Em segundo lugar

Em segundo lugar

Madalena está de pé à entrada, o coração apertado ao ver o marido preparar-se para sair novamente. Já vestiu o casaco, tem as chaves na mão, determinado a pôr o pé fora de casa. Madalena fica imóvel por uns segundos, os dedos agarrados à porta do armário, como se dali pudesse tirar alguma segurança.

Rui, vais sair outra vez? a voz dela sai num sussurro, mais baixa do que desejava, cheia de ansiedade.

Sim responde ele secamente, sem se virar. A Leonor tem de ir ao hospital. O bebé voltou a fazer febre, e ela está exausta.

Madalena sente o peito apertar ainda mais. Dá um passo na direcção dele, lutando para manter a voz firme, mas acaba por tremer:

E os nossos filhos? Ontem prometeste ao Diogo levar-no ao parque e à Sofia ler-lhe uma história antes de dormir. Eles passaram o dia à tua espera! Como consegues ser tão irresponsável com os teus próprios filhos?

Rui desvia o olhar, passa a mão pelo cabelo, como quem tenta organizar os pensamentos. Não sente vergonha, nem culpa na verdade, detesta explicar-se. Acha que faz o que é correcto.

Madalena, tu percebes… suspira, desviando os olhos. Ela precisa de ajuda. Não tem mais ninguém. Quanto à Sofia e ao Diogo Não faz mal se adiarmos o parque para outro dia. Ou tu lês a história. Não é assim tão grave. Eles estão bem, com saúde.

As palavras ficam no ar, e Madalena sente um nó amargo crescer-lhe no peito. Aproxima-se, os punhos cerrados de raiva contida.

Eles em breve esquecem a tua cara! grita, sem conseguir esconder o desespero. Quando foi a última vez que estiveste com eles?

Rui fica calado. Olha para o lado, como se procurasse uma resposta invisível. Finalmente, murmura, quase imperceptível:

Não posso deixá-la sozinha. Está desesperada. Ela precisa muito mais de mim do que vocês.

Madalena ri-se, mas o riso é ácido, quase um soluço. Balança a cabeça, as lágrimas a ameaçarem saltar, mas faz força para controlá-las.

Claro sussurra, a voz cheia de amargura que até ela própria sente estranhar. E nós podemos esperar. Como sempre.

Ele hesita, quer responder percebe-se pelo abanar dos ombros, pelos lábios que se movem. Mas acaba por não dizer nada. Apenas faz um gesto brusco no ar, desvalorizando tudo, e sai. A porta fecha-se suavemente, o aroma do aftershave dele a pairar no ar.

Madalena senta-se devagar no banco à entrada. As pernas pesam, como se toda a energia tivesse abandonado o seu corpo. Abraça-se, tentando aquecer-se, conter a dor que cresce a cada segundo. Mais uma vez, ele foi-se embora. Um filho de uma estranha vale, para ele, mais do que a própria família…

Os dias seguintes confundem-se num só ciclo sem fim. De manhã, leva os miúdos à creche, à escola. Depois, lida com a casa: roupa, limpezas, refeições. Ao fim do dia, sente-se mais sozinha. Rui aparece cada vez menos. Às vezes, já quase a adormecer, Madalena escuta o som da chave na porta, e no dia seguinte encontra a almofada dele vazia e só um leve odor a café feito à pressa.

Os dias transformam-se em semanas e dentro de si cresce um peso quase insuportável. Tenta convencer-se que é passageiro. Mas todas as noites, deitada, interroga-se: e se não for? E se a vida ficar assim, para sempre?

Numa manhã, a lavar loiça, as lágrimas nos olhos, percebe: não aguenta mais. Não pode fingir, nem calar. As mãos a tremer, pega no telemóvel e marca um número que nunca antes marcou. Nem sabia o que dizer àquela pessoa.

Olá diz, tentando soar calma, mas a voz mostra a tensão. Sou a Madalena. Mulher do Rui.

Segue-se um breve silêncio, mas parece uma eternidade para Madalena. Aperta o telemóvel, os nós dos dedos brancos de tanta força. O sangue lateja nas têmporas, o peito apertado pela ansiedade.

