És irresponsável, mãe. Anda a fazer filhos noutro lado.
Tinha eu apenas dezassete anos quando casei com o Ricardo. Saí diretamente da escola básica, e passado um mês já andava com aliança no dedo e com a barriga a crescer tão depressa que as vizinhas começaram logo a cochichar é porque foi apanhada, diziam elas, com aquele tom de censura velada, tão português.
Quando a bebé nasceu, demos-lhe o nome de Mafalda. Fomos viver para a casa da minha sogra, a dona Fernanda, embora ela estivesse apenas duas estações de autocarro dali, e sentia obrigação de controlar tudo o que diz respeito à vida do filho e da nora. O apartamento era grande, com três quartos, tetos altos e móveis antigos, que a dona Fernanda conseguira arranjar nos tempos do Estado Novo. Eu sentia-me sempre hóspede naquele espaço, como quem veio passar um fim-de-semana e acabou por lá ficar anos.
Mas cuidar da Mafalda era a alegria da minha vida. As fraldas, as roupinhas minúsculas, as noites em branco, o primeiro dentinho, os passinhos trémulos, o mamã dito com tanto orgulho que me enchia o peito de ternura. Não estávamos só as duas, claro. A avó Fernanda aparecia quase todos os dias, e a tia Rosa, irmã do Ricardo, vivia ali também, numa assoalhada pequena junto à cozinha. A Rosa era mais velha cinco anos que o Ricardo, magra, com cabelo sempre puxado para trás num carrapito, e aquele ar de quem está constantemente a avaliar tudo e todos.
Tanto a sogra Fernanda como a Rosa eram daquelas mulheres certinhas, cheias de princípios, sempre com conselhos. Ó Leonor, porque é que deixas o Ricardo ir ao café com os amigos? O meu marido, que Deus tenha, vinha sempre direito ao lar. Prioridade à família, dizia eu. Eu encolia-me e não respondia nada, que não valia a pena discutir. E a Rosa, por sua vez: O essencial é que a Mafalda cresça direita, Leonor. Olha, trouxe-lhe uns livros apropriados para a idade: as crianças de agora são muito malcriadas, mas é tudo culpa das mães.
E assim foi. A Mafalda lia os livros da tia, ia com a avó ao Museu Nacional de Arte Antiga, fazia explicações de inglês com uma professora particular escolhida a dedo pela dona Fernanda. Cresceu certinha, ajuizada, igualzinha à avó quando nova toda a vizinhança dizia.
O Ricardo era um homem discreto, pouco dado a grandes conversas, trabalhava como eletricista numa fábrica ali de Lisboa, e gostava do seu futebol e de uns copos de cerveja ao sábado com os antigos colegas da escola. A nossa relação era um amor tranquilo, desses que se sedimentam depois de muitos anos de vida em comum, quando se esgotam as mágoas e já ninguém faz de conta. Ele demonstrava afeição em gestos: uma chávena de chá, uns ovos mexidos ao pequeno-almoço
A dona Fernanda tratava o filho com aquele ar frio de quem nunca achou que ele crescesse de verdade. Ricardo, vê se ganhas coragem. A tua mulher olha para ti e não sabe se és homem ou rapazito, dizia ela, sempre à minha frente. O Ricardo calava-se, só os ombros lhe caíam mais. E, à noite, já deitados, eu acariciava-lhe o cabelo e sussurrava: Esquece o que dizem, tu és bom, és o melhor. Ele nada respondia apenas suspirava fundo e adormecia. Eu ficava a olhar o teto, a pensar como o amor pode ser tão inofensivo e, mesmo assim, não conseguimos proteger quem devíamos.
Quando a Mafalda tinha treze anos, a dona Fernanda adoeceu. Cancro do pâncreas. Recebeu o diagnóstico estoicamente, foi ao notário preparar o testamento. Achava, com justiça, que era de dividir por igual: o apartamento novo, de dois quartos no centro de Lisboa, era para a Rosa; a nossa casa, de três quartos lá na Alameda, ficava para o Ricardo.
