Ela apanhava moedas do chão. Mas ninguém sabia quem tinha acabado de entrar na sala.

Hoje aconteceu algo que não consigo tirar da cabeça. Foi num cinema movimentado no centro de Lisboa.

Estava lotado, estreia de um novo filme de animação, cartazes coloridos a encher o átrio, o cheiro forte a pipocas e conversas animadas em todo lado. As pessoas aguardavam na fila, a discutir horários e a escolher os melhores lugares.

Ninguém reparou em nós, até a minha mãe aproximar-se da bilheteira.

Ela apertava-me a mão com força.

Eu tinha seis, talvez sete anos na altura. O cabelo estava todo apanhado numa trança cuidadosa, mas as roupas não mentiam sobre a nossa vida. Um casaco já gasto, sapatos a fugir ao tamanho certo.

Vi a minha mãe abrir devagar a mão sobre o balcão de vidro.

Moedas. Poucas, todas diferentes. Alguns euros, trocos que foram sendo reunidos um a um.

Ela pousou-as, com muito cuidado.

É para um bilhete de criança por favor pediu, num fio de voz.

A funcionária fitou aquelas moedas, depois olhou para minha mãe com um ar gelado.

Está a brincar? disse, quase a rir-se. Isso não é feira.

A fila começou a comentar, sussurrando.

Senti a cara da minha mãe esquentar.

É exatamente o valor do bilhete, contei duas vezes murmurou ela.

A mulher da bilheteira nem a deixou acabar.

Num gesto brusco, empurrou as moedas para o chão.

O som metálico fez eco no átrio todo.

Vi as moedas rolarem pelo chão limpo, brilhante.

A minha mãe ficou parada, sem conseguir mexer-se durante uns segundos.

Depois ajoelhou-se e começou a apanhar as moedas com as mãos a tremer.

Algumas fugiram para debaixo dos pés dos outros. Ninguém a ajudou.

Eu olhava para ela, com lágrimas quase a cair.

Mãe, deixa estar sussurrei baixinho.

A mulher da bilheteira apontou para a porta.

Desbloqueie a fila. Por favor, siga.

O átrio ficou em silêncio.

Não era porque tivessem pena.

Era o desconforto, ninguém queria estar ali.

A minha mãe apanhou as últimas moedas e levantou-se.

Não discutiu, não pediu mais nada.

Simplesmente pegou-me na mão, pronta para sairmos.

Foi aí que as portas automáticas se abriram outra vez.

Entrou um senhor bem vestido, fato impecável, acompanhado pelo gerente.

Ele abrandou, notando o que se passava.

A minha mãe de olhos vermelhos.
Eu escondida atrás dela.
Moedas espalhadas pelo chão.
A funcionária com cara de poucos amigos.

Aproximou-se.

O que se passa aqui? perguntou, calmo, mas firme.

A funcionária mudou logo de tom.

Foi só um mal-entendido

O senhor olhou para a minha mãe.

Queria comprar um bilhete?

A minha mãe acenou, evitando olhar para ele.

Já não interessa Estamos de saída.

O senhor observou as moedas na mão dela.

Depois voltou-se para a bilheteira.

Não faz sentido uma criança chorar por causa de um bilhete, disse baixinho.

A voz não era alta, era de quem manda.

A funcionária ficou branca.

Eu não sabia

E isso é grave, respondeu ele.

Depois agachou-se ao pé de mim.

Que filme querias ver, menina?

Disse timidamente o nome.

Ele sorriu.

Hoje vais ver o teu filme. E com a tua mãe.

Levantou-se e falou para o gerente.

Reserve os melhores lugares para estas senhoras.

E acrescentou, depois de uma pausa:

Em relação à funcionária, falaremos depois.

O átrio ficou ainda mais calado.

As mesmas pessoas que antes desviaram o olhar, agora olhavam para os próprios pés.

Porque, às vezes, basta uma pessoa lembrar: o valor de uma pessoa nunca se mede pelo dinheiro que traz nas mãos.

E falta de respeito nunca pode fazer parte de um atendimento.

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Ela apanhava moedas do chão. Mas ninguém sabia quem tinha acabado de entrar na sala.