Entre a Verdade e o Sonho
Leonor enrolava-se num xaile de lã grossa, sentada no seu pequeno sofá, sentindo o silêncio livrar-se pelo apartamento, como uma brisa morna no final de outubro. Lá fora, pelo véu enevoado da noite lisboeta, caíam pingos de chuva muito leves, quase desfeitos em poeira, pousando nos parapeitos das janelas como pequenas amêndoas. Ainda sentia o cheiro da seda branca do vestido regressara da última prova do traje de noiva, entre sorrisos e palpitações, imaginando-se de braços dados ao futuro, envolvida em tule e promessas. Na mão segurava um saco com pendentes de prata, uma tiara fina e outros adereços reluzentes, vestígios de um dia que parecia tão real e, ao mesmo tempo, tão distante como um eco nas paredes velhas. Enredada nos pensamentos, visionava o salão iluminado, o olhar curioso das tias, os brilhos que haveriam de acender-se nos seus cabelos, o ecoar dos copos de vinho do Porto a celebrar a sorte.
O silêncio desfez-se de repente com o martelar da campainha. Leonor sobressaltou-se, apertando com força as franjas coloridas do xaile. Olhou instintivamente para o relógio: faltavam dez minutos para as sete. Um frio estranho percorreu-lhe os braços quem bateria à porta a esta hora em Lisboa? Será um estafeta com algum bolo esquecido, ou a dona Benedita, vizinha do quarto direito, a pedir açúcar?
Aproximou-se da porta arrastando o xaile pelo soalho encerado. Espreitou pelo óculo e viu um vulto de homem, alto, difícil de perceber. O rosto estava tapado, quase esfumado, como se a chuva o dissolvesse. Hesitou, sem coragem de abrir logo.
Quem é? tentou parecer natural, apesar do tremor na voz.
Sou eu, Duarte escutou, abafado, um timbre conhecido. Preciso mesmo de falar contigo.
Parou por momentos. Não era que quisesse ver Duarte, pelo contrário mas alguma coisa se passaria com Filipa, talvez? Com um movimento breve, rodou a chave e entreabriu a porta. Duarte apareceu à luz do corredor, sujo de água, os ombros encharcados e o sobretudo a pingar gotas que se espalhavam pelo chão encerado. Tinha uma expressão pálida, os olhos revolviam-se de um brilho doentio Leonor nunca o vira assim e sentiu um arrepio. Demorou-se um instante a perguntar-se se devia ter aberto a porta.
Encolhendo os ombros, recuou e murmurou:
Entra Estás todo molhado.
Duarte avançou para dentro, ignorando as pegadas lamacentas que se formavam sobre o chão claro. Parecia não ver nada do que o rodeava, o olhar perdido num horizonte inventado. Leonor permaneceu calada, sentindo a ansiedade a subir-lhe das mãos ao peito.
Leonor começou Duarte, apertando com força as luvas. Já não consigo mais. Eu amo-te.
O tempo pareceu abrandar em torno dela. As palavras ecoaram vagamente, como se viessem de um rádio longe.
Duarte, tu… tentou sussurrar, mas a frase perdeu-se entre os silêncios.
Ele não permitiu hesitações, aproximou-se num passo rápido, como quem teme que o chão desapareça se parar.
Sei que te vais casar. Sei que soa a loucura, mas não consigo calar-me! Meses a tentar esquecer-te, meses a forçar-me a seguir em frente… Nada resulta. As palavras saíam em sussurros secos, cada uma carregada do peso de quem confessa um segredo antigo. Devia ter-te dito isto antes. Eu e a Filipa Só comecei a sair com ela para poder estar mais perto de ti! Ela nunca contou. Nunca.
Dentro de Leonor, o chão cedeu. Todo aquele namoro entre Duarte e a sua amiga Era apenas um truque? Coitada da Filipa, que sempre acreditou tanto! Largou o xaile sobre a poltrona, sentindo que o ar à volta ficava denso, quente demais para respirar.
Duarte arriscou, procurando as palavras certas. Tens noção do que estás a dizer? Eu tenho noivo, amo-o! Estou prestes a casar-me, temos planos, sonhos, uma vida construída. E a Filipa
A resposta foi apenas um aceno, firme, segurando-lhe o olhar preso, o sofrimento a misturar-se com a bravura de finalmente se ter libertado do segredo.