Mas o destino trocou-lhe as voltas. Três semanas depois de fazer o testamento, o Ricardo foi atropelado, à saída do turno da fábrica, mesmo na passadeira. Uma condutora distraída por causa do telemóvel, contaram depois. Fui eu quem soube pela Rosa, que me ligou transtornada: Leonor… o Ricardo morreu. Uma tragédia. Tens de ir ao Instituto de Medicina Legal reconhecê-lo. Nem me lembro do caminho até lá, de ver o rosto dele, das assinaturas nos papéis. Lembro-me só do vazio ao abrir a porta da casa, da Mafalda na avó, do divã frio e do silêncio absoluto pela primeira vez.
Dois meses bastaram para a sogra partir atrás do filho. O cancro acelerou, diziam os médicos eu achava mais que a dona Fernanda simplesmente não quis continuar. Por mais que o censurasse, era o filho, o menino dela. Antes de morrer, chamou o notário, mudou o testamento: a casa onde vivíamos passou a ser para a Mafalda, sua neta preferida. É para a Mafaldinha, Rosa, disse ela com voz gasta. E toma cuidado para ela não se perder. A mãe até é boa pessoa, mas precisa de mão firme. Rosa nem pestanejou; era mãe em cópia, igual de dura.
Fiquei então sozinha com a Mafalda numa casa que, em teoria, era dela. Mas ela tinha catorze anos, e eu era a tutora. Nem pensei muito nisso, havia que trabalhar, garantir o essencial, fazer tudo sozinha o que antes partilhava com o Ricardo.
Assim passaram cinco anos a trabalhar, a correr de um lado para o outro, a gerir escudos (em euros, que a vida já ia cara) só para que a Mafalda tivesse boas roupas, um telemóvel decente, explicadores. Queixava-me pouco; não fazia parte de mim queixar-me. O orgulho veio quando ela entrou para a Faculdade de Direito, com média para bolsa: tudo tinha valido a pena. Ela, menina trabalhadora, já fazia traduções, o inglês excelente graças às compensações impostas pela avó e tia desde cedo.
Quando, ao fim de tanto esforço, senti finalmente o peso sair-me dos ombros, encontrei o Manuel. Tudo obra do acaso ajudou-me a carregar um saco no autocarro, começámos a conversar, descobrimos que ele trabalhava num escritório mesmo ao lado da minha loja de tintas. Manuel era mais velho, tinha filhos adultos, e a mulher dependente dele estava acamada há cinco anos, vítima de AVC.
Não sou nenhum mártir, Leonor, desabafou na terceira vez que fomos passear nos jardins da Gulbenkian, mãos dadas, ao final da tarde. Simplesmente não a consigo abandonar. Demos uma vida um ao outro; agora tudo é diferente, mas contigo voltei a lembrar-me do que é sentir vontade de viver. Eu compreendia. Aos trinta e oito anos, já não se sonham contos de fadas. Valoriza-se o que se encontra.
Durante uns tempos ocultei à Mafalda. Inventava horários, dizia que ia à costureira, a casa de uma amiga. Mas a Mafalda sempre foi atenta: reparava no batom, no vestido novo, até nos perfumes. Um dia, ao ver-me a escolher roupa para jantar fora, confrontou-me: Mãe, tens alguém. Não mentes bem. Diz a verdade.
Fiquei vermelha, acabei por contar tudo. Sobre o Manuel, sobre a mulher dele, sobre como o amava sem reservas.
O rosto dela foi-se tornando frio, sério, adulto. Quando terminei, disse-me distante, com tom severo parecia ouvir a avó pela boca da minha filha: Mãe, ouves o que dizes? Estás a falar de um homem casado. Logo tu, que me ensinaste o que era decência, andas atrás de homens comprometidos. Tentei explicar, mas ela não me deixou. Eu percebo tudo, mãe. Mas há limites. Um homem casado não é opção. Já não tens dezoito anos para seres ingénua.
Fiquei magoada, chorei, mas disse a mim mesma que era só a rigidez típico da juventude. Para a Mafalda, tudo era preto e branco não havia meio-termo.
