Ele gozava com a barriga dela até ler um certo papelinho.
Às vezes, a vida ensina lições com um requinte quase cruel depois delas, nunca mais somos os mesmos. Desta vez, vou partilhar convosco a história do Miguel e da Matilde. Uma narrativa sobre como, muitas vezes, o orgulho só serve para tapar verdades das quais fugimos até ao último fôlego.
Era um daqueles almoços de verão em Lisboa, com o calor a fazer o alcatrão tremelicar. Matilde, de vestido leve, dançava pela calçada com aquele andar de quem já não tem espaço para dobrar a barriga. Só ia à vida dela, até que lhe caiu à frente o ex-marido.
**Primeiro round: O Encontro Desastrado**
Miguel, de camisa branca capaz de cegar alguém no sol, parecia daqueles tipos que têm a vida arrumadinha. Olhou para a barriga dela, ensaiou um sorriso cínico e cravou:
Grande prestidigitação, Matilde! Isso é almofada, certo? Nós tentámos durante cinco anos e bola! disse, com o desprezo de quem acha que tem sempre razão.
Na cabeça dele, se em cinco anos de casamento não aconteceu, não ia acontecer nunca e claro, a culpa era sempre dela.
**Segundo round: Serenidade Versus Mau Feitio**
Matilde não perdeu o compasso, nem corou, nem explodiu. Limitou-se a olhar para ele com aquela comiseração de quem vê alguém preso numa cela feita de mentiras próprias.
Acreditei em ti durante muito tempo, Miguel. Depois apareceu outro homem, e em um mês, olha milagre da medicina! respondeu baixinho, quase a rir.
**Terceiro round: O Choradinho**
Miguel ficou logo roxo, parecia que ia explodir. Aproximou-se, invadindo-lhe o espaço, e largou para a rua inteira ouvir:
Mentirosa! Fazes isto só para me fazeres sentir mal porque fui eu que fui embora! É impossível, Matilde! Biologicamente impossível!
Berrou tanto que até o senhor das bifanas espreitou da janela. Miguel agarrava-se à ilusão de que era perfeito, e ela era avariada.
**Quarto round: O Semeador da Calma**
Nisto, apareceu um senhor elegante. O Duarte. Sereno, com aquele ar de quem tem sempre um tabuleiro de pastéis de nata escondido nos bastidores. Pousou a mão na cintura de Matilde, numa ternura protetora, e estendeu a Miguel uma folha dobrada ao meio.
O relatório médico está bem explícito. Talvez devesses fazer tu uns exames, Miguel propôs Duarte, educadíssimo.
**Quinto round: Check-Mate**
Miguel arrancou o papel de maus modos. Começou a ler, à espera de encontrar ali uma montagem qualquer. Mas, à medida que os olhos lhe corriam as linhas, foi ficando lívido. As mãos tremiam-lhe como varinhas de condão.
O documento não só confirmava quanto tempo Matilde estava grávida, como ainda anexava cópias dos exames que ambos tinham feito um mês antes do divórcio os tais exames que Miguel escondeu, convencendo a Matilde de que ele estava óptimo e o problema era dela.
Ali, debaixo do sol lisboeta e perante toda a rua, Miguel ficou tão cinzento que parecia escultor novo do Padrão dos Descobrimentos. Olhava para aquele papel como se tivesse tropeçado na própria sombra. Matilde e Duarte passaram-lhe ao lado, em silêncio.
Miguel ficou parado, finalmente a perceber que tinha estado todos aqueles anos a apontar-lhe culpas pela dor que era toda dele. Perdeu Matilde por puro orgulho. Ao olhar para ela, a descer a Rua Augusta de braço dado e feliz, percebeu que o único que ficava agarrado à mentira era ele.
**Desfecho:**
Miguel ficou plantado no passeio, imóvel, enquanto o documento lhe escapava dos dedos moles. Ali estava a verdade que ele passou anos a empurrar para baixo do tapete. Afinal, a avariada nunca foi Matilde. O problema era só o medo dele de não ser perfeito.
Matilde também não olhou para trás sabia bem que o novo capítulo tinha começado no momento em que deixou de acreditar nas palavras envenenadas dele.
**Moral da história:** Nunca deixes que as inseguranças dos outros sejam freio na tua confiança. Às vezes, o impossível vira realidade basta largar quem só sabe puxar-nos para baixo.
E vocês? Acham que Matilde devia ter dado provas, ou ignorado e seguido caminho? Contem-me lá nos comentários!