Eu sei. Mas se não dissesse agora, ia arrepender-me para sempre. Não me importa a Filipa, ela não significa nada para mim! Só queria aproximar-me de ti.
Tudo nela se endureceu. As próximas palavras saíram lentas e frias, como se chegassem de fora.
Não percebo como consegues dizer isso
É verdade! insistiu Duarte, quase em súplica. A Filipa só foi um pretexto. Tentei ser o homem que estavas à espera, mostrar-te que sou diferente, carinhoso, generoso. Sem ti, tudo perde o sentido.
Ajoelhou-se com dificuldade, retirou do bolso uma caixa pequena. O anel brilhou à luz da sala fino, rendilhado, uma jóia antiga.
Deixa tudo! Deixa o teu noivo. Fica comigo. Juro que te faço feliz.
Ficou imóvel, olhando-o sem saber se era mesmo ele. Por momentos lembrou-se das festas, Duarte a sorrir, apertando a mão da Filipa, o modo como a olhava Era tudo falso? A memória partiu-se, pedaços soltos a voar no nevoeiro.
Levanta-te sussurrou, quase sem som.
Duarte ergueu-se devagar. Os olhos ardiam, um resto de esperança ainda a cintilar.
Não acreditas em mim? perguntou, vulnerável como uma criança.
Acredito. Mas isso não muda nada.
Deu um pequeno passo atrás, desenhando espaço entre os dois para conseguir respirar. As palavras foram diretas, num tom sem hesitações:
És meu amigo, Duarte. Mas amo outro. Vou casar porque é o meu destino. Não preciso de mais ninguém.
Os ombros dele descaiam, o anel fechado na mão, um silêncio entre ambos.
E se tivesse dito isto antes? sussurrou, corajoso.
O resultado seria igual respondeu, sincera. Nunca te vi assim. Tu tens valor, mas não és para mim.
Duarte aproximou-se num último impulso, a voz já quase febril:
Porquê? Sei que sentes algo Eu vejo como me olhas.
Leonor recuou em direção à porta. O medo agora era real, o olhar dele era demasiado intenso, demasiado estranho. Já antecipava que teria de correr para a rua caso fosse necessário.
Não há nada entre nós, Duarte manteve a voz firme. O que sentes não é amor, é obsessão por uma ideia. Por favor, termina com isto.
Ele fechou os punhos, não de raiva, mas de impotência absoluta.
Enganas-te. Amo-te como nunca amei ninguém!
Reprimiu um suspiro, tentando não mostrar o pânico.
E a Filipa? Pensaste no que lhe fazes? Usaste-a para chegares a mim, agora queres que largue tudo?
Sei que sou culpado mas não mudava nada! Faria tudo igual admitiu, vencido.
Não se constrói nada feliz em cima da dor dos outros. Devias pelo menos pedir-lhe desculpa
Duarte estacou, as mãos trémulas, o rosto cada vez mais pálido.
Para quê? Só me faz perder tempo, só me irrita! Só tu importa.
Sentiu, por um instante, pena dele mas não deixou que isso crescesse, não ia ceder.
Não tens lugar ao meu lado. Nem ao lado dela. E não contes comigo para encobrir nada.
Duarte olhou-a fixamente, os olhos húmidos, mas agora vazios.
Eu vou, mas não desisto! Vou esperar por ti.
Não esperes. Vive a tua vida, encontra alguém real, não uma invenção terminou ela, apontando-lhe a porta.
Levantou-se, arrastando-se, cada gesto pesado, como se fosse puxado para trás por fios invisíveis. Na soleira parou, olhou uma última vez.
Obrigado pela sinceridade. Adeus ou até logo.
Saiu, a porta fechou-se sem estardalhaço. O silêncio voltou hesitante, solene. Leonor aproximou-se da janela. Lá fora, a chuva dissolvia as luzes de Lisboa, as ruas cobertas de sombras líquidas. Duarte afastava-se, encolhido, os passos fundos no mosaico molhado, como se a cidade quisesse sugá-lo no esquecimento.