Finalmente, Leonor responde, a voz firme, um ligeiro tom de impaciência:

Sim, percebi. Em que posso ajudar?

Madalena fecha os olhos, reunindo coragem. As palavras saem duras, quase agressivas:

Podes parar de te aproveitares da bondade dele? diz, a voz elevada sem dar conta. Ele tem uma família. Filhos. É aqui que faz falta!

Do outro lado, silêncio. Madalena imagina Leonor, talvez sentada a olhar pela janela, sem peso, sem noção da dor que a despedaça.

Compreendo a sua preocupação responde Leonor, num tom sereno mas firme. Mas é o Rui quem se oferece. E sinceramente, não vejo razão para recusar. O meu filho está doente e não tenho ninguém.

Madalena sente outra pontada, aperta o telemóvel ainda com mais força.

Para ti… é conveniente sussurra, fechando os olhos. Um nó na garganta tenta impedi-la, mas ela não cede. Aproveitas-te da bondade dele.

Preciso mesmo de apoio responde Leonor sem hesitar. E o Rui é uma boa pessoa. O que se espera de um homem ideal.

Madalena expira com força, uma mistura de dor e raiva. Custa a acreditar que alguém fale do seu marido assim como se ele não tivesse obrigações, como se não fosse dela e dos filhos.

Percebes que estás a destruir uma família? a voz trémula, mas ela obriga-se a clarear a frase.

Desta vez, o silêncio ainda se prolonga mais. Quando Leonor volta a falar, é num tom gélido e distante:

Não destruo nada diz, pausadamente. Apenas preciso de ajuda. E é o Rui que decide. Ele escolhe a quem dá prioridade. Por favor, não volte a ligar-me.

Do outro lado a chamada termina. Madalena fica ainda alguns instantes de telemóvel na mão, a escutar o vazio. Depois, pousa-o lentamente.

Vai à janela e encosta a testa ao vidro frio. Lá fora, a vida continua: pessoas passam, crianças riem à distância, carros circulam. Tudo normal. Só o seu mundo desaba em silêncio.

Basta. Não vai aguentar isto mais.

Na manhã seguinte, começa a fazer malas. Não se apressa, não há desespero. Só determinação como se se preparasse para uma longa viagem, não para fugir. Dobra roupas, empacota brinquedos, confirma os livrinhos da Sofia e arruma os pertences queridos de cada um.

Não chora. As lágrimas já ficaram para trás. Agora, precisa ser forte. Por si, pelos filhos.

Quando o táxi chega, Sofia, calada até então, não contém a pergunta:

Mãe, vamos embora? a voz quase não passa de um sussurro.

Madalena ajoelha-se à frente da filha, segura-lhe as mãos pequenas:

Sim, querida. Vamos à casa da avó. Vais gostar, lembras-te dela?

Sofia abana a cabeça, mas no olhar há dúvidas que não consegue pôr em palavras.

Diogo aproxima-se também. É mais velho, percebe mais do que a mãe gostava. O rosto é sério, adulto.

O pai não vem? pergunta, olhando Madalena nos olhos.

Ela sente o peito apertar-se. Passa a mão pela cabeça do rapaz, afasta-lhe o cabelo da testa.

Não sei, Diogo responde honestamente. Agora precisamos de algum tempo só para nós.

Ele acena, sem mais perguntas, apertando com força o carrinho preferido.

Madalena lança um último olhar à casa. Ali viveu momentos de felicidade, de sonhos partilhados. Agora, sente-se apenas um espaço vazio.

Pega nas malas, ajuda os filhos a entrar no táxi. Quando o carro arranca, recusa-se a olhar para trás. Prefere focar-se no caminho à frente talvez incerto, mas novo. E isso, agora, é o que importa.

***********************

A avó recebe-os à porta. Não faz perguntas, não demonstra surpresa apenas os abraça um a um, primeiro a Sofia, depois o Diogo, por fim a Madalena. Naquele abraço está tudo: o consolo silencioso, a promessa de que ali estarão bem.

