É isto que procuras? estendi-lhe a carta.
O Rui ficou lívido.
Mariana, tu… não penses mal… O Miguel Isto
O que é que eu não devo pensar, Rui? Que a mãe do meu marido está viva e está presa? Que vocês me tomam por uma ingénua?!
Que é isso do um mês? Mariana, combinámos que ficavam até ao outono, lembras-te?!
O meu mais novo acabou agora de entrar no infantário, consegui trabalho aqui perto
Que se passou afinal?
Sempre pagam a renda a tempo, são pessoas tranquilas
Não tem nada a ver convosco Mariana hesitou. Eu… preciso de voltar ao meu apartamento.
Porquê? Tiveste problemas com o teu marido?
Por favor, não perguntes mais nada.
Exatamente um mês a contar de hoje!
Faço o acerto, devolvo-te o depósito.
Desculpa…
Mariana desligou e estremeceu. Quanto antes pudesse fechar este capítulo, melhor…
***
Não conseguia tirar os olhos do envelope pousado na mesa da cozinha.
Um envelope vulgar, que há poucos minutos retirara da caixa do correio junto com folhetos de supermercado e a conta da internet.
O Miguel era sempre quem ia à caixa do correio, mas naquele dia apeteceu-me ir por mim próprio
O carimbo dos correios. O remetente: EPC Coimbra.
E o nome na origem: Lurdes Silva Rodrigues.
Esse nome ouvi-o do Rui umas poucas vezes era assim que se chamava a mãe dele. A sogra que nunca vi, nem em fotografia.
Nem sequer imaginava que a mulher que pôs o Rui no mundo estivesse viva.
Não tenho ninguém, Mariana contou-me ele no nosso terceiro encontro, quando ainda bebíamos café numa pastelaria barata para nos aquecermos depois daquela chuva inesperada. O meu pai foi-se embora antes de eu nascer, nem o conheci.
E a minha mãe… faleceu quando eu tinha vinte anos. O coração, sabes? Sou um bocado à deriva. Praticamente sozinho neste mundo.
Mesmo sozinho? quase me emocionei ao ouvi-lo Nem primas, nem tios?
Uns parentes afastados no Norte, perdemos o contacto.
Acredita, é mais fácil. Sem dramas de família, sem almoços obrigatórios de domingo em casa da sogra. Só tu e eu.
Pensei para mim:
Meu Deus, como é forte. Passou por tanto e manteve a bondade…
Tentei dar-lhe todo o carinho possível, como se pudesse compensar a falta de afecto materno.
Depois veio o casamento, discreto, só com a família próxima.
Do meu lado, os meus pais e duas amigas; do lado dele, só o melhor amigo de infância, o Carlos, que esteve a noite toda calado, sem me conseguir encarar.
Achei que era timidez, hoje percebo. Ele sabia demais e receava contar sem querer.
Onde é que ela está sepultada? perguntei ao Rui meio ano depois do casamento. Se quiseres, vamos lá juntos, podemos cuidar do jazigo Afinal é tua mãe.
O Rui ficou estranho, desviou-se de mim, mexeu no colarinho da camisa.
Fica longe, Mariana. É fora de Lisboa, um cemitério antigo, quase abandonado.
Um dia destes vou lá sozinho. Não te preocupes com isso. Nem gosto daquele ambiente, é pesado.
Mais vale preocuparmo-nos com os vivos, pode ser?
Acreditei nele. Inocente!
***
A porta de casa abriu-se, estremeci e apressei-me a guardar o envelope na gaveta, tapando-o com vales de supermercado Pingo Doce.
Olá, amor! o Miguel chegou com o mesmo tom caloroso de sempre. Então, o nosso campeão portou-se bem?
Entrou para a cozinha, aproximou-se e ia dar-me um beijo na testa, mas recuei, sem querer.
Que se passa? Estás cansada? olhou-me de lado, desconfiado. Não conseguiste dormir, outra vez, por causa do Tiaguinho?
Olha, vou-me trocar, volto já e fico com ele, descansa um bocado.
Eu trato do jantar, prometo.
Deixa estar, não tenho vontade de comer. Rui, trouxeram o correio hoje
Ficou parado uma fração de segundo, mas eu reparei.
Trouxeram? E o quê? Mais contas?
Contas. Publicidade. Só isso.
Notei que ficou mais aliviado, suspirou com barulho.
Pronto, pronto! Vou lavar as mãos e fazer companhia ao nosso rapaz. Já tinha saudades dele.
Olhei para as costas daquele homem. O homem com quem partilhava a vida, o que fazia parte dos meus dias, e ele mentia-me.
Mentia com tal descaramento que me dava vontade de fugir dali.
Podes considerar-me órfão, dizia ele.
Mas a Lurdes Silva Rodrigues escrevia-lhe da cadeia.
Porque é que estava presa? Teria matado alguém? Roubo? Burlas? E quantos anos faltam para sair?
Imaginei, com uma clareza arrepiante, que dali a pouco tempo tocariam à campainha, e que à porta estaria uma mulher com olhar pesado, marcada pelo passado prisional.
A dizer:
Olá, filho, olá, nora. Onde está o meu neto? Agora venho viver convosco!
Por mim não temia tanto. O que me assustava era o Tiago.
Como iria crescer, se a avó, mulher que esteve presa anos, lhe entrasse assim casa adentro?
Como é que alguém pode deixar uma criança ao cuidado de uma criminosa?
Mariana, queres chá? gritou Rui do quarto. Vi no Continente uma promoção nas fraldas, amanhã passo lá. O folheto estava na gaveta.
Não respondi. Já estava a abrir a app do banco, a ver quanto dinheiro tinha só em meu nome.
Chegava para o essencial. O apartamento noutro bairro já era meu.
