Escolhe: a tua mãe ou eu
O telefone tocou quase às onze da noite, quando Filipa já estava deitada com um livro. Luís estava na sala ao lado, sentado diante do portátil, de onde vinha uma voz baixa de um apresentador de um canal de notícias económicas.
O número era desconhecido, mas tinha o indicativo da terra deles, Arganil.
Estou? disse Filipa, sentindo logo um aperto debaixo das costelas.
É a Dona Graça Alves, sua vizinha, a que mora mesmo em frente. Se calhar nem me conhece. Olhe, aconteceu uma coisa… A sua mãe, Dona Amélia, caiu esta manhã. Fui lá ao fim do dia, vi-a estendida no chão, mal consegue falar, está com metade da cara caída…
Filipa já se estava a levantar da cama, à procura das pantufas com o pé.
Ela está no hospital?
Levaram-na há uma hora. A ambulância veio, disseram que parece um AVC. Andei a ver no telefone dela e encontrei o seu número… custou-me a encontrar.
Muito obrigada, Dona Graça. Muito obrigada mesmo.
Quando desligou, ficou de pé no meio do quarto, a segurar o telefone com as duas mãos. Depois foi ter com Luís.
Ele estava sentado na sua poltrona favorita, com o pijama de marca, um copo de água com gás ao lado. Cinquenta e seis anos, rosto bem tratado, cabelos grisalhos aparados ao milímetro. Homem de sucesso no seu apartamento novo.
Luís, a minha mãe passou-se mal. Um AVC. Levaram-na para o hospital de Arganil.
Ele virou-se, abaixou um pouco o som do televisor.
Quando foi isso?
Hoje de manhã. A vizinha encontrou-a no chão. Esteve ali o dia todo, sozinha
Luís pousou o copo na mesa de centro.
Bom. E agora?
Filipa fixou-o.
Tenho de ir. Amanhã de manhã tenho de ir.
Vai, não te prendo.
Luís, temos de falar a sério. A minha mãe já tem setenta e oito anos. Se for mesmo um AVC, não pode ficar sozinha naquela casa. Temos de ver o que fazer.
Luís pegou no comando e aumentou o volume, só um bocadinho, como quem mostra que não está realmente interessado na conversa.
Filipa, já falámos disso. Mais do que uma vez.
Falámos em teoria. Agora aconteceu mesmo.
O que mudou? Já te expliquei a minha posição. Não a podemos trazer para aqui. Não temos condições.
Filipa sentou-se devagar no sofá em frente.
Luís. Temos quatro quartos.
Quatro quartos, dois dos quais eu ia renovar. Já falámos nisso infinitas vezes. Quero fazer o meu escritório novo, tu também querias o closet. Vamos pô-la onde, no hall?
Podíamos deixar um quarto para a minha mãe. O resto pode esperar.
O resto não pode esperar. A voz dele continuava calma, o que era pior do que se gritasse. Já paguei o adiantamento à empresa, sabes isso.
Luís, estamos a falar da minha mãe. Ela está doente.
Filipa. Finalmente olhou-a de frente. Tenho pena, a sério. Mas tens de entender o que isso implica. Uma idosa, doente, com fraldas, talvez sem falar. Não estou preparado para isso. Posso ser sincero?
Ela não é uma estranha. É a minha mãe.
Para mim é praticamente uma estranha. Vi-a quatro vezes em dez anos. Ela nunca fez grande esforço para nos vermos.
Porque tu próprio
Não vale a pena procurar culpados. Estou a falar do que é real. Eu trabalho, tenho projetos importantes, preciso de sossego. Não posso transformar a minha casa numa enfermaria. Na minha casa também mando eu.
Filipa ficou em silêncio. Lá fora, a cidade parecia dormir sob o som familiar, indiferente, da noite.
E se contratarmos uma senhora para tomar conta dela? Em Arganil. Uma boa cuidadora, podemos pagar.
Podemos. Contrata.
Mas eu vou lá muitas vezes. Bastantes.
Vai as vezes que quiseres. Vai.
Luís, percebes que terei de lá passar muito tempo? São três horas de estrada.
Percebo. Vai. Ninguém te prende.
Este “ninguém te prende” soou-lhe leve, quase automático, e por dentro Filipa sentiu-se a deslizar, como quem pisa um chão que julgava sólido.
Voltou ao quarto, e até às duas da manhã ficou a olhar o teto.