Madalena percebe o peso dos últimos dias a começar a dissipar-se. Entra, fecha a porta e, sem conseguir conter-se mais, desaba em lágrimas silenciosas. Afunda-se numa cadeira da cozinha, encosta o rosto ao ombro da mãe e chora como há anos não chorava. Como quando era menina, quando todo o sofrimento se dissolvia num abraço materno.

Maria, a mãe, afaga-lhe as costas, paciente, enquanto as lágrimas correm. Só quando o pranto amaina, levanta-se para pôr água ao lume. O conforto do chá, o aroma a folhas frescas, fazem Madalena sentir-se, por instantes, mais leve.

Cinco dias passam sem uma única chamada de Rui. Nem uma mensagem, nem um como estão?. Como se a partida deles nada lhe dissesse.

No sexto dia, o telemóvel finalmente toca. O nome do marido no ecrã faz Madalena hesitar por um segundo, mas acaba por atender.

Onde estão? a voz de Rui soa confusa, como se só agora desse por falta deles.

Estamos em casa da minha mãe. Fomos embora responde Madalena num tom sereno, mesmo sentindo a dor a crescer-lhe por dentro.

Porquê? não há preocupação, só surpresa, como se não compreendesse o motivo.

Madalena inspira fundo. Durante dias preparou respostas, mas agora fala com clareza fria:

Porque já não estás connosco. Há muito tempo.

O silêncio instala-se. Escuta Rui respira profundamente, talvez a tentar arranjar argumentos.

Vou aí ter convosco murmura por fim.

Não venhas diz Madalena, e nesse pedido está tudo: o cansaço, a desilusão, uma esperança já desfeita. Não precisamos de te ver.

Termina a chamada e pousa o telemóvel. O ecrã apaga-se.

Maria, que espera em silêncio, comenta suavemente:

Mais dia, menos dia, ele percebe o que fez. Só não sei se ainda vai a tempo de mudar.

Na manhã seguinte, Madalena senta-se à mesa da cozinha. Os primeiros raios de sol entram pela janela, mas ela mal dá por eles. Mexe o chá frio distraidamente, o olhar preso à dança das folhas.

Nessa altura, tocam à porta. O som faz sobressaltar. Levanta-se devagar, espreita pelo óculo: Rui está do lado de fora.

Abre, e vê-o com o rosto cansado, olheiras profundas, como se não dormisse há noites.

Eu tropeça nas palavras. Só agora percebi que vocês já cá não estão.

Madalena sorri de lado, um sorriso amargo.

Já passou uma semana murmura ela. Que atento. Em todo este tempo nunca sentiste a nossa falta?

Ele passa as mãos pelo cabelo, num gesto nervoso.

Pensei que estivesses em casa de uma amiga. Ou não sei. Para, depois acrescenta, hesitante: A Leonor disse que lhe ligaste.

Madalena cruza os braços, instintivamente protegida.

E o que te contou?

Que tiveste ciúmes. Rui finalmente encara-a. Vê-se confusão nos olhos dele. E que sente pena por tudo isto.

O riso de Madalena sai sozinho seco, desiludido.

Pena? Nem pensar. Ela tem-te preso por lhe der jeito, e tu deixas.

Ouve-se um rumor no corredor. Sofia e Diogo regressam da rua. Assim que veem o pai, ficam imóveis. Sofia, sempre mais expressiva, fala primeiro, quase num sussurro:

Vais embora outra vez?

Diogo, ao lado, de olhos adultos, punhos cerrados:

Dizes sempre que vais passar tempo connosco declara, sem mágoa, apenas um facto. Mas nunca cumpres.

Rui olha para os filhos e algo muda-lhe na expressão. Abre a boca como para falar, mas cala-se. No fundo, sabe que voltará a sair para ajudar Leonor sente-se na obrigação! Não percebe que ali está o verdadeiro erro.

Madalena observa. Vê os lábios de Sofia a tremer, Diogo de olhar firme, Rui a passar o olhar de um filho ao outro. Nesse minuto, ela compreende que palavras já não bastam. Tudo já foi dito nas olhares, no silêncio, nos desenganos.

