Dona do Seu Lar: A Protagonista do Seu Próprio Lar em Portugal

Dona da sua casa.

Mariana, voltaste a esquecer-te de tapar a manteiga com a tampa suspirou Dona Lucinda, puxando para si a cadeira com algum estrondo. Agora ficou a noite toda a apanhar cheiros do frigorífico. Miguel, meu filho, barra antes o requeijão; comprei ontem fresquinho.

Tentei abafar o aperto que sentia nas mãos, a segurar a faca. Continuei a cortar o pão em silêncio, a tentar fazer fatias direitas apesar dos dedos um pouco trémulos. Chovia miudinho em outubro, e as gotas escorriam desordenadas pela janela. A cozinha parecia demasiado apertada para três adultos.

Mãe, a manteiga está bem Miguel mal levantou os olhos do telemóvel, a mastigar automaticamente a sandes.

Pois claro, claro… Eu só digo porque me preocupo. Vocês são novos, acham sempre que as coisas nunca se estragam. Depois vêm dores de barriga e quem trata, sou eu?

Coloquei o prato do pão na mesa e sentei-me. A cabeça andava à roda desde manhã, a boca sabia-me a fel. Deitei uma saqueta de chá Amanhãs na caneca e esperei que a bebida quente amainasse o enjoo.

Mariana, não comes nada insistiu Lucinda, olhando-me por cima dos óculos. Estás um frangalho, filha. Miguel, como é que pensas em ter filhos com uma mulher assim? Filho precisa de mãe saudável

Qualquer coisa apertou-se-me cá dentro. Bebi um gole de chá, queimei a língua e forcei um sorriso.

Dona Lucinda, nunca fui de comer muito de manhã. Sempre fui assim.

Pois, pois No meu tempo ia-se trabalhar com febre e nem se pensava em reclamar. Agora basta um espirro, já vão de baixa. Olha que com a tua idade eu já estava a criar o Miguel sozinha, a trabalhar e a manter uma casa impecável.

Miguel finalmente ergueu os olhos.

Mãe, isso agora não interessa. A Mariana ontem ficou no escritório até às oito a fechar a contabilidade.

Eu sei, eu sei, preocupo-me convosco, só isso. Casal novo tem de pensar no futuro, a saúde é fundamental

Levantei-me com a chávena ainda cheia e fui pô-la no lava-louça. No reflexo da janela vi Dona Lucinda a pôr mais requeijão no prato de Miguel, a bater-lhe no ombro com ternura. Atrás de mim, a voz dela soava doce, dedicada mas só ao filho.

Miguel, não te esqueças da reunião hoje. Passei a ferro a camisa azul, está em cima da cadeira.

Fiquei ali, de costas, a segurar a caneca morna. Dentro de mim crescia aquela coisa pesada, nem só cansaço, nem só mágoa. Era fundo, surdo e lento.

Há três meses, no entanto, eu tinha-me alegrado com a vinda da minha sogra.

***

Dona Lucinda apareceu lá em casa no fim de julho. Ligou tarde, já era quase noite, a voz entre preocupada e quase a chorar. Os vizinhos de baixo tinham inundado o apartamento, a água estragou o soalho e parte dos móveis. O empreiteiro prometera acabar a obra em uma semana, dez dias no máximo.

Miguel, posso ficar convosco uns dias? Um hotel é caro e fico sozinha, é triste pediu. O Miguel nem hesitou, claro.

Na altura fiquei contente. Ela vivia em Santarém, raramente nos víamos, só nas festas. Parecia uma senhora energética, simpática e faladora. Desde que o marido tinha morrido, há cinco anos, estava sozinha. Trabalhava no arquivo da Câmara e tinha uma paixão por violetas.

Não há problema, uma semana passa num instante disse ao Miguel, já a pensar em arrumar o escritório para lhe dar o quarto. Faz tempo que não falamos em condições.

Miguel abraçou-me.

Tu és mesmo um anjo. É mais tranquilo assim para mim, ela não fica sozinha a stressar com obras.

Ela chegou de comboio, com duas malas grandes e uma caixa de cartão apertada por um cordel. Fui esperar por ela à estação com o Miguel. Lucinda vinha com olheiras, a boca fechada num risco tenso.