De manhã, foi para Arganil sozinha.
No hospital distrital o cheiro a lixívia e a tinta velha era dominante. Dona Amélia estava numa enfermaria com mais cinco mulheres, perto da janela. O lado direito da cara caído, o braço direito imóvel em cima do cobertor. Olhou para a filha em silêncio, um leve tique no canto da boca.
Mãe. Filipa agarrou-lhe a mão, fria e leve como papel. Mãe, estou aqui. Está tudo em ordem.
A mãe tentou dizer qualquer coisa. Saíram apenas sons indistintos.
Não fale, mãe. Eu estou aqui, não me vou embora.
A médica, uma mulher já cansada, explicou tudo sem rodeios. AVC isquémico extenso. Paralisia do lado direito e afasia. O prognóstico era reservado. Parte da recuperação era possível, mas quanto tempo levaria e com que resultados, ninguém sabia. Pelo menos seis meses de cuidados intensivos, fisioterapia, terapia da fala e observação contínua.
Ela não vai conseguir viver sozinha, isso é certo disse a médica. Você é filha única?
Sou.
A médica olhou-a com aquela expressão sem julgamentos, mas cheia de compreensão das coisas da vida.
Filipa ficou no hospital o dia inteiro. Alimentou a mãe com uma colher de papas líquidas, enquanto lhe contava trivialidades que só ela ouvia atenta com um olhar vivo. Respondia pouco, mas compreendia tudo.
Ao final do dia, Filipa ligou a Luís.
Então, como está ela? perguntou ele.
Mal. Paralisada do lado direito, não consegue falar. Não pode ficar sozinha.
Pausa.
Percebi.
Luís, queria dizer-te isto: vou ficar aqui.
Quanto tempo?
Não sei. O que for preciso. Não posso ir embora.
O tom dele mudou, mais tenso.
Filipa, tens o teu trabalho. A tua vida aqui.
Falo com eles. Faço parte à distância, arranjo qualquer solução. A minha mãe não pode ser deixada sozinha.
Falaste em cuidadora.
Uma cuidadora não é filha. Tu sabes.
Silêncio.
Sabes que isto pode demorar muito?
Sei.
E vais viver naquela…naquela casa?
Vou.
Nova pausa, longa.
Está bem disse, sem calor nem protesto. Só uma constatação. Liga-me se precisares de alguma coisa.
Filipa guardou o telemóvel e olhou a rua escurecida da vila. Dois lampiões acesos em três, uma idosa descia o passeio com um saco de compras. Do quintal de alguém vinha cheiro a lenha.
A casa da mãe ficava no fim da Rua das Laranjeiras, última da rua sem saída. De madeira, escurecida pelo tempo, alpendre esmorecido, janelas pequenas emolduradas. Filipa abriu com a chave que sempre levava, embora quase não usasse.
Dentro estava frio. A mãe não acendia a lareira há dois dias. Filipa encontrou lenha no anexo, acendeu o lume, atrapalhada e demorando, apagando e recomeçando. As mãos lembravam-se de infância. Ali tinha vivido os primeiros dezoito anos de vida.
Depois percorreu a casa. Cozinha pequena com azulejos rachados, corredor estreito. Dois quartos: o da mãe, e um com um velho divã onde Filipa dormira em criança. Tudo limpo, mas pobre e envelhecido. Fotos nas paredes: ela jovem, o pai já falecido, dois retratos antigos de família. E aquela limpeza de aldeia, onde cada objeto tem lugar porque são poucos e todos contam.
Mandou mensagem a Luís: “Vou ficar aqui a viver. Não sei quanto tempo. Vou buscar as minhas coisas depois.”
Vinte minutos depois, ele respondeu: “Percebi. Como quiseres.”
E foi esse o diálogo. E talvez o fim do casamento.
Os primeiros dias fundiram-se num só: duros, cansativos. Filipa chegava ao hospital de manhã e só saía à noite. Aprendeu tudo: a virar a mãe para evitar feridas, fazer exercícios passivos ao braço paralisado, alimentar devagar, manter a calma. A mãe reaprendia a falar, com sofrimento. Antes professora de matemática, buscava palavras simples sem as encontrar.
Filipa disse a mãe certo dia, pela manhã, com mais nitidez do que antes, na segunda semana. Filipa. Vai para casa.
Estou em casa, mãe.