Ele aproxima-se de Sofia para lhe tocar no ombro, mas ela recua, encostando-se à parede, o rosto escondido atrás dos caracóis. Lágrimas nos olhos, mas sem dizer nada só aquele olhar ferido que atravessa Rui por dentro.

Tenta chegar-se a Diogo, mas ele afasta-se para a janela, ombros tensos, mãos fechadas.

Eu eu vou mudar balbucia Rui, e a voz falha-lhe. As palavras saem sem convicção, num tom baixo e desesperado. Só que alguém precisa de mim. Isto não vai durar! Mais uns meses apenas

Madalena abana devagar a cabeça. Não está zangada, só cansada, exausta de tantas desculpas.

As oportunidades acabaram diz, serena, mas com firmeza. Já não aguento viver com alguém que põe outros à frente da família. Não vou continuar a inventar desculpas aos miúdos, nem a vêlos esperar em vão junto à janela.

Mas eu amo-vos! Rui dá um passo à frente, a mão estendida, num último apelo. Amo muito!

Então porque não estás connosco? Porque é que nunca somos a tua prioridade?

Ele fica calado. Não há argumentos que sirvam.

Vai-te embora diz Madalena, quase sem voz. E não voltes.

Rui olha para os filhos: Sofia já a chorar, Diogo com uma postura rígida. Depois encara a mulher, antes animada e sorridente, agora de semblante sério.

Dá alguns passos até à porta. Para, esperando talvez uma palavra, um pedido para ficar. Nada.

A porta fecha-se num estalido leve o fim de uma longa história.

Sofia já não suporta mais as lágrimas. Madalena imediatamente a abraça, acaricia-lhe o cabelo.

Vai correr tudo bem, querida sussurra, tentando não chorar também.

Diogo aproxima-se devagar e agarra a mão da mãe. Os dedos gelados, mas a pressão determinada. Não diz nada, mas é um abraço silencioso feito de amor.

Vamos conseguir murmura Madalena, olhando para a janela. Lá fora, através da chuva, vê a silhueta de Rui desaparecer na esquina.

********************

Os dias seguintes caminham devagar, como se o tempo se estendesse de propósito. Cada manhã Madalena repete para si: Hoje será mais fácil. Mas não é. Apesar disso, obriga-se a agir levanta-se, faz o pequeno-almoço, leva os filhos à escola e creche, dá conta da casa. Evita parar, não quer ceder às memórias.

Enche-se de tarefas. Limpezas, roupa, cozinhar Tudo serve de distracção. Ao fim do dia, ainda arranja energia para fazer traduções o novo extra que arranjou para ajudar nas despesas. Sentada ao computador, de dicionário ao lado, revê textos. As mãos mexem-se por costume, os olhos percorrem linhas, mas dentro sente sempre um vazio.

A mãe ajuda. Não fala muito, nem dá sermões. Brinca com os miúdos, conta histórias à noite, cuida das refeições. Às vezes só se senta ao lado de Madalena e toma um chá, o silêncio dizendo mais do que conversa.

Duas semanas depois, já quase habituada ao novo ritmo os madrugares, os percursos para a escola, o trabalho à noite recebe uma chamada inesperada. Leonor. Madalena surpreende-se com a ousadia, mas atende.

Madalena, sei que não queres falar comigo, mas Leonor soa insegura, como se relutasse em continuar. O Rui não vai mais ajudar-me.

Madalena estaca, o telemóvel apertado na mão. Contudo, responde suspirando:

E então?

Ele esteve em minha casa até agora. Ajudava com o bebé, mas Leonor hesita. Ontem arrumou tudo e disse que não aguentava mais. Que se sentia um traidor.

Madalena solta um riso sem raiva, só cansaço. Toda a sua mágoa e ironia estão ali, abafadas.

E ligas para que eu fique com pena dele?

Não. Leonor suspira longamente. Telefono para dizer que estava errada. Quis têlo por perto pela minha conveniência, porque tinha medo de ficar sozinha. Mas nada disso justifica estragar a vida de outros.

Obrigada responde Madalena depois de uma pausa. Já não faz diferença.