Oh, Mariana, obrigada por me acolheres, minha filha apertou-me forte, encostada à porta de casa. Juro que não me demoro. Mal acabem as obras, vou-me embora. Não vos quero incomodar.

Os primeiros dias foram quase um paraíso. Lucinda cozinhava, limpava a casa enquanto nós trabalhávamos. À noite, havia chá com bolachas Triunfo, notícias, risos. Miguel parecia outro: falador, animado, feliz por ter a mãe ali.

Porém, ao fim da segunda semana, algo começou a mudar.

Primeiro, pequenas coisas. Lucinda reorganizou os temperos, explicou que assim era melhor. Depois mexeu nas roupas, dobrou-as à maneira dela. Eu encontrava coisas minhas noutro sítio, ficava sem saber se devia dizer algo. Tanta coisa sem importância…

Mariana, reparei que as cortinas estavam cheias de pó comentava, enchendo a concha da sopa. Não limpaste há muito tempo, pois não? Isso faz mal, provoca alergias. Hoje já passei com o pano húmido, está tudo limpo.

Obrigada, Dona Lucinda murmurava, sentindo as faces arder. É verdade, não limpava o pó toda a semana. Depois do trabalho só queria descanso e um livro.

Não é crítica, minha querida, só estou a ajudar. Assim ficas mais leve.

Três semanas depois, o empreiteiro ligou de Santarém: problema na eletricidade, demorava mais dez dias. Lucinda franziu o sobrolho, mas manteve o discurso.

Miguel, faço-vos mesmo incómodo? Prometo, mais um pouco e estou de saída.

Tá tudo bem, mãe respondeu ele, abraçando-a.

Olhei para eles, calei-me. Senti um leve desconforto a espreitar no peito, mas escovei-o para longe. Era só mais uma semana, nada grave.

E depois passou um mês. E depois quase dois. Lucinda foi ocupando a casa: ficou com o meu antigo escritório agora era o quarto dela. Eu passei a trabalhar com o portátil na cozinha, ou no nosso quarto, sempre desconfortável mas nunca tive coragem de pedir o meu espaço de volta.

Todos os dias ela fazia jantar. Saborosos, admito, mas sempre a gosto do Miguel. Batatas, carne, estufados. Eu preferia peixe e legumes, mas calava-me.

Mariana, não comes nada? dizia abanando a cabeça. Miguel, vê lá a tua esposa, está cada vez mais magra. Precisava de ir ao médico.

Mariana, tens comido pouco, é verdade ele olhava-me com preocupação.

Não tenho fome era verdade. O estômago embrulhava-se-me, as forças fugiam pelas mãos abaixo. Mas ir ao médico? Para quê? Só para ouvir que era stress? Para assumir que a presença dela me sufocava? Ninguém diz disso em voz alta.

***

Em meados de setembro começou o caos no trabalho. Urgências com as finanças, revisões, ficávamos até tarde, exaustos. Eu chegava a casa às nove, dez, com dores de cabeça.

A casa recebia-me com luz quente, jantar pronto e a voz de Lucinda:

Mariana, finalmente. Já jantámos, deixei na panela só para ti. Não mexas nas panelas do fogão, pus tudo como deve ser.

Acenava, sentava-me para comer. O Miguel aparecia, dava-me um beijo, contava do dia dele. Lucinda sentava-se ali, entre o croché e as revistas, sempre presente. O ar parecia espesso.

Miguel, não achas que a tua mãe já está arraigada por cá? perguntei numa noite, na escuridão do nosso quarto.

O que queres dizer? As obras ainda não acabaram. Aguenta mais um pouco, querida. Lá em casa não tem condições.

Mas já passaram dois meses…

Mariana, é a minha mãe. Ela sofre, está sozinha. Não dá para perceberes isso?

Doeu-me, mas calei. Ele adormeceu rapidamente; fiquei acordada, ouvindo Lucinda a mexer-se do outro lado da parede fina.

No dia seguinte, quando cheguei do trabalho, a minha sogra tinha uma novidade:

Mariana, podemos limpar juntas ao sábado? Assim despachamos o serviço.