Não. A mão esquerda tentou um gesto. Para a tua casa. Para o Luís.
Não fale disso, mãe.
O Luís… Engasgou-se na palavra. O Luís não…contente?
Filipa ajeitou-lhe o cobertor.
Não penses nisso, mãe, está tudo bem.
A mãe olhou-a longamente e Filipa teve de se virar para a janela.
Receberam alta ao fim de três semanas e meia. Foram para casa, com medicamentos e recomendações de reabilitação. Filipa contratou um carro para transportar a mãe. Um rapaz do lado ajudou a entrar. Instalou a mãe na cama, acendeu a lareira, fez sopa.
Assim começou outra vida.
Cuidar de uma pessoa acamada não é conversa fácil. Era virar a cada duas horas, noites mal dormidas, fisioterapia, alimentar devagar para não engasgar. Os medicamentos a horas certas, sete de manhã, cinco à noite. Três vezes por semana, vinha a terapeuta da fala, Dona Maria dos Anjos, incansável, e a mãe esforçava-se até ao limite, nunca fora de desistir.
Filipa trabalhava em teletrabalho como contabilista. O patrão compreendeu, ficou só em part-time. O dinheiro era menos. Luís transferia algum, pouco, sempre frio, e ela não pedia explicações.
Quase já não falavam.
Numa manhã de novembro, enquanto tentava consertar um degrau solto na entrada a mãe ia começar a usar andarilho e precisava de estabilidade , aproximou-se um homem do lado.
Já o tinha visto por acaso: robusto, cara aberta, uns cinquenta e cinco anos.
Não é assim, disse ele. Bata o prego de lado, senão solta-se.
Filipa olhou-o.
Sou o Manuel. Daquele lado. Apontou a casa de frente. A senhora Amélia é sua mãe?
É. Filipa.
Ela está melhor?
Vai melhorando, devagar.
Ele acenou, pegou no martelo, e em cinco minutos consertou o que ela não conseguia em meia hora.
Qualquer coisa que precise, diga. falou ao levantar-se. Estou mesmo ao lado.
Obrigada. Não quero incomodar.
Não incomoda nada. Deu de ombros. A sua mãe ajudou a minha há muitos anos. Nunca esqueci.
E foi-se.
Filipa ficou a olhar e pensou que já não temia a palavra incomodar. Noutra casa, sentiria vergonha de viver bem sabendo a mãe sozinha num catre pobre.
Novembro foi frio. Um dia, a lareira começou a deitar fumo. Filipa abriu janelas, tossiu, ficou sem saber o que fazer. Às nove da noite bateu à porta do Manuel pedindo desculpa.
Ele veio, sem azedume, subiu ao telhado com uma lanterna, limpou a chaminé, explicou que era trabalho de outono. Recusou dinheiro com um gesto simples.
Aceita um chá? perguntou ela.
Se não for incómodo.
Sentaram-se na cozinha, chá e bolachas compradas. A mãe dormia. Ouviam-se os ramos da macieira vergados ao vento.
Mora aqui há muito? perguntou Filipa.
Sempre. Só estive cinco anos em Coimbra, trabalhei numa fábrica. Mas regressei.
Porquê?
Ficou um pouco calado.
Aqui é nosso. Lá não era. Pode haver quem goste de viver no estranho, eu não.
Filipa envolveu a caneca entre as mãos. A cozinha já estava quente.
Vivi vinte anos em Lisboa, sempre achei que estava bem. Agora, aqui, penso: como é que não vim mais vezes? Como deixei que fosse assim?
Manuel não tentou consolar. Só disse:
Agora está cá. É o mais importante.
Em dezembro, a mãe começou a sentar-se na cama. Uma vitória enorme. Dona Maria dos Anjos elogiava com entusiasmo, e a mãe respondia com um sorriso pelo lado do rosto que mexia.
A fala regressava devagar. Algumas frases eram fáceis.
Estás mais magra, disse um dia à filha.
Não, mãe.
Estás, sim. O Luís liga?
De vez em quando.
Ele vem cá?
Não sei.
Longa pausa.
Não vem disse a mãe. Não com amargura, apenas como alguém que sabe distinguir esperança da verdade.
Luís não veio. Ligava uma vez por semana, perguntava como vai isso, respondia e despedia-se. Uma vez falou do andamento das obras. Outra, de um jantar caro da empresa. Filipa sentia crescer o intervalo invisível entre ambos, um afastamento sem drama.