As minhas saídas com o Manuel eram secretas um fim-de-semana numa casa de campo emprestada por amigos, ou num T1 alugado à pressa. Era uma felicidade tímida, um agarrar à vida. Ouvia-o confessar: Por vezes acho que não mereço isto. Sinto-me ingrato à cabeceira dela, pensando em ti. Sei que é errado. É, respondia eu, mas não deixo de esperar por ti. És uma pessoa rara, Leonor, dizia-me ele e eu acreditava, porque precisava desesperadamente de acreditar nisso, depois de tanto tempo sozinha, exausta.
Quando percebi que estava grávida, senti o chão a fugir-me. Não quis acreditar fiz três testes, fui ao centro de saúde, a médica confirmou: seis semanas. Saí do consultório sem saber quem era. Sentei-me nos degraus, chorei de alívio, de medo e de esperança, tudo ao mesmo tempo.
Como dizer ao Manuel? Revi mentalmente mil cenários: ele ia assustar-se, alegrar-se? Ia recusar, dizer que já não podia ser pai, com a mulher doente, os filhos adultos? Conhecia-o bem nunca fugiria, era responsável, mas iria ficar em pânico. Mais do que dele, temia dizer à Mafalda. Andei dias a adiar. Acabei por sentar-me com ela, um serão, à mesa da cozinha, olhos nos olhos: “Mafalda, preciso falar contigo. Estou grávida.
Ela ficou imóvel. De um homem casado? perguntou em voz baixa. É do Manuel, sim.
Eu sabia, disse. Mãe, perdeste o juízo? Tens trinta e oito anos, dois empregos, eu agora entrei na faculdade, acabámos de estabilizar, e tu… tu vais ter outro filho? De um homem que não pode dar-te nada?
Tentei dizer-lhe que era o meu direito, a minha vida, mas ela cortou-me logo:
Não me peças aprovação. Não aceito. Nesta casa, na minha casa porque é minha, herdada da avó não admito filhos feitos nestas condições. Não sou tua inimiga, mas é a minha casa. Queres família, pede prioridade ao pai do teu filho.
Fiquei gelada, a olhar para a menina que levei à creche, à escola, às explicações de natação, por quem me privei toda a vida. Não a reconhecia. Diante de mim estava alguém com a cara da avó, a voz da tia, e uma frieza nascente.
Mafalda, este também seria teu irmão disse eu, já sem forças para conter as lágrimas.
Nunca te expulso. És minha mãe, tens sempre um tecto. Mas não admito que esta casa vire creche, nem que me transformes em babá. Virou costas, os braços cruzados os olhos frios, mas húmidos. Se querias tanto mais um filho, devias tê-lo tido noutro tempo. Agora, quem o vai criar? Eu?! Eu quero a minha vida, estudar, ser livre. Esta é a minha casa. Aqui não.
Caí sentada num banco. Lembrei-lhe: Se o pai tivesse sobrevivido à avó, eu teria direito legal a metade da casa, não esqueceste? Mas não sobreviveu, respondeu ela, áspera. E a avó deixou claro quem merecia confiança. Se tivesse ficado para ti, já a tinhas perdido. A responsabilidade está comigo, não falho.
Percebi que o laço invisível que sempre unira mãe e filha tinha rebentado. Nada do que eu dissesse valeria. Lembrei-me das palavras da avó Fernanda, dos conselhos rígidos da Rosa. Éramos só eu e o silêncio.
Naquela noite, telefonei ao Manuel. Ele atendeu, cansado. Quando lhe contei da gravidez, foi honesto: Leonor, não consigo. Não posso sair daqui, ela precisa de mim. Não consigo pagar outra casa para ti e o bebé, não tenho como. Ajudo como puder, mas pouco mais.
Desliguei sem dizer adeus. Fiquei deitada a noite toda, sem adormecer. Quando a manhã clareou, levantei-me, vesti-me, peguei no cartão de cidadão e fui ao centro de saúde. Esperei duas horas na sala gelada. A médica perguntou-me num tom neutro: Quer avançar com a gravidez, Leonor? Respondi, serena: Não. Quero interromper.
Sai para a rua. O ar frio picava-me o rosto. Chorei em silêncio, na escadaria da clínica, rodeada de outras mulheres barrigas felizes, carrinhos de bebé, olhares que não reparam.
Eu era só mais uma, invisível.







