Esposa à Maneira Portuguesa: A Mulher Ideal segundo a Tradição

Esposa à medida

Margarida, ouves-me? O tom de António era plano, quase burocrático, como quem anuncia que o pão acabou.

Margarida permanecia junto à janela, o olhar pousado no quintal. Ali tinha crescido o velho medronheiro que ela plantara há vinte e três anos, quando se mudaram para aquela casa. O medronheiro era agora robusto, cheio de si, como uma recordação teimosa. Margarida pensava nisso, como se o sonho da árvore invadisse o seu corpo.

Ouço, murmurou.

Quero que entendas bem. Não quer dizer que esteja tudo mal. Foi simplesmente assim que acabou por ser.

Virou-se devagar. António estava à mesa, mãos cruzadas, pose de negociante. Tinha sessenta e um anos, porte largo, bem vestido, aquele aprumo tranquilo de quem já não pensa em dinheiro. Vinte e seis anos ela conhecia aquele rosto. Sabia quando franzia o sobrolho antes de conversar, quando tamborilava nos tampos em ansiedade. Hoje, nada disso. Um silêncio estranho.

Assim acabou por ser, repetiu Margarida, ecoando-o. É só isto?

Margarida, não dramatizes.

Não dramatizo, António.

Ele levantou-se e percorreu a cozinha de ponta a ponta. Era uma cozinha ampla, luminosa, com móveis italianos que escolheram juntos oito anos antes. Margarida quis bege. António insistiu no branco. Acabou por ceder. Costumava ceder.

Não tenho de te dar satisfações, anunciou ele. Mas faço-o porque respeito por ti.

Respeito?

Sim. Tivemos uma boa vida. Temos tudo. Filhos criados. Não quero escândalos.

No peito de Margarida crescia qualquer coisa muda, pesada. Não doía. Era aquilo meio entontecedor dos sonhos onde tudo já aconteceu, mas a consciência chega atrasada.

Vais embora, disse ela. Não perguntou. Declarou.

Vou, confirmou António. Por uns tempos. Preciso de espaço.

Espaço, repetiu, o eco do sonho. Notava que repetia as palavras, como quem tenta acomodá-las noutro sítio qualquer, para ver se fazem sentido.

António aproximou-se para lhe tomar a mão. Ela recuou quase imperceptivelmente, mas ele sentiu.

Não fiques zangada, sussurrou ele.

Não estou zangada.

Margarida…

Não estou, António. Estou só a pensar.

Ficaram lado a lado, depois ele acenou e saiu da cozinha. Da sala, ouviam-se os sons do armário, portas a bater. Ele arrumava alguma coisa. Por pouco tempo, dissera. Margarida olhou o medronheiro e pensou nas aves que, segundo a sua mãe, se apressam a comer os frutos quando o inverno chega cedo. A mãe morrera há sete anos. Às vezes ainda se apanhava a pensar: tenho de ligar à mãe. Depois lembrava-se.

Tinha cinquenta e oito anos.

***

No dia seguinte, Filipa apareceu sem avisar. Só telefonou já em baixo.

Abre, estou à porta.

Filipa, nem estou vestida.

Veste-te. Espero aqui.

Filipa Torres era amiga de Margarida desde a faculdade. Trinta e sete anos a somar. Barulhenta, direta, um pouco sem cerimónia. Havia três anos, divorciara-se ela própria do Luís e, após muitas lágrimas, abriu uma loja de artigos para lavores. Corria-lhe razoavelmente e garantia sentir-se melhor do que na década anterior.

Sentaram-se na cozinha. Filipa apertou Margarida num abraço verdadeiro, fazendo-lhe esboçar lágrimas que não chegaram a cair.

Conta-me, pediu, servindo chá.

Já sabes o suficiente.

Quero ouvir de ti.

Contou em remoinho resumido. António ia-se embora por uns tempos, precisava de espaço. Não questionou para onde. Não por ingenuidade, mas porque se perguntasse, tornava real. Enquanto não perguntasse, podia fingir incerteza.

Não perguntaste para onde? Filipa fitava-a.

Não.

Magui…

O quê?