Em janeiro, a amiga Vera veio de propósito de Lisboa, com bolo e vontade de ajudar. Boa pessoa, Vera, e Filipa ficou feliz por vê-la. Mas a conversa caiu em vazio.
Filipa, não achas que já chega? disse Vera à mesa. Um mês, dois, tudo bem. Mas até quando? Vais acabar por te arruinar.
Vera, e então faço o quê?
Arranja uma cuidadora. Ou um lar, há bons privados.
A mãe sempre teve pânico de lares.
Nem tudo na vida é aquilo de que se tem medo. Ela nem sabe o esforço que fazes.
Sabe, sim disse Filipa, baixinho. A cabeça dela funciona bem. Sabe tudo.
Vera ficou calada.
O Luís não vem cá?
Não.
Vão ficar assim até quando?
Não sei.
Filipa, tu és inteligente. Não se larga um homem só por isto. Ele é o que sustenta, têm o apartamento, estatuto
Filipa olhou-a.
A mãe está ali ao lado, deitada, com setenta e oito anos. Passou o dia todo no chão.
Eu entendo
Não, Vera. Não entendes. Ou não queres entender. Por favor, não me expliques sobre quem sustenta.
Vera foi-se embora, algo magoada. Falaram depois por mensagens, mas algo tinha mudado.
Filipa percebeu que as vizinhas mais velhas a olhavam diferente. Não com piedade, antes respeito silencioso, próprio das aldeias. Dona Graça, a que a salvara, trazia às vezes um frasco de feijão ou um bolo, deixava à porta. Outra idosa, Dona Rosa, ficou duas horas com Amélia para Filipa ir à farmácia. Quase da mesma idade, ficamos à conversa, disse só.
Já as conhecidas da cidade viam-na de outro modo. Uma ex-colega do liceu, ao encontrá-la na mercearia, quis saber, com ar satisfeito, como ia o Luís, por que não vinha, como se vivia agora. Entre as perguntas, um prazer disfarçado no infortúnio dos outros.
Vamos vivendo respondeu Filipa, sem mais.
Manuel ajudava sempre: arranjou a cerca que caiu com a neve, trouxe lenha com o trator emprestado, pôs tudo em ordem. Quando Filipa teve febre, trouxe comida, acendeu o lume, mudou a cama da mãe, sem qualquer acanhamento.
Manuel, não sei como lhe agradecer.
Oh, deixe lá. Somos vizinhos.
Nem todos os vizinhos são assim.
Pois não. Anuiu. Ficaram ambos em silêncio. A senhora tem família?
Tive. A mulher morreu há oito anos. A filha está no Porto, raramente liga. Disse isto sem mágoa. Vivo sozinho. Já me habituei.
Não custa?
Depende. Se há que fazer, não se sente tanto. O pior é sem trabalho, aí sim.
Filipa pensou em Luís no apartamento amplo, sofá novo, TV última geração, noites de notícias económicas. Ele sentiria falta de algo?
Nessa noite, ligou-lhe.
Luís, precisamos conversar.
Aconteceu alguma coisa?
Não. Só conversar, de verdade.
Pausa.
Diz.
Como estás aí?
Bem. O apartamento quase pronto. Um projeto novo por surgir. Pausa. Filipa, quando vens para casa?
Luís, acho que não venho.
Pausa longa.
De todo?
De todo.
Ele não gritou, nem acusou. Perguntou apenas:
Por causa da tua mãe ou de mim?
Filipa pensou três segundos.
Por mim.
Ele suspirou do outro lado.
Compreendo disse finalmente. Queres o divórcio?
Quero.
Está bem. Fica o divórcio.
E esse fica o divórcio, dito com a mesma calma dos negócios e reformas, marcou o ponto final.
Na primavera, a mãe começou a andar. Primeiro de andarilho, só no quarto. Depois até à cozinha. Depois ao alpendre. Foi lento, difícil, caiu-lhe o ânimo, zangou-se, até chorou, o que nunca acontecera. Mas foi.
Maria dos Anjos, a terapeuta, dizia que raramente via tal progresso.
Motivação, explicava ela. Tem por quem lutar. Isso é metade da recuperação.
Filipa não sabia se era ela ou o orgulho da mãe. Mas gostava de pensar nisso.
