— Entra, mãe, estávamos à tua espera — diz o filho, Tiago, enquanto a nora tira-lhe o casaco e entrega chinelos à sogra. De repente, o sorriso dela transforma-se numa expressão de preocupação.

Entra, mãe, estávamos à tua espera diz o filho, Rui, enquanto a nora apanha o casaco e entrega os chinelos à sogra. De repente, a sua expressão sorridente transforma-se numa preocupação visível.

Maria entra na sala para se juntar aos convidados e Lídia faz-lhe um gesto com a cabeça a apontar para o chão. Rui percebe imediatamente o que ela quer dizer há marcas de água no soalho. Trocam um olhar, mas decidem não comentar o assunto para já.

Rui e Lídia têm uma grande novidade: recentemente nasceram-lhes gémeos, que agora já cresceram um pouco e, por isso, decidiram reunir a família mais próxima para celebrar este momento especial.

Maria, que já está reformada há alguns anos, trouxe para os netos umas lindas roupinhas de lã feitas por ela própria. Não tinha dinheiro para comprar presentes em lojas, por isso hesitou em vir, dizendo que visitaria noutra altura, mas o filho e a nora insistiram: num dia assim, a mãe tinha mesmo de estar presente.

Deram aos meninos os nomes de António e Manuel. Maria ficou muito feliz com as escolhas, porque o seu marido se chamava Manuel e o pai António o filho assim manteve a tradição dos nomes dos homens na família, o que a deixou bastante orgulhosa.

Que menino tão lindo, parece-se contigo, Lídia! E este é igualzinho a ti, Ruízinho! Ai, já nem sei confundo-os sempre, são tal e qual um ao outro, como duas gotas de água diz Maria Arminda enquanto circula à volta do berço, incapaz de perceber quem é quem, tal era a semelhança entre os rapazes.

Rui e Lídia riem com gosto, contagiados pela felicidade e o entusiasmo da avó.

Quando os convidados vão embora, também Maria Arminda começa a preparar-se para sair. Lídia olha para o marido, e Rui sugere que a mãe fique a dormir:

Mãe, porque não ficas esta noite? Já é tarde, vai ser difícil arranjares autocarro. Além disso, a Lídia vai precisar de ajuda com os miúdos hoje têm de lhes dar banho e deitá-los.

Está bem, filho, como quiseres responde Maria.

Ajuda a nora a levantar a mesa, lava a loiça e arruma tudo. Depois, vão todos juntos dar banho aos meninos. Maria mal consegue esconder a alegria que sente. A nora entrega-lhe um dos bebés, mas ela hesita com receio de o deixar cair é tão pequeno, pode escorregar-lhe dos braços.

Oh mãe, mas tu criaste o Rui, nunca o deixaste cair brinca Lídia.

Pois foi, mas isso já lá vai já nem me lembro o que é segurar um bebé lamenta-se Maria.

Lídia coloca António nos braços da sogra; o menino adormece imediatamente, talvez sentindo-se seguro. A nora embala Manuel ao colo.

Prepararam um quarto só para a Maria dormir descansada, mas a verdade é que o sono não lhe vem. Fica atenta toda a noite ao menor gemido de António ou Manuel; vigia com tanto cuidado que só de manhã, exausta, adormece profundamente.

Quando acorda, Lídia já preparou o pequeno-almoço e os bebés continuam a dormir.

Onde está o Rui? pergunta Maria, surpreendida ao ver apenas Lídia na cozinha.

Mãe, sente-se à mesa. O Rui já vem tranquiliza Lídia.

Poucos minutos depois, Rui regressa a casa com uma grande caixa nas mãos.

Mãe, isto é para ti. Abre! diz Rui com um sorriso.

Maria Arminda abre a caixa e vê lá dentro um par de botas novas. Fica tão surpresa que nem encontra palavras.

Meus filhos isto é demasiado caro, não posso aceitar! diz Maria, quase a chorar.

Não é mais caro do que tu, mãe. Vá, calça-as e usa-as com saúde responde o filho, sorridente.

Maria experimenta as botas, admirada por os filhos saberem que precisava, pois as antigas estavam completamente estragadas, sem possibilidade de arranjo, e não tinha dinheiro para novas.

De repente, um dos bebés começa a chorar e a avó, ainda com as botas novas nos pés, apressa-se até ao quarto.

És mesmo incrível, obrigada diz baixinho Rui à mulher. Se não fosses tu, nunca me teria lembrado.

Não havia que adivinhar muito Ontem, quando a tua mãe chegou, vi as marcas no chão, olhei para o estado das botas dela e percebi tudo. Para nós, três mil euros é muito dinheiro, mas ainda vamos ganhando o nosso. Para a tua mãe, é uma fortuna. Que use com alegria Lídia abraça-o com carinho.

A Maria sentiu-se mais quentinha, talvez pelas botas novas, mas acima de tudo porque percebe que é amada e necessária na vida dos filhos.

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— Entra, mãe, estávamos à tua espera — diz o filho, Tiago, enquanto a nora tira-lhe o casaco e entrega chinelos à sogra. De repente, o sorriso dela transforma-se numa expressão de preocupação.