Faz Leonor insiste, delicadamente. Porque ele ainda vos ama.

Madalena fecha os olhos, sente outra pontada no peito, mas mantém a compostura. Sabe que se fraquejar volta o sofrimento.

Ama repete, com voz neutra. Mas se amasse, ter-nos-ia posto em primeiro lugar. Nem sequer reparou que estivemos uma semana ausentes.

Novo silêncio, só a respiração da outra do lado de lá.

Eu entendo sussurra Leonor. Desculpa.

A casa está silenciosa, as crianças dormem. Madalena fica sozinha com as suas dúvidas e dores. Rui acordou, mas demasiado tarde.

Madalena inspira fundo. Por trás de tudo, sente: é o fim. Não da dor ou das recordações mas da indefinição. Agora, pelo menos, tudo é claro. E, com isso, chega-lhe um alívio estranho.

Sabe que está no início de uma vida nova. E essa terá de a construir ela mesma.

Rui só volta a aparecer depois de um mês. É um fim de tarde como tantos: Madalena está a pôr a mesa, os filhos conversam, a mãe serve a sopa. Tocam à campainha. Madalena não espera ninguém. Vai abrir e surpreende-se.

Rui está à entrada, emagrecido, olhos fundos, semblante apagado. O casaco húmido, talvez pelo chuvisco.

Posso entrar? pergunta baixinho.

Madalena não se mexe.

Para quê? reage ela simples, sem rancor nem emoção.

Ele baixa os olhos para os sapatos, volta a erguer o rosto. Nota-se que custa falar.

Percebi que perdi o mais importante. Disse à Leonor que acabou, ela aceitou. Quero voltar se quiserem.

Por trás de Madalena, a pequena Sofia espreita, vê o pai, agarra-se ao vestido da mãe e foge de volta à cozinha. Diogo, sentado à mesa, recusa-se a olhar. Mastiga devagar, atento às palavras.

Os filhos não querem ver-te diz Madalena com naturalidade. E eu… Eu não quero voltar a viver com medo de te ver partir, todos os dias.

Não voltarei a sair! Rui dá um passo nervoso à frente, mas Madalena impede-o.

Já saíste há muito. Só ainda não tinhas percebido.

Rui engole em seco, as mãos ora cerradas, ora abertas em busca de algo.

Quero corrigir tudo. Vou esforçar-me mais, esquecer Leonor Sei que errei. Mas quero tentar. Por favor.

Madalena abana a cabeça. Não há lágrimas, só uma lucidez conquistada com muito sofrimento.

Mas eles esquecem? aponta os filhos. O Diogo já não joga futebol porque falhaste os últimos jogos. Não te pede para ires aos treinos, nem mostra o que aprendeu. A Sofia só desenha a mãe e a avó. Tu apagaste-te das nossas rotinas.

Ele tenta responder, mas nesse momento a mãe de Madalena chama da cozinha voz calma, mas firme:

Madalena, podes ajudar-me aqui com a louça?

Não é só um pedido, é um sinal de que ela tem um porto seguro, de que não está sozinha.

Madalena olha pela última vez para Rui, como que a despedir-se daquela versão dele.

Vai-te embora, Rui. Já não és da nossa família.

Ele hesita, espera qualquer gesto, mas não há resposta. Só silêncio crescente.

Por fim, vira costas e sai. O trinco bate suave, a seguir-se o silêncio.

Sofia aparece de novo, corre para a mãe, Diogo aproxima-se, abraça-a pela cintura. Maria põe-lhe a mão no ombro.

Volta a calmaria. Só a chuva bate delicadamente na janela, como se alguém marcasse o compasso de uma vida nova, sem mais hesitações…

***********************

Meio ano depois, a vida de Madalena volta aos poucos ao equilíbrio. Aluga um apartamento modesto, acolhedor, bem perto do trabalho. Agora não perde horas em deslocações e dedica esse tempo aos filhos: lê-lhes à noite, ajuda nos trabalhos, está presente enquanto desenham e brincam.

A mãe mudou-se para outra cidade, para apoiar a irmã. Mas continuam em contacto: todos os dias, às sete, telefona por videochamada, pergunta por tudo, dá ânimo e conselhos. Madalena sente esse apoio, tem alguém próximo, ainda que à distância.

