Ela estende-lhe uma bolacha e sussurra: «Tu precisas de um lar, e eu preciso de uma mãe»
O vento de dezembro varre a noite e Margarida, com um vestido fino e uma mochila gasta, treme na paragem do autocarro.
Tem vinte e quatro anos, mas o rosto denuncia mais. Foram três dias a sobreviver como pode, e os pés descalços já mal sentem o empedrado gelado de Lisboa.
A neve cai suave, quase silenciosa. As pessoas apressam-se para as casas quentinhas, enquanto ela se encolhe, quase invisível aos olhares apressados.
De repente, uma menina de cerca de quatro anos, com um casaco comprido e um pequeno saco de papel na mão, para em frente dela.
Tens frio? pergunta a miúda.
Um bocadinho, mas está tudo bem, mente Margarida.
A menina repara-lhe nos pés e estende o saco de papel.
Isto é para ti. O meu pai comprou-me bolachas, mas acho que precisas delas mais do que eu.
Um homem observa à distância, sem intervir. Margarida pega no saco. As bolachas ainda estão mornas e o cheiro traz-lhe lágrimas aos olhos.
Obrigada murmura.
A menina olha-a com uma seriedade inesperada. Tu precisas de um lar, e eu preciso de uma mãe.
Margarida fica sem palavras. Como te chamas?
Benedita. A minha mãe está no céu. O pai diz que ela é um anjo. Tu és um anjo?
Não sou anjo responde Margarida. Sou só uma pessoa que errou no caminho.
Benedita passa-lhe a mão no rosto.
Toda a gente erra. Por isso é que precisamos de carinho.
Nesse instante, o homem aproxima-se.
Sou Tiago. Precisas de abrigo. Temos um quarto livre em casa. Só por esta noite.
Margarida hesita, mas aceita. Ao chegar, sente o calor do lar. A noite prolonga-se, os dias passam.
Tiago, viúvo há seis meses, e Benedita enchem um vazio antigo que Margarida carregava. Conta-lhes a sua história: perdeu o emprego, gastou todas as poupanças com a doença da mãe e ficou sem casa.
Tiago não julga. Ajuda-a a arranjar trabalho na biblioteca municipal.
Com o tempo, Margarida encontra novamente paz. Benedita sorri em pleno e só adormece com Margarida por perto.
Um dia, Benedita pergunta: Vais ficar para sempre?
Tiago acena que sim, em silêncio. Margarida abre os braços.
Se quiserem que fique, eu fico.
Benedita abraça-a com força.
Agora és a minha mãe.
Margarida percebe que família nem sempre é sangue. Por vezes, é quem nos estende a mão quando mais precisamos.
Aquela noite gelada começou com uma bolacha e terminou com um lar. Pela primeira vez em anos, Margarida deixou de temer o futuro. Sentia-se, finalmente, em casa.