Sabes para onde?

Breve pausa. No quintal, alguém tamborilava risonho, vida em carteira noutra dimensão.

Imagino, disse Margarida. A secretária dele. Andreia. Tem trinta e dois anos.

Filipa calou-se. Depois:

Já há tempo?

Não sei. Um ano? Talvez mais… Sentia qualquer coisa. Mas não quis pensar.

Porquê?

Margarida mirou a chávena. Loiça bonita, daquelas que trouxeram de Praga há dez anos. Viagem boa. António ainda brincava, ria, dava-lhe a mão na ponte Carlos.

Porque se pensasse, tinha de agir, explicou, por fim. E eu não sabia o que fazer. Não trabalho há vinte e seis anos, Filipa. Percebes? Primeiro os filhos, depois a casa, depois… assim foi acontecendo.

Ele sustentava-te.

Sim. Eu cuidava da casa, dos filhos, dos pais dele quando adoeceram. Era… procurou a palavra era um pedaço da vida dele. Um bocado importante, eu pensava.

E agora?

Agora vejo que fui um pedaço conveniente. Margarida falou sem mágoa, só constatação. Fui uma esposa à medida. Sem cenas, sem exigir. Sempre de acordo. Cozinha branca em vez do bege. Férias no Gerês, não no Algarve. Jantar às oito, não às sete. Tudo ao ritmo dele.

Filipa, inusitadamente, ficou muda.

Estás zangada? acabou ela por perguntar.

Não. Talvez fique depois.

E agora?

Margarida hesitou. Lá fora, o silêncio pesava sobre o quintal e o medronheiro.

Agora tento lembrar-me do que gosto, respondeu em sussurro. Para além desta casa. Para além da vida dele. O que gosto mesmo e não me vem logo à cabeça. É… estranho.

Filipa colheu-lhe a mão. Não disse nada. Talvez fosse, afinal, o melhor gesto.

***

Três dias depois, a filha ligou. Inês vivia em Coimbra com o marido e dois filhos. Trinta e quatro anos. Sempre papista, prática, despachada.

Mãe, o pai falou comigo. Como estás?

Estou bem.

Isso não é resposta, ó mãe.

Acredita, filha. Estou a pensar.

Pensas sobre?

No tom da filha ouvia-se aquela tensão de quem já tomou partido mas ainda não o diz.

Em várias coisas.

O pai disse que é temporário. Que vocês precisam de…

Inês, interrompeu Margarida, calma, firme. Não quero discutir isto através de ti. Nem de ti, nem do Diogo. É entre mim e o pai. Está bem?

Silêncio.

Está bem, concedeu Inês. Depois, mansamente: Estás sozinha?

Sim. Não estou mal.

Queres que vá aí?

Não é preciso. Se quiser, digo.

Desligou e ficou sentada no cadeirão. Diogo, o filho, estava em Lisboa. Ainda não tinha telefonado. Era hábito. Diogo fugia de conversas difíceis, escondia-se atrás do trabalho, ó mãe, sabes lá o que tenho agora entre mãos.

Ela sabia.

Margarida levantou-se. Circulou por entre as quatro divisões, a entrada ampla, duas casas de banho. Tudo impecável. Sempre cuidara da casa. Flores verdadeiras nas janelas. Cortinas mudadas ao sabor das estações. Um aroma na cozinha de lavanda, onde punha sachês feitos por si.

A casa era bonita. Mas parecia de outro.

Não, não era alheia. Parecia… museu. Um sítio meticuloso, arrumado, sem reflexo autêntico de quem ela era.

Parou à frente da estante. Na prateleira média estavam os seus livros. Podiam-se contar pelos dedos: receitas, dois romances, uma velha antologia de Eugénio de Andrade, puída do tempo de estudante. Abriu ao acaso, leu alguns versos a voar. Qualquer coisa mexeu por dentro.

Não lia poesia há vinte anos. Nunca houve tempo.

***

António telefonou uma semana depois. Tinha aquele tom meio culpado, mas decidido; tudo já decidido, só as formalidades restavam.

Margarida, temos de conversar.

