O João estava sempre metido em viagens de trabalho, e eu já nem ligava. Responder às mensagens só lá para as tantas, chegar a casa já meio-fantasma, a dizer que teve reuniões intermináveis Enfim, nada de novo em Lisboa. Nunca lhe espreitava o telemóvel nem o chateava com perguntas parvas. Sempre fui daquelas que confia.
Um dia, estava eu a dobrar roupa no quarto, ele senta-se na cama, sapatos ainda calçados (uma heresia para o chão envernizado!), e lança:
Ouve-me até ao fim, sem interromper.
Nessa altura, soube logo que vinha asneira. Lá me disse que andava com outra.
Perguntei quem era. Hesitou, fez aquele teatrinho de novela da SIC, e depois lá disse o nome dela. Trabalhava a dois passos do escritório dele. Mais nova, claro. Perguntei se estava apaixonado. Ele levantou os ombros: Não sei, mas com ela sinto-me menos cansado. Ainda lhe perguntei se pensava sair de casa. Respondeu, assim com um ar de mártir:
Sim. Já não quero andar a fingir que está tudo bem.
Nessa noite ficou no sofá. No dia seguinte, desapareceu logo de manhã e só voltou dois dias depois. Quando regressou, já tinha falado com um advogado. Queria o divórcio sem dramas, veja-se lá bem. Passou, qual contabilista aplicado, a listar o que levava e o que deixava. Eu, muda, parecia assistir a um episódio dos Morangos com Açúcar, só que sem o açúcar. Em menos de uma semana já eu tinha mudado de casa.
Os meses que se seguiram foram, digamos, um caldo verde indigesto. Tive de tratar de tudo sozinha papelada, contas, decisões chatas, só faltou ir pedir senha à Segurança Social para apanhar um pouco de ar puro. Comecei a sair mais, nem era por vontade, mas para não dar em maluca em casa. Aceitava convites para tudo: desde jantares do pessoal do escritório até aquela amiga irritante que só fala do filho.
Numa dessas saídas, numa pastelaria de bairro, na fila para um café carregado, topo um tipo simpático. Conversa fiada sobre o tempo, trânsito na 2ª Circular, atrasos do costume.
Havia ali olhares trocados. Num desses encontros, a bebericarmos bica numa mesinha de ferro enferrujado, disse-me a idade dele 15 anos mais novo que eu! Ninguém fez piadinhas, ninguém ficou nervoso. Perguntou-me a minha idade, e continuou como se estivéssemos a falar de queijos no supermercado. Convidou-me a sair outra vez, e eu alinhei.
Com ele era tudo diferente. Sem promessas de amor eterno nem lamechices. Perguntava-me como eu estava, ouvia mesmo, ficava ao meu lado quando eu desabafava sobre o divórcio sem mudar de tema ou olhar para o telemóvel. Um dia, com a franqueza de quem pede mais uma fatia de bolo-rei, disse logo que gostava de mim e que sabia que o meu coração vinha aos tropeções. Disse-lhe também que não queria cair nos mesmos erros, nem depender de ninguém. Ele: Olha, eu não quero controlar-te, nem ser herói de ninguém.
O João, o ex, soube por terceiros. Telefone tocou meses depois, como se nada tivesse acontecido. Perguntou-me se era verdade que eu andava com um mais novo. Disse-lhe sim, é verdade. Veio logo com a pergunta moralista se não tinha vergonha. Respondi-lhe que vergonha devia ter ele da traição. Desligou, nem um adeus.
Divorciei-me porque ele trocou-me por outra. Mas depois, sem procurar, encontrei-me ao lado de um homem que gosta de mim e me valoriza.
Será isto um presente encomendado ao destino? Bom, pelo menos nem preciso de embrulho!