Quis recusar, mas ela já tinha trazido o balde, esfregona e panos. Lá fomos as duas, ela a liderar, a comentar:

Olha que ali atrás do radiador está mesmo sujo; convém passar o aspirador. E as cortinas já pedem uma lavagem. O frigorífico? Convém limpar de quinze em quinze dias, isto é só bactérias…

Fui acenando, esfregando, lavando, a sentir o fastio a crescer. Mas não rezingava. Afinal, ela só queria ajudar. Como acusá-la de querer bem?

No fim de setembro tinha a certeza: não era dona da minha própria casa. Lucinda comandava tudo as refeições, a roupa, até o Miguel. As camisas eram dela, lavadas e engomadas ao pormenor.

O Miguel está habituado, desde pequeno, a roupa bem arrumada dizia com um sorriso doce. Sempre o ensinei assim.

O pouco que sobrava era só meu, escondido: lavava a minha roupa sozinha, quando a máquina ficava livre. Às vezes sentia-me como uma intrusa, a tentar não incomodar nem fazer barulho.

De noite, sonhava com corredores intermináveis, portas trancadas. Ou ficava parada à frente do fogão, sem conseguir encontrar os tachos na própria casa.

Despertava a suar, coração aos pulos. Queria acordar o Miguel, abrir o peito e desabafar mas as palavras ficavam presas na garganta. Como explicar que o excesso de carinho era veneno?

***

A um de outubro começaram os verdadeiros estranhos acontecimentos.

Uma manhã, acordei cheia de náuseas. Mal cheguei à casa de banho, vomitei. De trás da porta ouvi a voz preocupada da Lucinda.

Mariana, estás bem? Chamo o médico?

Não precisa, foi só qualquer coisa que comi.

Alguma coisa? o tom de Lucinda era de leve mágoa. Ontem fiz bolinhos de carne com carne fresca, provei tudo. O Miguel comeu e nada, só tu

Não é dos bolinhos, só tenho o estômago sensível.

Passei o dia exausta no escritório. A colega Vera olhou-me com ar de pena.

Mariana, estás péssima. Vai para casa!

Não posso. Os relatórios são para amanhã.

Olha que a saúde é mais importante. Vê a médica.

Mas não fui. Cheguei a casa tarde; Lucinda recebeu-me com cara fechada.

Estiveste a fazer-nos medo. O Miguel também ficou preocupado. Já reparaste que colocas o trabalho sempre à frente? E a família? O teu marido esteve sozinho, ao menos dei-lhe um jantar decente.

Fugi para o quarto. Dores de cabeça. Através da parede ouvia os sussurros dela e do Miguel. Vi que a sogra se queixava, o Miguel tentava acalmá-la.

Uma manhã, ao vestir-me, vi uma nódoa estranha na blusa predileta no dia anterior estava limpa.

Lucinda, sabe o que aconteceu à minha blusa branca? perguntei na cozinha.

A sogra voltou-se do fogão, olhos espantados.

Qual blusa?

Aquela branca, ficou com uma mancha no colarinho, nunca tinha aquela cor…

Mariana, não mexo na tua roupa. Talvez te tenhas distraído e manchado, nem reparaste.

Olhei para ela, para aquela cara inocente, e naquele instante soube: era mentira. Ela sabia. Foi de propósito.

Mas nada provei. Fui trabalhar, com a culpa pendurada ao pescoço.

Começaram outras coisas: a minha caneca preferida, a que o Miguel me dera no aniversário, desapareceu, nunca mais apareceu. Lucinda encolheu os ombros quando a questionei.

Depois, o meu champô praticamente cheio amanheceu vazio. Lucinda só disse:

Estranho. Talvez a tampa não fechasse bem, e o resto saiu

Desisti de perguntar. Limitava-me a circular, à espera do dia.

Miguel também mudou; andava tenso, pouco falador, quase discutimos várias vezes.

Mariana, andas irritadiça atirou um dia. É do trabalho?

Não.

Então é do quê?

Olhei para ele cheia de vontade de gritar a verdade: não aguentava mais a mãe dele ali, sufocava, sentia-me estrangeira na minha própria casa. Mas as palavras nunca saíam.

Estou só cansada. Desculpa.

Abraçou-me, beijou-me ao de leve.

Aguenta mais um pouco. Falei com a mãe, ela vai embora assim que acabar a obra.

Mas semana após semana, Lucinda ligava aos empreiteiros e regressava com o mesmo ar ansioso.