Diz.

Preferia que fosse pessoalmente.

Quando quiseres.

Pausa breve, aguardava lágrimas ou recriminações. Ela deu-lhe nada disso.

Amanhã às três? Passo por casa.

Está bem.

Chegou às três, pontual como sempre. A pontualidade era um dos seus orgulhos. Margarida pôs a chaleira à água não por conforto, mas por querer ocupar as mãos.

Estás com bom aspeto, notou ele, sentando-se.

Obrigada.

Margarida, não quero que penses…

António, sem voltares atrás. Diz o que tens a dizer.

Aquela firmeza surpreendeu-o.

Quero o divórcio, disse, despido de rodeios. O oficial. Somos adultos, sem dramas.

Está bem.

Está bem?

Sim. Não vou resistir.

Margarida… olhava-a com um ar que dantes parecia ternura, agora parecia hesitação. Eu trato de ti. Ficas com a casa. Dou-te dinheiro. Não te faltará nada.

Dou-te dinheiro… repetiu ela. Os ecos aconteciam muito ultimamente.

Sim. Nunca trabalhaste. Tens de viver.

A chaleira chilreava. Calmamente, ela preparou o chá.

António, lembras-te quando a tua mãe esteve doente? Três anos a fio. Fui todas as semanas, fiz injeções, comprei medicamentos, falei com médicos. Tu estavas ocupado.

Lembro, sim.

Ou quando a Inês teve o segundo filho e ficou doente? Um mês inteiro a cuidar deles, cozinhar, limpar, levantar-me à noite.

Margarida, o que queres dizer?

Que falaste dou-te dinheiro como se fosse caridade. Como se eu tivesse vivido de favor.

Ele abriu a boca, fechou.

Não queria dizer isso.

Sei que não. Queres parecer bondoso. Mas não faças de conta que me deves um favor. Os dois sabemos que não.

Olhou-a longamente. Depois, mudou o rosto, menos seguro.

Mudaste, murmurou.

Em uma semana?

Em uma semana, sim.

Pegou na chávena, pequenos goles. Lá fora, alguém alimentava pombos. Uma idosa no casaco azul, sempre ali, sem nome que alguém soubesse.

Sobre o dinheiro, continuou Margarida. Não me recuso ao que é meu. Quero a minha parte, como é justo. Mas não quero que dês dinheiro. Isso rebaixa-me.

Margarida…

Espera. Deixa-me acabar. Vinte e seis anos fui dona de casa. Não te sobrecarreguei, não pedi atenção além do que podias dar. Geria, crescia os filhos, recebia amigos, sorria às tuas piadas de sempre. Abandonei a carreira porque disseste: Para quê teatro, eu sustento tudo. E concordei. Fiz bem. Mas vamos dar nome às coisas: era um trabalho. Sério. E fui boa nisso.

Instalou-se o silêncio. António fixava a mesa.

Nunca te acusei de falta, sussurrou.

Disseste que cuidavas. Como se eu fosse criança. Tenho cinquenta e oito anos.

Ele voltou à janela. O medronheiro na sua segurança vermelha.

Tens razão, disse António, baixo. Tens razão, Margarida.

Era inesperado. Quase não percebeu.

Falemos com advogados. Calma, sem cenas.

Concordo.

Ele pegou no casaco. À porta, hesitou.

Margarida. Eu… tropeçou-lhe o verbo.

Não digas nada, atalhou. Vai.

Saiu. Margarida ficou à mesa, depois mandou mensagem à Filipa: Falei com ele. Vou divorciar-me. Estou serena.

Filipa respondeu num sopro: És incrível. Amanhã aparece na loja, mostro-te linhas novas, sempre gostaste de bordar.

Margarida sorriu. Sempre gostara de bordado. Há trinta anos.

***

As duas semanas seguintes foram um outro estar. Não bom, nem mau. Ali, suspensa. Como quem sai da moldura e pousa sobre a mesa; sem saber ainda para onde caminhar.

