Ele Abandonou os Filhos Quando Eles Mais Precisavam Dele

Manuel ficou parado, como se o próprio chão tivesse desaparecido.

As paredes brancas do quarto de hospital pareciam demasiado limpas. Frias. Completamente alheias ao que se passava dentro dele.

Diante dele, respirava um homem a quem um dia chamara pai.

O homem que partira.

O homem que escolhera outra vida.

E deixara-os entregar-se à morte cada um ao seu jeito.

João olhava para ele com desespero. O rosto gasto, os olhos fundos, a pele acinzentada. Dificilmente se reconhecia ali algo do homem forte e convicto que gostava de contar anedotas à mesa e sorrir alto, batendo portas pelos corredores.

Agora, tremia de medo.

Manuel murmurou ele. Por favor

A palavra soou vazia. Quase estranha.

Manuel não respondeu.

Apenas olhou-o. E dentro dele mexeu algo que tentava enterrar há quinze anos.

Não era um grito.

Nem raiva.

Era um vácuo.

Lembrava-se de tudo.

Da mãe sentada à mesa da cozinha, noite dentro, convencida de que os filhos dormiam. Chorava baixo, para ninguém ouvir.

Mas eles ouviam.

Recordava como ela foi definhando. Como deixou de se erguer da cama.

E naquela manhã, quando entrou no quarto… e percebeu tudo sem uma palavra dita.

Tinha dezasseis anos.

Simão apenas onze.

Nesse dia, acabou a infância.

Manuel arranjou trabalho logo após o secundário. De noite descarregava caixas nos armazéns, de dia estudava. Não permitia ceder à fraqueza.

Tinha um irmão.

Tornou-se tudo para ele.

Pai.

Mãe.

Família.

E agora…

O verdadeiro pai jazia ali, a pedir-lhe auxílio.

Sei que não mereço a voz de João tremia. Mas és o meu filho

Manuel inspirou fundo.

Aquelas palavras doíam-lhe mais do que esperava.

Filho.

Onde estava esse pai quando um filho tinha de levar o caixão da mãe?

Onde estava quando Simão chorava à noite, chamando pela mãe?

Onde estava ele quando faltava dinheiro para um caldo quente?

Manuel avançou um passo.

João olhava-o com esperança. Esperança de fim de linha, desesperada.

Lembras-te do que disseste quando foste embora? sussurrou Manuel.

João fechou os olhos.

Sim, lembrava-se.

Fui um parvo disse ele, quase inaudível.

Manuel calou-se durante largos segundos.

O único som na sala era o aparelho a apitar.

Pipi.

Pipi.

Pipi.

Vivi quinze anos sem pai, disse Manuel, finalmente, com serenidade. E sobrevivemos.

João respirou como quem engole o medo.

Mas eu não sobrevivo sem ti murmurou ele.

Manuel ficou a olhar para ele. Muito tempo. Até dizer as palavras que pararam o coração de João.

Vou pensar.

E virou-se para a porta.

Foi nesse instante que João percebeu o horrível: já não era dono da sua vida.

Agora pertencia àquele rapaz que oito mil dias antes traíra.

Manuel saiu sem olhar para trás.

A porta fechou-se devagar, sem ruído mas por dentro tudo nele ribombava.

No corredor, pairava cheiro a medicação e vidas de outros. Pessoas sentadas em cadeiras de plástico, umas olhavam o chão, outras rezavam, outras apenas esperavam. Manuel entendeu, com clareza repentina: todos ali tinham acreditado, um dia, que nunca lhes aconteceria a eles.

Parou à janela.

As mãos estavam frias.

Não sentia raiva. E isso, sim, assustava-o.

Manuel

Virou-se.

Simão estava alguns passos atrás.

O irmão crescera muito. Estava mais alto, mais largo de ombros. Mas os olhos mantinham o brilho antigo os mesmos olhos do menino parado no corredor, a chorar na despedida do pai.

Viste-o? perguntou Simão em voz baixa.

Manuel assentiu.

E então, que vais fazer?

A pergunta ficou pelo ar.

Manuel desviou o olhar.

Não sei.

Simão esboçou um sorriso amargo.

Eu sei.

Manuel fitou-o.

Ele não é ninguém para nós, declarou Simão, duro. Escolheu há quinze anos.

Manuel calava-se.

Ainda lembras como a mãe chamava por ele à noite? a voz dele vacilou. Até ao fim, ainda tinha esperança.

Manuel lembrava-se.

Lembrava do olhar dela para a porta.

Até ao fim.

Ele nunca voltou, prosseguiu Simão. Nem um telefonema. Nem um postal.

Cada palavra acertava fundo.

Agora lembrou-se de que tem filho? Porque precisa de um rim?