Sentia o corpo tremer não de frio, mas de tudo o que não tivera coragem de dizer. O que faria ele agora? Iria mentir à Filipa? Destruiria tudo à sua volta?
Puxou o telemóvel, procurou o nome, ligou. O coração, inquieto, procurava força para a voz que saiu neutra:
Filipa, precisamos de falar. É importante.
Do outro lado chegou um sussurro, papel a ser afastado talvez, a voz preocupada:
O que se passa? Pareces nervosa. Está tudo bem?
Duarte acabou de me visitar disse, escolhendo as palavras para não ferir mais do que o inevitável. Ele confessou: só esteve contigo para se aproximar de mim. Nunca te amou, Filipa. Foste apenas meio para um fim.
Ouviu um silêncio dilatado, pesado como uma nuvem que não queria chover. Filipa demorou a responder, e Leonor viu-a, na imaginação, sentada ao pé da chávena, boca entreaberta, os olhos a tentarem compreender.
Como assim Ele a voz quebrou-se. Isso não pode ser
Não queria preocupar-te, mas não podia esconder. És a minha melhor amiga Leonor acelerava as palavras, expondo o nervosismo. Ele disse-me que me ama. Queria que largasse tudo por ele. Filipa, fiquei assustada!
Nova pausa. Do outro lado, ouvia-se um respirar, contrariado e fraco.
Percebo respondeu finalmente, tentando disfarçar a dor. O que fazemos agora?
Não sei. Ele vai procurar-te Gosto pouco do que poderá dizer. Estás em casa? Temo pela tua segurança.
Esperou a resposta, que chegou num tom baixo:
Obrigada por me avisares. Consigo lidar.
Desculpa ter de ser assim. Dói saber que te magoo.
Antes magoada pela verdade do que enganada por uma mentira.
Despediram-se. Leonor pousou o telemóvel, o silêncio recaiu como um manto quente. Encostou a testa à vidraça embaciada, vendo as gotas a correrem como lágrimas.
Em algum canto sombrio daquela cidade molhada, duas pessoas tentavam reescrever os seus capítulos. Restava-lhe esperar que, finda a tempestade, cada um achasse o seu caminho.
***
Na sua cozinha, Filipa repetia as palavras de Leonor, revendo Duarte a rir, a segurar-lhe a mão, a prometer-lhe amores. Nunca me amou, ouvia-se como um sino no fundo do peito. O mundo que edificara desmoronava-se numa noite, e o chá, já frio, na mesa, era só mais uma ausência.
Puxou da coragem. Decidir o quê? Chorar, gritar, ligar-lhe? Esperou, deixou o tempo escorrer, submissa ao relógio.
A campainha tocou um som retesado, húmido, a fazer vibrar a nostalgia.
Filipa murmurou Duarte mal ela abriu preciso de te dizer
Não é preciso atalhou, voz firme. A Leonor contou-me tudo. Não tens nada novo a dizer.
Ele vacilou, o gesto de tocar-lhe na manga preso no ar, a cabeça a baixar-se.
Então ela ligou sussurrou desfeito. Queria ser eu a contar-te.
Filipa abraçou-se, tentando resguardar-se do frio súbito.
Por que vieste? Para repetires a mesma coisa? Ou para eu me sentir inútil?
Só para pedir-te desculpa. Usei-te, menti Fiz tudo mal balbuciou, os olhos a abandonarem-se na dor. Não espero perdão, só precisava de dizê-lo.
Ela observou-o longamente, já sem calor nem raiva, só aquele estranho vazio depois da tempestade.
Podias ter sido sincero. Mas foste logo a Leonor pedir-lhe que deixasse o noivo? E achas que me fazes menos mal assim?
Duarte retirou uma caixinha do bolso, as mãos a tremer era o anel, uma promessa abortada.
Fica como símbolo do meu arrependimento.
O rosto dela endureceu. Não queria um anel de restos, dedicado a outra.
Guarda. Não preciso.
Ele cerrou a caixa na mão, um tremor breve pela espinha.
Queria tentar outra vez. Recomeçar, sem jogos nem segredos.
O olhar dela era agora de mármore.
Só se recomeça onde há confiança. Acabaste com tudo. Até podes estar arrependido, mas nada muda.
