Esposa Feia

No escritório, ouve-se o burburinho típico das conversas do dia a dia. A gestora entra acompanhada de uma rapariga pouco atraente e discreta.

Meninas, apresentem-se, esta é Inês, ela vai trabalhar convosco a partir de agora, no lugar do Tiago. Ele foi promovido. Tenho a certeza de que se vão dar bem diz a dona Teresa, saindo logo de seguida.

Inês senta-se à secretária do Tiago, tira uma chávena bonita e uma pequena moldura com a fotografia de um homem. Mergulha imediatamente no trabalho, como se já estivesse ali há anos.

Bate o sino para o almoço e, como em perfeita coreografia, toda a gente se levanta para ir ao restaurante habitual. Só a Marina fica para trás, consumida pela curiosidade de perceber quem estará retratado naquela fotografia na secretária da nova colega.

Na moldura está um homem bonito, com um sorriso encantador e dentes perfeitos.

Quem será ele? pensa Marina Será algum ator, cantor?

Ela tira uma foto com o telemóvel discretamente e vai ter ao almoço. As colegas reúnem-se num canto animado, escutando atentas a recém-chegada.

Conheci o Sérgio há três anos, numa situação muito estranha, nem vocês iam acreditar se não vos contasse começa Inês.

Conta, conta! pedem todas entusiasmadas.

De repente, volta mentalmente àquele dia, três anos atrás: na altura trabalhava numa grande empresa, houve um erro e enviaram o produto errado para a empresa do seu futuro marido. Mandaram-na tratar do problema.

Inês era uma profissional excelente, entendida em negociação. O que confundia quem não a conhecia era o seu aspeto simples, sem artifícios nem maquilhagem parecia quase invisível. Mas quando começava a negociar, transformava-se; envolvia delicadamente o interlocutor até conseguir o que queria.

O chefe, sabendo da sua habilidade, enviou-a. Na receção informaram-na:

Sala 312, Sérgio Ferreira.

Ela entrou, apresentou-se.

Sou Inês, fomos nós que enviámos o produto errado, foi uma confusão na logística.

Seguiu-se uma explicação profissional. Sérgio olhava para ela, incrédulo.

Mas eu conheço-a Sonhei consigo há muito tempo.

O cabelo ruivo dela balançava levemente, os olhos verdes fitavam-no sem disfarces. Falava com segurança, serenidade.

Enquanto Inês se preparava para responder à próxima pergunta, Sérgio disse de repente:

Não se preocupe, Inês, não vamos formalizar reclamação. Espero que isto não se repita.

Ela agradeceu, despediu-se. Dois dias depois, Sérgio esperava-a à saída. Inês foi a última a sair.

Inês, olá! Falámos há dois dias, lembra-se? disse ele, acenando-lhe.

Boa tarde, Sérgio. Claro que me lembro respondeu ela, sem qualquer fingimento.

Tenho dois bilhetes para o teatro. Faz-me companhia? Era para ir com a minha mãe, mas ela está doente mentiu ele.

Se eu puder, claro. Quando é o espetáculo?

Esta noite, daqui a duas horas. Ainda tem tempo, se precisar eu levo-a a casa para se mudar.

Que jogada esperta pensou Inês, aceitando.

Ele esperava-a no carro. Quando Inês surgiu, trajava de negro, com um vestido justo realçando a sua silhueta e sapatos de salto médio. Sérgio mal a reconheceu, tão diferente estava. Maquilhagem sóbria, elegante.

Durante o espetáculo ficou patente que ela era conhecedora de teatro, talvez até tivesse lido a peça. Após a peça, Sérgio convidou-a para jantar, mas Inês recusou, justificando-se com um dia difícil seguinte.

No final da semana, voltaram a encontrar-se e foram passear juntos.

Dois meses depois, Sérgio, como sempre, esperava-a à porta do trabalho.

A minha mãe gostava de te conhecer. Importas-te?

Claro que não, também quero muito conhecê-la.

A mãe recebeu-os calorosamente. Tomaram chá com compota de abrunhos, tarte de alperce e outras guloseimas caseiras. A conversa fluiu solta. Inês contou a Dona Margarida (mãe de Sérgio) da receita da avó, das compotas de abrunhos, falou do pai, que morreu num acidente, e da mãe, professora de história numa escola pública.

Sérgio deixou Inês em casa.

Gostaste muito à minha mãe. Fico feliz.

A partir daí, começaram a sair juntos quase todos os dias. Ao fim de um ano celebraram o casamento.

Inês cala-se. As colegas ouvem-na com atenção, algumas sentem uma pontinha de inveja. Só a Marina pensa:

O que é que ele viu nela? Tão apagada, sem graça. Porque é que umas têm tanta sorte? Eu sou bonita, alta, elegante, mas só me aparecem tipos que querem logo uma aventura, ou então, passados uns dias, afinal estão casados

Bate o sino, todas regressam ao escritório em silêncio. Marina vira-se para a Sónia.

Olha, este é o marido dela! Tu acreditas nisto? Eu não. Ela está a inventar. Um homem daqueles nunca olharia para alguém como ela.

À tarde, já no exterior da empresa, quando Inês sai, ouve-se o piscar de faróis de um automóvel. Do carro sai o mesmo homem da fotografia.

Inês, estou aqui! diz ele, acenando carinhosamente.

Mas é mesmo ele! É verdade pensa Marina, mordida pelo ciúme. Porque não eu?

Todas as colegas observam-nos, cada uma perdida nos seus pensamentos.

É comum, ao ver casais assim, perguntar: O que será que ele viu nela? Talvez tenha encontrado o que procurava. A beleza não é tudo para os homens. Podem flertar, mas recebem outras para casar. Porquê? Talvez só eles saibam a respostaSérgio envolve Inês num abraço, como quem protege algo raro e precioso. Entre sorrisos cúmplices, afastam-se, deixando atrás de si o rumor das conversas e olhares de espanto. Pela janela, Marina observa, incapaz de desviar os olhos do casal. Pela primeira vez, sente uma dúvida crescer: seria possível, afinal, que algo invisível pesasse muito mais do que uma aparência?

No autocarro, Inês encosta-se ao ombro de Sérgio. Ele acaricia-lhe a mão e sussurra:

Sabes, tudo o que importa está aqui.

Ela sorri, sentindo-se, finalmente, vista.

No escritório, as luzes apagam-se devagar. Entre as secretárias arrumadas, fica apenas, esquecida, a chávena de porcelana e a pequena moldura. E, por um instante, parece pairar no ar a certeza de que, às vezes, o brilho que permanece é aquele que quase ninguém percebeu enquanto olhava.

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