Foi à loja da Filipa: Linha com Agulha, um piso térreo pequenino a cheirar a tecido e madeira. Prateleiras de novelos, quadrados de linho, bastidores, linhas de todas as cores. Margarida tacteava tudo isso: mohair, algodão, linhas de seda. O frio de dentro ia amolecendo, devagar.

Olha, Filipa entregou-lhe bastidor com pano . Para principiantes. Ou este, mais complexo.

Eu sei bordar.

Sabias. Há trinta anos.

Não se esquece.

Vamos ver, sorriu marota.

Margarida comprou linho, linhas, agulhas. Em casa, ao pé da janela, demorou-se a olhar o esquema. Depois começou. Os primeiros pontos saíram tortos. Desfez, insistiu. Mais devagar, mais atenta. Os dedos iam-se recordando do passado.

Bordou durante três horas sem dar por faltar o tempo.

Era estranha, a sensação. Boa. Tão simples e desconhecida.

***

Diogo telefonou no fim de outubro. Tinha passado quase mês e meio desde António ter saído.

Mãe, como está?

Estou bem. E tu?

Normal. Mãe… o assunto é: falei com o pai.

Diogo…

Espera. Não tomei partido. Só queria dizer… contou que recusaste ajuda dele. É verdade?

Meio. Não rejeitei aquilo que é devido por direito, só não aceito que dê dinheiro.

É mais prático. Não trabalhas.

Tenho cinquenta e oito anos, não oitenta. Consigo trabalhar.

Vais fazer o quê?

Era boa pergunta. Pensava no velho Conservatório, desistido ao terceiro ano por causa do casamento. Não havia retorno. Mas gostava de línguas, o francês era figura de juventude. Com os anos, filmes franceses ouviam-se sempre meio-desvendados mas reconhecidos.

Ainda não sei, disse, sem rodeios. Arranjarei algo.

Avia-te se precisares de apoio.

Aviso, prometeu. E macio: Diogo, és bom filho. Só não me resgates. Não estou a afogar-me.

Ele calou-se.

Está bem, mãe. Liga-me.

Depois, tirou de uma gaveta cadernos antigos. Detrás das camisolas quentes, havia um caderno de vocabulário francês, letra jovem e decidida. Parecia de outra mulher. Talvez fosse.

***

O advogado chamava-se Ernesto Trindade, homem tranquilo, de idade. Ouvia Margarida atentamente, cavalgava perguntas, acenava.

Os seus direitos, Dona Margarida, ficam protegidos. Casa, quinta, contas divide-se igual. Falta decidir como.

Quero a casa, declarou. Esta, estou habituada. Ele já concordou.

Ele fica com a quinta ou recebe compensação.

Podemos assim. Falámos sem discussões.

Ernesto Trindade olhou-a por cima dos óculos.

Poucos assim, comentou.

Sei.

Tratarei dos papéis. Um mês.

Saiu para a rua. Novembro, noite sem chuva, aquele céu baixo, uma bruma colada ao casario. Caminhou pela cidade.

Cidade pequena, Vila Real. Ali nasceu, conheceu António, viveu sempre. Sabia onde compravam o melhor pão, em que quintal havia azedas silvestres, onde se juntavam os melros no inverno.

Isso também era seu. Pequeno, mas real.

Entrou num café diminuto. Pediu galão, tarte de maçã. Ficou à janela a olhar o trote da rua. Não pensava em nada, só estava. Só bebia, só via.

Deu-se conta que há anos não fazia isso: simplesmente estar, sem correrias impostas.

À mesa do lado, duas mulheres da sua idade riam, tratavam assuntos. Uma usava uma echarpe garrida, a outra uns óculos em armação redonda. Margarida olhou para elas e pensou: é isto. Ser de verdade é assim.

Acabou o galão, deixou gorjeta, saiu.

***

Em dezembro, Inês telefona. Sem ansiedade.

Mãe, venho passar o fim de ano contigo. Sozinha, sem Pedro nem miúdos. Pode ser?

Claro. Eles vão para onde?

Pais dele. Disse que precisava da minha mãe. Pausa. Mãe, sabes, eu estava errada, naquele princípio. Quis logo unir-vos, corrigir. Parecia resolver-se. Mas depois percebi, não era a mim que cabia.