Daqui a um mês os inquilinos saem. Precisava era de aguentar este mês sem levantar suspeitas.
***
O Rui foi trabalhar, antes despediu-se do Tiaguinho com beijos e prometeu chegar mais cedo.
Assisti à despedida cheia de amargura. Como podia ele mentir-me desta maneira? Quem é que esconde coisas tão graves?
Quando ficou tudo em silêncio, peguei na carta. Morria de vontade de a abrir, ler, mas temia.
E se não conseguisse ir embora, depois? E se…?
Não, disse firmemente a mim próprio. Não importa o que lá está escrito. Ele mentiu-me durante quase dois anos!
Tocaram à porta nesse momento. Vacilei quem poderia ser?
Os meus pais avisam sempre antes, amigas também. Olhei pelo óculo era o Carlos.
Estava inquieto, a olhar repetidamente para o elevador.
Abri a porta.
Carlos? O Rui saiu para o trabalho.
Eu sei, Mariana gaguejou, empurrando as mãos para os bolsos. Eu passei por aqui, pensei que o Rui podia ter deixado as chaves da garagem
Disse que talvez estivessem na mesa do hall.
As chaves? ergui as sobrancelhas. Não há lá nada. Tens a certeza de que ele as deixou aqui?
É o que ele disse Mariana O Rui pediu-me para ir ver se havia alguma coisa na caixa do correio. Fui ver, estava vazio. Tu por acaso, tiraste o correio hoje?
Tirei. Porquê?
O Carlos engoliu em seco.
Nada de especial. Estamos à espera de umas peças que encomendámos, pensámos que podia estar lá o aviso.
Voltei à cozinha, peguei no envelope cinzento e, regressando ao hall, com calma, estendi-lho.
É isto que procuras? perguntei.
O Carlos ficou branco como a cal.
Mariana, tu não julgues O Rui Isto
O que é que eu não devo julgar, Carlos? Que a mãe do meu marido vive e está presa? Que me tomam por tola?
Que tive um filho com um homem de quem nem conheço as origens?
Mariana, ele só queria o melhor! falou apressado, num sussurro. Só queria uma vida normal, esquece isso tudo.
A mãe é complicada, o Rui sofreu tanto que nem imaginas.
Ele riscou-a da vida, foi só isso, para não te assustar.
Riscou? ri-me, amarga. Carlos, como é que alguém apaga uma mãe? E ainda por cima a mentir!
Tirou-me o direito à escolha, o direito de decidir a família para onde ia.
Que família? desdenhou Carlos. Não há família nenhuma. É só ela e aqueles esquemas dela.
Dá-me a carta, sim? Ainda nem leste, pois não? Eu dou-lha ao Rui, ele explica-te tudo.
Sai, Carlos, pedi baixo. E não vou entregar a carta. É para o Rui, ele é que tem de a receber. Das minhas mãos.
Fechei a porta sem cerimónias, deixando o Carlos atrapalhado no hall.
***
O dia pareceu um sonho estranho. Dei de comer ao Tiago, passeámos junto ao jardim, mas a minha cabeça voltava sempre ao mesmo.
O que levaria primeiro? O carrinho, uma muda de roupa, documentos. Móveis não interessavam.
No apartamento da periferia sempre tive um sofá velho e um roupeiro. Chega bem.
Às seis da tarde estava sereno.
Pus a mesa, preparei o jantar, deitei o Tiago. Sentei-me a esperar.
Hummm, que cheirinho bom! disse o Rui ao chegar. Olha o que trouxe para o Tiaguinho: um móbile novo para o berço!
Sentei-me calado à mesa, o envelope em frente. Ele entrou na cozinha, deixou cair a máscara.
O Carlos conseguiu encontrá-la? murmurou.
Fui eu que a encontrei. O Carlos veio cá a teu pedido, tentou levar a carta. Não dei.
Sentou-se pesadamente à minha frente.
Porquê, Rui? Porque disseste que ela tinha morrido?
Porque para mim a minha mãe morreu há doze anos olhou para mim, os olhos húmidos. Quando foi presa a primeira vez. Saiu, ficou seis meses na rua, e voltou para a prisão.
Mariana, vens de uma família normal, teu pai é engenheiro, tua mãe professora. Nunca irias perceber quem ela é. A minha mãe é burlona profissional. Ladrã.
E tu achaste que podias mentir-me? UM ANO? levantei a voz, não me contive. Percebeste que ao fazer isto destruíste toda a confiança que tinha em ti?
Tive medo de te perder! elevou a voz também. Irias fugir! Irias dizer: Não quero nada com um homem cuja mãe é criminosa, que herança é esta?
Quis dar uma vida normal ao Tiago. Achei que era melhor seres casada com um órfão do que com o filho de uma vigarista!
Agora ele vai ser filho de pais divorciados disse-lhe, fria.
O Rui parou.
O quê? Mariana, vais fazer isto por causa duma carta? Só porque te escondi a verdade?
Porque não te conheço, Rui. Se conseguiste inventar a morte da tua mãe assim tão tranquilamente, em que mais é que tu mentes?
Quem é mesmo o teu pai? Também está preso, mas noutro sítio?
Mariana, não digas disparates
Não são disparates. Já avisei os inquilinos. Daqui a um mês mudo-me. Amanhã entro com o divórcio.
O Rui implorou. Ficou de joelhos, tentou justificar-se.
Mas eu já tinha decidido. Não ouvia mais desculpas.
***
Os inquilinos saíram, agora vivo com o Tiago no meu apartamento. O divórcio finalizou-se, mas o Rui ainda tem esperança de reatar. Não entende o que fez de tão grave. Pensava que protegia a família
Vê o filho regularmente, garante-lhe tudo o que precisa. Mas recuperar o amor, isso não consegue. Voltar para ele nunca mais.







