, a um metro. Mafalda rasteja até lá, deixando um rasto húmido no chão. Cada milímetro que avança traz nova onda de dor.

Agarra no telefone com mãos trémulas, visão desfocada. Nos contactos, primeiro aparecem os nomes começados por R.

Rui.

Logo abaixo: Rui Duarte (Diretor-Geral). Guardou aquele número há um mês, quando precisou do apoio dele para uns papéis da baixa e o marido não atendeu.

Mafalda clica em Rui. Chamadas longas, impessoais. Desliga-se.

Tenta de novo.

Este número está temporariamente indisponível.

O pânico invade-a. Está sozinha, trancada com um trinco que não consegue abrir. Se chamasse socorro, a equipa ficaria do lado de fora, sem acesso.

Ainda meio apagada, abre o WhatsApp, convencida de estar a escrever ao marido:

Preciso ir ao hospital, porta trancada! Já começou tudo, caí, não consigo levantar-me. Vem rápido, peço-te!

Envia e deixa cair o telemóvel. O écran apaga-se.

Rui Duarte, presidente de uma grande construtora, está numa reunião de administração. Homem direto, exigente, respeitado por vezes até temido na empresa.

O telemóvel vibra discretamente na mesa. Rui lança uma olhada. Reconhece o número Mafalda, esposa do seu chefe de aprovisionamento, Rui Pinto. Uma senhora simpática, apreensiva, que fora recentemente assinar uns papéis.

Rui lê a mensagem e o seu rosto, normalmente inexpressivo, altera-se.

Reunião terminada! rosna, levantando-se bruscamente.

Mas senhor Rui Duarte, ainda não discutimos as contas… começa a diretora financeira.

Todos lá para fora!

Sai disparado do escritório. Tenta ligar a Rui Pinto. Indisponível.

Canalha… murmura, irado.

Liga ao chefe de segurança:

Descobre onde está o telefone de Rui Pinto. E traz já o carro à porta, vou pessoalmente.

Dois minutos depois, recebe uma localização. Nada de canteiros ou obras: aparece na zona do complexo desportivo de Oeiras.

Duarte trava o maxilar, furioso.

Conduz pelas ruas lisboetas, acelerando. O destino: o apartamento dos Pinto, a cerca de quinze minutos dali. Recorda-se como há cinco anos perdeu a mulher para um ataque cardíaco aquela sensação de impotência quando o socorro não chega.

Sobe correndo ao terceiro andar. Puxa da maçaneta fechada. Ouve um murmúrio enfraquecido.

Não hesita. Recuado, investe com o ombro. O trinco aguenta a primeira investida, cede à segunda.

Mafalda está caída no corredor, encolhida. Ele curve-se ao seu lado.

Mafalda!

Ela abre os olhos, vê-o desfocado:

Rui Duarte?… Onde está o Rui?

Vim por ele. Aguenta firme.

Carrega-a nos braços.

Conduz o jipe a toda a velocidade, abalando quem partilha a estrada. Mafalda respira com dificuldade no banco de trás.

Coragem, já chegamos murmura sério, pelo espelho retrovisor.

Na clínica privada, são recebidos com maca e prontidão. Rui Duarte já telefonara ao diretor clínico.

É o marido? pergunta a enfermeira.

Sou o responsável, responde ele seco. Quero garantias: cuide bem dela e dos bebés.

Fica no corredor, a calcorrear o chão. Três horas depois, o médico retira a máscara:

Pode relaxar. Dois rapazes. Foi preciso agir rápido, mas conseguiram. Peso ainda baixo, ficarão em observação. A mãe está frágil, mas vai recuperar.

Duarte encosta a testa ao vidro frio.

Obrigado.

Tira o telefone e volta a ligar a Rui Pinto. Finalmente, este atende. Voz arrastada, barulho de música e risadas femininas ao fundo.

Estou? Chefe? Ligou? Estou aqui numa obra, a rede é péssima…

Obra? Imagina-se que anda a descarregar cimento na discoteca Onda Azul, não?

Pausa.

Rui Duarte, eu…

Estás despedido, Rui Pinto. Sem referências. Amanhã não te quero ver em Lisboa. E agradece se a tua mulher te desculpar. Eu, na posição dela, não faria por menos.