Inês…

Deixa acabar. Julguei que ficarias perdida, incapaz. Sempre o pai a decidir. Habituei-me a ver-te… travou-se. Meio sombra.

Sombra?

Talvez. Mas não te perdeste. E isto… mudou-me.

Mudou?

Pensei em mim. Não em Pedro, não nos filhos, em mim. Parece egoísmo.

Não parece.

Certo?

Certo, filha. Não é egoísmo. É saber de si.

Conversaram uma hora. Sobre os filhos, o trabalho, sobre querer pintar e nunca ter tempo. Margarida sentia qualquer coisa talvez não orgulho, mas reconhecimento. Vê-se no outro, não de ontem, mas do que se sonha ser.

***

Inês chegou vinte e nove de dezembro, com vinho e queijo e chinelos divertidos. Decoraram a árvore ao som de músicas do rádio antigo. Inês ria das tentativas da mãe nas aplicações do telemóvel. Margarida ria também.

Estava bem, aquilo. Mesmo bem.

Filipa juntou-se ao jantar de ano novo, trouxe empadas e tarros de pepinos caseiros. Ficaram as três à mesa, vinho, conversa. Não falaram em António. Falaram de viagens. Filipa sonhava há anos com os Açores, Inês desejava sol e praia, Margarida confessou vontade de Paris.

Paris? Filipa intrigada.

Estudei francês em jovem. Tenho curiosidade em saber o que restou.

Vais sozinha?

Acho que sim. Talvez com alguém. Logo se vê.

Inês olhava para a mãe, depois sorriu.

Mudaste, mãe.

Já é a segunda vez este ano que ouço isso.

A primeira foi o pai?

Sim.

Soou a acusação?

Margarida pensou.

Soou a isso, a quebra de regras.

E agora?

Agora soa a elogio.

Filipa ergueu o copo:

Por mulheres que sabem desfazer regras.

Brindaram. Foguetes atiravam o ano novo no quintal, luzes a saltar pelo céu. Margarida olhou pela janela, sentindo, depois de muitos anos, que aquele marco era dela e só dela.

***

Em janeiro, inscreveu-se nas aulas de francês. Era uma escola pequena cinco minutos a pé; o grupo era variado: dois estudantes, uma senhora de quarenta, a planear emigrar, e um velho chamado Joaquim que sempre quisera ler Camus no original.

Admirável elogiou o jovem professor Ricardo.

Tudo é admirável, feito para si, respondeu Joaquim, digno.

Margarida concordava.

O francês não era fácil. Sabia mais do que julgava, mas as estruturas fugiam. Baralhava artigos. Errava. Era novo, poder errar, refazer.

À terceira aula, Ricardo parou-a à porta.

Margarida, o seu sotaque é excelente. De onde vem?

Da juventude.

Continue. É mais importante do que imagina.

Foi para casa a matutar nisso. Bom sotaque. Estava nela sempre. Só ninguém precisava.

***

Assinaram os papéis em fevereiro. Sem cerimónias, junto do advogado. António tinha ar cansado; ela, julgava ele, estava diferente do esperado.

Como estás? perguntou no corredor.

Bem.

Mesmo?

Mesmo.

Fitou-a. Havia ali confusão, não remorso. Como quem esperava uma coisa, recebeu outra.

Inscreveste-te em algo? Filipa contou.

Francês. E pintura de aguarela.

Nunca pintaste…

Não. Vou experimentar.

Acenou, pôs o casaco. À porta, hesitou.

Margarida… eu…

António. És um bom homem. O problema foi nunca sermos os mesmos, nunca: ou demasiado iguais, ou demasiado diferentes. Que sejas feliz.

Olhou-a muito tempo. Depois saiu.

Ficou ela no hall. Além da porta, rua de inverno, gente apressada. Era um dia vulgar. Vinte e seis anos de casamento resumidos num silêncio. Merecia ser mais dramático, foi apenas quieto.

Saiu. Ao levantar rosto à neve, cheirou-lhe ar fresco. Os flocos quase pó, derretiam ao toque.