Fez uma pausa, respirou fundo:
Preciso de tempo e distância. Não quero ouvir falar de ti ou de ti. Não tentes remendar o que se partiu.
Percebo Desculpa toda esta dor.
Virou-se para sair, parou junto à porta.
Se algum dia quiseres
Não vou querer interrompeu. Ia continuar, mas alguém voltou a tocar.
O novo visitante era André, o noivo de Leonor. Postura direita, cabelo escuro, expressão fechada, o olhar firme de quem vem resolver, não consolar.
Posso entrar? perguntou sem cerimónias.
Filipa cedeu passagem. Reparou no estremecimento de Duarte, que se recolheu no canto.
Eu sei tudo André informou-o, seco. E quero que saibas que certas lições não se aprendem só com palavras.
Duarte tentou responder, mas André cortou com rispidez:
Cala-te. Quem deixou corações em cacos não merece desculpas.
Aproximou-se, letal como um sonho em que tudo desacelera um golpe breve, directo, e Duarte desabou, mordendo a dor de uma boca sangrenta.
Da próxima vez, será pior. Fica longe das duas, entendeste?
Duarte recolheu-se, limpando a boca, o olhar baixo. Saiu sem som, sem palavras.
André aproximou-se de Filipa, a severidade suavizada.
Desculpa. Às vezes, só assim percebem.
Ela assentiu. Não sabia bem se queria agradecer ou chorar, só sentiu que a tempestade começava a mudar de rumo.
Não deverias
Talvez devêssemos. Mas foi preciso.
Leonor preocupa-se contigo. Só não veio porque insisti que eu resolvia disse ele antes de sair.
Ela é a melhor amiga que tive. E tu sabes protegê-la agradeceu, com voz dormente.
Deixou-a sozinha. Por fim, sentada, compreendeu: não era um final, mas outra etapa. Sob as luzes baças e a chuva que entretanto abrandava, sabia que a partir dali poderia recomeçar sem mentiras, sem amarras ao sonho desfeito.
***
Duarte vagueava por Lisboa, as ruas aguadas desfocando a sua sombra. Sentia mais vazio do que dor física, e cada passo parecia um eco num túnel de esquecimento. Perdera-as as duas. A Filipa para nunca mais; a Leonor para o sempre impossível daqueles que só sonham.
No dia seguinte, chegou ao escritório de lábio inchado e olho negro. Ninguém perguntou nada. Não era preciso explicar, já ninguém ouvia. Uma semana depois pediu transferência para o Porto fugiria das ruas que guardavam a vergonha, procuraria redenção à beira-Douro.
Devolveu o anel à joalharia. O vendedor não perguntou, confirmou apenas o reembolso. Usou o dinheiro para transferir para a Filipa, com apenas: Desculpa. É teu por direito.
Na manhã da partida, esperou o táxi à porta do prédio. Lisboa sumida pela chuva, quase exonerada de cor. Estraguei tudo, sussurrou não um lamento, só aceitação.
Entrou no táxi, pedindo para o levar a Santa Apolónia. Lisboa desvanecia-se além da janela, cada gota riscava a memória, cada curva apagava um traço do que foi.
***
Nessa tarde, na Baixa, num café de mármore e azulejos, Leonor, Filipa e André partilhavam três chávenas de chocolate quente, enquanto a chuva entoava canções de mimo lá fora. Falavam baixo, sem sobressaltos, agora trocando planos para o futuro e desejos doces.
Já não estou zangada confessou Filipa, olhando as gotas a correr. Só custa ter acabado assim.
Na voz repousava serenidade: já não havia ódio, nem desejo de retaliação. Leonor pousou-lhe uma mão no braço, firme, quente.
Não lamentes. Mereces mais disse, com doçura. Não joguinhas nem sonhos por metade.
Filipa sorriu-lhe, sentindo que era verdade. Havia algo de novo no mundo, uma esperança simples, leve.
E hei-de encontrar sussurrou, sem drama. Mas sem fantasia, sem construir castelos nas nuvens.
O chocolate arrefecia devagar, Lisboa desdobrava-se em luar e sonho, e apesar das marcas da noite anterior, sentiam os três que a vida, numa cidade de azulejos e promessas, por mais estranha e absurda, nunca fica parada.