Mafalda recobra sentidos só no dia seguinte. Um quarto privado, sossegado. Uma garrafa de água do Luso e sumo de laranja na mesa de cabeceira.

A porta abre-se. Rui Duarte entra, sem gravata, cansado.

Como te sentes?

Senhor Rui… Mafalda tenta sentar-se, mas uma dor forte obriga-a a ficar quieta. Não sei como agradecer. Acabei por enganar-me no número…

Agradece à sorte de te teres enganado senta-se ao seu lado. Mafalda, precisamos falar com seriedade.

Conta-lhe tudo: a chamada, Oeiras, o despedimento do marido. Não poupa nas palavras.

Ele vai ligar-te a pedir desculpas. Este apartamento é dele?

Dos pais dele sussurra Mafalda, com lágrimas nos olhos. Não tenho para onde ir. Só uma tia, longe, no Alentejo…

Duarte tamborila os dedos na perna, em silêncio.

Fazemos assim. Tenho uma casa grande, dois pisos. Apenas lá durmo. O anexo está livre, ficas lá com os teus filhos até te orientares. Preciso de alguém de confiança para ajudar, não gosto de estranhos. Considera um trabalho.

Não tenho forças… com dois bebés…

Vais conseguir. Contrato alguém para ajudar. Não é caridade, Mafalda. Prefiro vida em casa do que vazio.

A alta do hospital corre tranquila. Rui tenta furar a segurança e entrar, mas é barrado. Grita da rua, ainda com álcool no sangue.

Mafalda escuta-o à janela, sentindo-se vazia por dentro. Só restou indiferença.

Duarte chega ele próprio, leva-lhe as coisas, prende as cadeirinhas dos bebés no carro.

Vamos para casa diz apenas.

Na casa de Rui Duarte, reina agora paz. O enorme chalé anima-se com cheiros suaves a bebé e roupa estendida ao sol.

O austero Rui Duarte não mete medo. À noite, ao regressar do trabalho, pega desajeitadamente num bebé, depois no outro.

Então, campeões? Já crescem?

Os gémeos, Pedro e Tiago, olham-no com seriedade.

O antigo marido desapareceu. Ao descobrir que Rui Duarte lhe fechou portas em todas as empresas da região, mudou-se para casa da mãe. Mandava migalhas de dinheiro, mas a Mafalda já não importava. Pela primeira vez em anos, sentia-se protegida.

Dois anos passam.

É domingo de julho, cheio de calor. Mafalda põe a mesa na varanda do jardim. Rui Duarte prepara o grelhador.

Os pequenos correm atrás de uma libelinha no relvado.

Pai, olha, um bicho! grita Tiago, apontando.

Mafalda congela com o prato na mão; Duarte também para. Tiago chamou-o pai pela primeira vez.

Duarte, emocionado, limpa as mãos no pano, pega Tiago ao colo, atira-o ao ar com cuidado.

Isso é uma libélula, companheiro. Faz-nos companhia.

Olha para Mafalda; o seu olhar agora é terno, sem a dureza habitual.

Mafalda, aproxima-se senta-te aqui.

Ela faz-lhe a vontade.

Sabes que não sou homem de grandes frases. O Pedro e o Tiago… já são filhos para mim. E tu, também já fazes parte desta família.

Tira do bolso uma caixinha simples.

Já são dois anos juntos, na prática já somos família. Vamos oficializar. Quero adotar os meninos, dar-lhes o meu apelido. Ninguém lhes vai poder faltar ao respeito. Que dizes?

Mafalda olha para ele, lágrimas de alívio a correrem-lhe pelo rosto. Pela primeira vez, sente apoio verdadeiro.

Sim, Rui… sorri em lágrimas.

Então fica combinado. E esquece o senhor Rui, já pedi isso tantas vezes…

No fim do dia, com os gémeos a dormir, ficam à varanda com chá nas chávenas. Lá longe, numa vila qualquer, Rui Pinto afoga-se em mágoas e vinho barato, a queixar-se à vida. Na nova casa, dois meninos dormem tranquilos, agora com um verdadeiro pai.

Às vezes, um erro num número muda uma existência. O importante é nunca errar na escolha das pessoas.

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