Dizem que já só falta um bocadinho, uns rodapés e papel de parede. Uma semaninha.

O tempo acumulava-se em meses.

***

Em fim de outubro, já não conseguia dormir. Ou melhor, dormia mal, acordava acabada. As olheiras cavaram-se, as mãos tremiam.

Uma noite, acordei sobressaltada por um ruído: arrastar ténue, um roçar vindo do quarto da Lucinda. Sentei-me, escutei. O som calou-se.

De manhã perguntei-lhe se ouvira algo à noite.

Não, filha, eu sou de sono pesado. O que é?

Pareceu-me ouvir passos.

Sonhaste. Anda deprimida, devia mesmo ver um médico.

Dois dias depois, senti um cheiro estranho na casa a cera de vela, doce, intenso como numa igreja. Fui cheirar, reparei que vinha mais do quarto da sogra.

Lucinda, tens estado a acender velas?

Velas? Para quê? E porquê perguntas?

Cheira-me a cera.

Não sei, deve vir do prédio, pela ventilação.

O cheiro voltava, sempre à noite. Comecei a dormir mal. O medo crescia de noite, apertava-me o pescoço.

Um dia, com Lucinda fora, entrei no quarto. Nada suspeito: cama feita, revistas no móvel, violetas na janela. Abri o armário: roupas penduradas, malas e uma caixa de cartão com cordel.

Ajoelhei-me para ver melhor de repente ouvi a porta da entrada. Saltei para a cozinha. Lucinda sorria com sacos das compras.

Mariana, estás em casa? Pensei que estavas ainda no trabalho.

Estava indisposta, vim mais cedo.

Coitadinha. Vou já fazer chá.

Mais tarde, outra vaga de cheiro a cera. E, ao passar pelo corredor, vi a nossa fotografia emoldurada largada numa prateleira; era uma das que ficava na mesa do quarto. Aproximei-me: o vidro intacto, mas a minha cara estava riscada com um objeto pontiagudo, quase como traços de agulha.

Senti o sangue fugir-me. Segurei o quadro, incapaz de largar.

Mariana, que fazes aí parada? Miguel apareceu, a bocejar.

Vê só isto.

Pegou na moldura, franziu o sobrolho.

Que é isto?

Não sei. Encontrei agora na prateleira.

Estranho. Será que ficou assim na impressão e nunca vimos?

Miguel, não foi erro na impressão. Está riscado! Como se alguém pegasse numa agulha…

Mas quem iria fazer tal coisa?

Fiquei calada. Ambos sabíamos quem mais vivia ali. Mas era impossível dizê-lo. Chegava a parecer loucura.

Se calhar, enganei-me murmurrei. Desculpa.

Nessa noite, nem preguei olho. Só ouvi o escuro, os murmúrios atrás das paredes.

***

Em novembro, o frio cresceu. Eu andava sempre gelada, até dentro do casaquinho de lã. O enjoo de manhã piorava. Não comia quase nada; só chá e tostinhas, às escondidas.

Mariana, estás a definhar dizia Lucinda, olhando-me de lado, mas nos olhos dela passava algo que parecia satisfação.

No trabalho, a chefe chamou-me:

Mariana, fizeste dois erros no relatório. Ontem trocaste as datas Não és assim normalmente.

Desculpe, D. Margarida. Não voltará a acontecer.

Tens saúde? Queres ir de licença?

Imaginei ser obrigada a ficar de férias em casa onde só a Lucinda reinava e senti um nó no peito.

Não é preciso, está tudo bem.

Mas eu não estava bem. De dia, trabalhava como um robô. À noite, ficava abismada, imóvel, enquanto o Miguel tentava conversar. Respondia sempre pouco, ele resmungava, amuava.

Mariana, já nem sei quem és. Sentes alguma coisa? És um fantasma.

Desculpa. Cansei.

Devias ir ao médico. A mãe diz que nem comes.

A mãe diz. Olhei-o com amargura.

A tua mãe fala demais.

O quê?

Deixa.

Levantei-me, fui para o quarto. Ele não veio atrás.

Dias depois, o equilíbrio ruiu de vez.

Cheguei cedo do trabalho, a casa estava demasiado silenciosa. Lucinda, por norma, via novelas na cozinha ou falava ao telefone. Dessa vez ouvi um murmúrio baixo vindo do quarto dela.

