Escândalo numa família distinta
Acabou-se! lamentou-se D. Lídia Serpa, enxaguando os cantos dos olhos com um lenço tão branco como as toalhas da avó, e suspirando de tal modo dramático que o marido, Sr. Álvaro Serpa, levantou logo a cabeça do jornal do supermercado.
Lídinha, então?! As gotinhas?!
Ai, Álvaro, deixa lá as tuas gotinhas em paz! Não percebes o drama? Isto é uma vergonha, uma desonra! Toda a nossa família manchada! Olha para ela! Nem remorsos mostra!
A única herdeira da família Serpa, efetivamente, não parecia uma pecadora arrependida. Ana Margarida Serpa, perdida nos seus próprios pensamentos, estava era a comer cerejas. Pernas longas e elegantes, herdadas da avó antiga bailarina principal no Teatro Nacional de São Carlos, segundo dizia a mãe penduradas no corrimão do alpendre. Ia comendo as cerejas de um prato de faiança, lançando cada caroço para o canteiro seguinte, como se praticasse mira para os Jogos Olímpicos de Melgaço. Cada disparo era acompanhado por um gemido de desespero da pobre mãe.
Ana Margarida! Pára já com isso! Tens alguma noção da situação em que estamos metidas?! Isto é grave! E tu nessa pouca-vergonha
D. Lídia revirou os olhos, bufou e refugiu-se no corredor para tomar adivinhem, umas gotinhas.
Margarida, filha, tu não estás a gozar com isto, pois não? arriscou Álvaro, em modo de apaziguador, lançando um olhar de esperança à filha antes de ir atrás da esposa exasperada.
Não estou a brincar, pai! E, por favor, diz à mãe que esse casamento arranjado está morto antes de começar. Por mais festas que ela sonhe, nunca mais me empacota para o Vítor Mota. Que nem se faça ilusões!
Vais acabar-lhe com o coração!
Menos, pai. Muito menos
Não queres pensar melhor?
Já pensei tudo, só que vocês não me ouvem. Hoje falei com ele, ficou tudo esclarecido, fim da novela. Caseirices, só no canal da manhã.
Ó vida minha
Veio um lamento da sala e Álvaro foi aparar a mulher, enquanto Ana Margarida pescava mais uma cereja, como quem pesca sardinha no Santo António.
Meu Deus, como vou eu justificar isto à família?! O restaurante já está pago, os convites foram todos enviados!
Mãe, ninguém te mandou apressares-te respondeu Ana, afinando o tom melodioso. Quiseste ser despachada, desenrasca-te agora.
Isso é cruel, filha! Era tudo com a melhor das intenções!
E ficou como costuma: um desastre, não é? respondeu-lhe a filha, já de sorriso trocista e espreguiçando-se. Oh mãe, vá lá, cada um de nós tem direito à sua própria vida. Que aborrecido, não?
Ana Margarida! O tom de D. Lídia tremia, prestes a descarrilar para o dramalhão. Como tens coragem?!
Olha que não estou a fazer nada de especial! Ana levantou-se, pegou nas chávenas do chá já frio e abanou as mãos à mãe, como quem enxota gaivotas. Sei muito bem lavar três chávenas sem partir nada, descansa.
E lá vai a Ana para a cozinha, enquanto D. Lídia pousava o lenço, abatida.
Enfim! É igualzinha à tua mãe! acusou D. Lídia ao marido, lançando-o para a linha de fogo familiar. Até na voz são cópia! Mas por que raio Deus me pôs neste castigo?
Ainda se lembrava bem de D. Regina Antunes, a sogra lendária, que entrou em sua vida mais como ciclone do que como brisa. Lídia, tendo casado já depois dos trinta, achava-se senhora de toda a sabedoria e experiência, logo exigia respeito da sogra. Pena que D. Regina nunca tinha recebido o memo das expectativas da nora.
Lídia, querida, que perfume é esse? sussurrava Regina, tapando discretamente o nariz assim que Lídia entrava.
Meus novos perfumes, não aprecia?
Se calhar até são bons, mas não era preciso despejar o frasco todo de uma vez. Isso era só uma gotinha e já chega.
D. Lídia, confessa viciada em perfumes, ficava logo emburrada e fazia beicinho.
Mas o que é que eu lhe fiz?! queixava-se ao Álvaro. Será só comigo?!
Oh, Lídia, a minha mãe é assim com todos. Tem cá o seu estilo.
Pois que mude de estilo, Álvaro! E não me chames de querida, odeio essa palavra! disparava Lídia, a precisar já do segundo frasco de gotinhas.