Seguiu para casa, vagarosa. Parque dentro.

***

Aguarela era mais difícil que francês. As cores corriam para lados errados, misturavam-se em barro, o papel ondulava. A professora, Leonor Correia, dedos manchados de azul, observava afável.

Não tente controlar dizia. A cor renega o controlo.

E o que quer ela?

Quer confiança. Água, cor, e deixá-la fluir.

Margarida tentava. Falhava. Depois um pouco melhor. Depois mais. Empilhava as folhas. Imperfeitas, tortas, tantas vezes feias. Mas suas. Manchas azuis, árvores irregulares.

Um dia Leonor parou junto dela. No papel medronheiro à janela, frutos vermelhos, ramos escuros, céu cinza.

Isto é verdadeiro, declarou.

Está torto.

Autêntico e torto não são opostos.

Margarida viu o medronheiro no papel. Não era aquele do quintal, era o que via em si, não o que existia. A diferença era essencial e curiosa.

***

Na primavera, Inês voltou, com família. Ficaram uma semana. À noite, mãe e filha falavam na cozinha, enquanto Pedro via TV e os netos dormiam.

Estás feliz? perguntou Inês.

Pergunta difícil.

Porquê?

Antes sabia o que era felicidade: casa, família, tudo certinho. Agora não sei. Estou bem não é o mesmo do que ser feliz.

O que é então?

Margarida pensou.

É acordar e saber que o dia é meu. Não as agendas dos outros, nem vontades de terceiros. Meu. Parece estranho?

Não, sussurrou Inês.

Pensas mais em ti?

Mais. Inscrevi-me em desenho. Como tu.

A sério?

Aguarela. Aos domingos. O Pedro não gostou muito mas depois acabou por aceitar.

Margarida olhou a filha. Trinta e quatro, inteligente, ligeiramente reservada, meio sombra do marido prático. Como ela, antigamente.

Inês… Não tens de repetir o meu caminho.

Não repito, mãe. Aprendo contigo.

Comigo?

Fizeste algo que nunca imaginei. Não quebraste. Não azedaste. Não te vieste viver connosco à espera que cuidássemos de ti. Simplesmente começaste a tua vida, diferente. Aos cinquenta e oito.

Margarida silenciou.

Não sabia que era essa a imagem.

Mas é.

E por dentro, sabes como é? Assustador. Descobrir que metade de ti não sabes quem é, que nem a cor preferida tens na ponta da língua.

E agora?

Agora sei: azul. O das aguarelas.

Sorriram. Inês levantou-se e abraçou a mãe. Forte, como Filipa no início.

Mãe. Tens orgulho em ti.

E tu, filha.

***

No verão, Filipa propôs irem juntas aos Açores: dez dias num grupo pequeno, circuitos mas espaço livre.

Nunca viajei sem o António, confessou Margarida.

Pois. Por isso mesmo te desafio.

Não sou de mochilas e tendas.

Vai haver casas, com chuveiro e tudo mais. Vais?

Margarida pensou três dias. Disse sim.

Açores eram outro mundo. Lagoas refletindo céus melhores, os pinheiros que pareciam pilares, o silêncio cheio de sons: pássaros, água, vento.

Levou aguarela.

Pintava todas as manhãs, antes da azáfama. Via o lago, pintava. Sempre imperfeito, mas com um pulso honesto. Sentia-o sem saber explicar.

Ao quarto dia, sentada junto à lagoa, percebeu.

Não pensou em António. Nada forçado era só que já não havia nada a pensar. História fechada, sem amargura nem perdão, como se fecha um livro para abrir outro.

Era estranho. Era bom.

Filipa espreitou-lhe pela sombra.

Bonito, murmurou.

Achas?

Claro. Eu pendurava.

Margarida contemplou a folha: lago, pinheiros, nevoeiro. Incerto mas com vida.

Talvez pendure, disse.

***

Em setembro, fez cinquenta e nove anos. Jantarinho, Filipa, a vizinha Isabel, duas colegas do ateliê. Inês entrou por videochamada com filhos, gritos festivos e postais desenhados.