Esperei. O tom não era de prece mas assemelhava-se.

Aproximei-me da porta entreaberta. Olhei: no tampo da mesa ardiam duas velas, uma fotografia grande do Miguel, outra minha. No meu rosto, uma cruz preta pintada de marcador. Lucinda, de costas para mim, murmurava, mão em cima da foto, segurando uma agulha comprida.

Lucinda chamei, a voz áspera e estranha.

Ela voltou-se bruscamente, pálida.

Mariana… não te esperava…

O que está a fazer?

Desviou a mão depressa, escondeu a agulha. O rosto crispou-se, depois endureceu-se.

Não faço nada. Não tens nada a ver com isto.

As velas. As fotos. O que é isto?

Nada a ver contigo! Sai do meu quarto!

De repente tudo saiu cá para fora, meses de cansaço, medo e mágoa.

Seu quarto?! avancei para a mesa, as mãos a tremer. ISTO É MINHA CASA! O MEU QUARTO, onde já vive há três meses!

Mariana, não grites…

Vou gritar SIM! Está a fazer bruxedos, risca as minhas fotos, estraga as minhas coisas, envenena-me a vida!

Nunca estraguei nada! ela ficou hirta, olhos frios de raiva. Tu é que estragas tudo! Fazes o meu filho infeliz! Com outra já tinha tido filhos e uma família de jeito, não és mulher, és peso morto!

As palavras bateram forte, doeram mais do que tudo até ali.

Com que direito me fala assim…

Com todo o direito! Porque sou mãe dele, gerei-o e criei-o sozinha! Dei a minha vida! E tu? Moldaste-lhe a cabeça, afastaste-o de mim!

Nós amamo-nos. Somos família!

Família?! ela riu-se, cheia de desprezo. Até filhos és incapaz de dar! Olha para ti: seca, doente, nem mulher és.

Parei, ajeitei-me e atirei as velas ao chão. Elas rebolaram, uma apagou-se, outra ficou acesa, tombada. Agarrei a minha fotografia riscada, rasguei-a ao meio.

Sai da minha casa disse-lhe, num tom firme e baixo. Agora.

O quê? Lucinda empalideceu. Não te atrevas…

Atrevo. Eu sou dona da minha casa. Comece a fazer as malas, já!

O Miguel nunca te vai perdoar!

Isso decidimos entre nós. Mas aqui, nunca mais dorme!

Nisto, a porta bateu. O Miguel tinha chegado. Ouviu gritaria, entrou na divisão.

Lucinda atirou-se-lhe, lágrimas nos olhos:

Miguel, ela está a escorraçar-me! Trata a tua mãe assim!

O Miguel olhou para mim, para a mesa, as velas, as fotos, a agulha. O rosto mudou: espantado, depois assustado.

Mãe… O que é isto?

Nada, filho, só rezava por ti…

Com agulha? Fotos riscadas? Diga-me a verdade!

Eu só queria proteger-te! Ela não te serve…

Chega, mãe. Chega! foi a única vez que ouvi o Miguel gritar com Lucinda. Nem mais uma palavra!

Tirou a mala do armário.

Arrume já as suas coisas, levo-a ao comboio.

Miguel…

Agora.

***

Uma hora depois, Lucinda saía. Silenciosa, de olhar de pedra. Miguel carregava as malas. Eu fiquei no corredor, quase sem forças.

Antes de sair, Lucinda virou o rosto.

Vais arrepender-te disto.

Nada respondi. O Miguel saiu com ela. A porta fechou-se.

Fiquei sozinha.

A casa parecia imensa, cheia de silêncio. Fui ao quarto de hóspedes; na mesa, cera derretida, fotos riscadas, as velas ainda deitadas. Juntei tudo num saco, pus no lixo.

Depois, abri a janela, deixei entrar o ar frio de novembro. Fiquei ali encostado, a olhar para os telhados molhados, o céu escuro; pela primeira vez em meses, respirei fundo.

O Miguel chegou tarde. Entrou no quarto, deitou-se sem fôlego.

Levei-a à estação. Apanhou o comboio até Santarém.

Sentei-me ao lado dele.

Desculpa.

Porquê?

Por isto tudo ter acontecido.

