Em criança, fui curiosa para descobrir quem era o meu pai. Cresci num internato e, com o tempo, a su…

Quando era miúda, tinha sempre uma curiosidade estranha em saber quem era o meu pai. Passei a infância num colégio interno onde a ausência dele se tornava uma espécie de normalidade, um fundo baço nos sonhos. Aos 14 anos conheci o pai dos meus filhos; nunca me passou pela cabeça insistir em procurar o meu próprio pai. A vida apenas ia desfiando o tempo, indiferente às ausências.

Anos depois, quando me vi sozinha, o destinocom a sua lógica surrealempurrou-me sem que eu procurasse para junto dele. Trabalho por conta própria e, num daqueles dias em que esse quotidiano parece um teatro de sombras, apareceu um cliente novo. Conversámos como se estivéssemos numa esplanada em Alfama, e, sem motivo aparente, confessei-lhe que nunca tinha visto o meu pai. Ele ajudou-me a encontrá-lo. Descobrimo-lo numa aldeia perdida no sopé das serras, onde sempre vivera.

Quando finalmente o abracei, a emoção foi tão desmedida que parecia coisa de sonho: uma alegria sem fim, como um rio correndo em contramão. Passámos a fazer planos mirabolantes: trocávamos mensagens pela noite dentro, comprava-lhe camisolas feitas de lã da Serra da Estrela, mimava-o em viagens improváveis pagas sempre por mimnão importava se ele tinha euros ou nada nos bolsos. Via um homem perdido, cabisbaixo, e parecia-me que podia colar os anos todos com pequenos gestos.

Falava-me de uma solidão constante, de filhos espalhados pela aldeia, que não o deixavam ter mulher ao lado porque, segundo eles, qualquer mulher que se aproximasse só queria o dinheiro. Pedi-lhe para me apresentar a tal mulher de quem dizia gostar, e levou-me até ela. Era Olívia, mulher simples, de mãos calejadas, generosa, que dela cuidava como de um rebanho. Via-se no olhar que o amava. Mas os filhos não a queriam por perto: insultavam-na, chamavam a GNR, tratavam-na como intrusa.

Perguntei-lhe: Por quê tanto rancor? E ela, com voz de segredo, disse que o meu pai tinha casas, uns terrenos, euros guardados no banco e os descendentes faziam muralha para ninguém se chegar, com medo de perder herança.

A partir daí começaram as conversas de escárnio. Diziam que eu tinha aparecido apenas para esvaziar-lhe os bolsos. Nem o apelido dele eu levava, mas ele insistiu em dar-mo. Não queria, sabia que só ia arranjar sarilhos, mas ele afirmou que era sua vontade, o legado de um nome. Acabei por aceitar. E desde então, tudo se tornou ainda mais estranho: críticas saltavam como peixes fora de água, os conflitos perderam o medo da luz.

Criei com Olívia uma ligação onírica, quase como de irmãs desencontradas. Sugeri-lhe que se casassem em segredo e assim fizeram: um casamento ao luar, só nosso. Os filhos explodiram de raiva, eu disse-lhes que o meu pai tinha direito à felicidade. O casamento teve altos e baixos, como onda atlântica em noite de tempestade. Um dia, já casados, convidei-os para uma viagem. Sempre viajei só com o meu pai, mas agora fomos três. Durante o passeio, Olívia perguntou quanto iria eu dar para as despesas. Respondi-lhe, meio a sonhar, que nada que sempre era eu a pagar tudo quando ia só com ele.

Foi quando me disse, numa frase que ficou a ecoar nos meus sonhos: que eu via tudo ao contrário. O meu pai sempre teve dinheiro, razão por que era controlado. Não o deixavam gastar em si, nem em roupa, nem pequenos prazeres. Eu imaginava que ele era pobre porque morava numa casa inacabada, e o vi sempre despojadomas na verdade eram outros que geriam o dinheiro.

Passei a incentivá-lo a gastar o que conquistou, mas ele só balbuciava: Os filhos não deixam. Depois do casamento, Olívia pedia-lhe apoio para a casa, para as compras, para a vida. Sempre que ela pedia, ele rebentava como um trovão, só cedendo após discussão. Ela contava-me tudo e eu achava justo: quem cuida merece.

Até que um dia, ainda juntos, Olívia pediu-lhe para comprar almoço ao pai dela e ele rebentou: disse-lhe para pagar ela, que estava farto de lhe pedirem, iniciou-se grande discussão. Defendi-a: perguntei-lhe se gostaria que o meu marido recusasse comida ao meu avô. Disse-lhe que não era vida ser injusto com quem cuida de nós, quem cozinha, quem põe a roupa a lavar, quem vela o sono. Ele respondeu-me que estava cansado de lhe pedirem dinheiro para a casa.

Foi aí que percebi, com um aperto no peito de sonho mau: o meu pai era de mão fechada com quem o estimava, e generoso até ao absurdo com filhos que só o procuravam pelo dinheiro.

No fim, o casamento desfez-se como nevoeiro na ribeira. Hoje vive sozinho numa casa fantasmal. Dizem que uma filha cuida dele, mas todos sabem que é ele quem sustenta a filha, o genro e os netos. Os outros vão-lhe pedindo, ordenando, e ele envia euros atrás de euros, quase a dormir. À Olívia, recusava sempre que podia.

Já não sou igual com ele. Gosto dele, mas não como dantes. Não o convido mais para viagens, mal falamos. Se eu não ligo, ele não liga. Não consigo voltar a ser a mesma. Entristece-me esta confissão, pois encontrá-lo foi um sonho lúcido, e agora é como se nunca tivesse existido.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Em criança, fui curiosa para descobrir quem era o meu pai. Cresci num internato e, com o tempo, a su…