Sofia, que sempre sonhou com o palco, inscreve-se numa companhia local de teatro infantil. A casa enche-se de histórias sobre ensaios e personagens. Representa papéis para a mãe e irmão, recita poemas, mostra entusiasmo redobrado o brilho dos olhos regressou.

Diogo, amante de desafios lógicos, mergulha nos xadrezes online. Discute estratégias, reavalia jogos dos campeões mundiais, ensina a mãe, que raramente ganha mas esses serões tornam-se um ritual precioso.

A vida não é perfeita. Há avarias, provas moreladas para Diogo, pequenas birras da Sofia. Mas são desafios normais, de quem vive junto, de quem forma uma equipa. E juntos, superam-nos.

Num desses fins de tarde cansados, a caminho de casa, depois de um dia intenso de trabalho e trânsito, Madalena só pensa em tirar os sapatos e desfrutar do silêncio. Junto ao prédio vê Rui sentado num banco, um saco de frutos na mão. Ao vê-la, levanta-se rapidamente.

Só queria saber se estão bem diz ele, com dó na voz.

Madalena pára a poucos passos. Não sente raiva nem pena apenas firmeza calma.

Estamos bem responde simplesmente.

Fico contente ele confessa, o olhar triste, mas tranquilo.

Madalena acena. Não há hostilidade, só serenidade.

Então, melhor não voltares.

Ele não insiste, nem pede uma segunda oportunidade. Só pergunta, num murmúrio:

Achas que algum dia me perdoas?

Madalena pensa um segundo. Lembranças passam-lhe pela cabeça: noites em claro, desgostos, mas também momentos de alegria perdida. Por fim, encara-o e responde:

Já te perdoei. Mas isso não significa que queira voltar ao passado.

Rui baixa a cabeça, resignado.

Percebo diz, num fio de voz.

Volta costas e afasta-se devagar. Madalena observa-o desaparecer no lusco-fusco da noite. Os candeeiros começam a iluminar-se, as vozes das crianças ouvem-se longínquas.

Entra no prédio, sente o aroma a bolo acabadinho da vizinha. No quinto andar, os filhos já a esperam: Sofia com um relato animado do teatro, Diogo absorto no tabuleiro de xadrez.

Fecha a porta atrás de si. Tira os sapatos e respira fundo. Agora, a casa tem silêncio não o silêncio triste de antes, mas uma paz cheia de vida. Já não há lugar para mágoas, para esperança vã. Ali só cabem eles: ela própria, Sofia e Diogo.

A sua nova vidaNaquela noite, Madalena prepara chá para três, como se fosse cerimónia de celebração silenciosa. Sentam-se os três à mesa, mãos dadas por instinto, e ali, entre goles tímidos e sorrisos cansados, percebem que já não têm medo do futuro. Sofia conta, em segredo solene, que vai ser a princesa da peça. Diogo sorri, finalmente relaxado, e desafia a mãe para uma última partida antes de dormir.

Depois do chá, Madalena acompanha os filhos à cama, escova os cabelos de Sofia com gestos suaves, beija a testa de Diogo, confiante de que aquilo, e apenas aquilo, é o essencial: estar presente, ser abrigo, construir memórias naquele espaço imperfeito e só deles.

Quando a casa silencia e a noite entra, ela vai à varanda. Sente na pele o ar morno, escuta a cidade a adormecer. Lá em baixo, há luzes acesas em muitas janelas, vidas paralelas, histórias em reconstrução. Pensa em tudo o que deixou para trás, nos sonhos adiados, na mulher que foi depois sorri suavemente para o céu escuro. Sabe que, às vezes, perder é só um outro nome para recomeçar.

Ao voltar para dentro, sente-se inteira. Fecha a porta e, nesse gesto simples, encontra enfim o seu lugar. Não é em segundo lugar, como temeu antes: é o primeiro e único no coração dos filhos e, agora, no seu próprio.

E assim, com passos seguros, Madalena começa finalmente a escrever a sua própria história.

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