Mariana, eu é que te devo desculpas Fingi que era só cansaço, não quis ver. Pensava que tu te fartavas do trabalho, nunca da minha mãe É impossível imaginar isto.

Silêncio. Ele abraçou-me, tremia muito.

Achei que te estava a perder. Andaste distante demais; temi que já não gostasses de mim.

Senti que estava a sufocar.

Não mais sufocas. Prometo.

No dia seguinte, acordei com sol a entrar por entre as cortinas. Sentei-me na cama. Finalmente, só silêncio sem passos, sem panelas, sem a voz da Lucinda.

Percorri a casa. Quarto arrumado. Só o sofá-cama, a secretária, estantes vazias. O meu espaço, de novo.

Na cozinha, o Miguel preparava café. Sorriu quando entrei.

Bom dia.

Bom dia.

Tomámos o pequeno-almoço sozinhos. Comi uma tosta com manteiga, sem enjoar primeira vez em dias.

Mariana, devias mesmo ir ao médico. Ficaste muito mal. Faço-te a marcação?

Faz.

No dia seguinte, pela manhã, fui à médica no centro de saúde. Uma médica afável ouviu-me enjoo, fraqueza, sem fome.

E o último período, recorda-se?

Apercebi-me de que já não me lembrava, entre tanto stress e tanta confusão.

Há mais de um mês.

Vamos fazer um teste de gravidez.

Fiquei imóvel. Gravidez? Não me passara pela cabeça… Mas em casa nunca nos protegemos, queríamos um filho só que nunca era o tempo certo.

O teste deu positivo.

Parabéns sorriu a médica. Deve ter umas seis semanas. O enjoo e a fraqueza são comuns. Vou encaminhá-la à consulta de obstetrícia.

Saí do consultório meio zonza. Grávida. Um filho nosso.

Sentei-me num banco lá fora, chorei baixinho alívio, alegria, medo, tudo junto.

À noite contei ao Miguel. Ficou primeiro incrédulo, depois abraçou-me a rodopiar.

A sério? Mesmo?

Mesmo. Seis semanas.

Mariana, não sei o que dizer. Isto é maravilhoso!

Sentámo-nos na cozinha, de mãos dadas, o Miguel a repetir que me amava, que tudo correria bem.

***

Passaram três semanas. Lucinda não ligou; o Miguel tentou, mas ela não atendeu. Mandou só uma mensagem: Estou bem. Não se preocupem.

A pouco e pouco, senti-me melhor. O enjoo era suportável. Comia melhor, tinha mais energia. À noite, limpámos o escritório, recuperando o meu espaço, mudámos os móveis, comprámos cortinas novas.

A casa ficou mais leve, mais nossa. Tornei a cozinhar coisas de que gostava mesmo. O Miguel ajudava, ríamos juntos como antes.

Certa noite, já deitados, ele disse:

Mariana, pensei na minha mãe. Um dia, quando o bebé nascer, ela vai querer visitar-nos.

É natural.

Não te importas?

Pode vir. Em visita. Ficar para dormir, nunca mais. Esse é o meu limite.

Está bem.

E nunca ficará sozinha com o bebé ao início. Talvez um dia, se eu confiar. Agora não.

Combinado. Não podes viver com o medo que ela destrua tudo outra vez; tens razão. Não quero que o nosso filho cresça com tensão.

Não vai crescer. Vamos pôr barreiras, claras e justas. Ou aceita-as, ou não. Mas não sacrificamos a nossa paz.

Abracei-o, fechei os olhos. A chuva caía, batia ritmada no guarda-sol na casa, calor e serenidade.

Pensas que vamos conseguir? murmurei.

O quê?

Família. Filhos. Harmonia com a tua mãe.

Vamos. Porque estamos juntos e agora sabemos o que não queremos repetir.

Assenti. O medo ainda cá morava, mas sentia-me mais forte que nunca. Soube pôr um limite. Defendi o meu espaço, a minha vida, a minha identidade.

Miguel, promete que se algum dia me vires a sofrer, não finges que não notas. Que me escutas.

Prometo. Sempre.

*

Termino esta página com esta certeza: numa casa, é preciso coragem para reclamar o que é nosso. Não basta amor também é preciso firmeza. Ganhei de volta o meu lar, a minha paz e, acima de tudo, recuperei a mim próprio. E nada disso se pode perder outra vez.

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