Em maio, ao fim de uma tardinha quente, Filipa e Manuel sentaram-se no banco junto ao portão. A mãe já ia para a cama sozinha, e sobrava um pedaço de noite para sossegar.
Não pensa em ir embora? ele perguntou.
Não. A resposta saiu devagar, mas firme. Cheguei a pensar nisso. Mas não quero. Estranho, não é? Vinte anos a sonhar com a cidade e agora não quero sair daqui.
Não é estranho riu Manuel. Há quem leve muito tempo a chegar ao sítio certo.
Nem sempre é fácil aqui. Às vezes custa muito.
Fácil não é o mesmo que certo. Olhava o céu cor-de-rosa por trás dos telhados. Certo é quando é o nosso lugar, apesar de tudo.
Filipa fitou-o de lado. Homem simples, mãos calejadas, olhos enrugados de sorrir. Falava pouco e mal, mas melhor do que muitos.
Manuel, sabe que me estou a divorciar?
Ouvi dizer. Aldeia pequena.
Despreza-me?
Ele virou-se para ela.
Porquê?
Por abandonar a família sair assim
Família? Subiu um pouco a voz. Família é estar junto, no bom e no mau. O resto são duas pessoas numa casa.
Não respondeu. Não era preciso.
O divórcio foi tratado por advogados, rápido e limpo. Luís ficou com o apartamento, ofereceu uma compensação que Filipa aceitou. Precisava do dinheiro para arranjar a casa da mãe: soalho podre, telhado a pingar, fios antigos.
No verão, Manuel ajudou nas obras. Trouxe dois amigos, e em três fins de semana arranjaram tudo. Só aceitou dinheiro para material.
Porquê? perguntou Filipa.
Vizinhança.
Não só por isso.
Ele pensou, depois acenou:
Não só.
Dona Amélia supervisava do alpendre, para onde já saía diariamente, apoiada na bengala. A cara não recuperou completamente, a fala sim. Médica disse ser ótimo resultado. Sentava-se, olhava a filha e Manuel e ficava em silêncio, mas olhos vivos.
Um dia disse:
Homem bom, Filipa.
É, mãe.
Tu notas?
Noto.
A mãe acenou, sem dizer mais.
Em julho, Luís telefonou. Primeira vez desde o divórcio.
Como vão?
A voz soava diferente, menos seca, quase humana.
Bem. A mãe já anda. A casa está arranjada.
Fico feliz. Pausa. Estive a pensar… Se calhar, nesse outono, não fiz o certo.
Filipa não disse não faz mal ou está tudo bem. Não era verdade.
Se calhar não, respondeu.
Não tens rancor?
Não. Já não.
Ainda bem. Pausa. És feliz aí?
Olhou pela janela. A mãe lia num cadeirão que Manuel pusera fora, olhava o jardim. As macieiras floriam tarde, e já tinham pequenas maçãs verdes. Um pássaro cantava no muro.
Não sei se é felicidade, respondeu Filipa. Mas estou bem aqui.
Percebo disse Luís. Pela voz, percebeu mesmo.
Despediu-se, e tudo ficou em paz.
Filipa foi buscar o chá.
Mãe, quer chá?
Quero, filha.
A chaleira era velha, de asa partida, sempre quis comprar uma nova. No parapeito, uma sardinheira vermelha que a mãe cultivava há trinta anos. O verão entrava pela janela, cheiro a erva cortada e resina da madeira quente.
Às seis veio Manuel, com uma tigela de framboesas.
Dona Amélia, boa tarde. Trago as primeiras do ano.
Obrigada, Manuel, entre.
Filipa ouviu as vozes deles e parou, só por um instante, de canecas na mão. Porque havia ali qualquer coisa essencial, importante, naquela cozinha pequena, nos cheiros, nas vozes, enquanto lá longe, na cidade, alguém se sentava num sofá novo, pensando ter escolhido a vida certa.
Ela, pelo menos, sabia que caminhava para a vida certa. Ou ia escolhendo, cada dia.
Entrou com as canecas.
Manuel, fique para o chá.
Não digo que não.
A mãe olhou-a e sorriu, de lado, mas genuíno.
Sentem-se, disse Amélia. Os dois.
Sentaram-se.
O sol ia desaparecendo atrás dos telhados, as sombras alargavam-se pelo pátio, e nada mais havia que precisasse ser dito. A framboesa era vermelha, doce de verão.
E não era preciso mais nada.