Margarida olhava para o telemóvel: netos em euforia, Inês a rir, sentia finalmente que a vida era essa: não ordeira, mas viva, barulhenta, um pouco desarrumada.

Diogo enviou euros e um recado seco: Parabéns mãe, em breve aí vou. Sorriu. Assim era o Diogo.

Filipa ergueu o copo:

Pela Margarida! Pela mulher que se tornou ela mesma em um ano!

Sempre fui eu, respondeu Margarida.

Não, corrigiu Filipa. Agora, sim.

Não contestou. Talvez tivesse razão.

***

Em outubro pregou, na sala, a aguarela dos Açores. Bem emoldurada, acima do sofá.

Antes, ali, estivera um quadro neutro, escolhido por António bonito, mas banal. Pousou-o na arrecadação. Pendurou o seu lago.

Parada à frente, ponderou: não era perfeito. Mas era dela. Ela pintou, viu, sentiu.

Talvez seja isto o valor: não o que é belo, mas o que é seu.

Longo tempo parada, até o telefone tocou. Número estranho.

Sim?

Margarida? É o Ricardo, da escola de línguas. Lembrou-se de dar contacto para novidades. Vamos abrir clube de conversação, quartas à noite. Francês, só prática. Interessada?

Olhou para a aguarela. Lago azul, névoa matinal.

Interessada, sim. Inscreva-me.

Novembro calou-se. Margarida regressava das aulas de francês, levava um saco com um romance novo, escolhido só pela capa, pelo toque subtil do sonho.

À porta do prédio, António.

Não reparou logo. Chegou perto e viu-o encostado, cheiro a nervosismo antigo.

Olá, disse ele.

Olá, devolveu ela. Nem surpresa, nem medo. Só disse.

Posso falar?

Hesitou segundos. Então:

Podes. Vamos entrar.

Subiram. Ela pendurou o casaco. Perguntou se queria chá recusou, sentou-se, olhos na aguarela.

Foste tu que pintaste?

Fui.

Está bonita.

Obrigada.

Fixou a imagem. Silêncio. Por fim:

Margarida. Eu… não deu certo.

Ela aguardou. Nada a facilitar.

A Andreia… é mais nova, diferente. Achei que precisava disso. Nova vida. Mas afinal, só estava cansado. Não de ti de mim, do que sou. Hesitou. Não perguntaste o que aconteceu. Não perguntaste nada.

Não era comigo.

Talvez não. Encarou-a. Estás diferente.

Estou, aceitou ela.

Não sei explicar. Julguei sempre que estavas apenas. Que ficarias sempre aí.

António. Pegou no livro francês, sentiu-lhe o peso. Agora leio em francês, devagar, com dicionário. Pinto. Viajo. Vou ao clube de conversação. Durmo com a janela aberta porque gosto. Como o que me apetece, não o que esperam de mim. Pausa. Não estou zangada. Agradeço-te a casa, os filhos, os anos. Mas mostraste-me outra coisa: durante anos não vivi a minha vida. Isso também é importante.

Voltas? sussurrou. Pergunta descompassada. Ele próprio percebeu.

Margarida olhou-o. Depois à aguarela. Lago azul, nevoeiro, medronheiro.

António, tenho cinquenta e nove anos. E pela primeira vez sinto que vivo. De verdade. Pausa. Toma chá, se quiseres. Vou pôr água a ferver.

Ergueu-se, foi à cozinha. Pôs a chaleira. Olhou o quintal, o medronheiro nu, a senhora de azul a alimentar os pombos.

Atrás de si, silêncio. O sofá rangeu, passos em direção à porta.

António parou à ombreira.

Margarida…

Ela virou-se.

Diz-me só uma coisa. És feliz?

A chaleira começava o seu sussurro agudo. O medronheiro direito atrás do vidro.

Estou a aprender, respondeu ela. Aprender a ser feliz é mais difícil do que pensava. Mas estou a aprender.

Ele olhou-a. Ela olhou-o. Duas pessoas já não jovens, na cozinha que era deles, agora sua.

Ainda bem, disse ele em fim de sonho. Ainda bem, Margarida.

A chaleira apitou.

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