Manuel fechou os olhos.

A verdade era cruel.

Não tens obrigação nenhuma, sussurrou Simão. Já salvaste uma vida.

Manuel olhou-o, intrigado.

Simão sorriu tristemente.

A minha.

Essas palavras doeram mais do que tudo.

Há quinze anos, ele salvara-o mesmo. Trocou a universidade dos sonhos por um turno num talho. Deixou os anos de juventude para garantir um futuro ao irmão.

Nunca se arrependeu.

Mas agora…

E se não fosse ele? sussurrou Manuel. Só uma pessoa. Alguém desconhecido.

Simão pensou muito antes de responder.

Mas é ele, murmurou enfim.

Ficaram em silêncio.

Ao fundo, Lisboa já acendia as luzes, uma a uma, como se a vida não parasse. Para todos. Mas não para cada um.

O médico disse-me: se não houver transplante, restam-lhe poucos meses, revelou Manuel.

Simão baixou a cabeça.

E sentes-te culpado?

Manuel demorou a responder.

Sinto que ainda sou aquele rapaz à porta, confessou baixinho.

Nesse momento, abriu-se a porta do quarto.

Saiu o médico.

Lançou um olhar atento a Manuel.

Precisamos de falar, declarou.

Manuel sentiu o peito apertar-se.

Sobre o quê?

O médico hesitou.

Há um detalhe importante a saber antes de decidir.

Manuel imobilizou-se.

Às vezes uma só verdade muda tudo.

O médico chamou-o para o gabinete.

Simão ficou no corredor, punhos cerrados. Sabia: não se decidia apenas o destino do pai. Ali, pesava-se o passado todo.

Manuel sentou-se frente ao doutor.

Este consultou papéis. Procurava as palavras certas.

É meu dever dizer-lhe a verdade, começou com calma. O seu pai está em lista de espera há mais de um ano.

Manuel franziu o sobrolho.

Mais de um ano?..

Sim. Mas há um problema.

O médico pausou.

O estado dele agravou-se também pela falta de cuidados. Ignorou tratamentos, faltou aos exames, recusou seguir indicações.

Manuel sentiu um sabor estranho na boca. Não era vingança. Não.

Era a amarga lógica da vida.

Não acreditava que era grave, prosseguiu o médico. Muitos pensam que há sempre mais tempo.

Tempo.

Manuel sabia bem o preço dessa palavra.

Se aceitar ser dador, disse o médico, salva-lhe a vida. Mas tem de ser voluntário. Sem pressões. Tem direito absoluto de negar.

Manuel assentiu.

Obrigado.

Voltou ao corredor.

Simão levantou-se logo.

E então?

Manuel olhou para o irmão o único que sempre ficou.

Ele próprio destruiu a vida, murmurou Manuel.

Simão não respondeu.

Os dois sabiam.

Manuel aproximou-se lentamente da janela.

No vidro refletia-se um adulto. Mas lá no fundo, seguia preso o rapaz antigo.

O que esperava o pai.

Manuel fechou os olhos.

E então regressou-lhe a última manhã da mãe.

Ela estava fraquíssima. Mal tinha voz. Mas segurou-lhe a mão.

Manuel sussurrou. Promete-me uma coisa

O que quiseres, mãe.

Ela olhou-o com ternura infinita.

Não deixes que a mágoa te torne amargo

Na altura não entendeu bem aquelas palavras.

Agora sim.

Manuel abriu os olhos.

Aceito, disse baixinho.

Simão voltou-se para ele, estupefacto.

O quê?..

Vou fazê-lo, repetiu Manuel.

Depois de tudo o que fez?! a voz de Simão tremia.

Manuel olhou-o com tranquilidade.

Não faço isto por ele.

Então por quem?

Manuel pousou a mão no ombro do irmão.

Por mim. Para um dia olhar o espelho e não ver nele o rosto dele.

Simão emudeceu, com os olhos a brilhar de lágrimas.

Pela primeira vez em anos.

És mais forte que todos nós, murmurou.

Três meses passaram.

A operação correu bem.

João sobreviveu.

Mas ao ver Manuel, depois de tudo, não conseguiu proferir palavra. Só chorou.

E entendeu, por fim.

O filho tornou-se homem sem ele.

E melhor que ele.

Mas Manuel não ficou.

Não procurou agradecimentos. Nem amor.

Simplesmente, partiu.

Para sempre.

Por vezes, perdão não é voltar atrás.

Por vezes, perdão é libertação.

João ainda viveu muitos anos.

Mas todas as manhãs encarava a verdade que não queria mudar:

O filho que abandonou, salvou-lhe a vida.

E esse foi o fado mais duro que lhe coube.

Porque há erros que nem o tempo permite remendar.

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