Regina nunca mudaria. Sardónica como só ela, lançava observações certeiras ou, digamos, algo picantes, adoçando a vida da nora como sal num leite creme. Não admira que, quando um dia, no teatro, elogiaram Lídia dizendo está mesmo uma senhora chique, uma Regina Antunes em ponto pequeno!, ela pouco gostou da comparação mas muito do elogio. Afinal, chique é chique.
Quando a Ana nasceu, Lídia já nem se lembrava das ofensas. Regina ficou rendida à neta e via nela a alegria de um arroz de pato bem servido. Todos menos Lídia eram artistas ela dentista, trinando nas gengivas alheias. Mas tal como na distracção portuguesa, paz e sossego reinavam na casa.
Lídia não contava do seu passado. Nem ao Álvaro. Ele, sendo esperto, percebeu logo que não valia a pena remexer em mágoas. Bastava-lhe ter a mulher ali, atenta ao presente.
Lídia cortara laços com a mãe, por motivos sérios dos quais não falava. Bastava-lhe o medalhão ao pescoço, com a fotografia de um menino de caracóis louros, aquele que perdera numa distração fatal da avó, num verão quente no Funchal. Desde então, nunca mais foi a mesma.
O primeiro marido, um geólogo perpétuo em expedições, ainda tentara. Mas Lídia percebeu depressa que felizes para sempre era coisa de novela da telenovela da tarde. Divorciou-se, arrumou a mala, e Lisboa acolheu-a com o seu fado.
Vivendo como se tivesse cem anos, achou que já tinha sofrido tudo o que havia para sofrer. Até que entrou Álvaro no consultório, mão na cara, a lamentar-se do dente do siso.
Isso já dura há quanto tempo, homem?
Vai para uma semana, doutora.
E só agora?! exasperou-se Lídia. Parece-me criança, não aprende nada!
Se calhar não respondeu o Álvaro, ainda a sorrir apesar da dor.
E naquele sorriso, Lídia ficou desarmada e até trocou os instrumentos. Corou até às orelhas, coisa rara desde os tempos em que a gasolina era barata.
A relação evoluiu silenciosamente. Entendiam-se sem trocar grandes palavras. Quando chegou o pedido de casamento, Lídia hesitou.
Gosto de ti, mas duvido que te consiga fazer feliz
Porquê essa dúvida?
Não quero ter mais filhos.
Porquê?
Conto-te mas sem detalhes. E depois pensas. E consultas a tua mãe. Afinal, tu até gostas dela, não é?
Álvaro não consultou mãe nenhuma. Regina, logo depois, foi das poucas a saber tudo. Ouviu, calada, a fumar, pondo as cinzas numa chávena de porcelana Vista Alegre. No fim só perguntou:
Ás vezes o amor pesa tanto que parece que não temos força. Mas se o souberes reconhecer, força não há-de faltar.
Achas mesmo?
Tenho a certeza.
E assim passou Lídia o teste da sogra. Regina abriu a velha cómoda de família e entregou-lhe uma caixa.
Aqui estão as jóias da família Antunes. Agora és uma das nossas disse Regina. Mas por favor, não vás às compras toda engalanada que nem a dona do mercado da Ribeira, senão as peixeiras batem-te palmas só para depois te pedirem desconto.
Lídia até riu, e verdade seja dita, nem se lembrava de poder fazê-lo.
Quando descobriu que estava grávida, foi a Regina a primeira a saber.
Estás com ar de aipo disse Regina, cutucando-a. O que é que se passa?
Vou ser mãe outra vez, Dona Regina.
Então é na maternidade da Sofia, que eu confio nela! E não te armes em desesperos, que para isso já basto eu. Estás a ouvir? Enquanto eu cá andar, não te falha apoio!
E assim nasceu Ana Margarida, para desespero e alegria partilhados. Regina babava-se toda, lavava fraldas à mão (com sabão azul e branco, claro), escorropichava as corridas do dia a dia e ainda arranjava energia para dar beijinhos à neta.
Com a paz instalada, parecia que finalmente Lídia tinha aquilo com que sonhava: família e sossego.
Mas toda a gente tem esqueletos no armário. O passado de Lídia pairava nos silêncios. Satisfazia-se com duas visitas anuais a Funchal, evitando sempre a velha casa e a mãe.
Até ao dia em que recebeu uma carta única confidente, Regina. Leu-a e Regina resolveu:
Vai. Esquecer não vais, perdoar talvez nunca. Mas às vezes a paz não se faz de esquecimentos, mas de enfrentar os fantasmas. Vou apoiar-te em qualquer decisão.
Dias depois, Lídia despediu-se, despachou Ana para casa da avó e foi.
O encontro foi breve. A mãe, entre o cá e o lá, ainda conseguiu segurar-lhe a mão e murmurou: Perdoa-me. E foi tudo.
Quando voltou, Regina sorriu satisfeitíssima:
Fizeste bem.
Só que a paz não assentava. Lídia ficou obcecada a proteger a filha, sempre em alerta, qual galinha com pinto único sob ameaça do gavião. Álvaro tentava acalmar a tempestade:
Lídinha, controla-te, a Ana precisa de espaço, lazer, amigos
Não percebo o que te passou pela cabeça! rugia Lídia. Se algo lhe acontece, não me aguento! Mais uma perda não!
Não tem de acontecer Andas a sufocar a miúda e a todos cá em casa!
Quem resolveu o impasse foi Regina: Metam-na nos pares de dança!
Mãe, ela já está atolada em actividades, aulas, explicações, ensaios
Atira isso tudo pela janela! O que faz falta são danças de salão! A vida não é feita só de livros, pois não? Anda, Álvaro, mexe-te.
Assim Ana começou a dançar e conheceu o Vítor. Rapaz desengonçado, chegado pela mão da avó, mas que com o tempo se tornou um homem alto, competente, suavemente distraído e famoso entre as velhas do bairro que adoravam ver o par dançar.
Quando ambos ganharam o primeiro troféu, Lídia já tinha mais planos do que a câmara municipal. Mas Ana, certa do seu futuro, um dia declarou:
Mãe, decidi. Vou para Medicina.
Mas filha, tínhamos outras expectativas dizia Lídia, sorriso forçado, olhos de quem arma cilada.
Quais expectativas? Eu alguma vez disse algo?
Estive a conversar com o Vítor e os pais dele Três meses para preparar a boda. Casamento no outono é um charme. E a tua avó arranja-nos o convento dos Cardosos; há-de ficar tudo pomposo!
Mas quem é que vai casar? O Vítor?!
Ora, claro! Vocês os dois não são apenas o par perfeito no salão, também o vão ser na vida!
E perguntar-me a mim, menina Lídia? Para quê, não é?
Pensei que estava tudo decidido, minha querida.
Olha, não me chames querida!
A mala feita, a Ana foi directa para a casa da avó, em Campo de Ourique. Lídia ficou uma fera, não atendia telefonemas nem batia à porta. Só soube que a filha tinha entrado em Medicina graças ao marido.
Lídia, deixa-te disso. Mais vale ter uma filha feliz do que um travesseiro molhado de lágrimas!
Pois não digas que ela se importa comigo!
Pela primeira vez, Álvaro ergueu a voz:
Olha, já chega! A tua filha é tua continuação. Lutaste tanto por ela! Vais afastá-la? Não vês que ambos sofrem? Anda, agarra-te à vida, volta a buscá-la!
Não consigo respirar sem ela Parece-me sempre escuro
Lídia, chega! Ana está viva! Vou levar-te até ela, já! E larga a mania de que controlas tudo! Deixa a rapariga ser feliz.
Não se sabe o que mãe e filha conversaram no quarto de Regina. Só se sabe que, de narizes inchados e bochechas vermelhas, pai percebeu que, milagrosamente, voltaram a entender-se.
Mas o destino, matreiro, não ficou por ali. Quando tudo parecia encaminhado, Ana Margarida já médica estagiária, a vida atirou-lhe um apêndice ou melhor, o doente foi o Vítor!
Doutora Ana Margarida Serpa, temos urgência de apendicite!
Enfim, nada de bom, venha daí!
No bloco, eis o Vítor, deitado e pálido.
Tu?
Eu Já viste, logo eu!
Vais confiar em mim, é?
Claro, sempre!
Três anos depois, Ana Margarida empurra o portão da casa dos pais, com um rapazinho a correr atrás dela.
Anda cá mostrar à avó como corres, Matias! Mãe, pega nele!
O pequeno Matias ri e atira-se aos braços abertos da avó Lídia.
És o meu tesouro! Que saudades tuas!
Mãe, olá! E a avó Regina?
Em Paris! Desta vez andou-se a meter com um chef pastelaria, acho eu Ou pintor. Ou músico, sei lá! Quando voltar, ela conta-te. E o Vítor?
Foi estacionar.
Óptimo, o arroz de forno já está pronto, o teu pai tira o bolo do forno. Despacha-te a lavar as mãos, e venham todos para a mesa! Eu só vou deitar o Matias e já apareço.
Pois, está bem… Vais é ficar a cantarolar-lhe Ó tempo, volta para trás!
E se ficar? Isso é mau?
Mau? Isso é o melhor do mundo, mãe!







