Dinheiro Pelo Passado

Dinheiro pelo Passado

Beatriz saiu do Instituto Superior com passos flutuantes, quase sumindo nas sombras do final de tarde. O dia fora um mosaico desconexo: aulas, conversas com colegas, risos a ecoar por corredores intermináveis que mudavam de cor como se fossem feitos de luz líquida. Ajustou a alça da sua mala portuguesa, comprada numa pequena loja da Baixa, e apressou-se em direção à paragem de autocarro sob uma chuva fina e laranja, arrancada de um quadro surrealista de Almada Negreiros. O vento de novembro, afiado como peixe-espada, entranhava-se pelo pano do sobretudo e enroscava-se nas pernas, como se todo o Rossio fosse agora um aquário frio, e ela, peixe fora de água.

Beatriz apertou o seu cachecol de lã, sonhando já com o refúgio onírico da sua pastelaria predileta, onde pediria chá aromatizado com erva-príncipe e gengibre, enquanto pudesse olhar, do seu apartamento alto de paredes brancas, a cidade absurdamente dobrada pela janela panorâmica, cortinas pesadas flutuando sem vento ao som de fado suave de fundo.

À beira da paragem, reluzia a sua relíquia moderna: um sedan cor de vinho, presente dos pais pelo seu décimo oitavo aniversário. Sempre que Beatriz abria a porta, sentia um ligeiro arrepio de orgulho, como se fosse entrar a conduzir nos sonhos dos outros. Esticou a mão aos bolsos à procura da chave, mas um grito, estranho, ecoou pelo ar feito sinos a soluçar:

Beatriz! Espera! Beatriz!

Virou-se como quem acorda de repente. Uma mulher vinha a correr, desengonçada no seu casaco largo, madeixas desalinhadas como caravelas após aventura no Atlântico, o rosto quase transparente de ansiedade. Parou junto a ela, arfando, olhos grandes e fundos, cheios de uma esperança que parecia pedir permissão para existir.

Finalmente encontrei-te… murmurou, a voz era brisa na Praça da Figueira, mão estendida como quem oferece e teme. Sou tua mãe.

Beatriz não se mexeu. O rosto era pedra velha de Lisboa: olhos abertos, sobrancelha arqueada ao de leve, só a respiração movendo a estátua. Observou a estranha sobretudo gasto, mãos vermelhas do frio húmido, um cansaço antigo no olhar. Isto é alguma partida mal engendrada?, pensou, ou apenas engano de sombra?

Eu tenho mãe, pronunciou a rapariga, voz de mármore. A senhora não é ninguém que eu conheça.

A mulher empalideceu, mas manteve-se de pé, dedos trémulos, olhar perdido pelo rosto de Beatriz como se tentasse colar pedaços de um puzzle que nunca foi dela.

Sei que é estranho… disse, a voz quase aragem mas procurei-te todos estes anos. Podemos falar? Só dez minutos, peço-te.

Beatriz hesitou, vendo estudantes encurvarem-se para ouvir: sons de passos, cochichos, olhares de cristal. O embaraço pendia do ar como roupa molhada em varal ao vento. Não pretendia compadecer-se desta desconhecida que lhe aparecia agora, deslocada do tempo e do espaço. Tudo parecia sonho, ou esquete de teatro mal encenado.

Vamos, assentiu, apontando para uma confeitaria com varandas floridas, cheirando a café fresco. Mas aviso: não espero que isto mude nada.

Entraram. Um calor pesado e doce abraçou-as, afastando o frio marítimo de Lisboa. Beatriz sentou-se de frente para a rua, tirou o cachecol com um gesto vagaroso e colocou-o no encosto da cadeira. A mulher hesitou, escolhendo um lugar, como quem nunca entrou num lugar com candeeiros modernistas e quadros de artistas locais.

O empregado chegou num instante. A mulher pediu um carioca tímido. Beatriz pediu seu habitual galão com xarope de amêndoa. Entre as duas, o silêncio distorcia-se ao ritmo das luzes e do cheiro do bolo de arroz. Beatriz examinava as plantas suspensas nos cestos, a mulher retorcia a manga do casaco, coleccionando coragem que nunca vinha.

Quando as chávenas pousaram, a estranha inspirou fundo como quem se atira ao Tejo:

O meu nome é Bernardete. Eu… sou tua mãe biológica.

A minha mãe chama-se Graça, respondeu Beatriz, articulando cada sílaba. Criou-me, cuidou de mim. A senhora não tem lugar aqui.

Sei que não mereço sequer chamar-te filha, trémula, a voz era névoa. Mas precisava encontrar-te. Tantos anos a pensar em ti, a imaginar…

Beatriz crispou o corpo fosforescente, braços a cruzar, formando muralha diante de Bernardete, de todas as palavras e confissões, de todo aquele realismo desconjuntado que agora parecia, finalmente, demasiado palpável.

Pensava? Quando? a voz soava a riso amargo de sardinhas a saltar numa frigideira. Quando me deixou? No colégio, enquanto eu chorava no escuro e chamava uma mãe que nunca via? Ou só mais tarde, quando já estava noutra vida?

Bernardete baixou os olhos, triturou a base do guardanapo nas mãos magras, e não procurou desculpas. Só ouvia, permitindo a Beatriz limpar do peito as águas paradas de anos.

Vivi um pesadelo constante, começou depois Bernardete, voz plana, mas gravada a granito. Depois que deixei-te, a minha vida afundou. O homem por quem fiz aquela loucura deixou-me no espaço de um mês. Acordei só numa casa alugada, com os bolsos vazios e ninguém ao meu lado.

Fez uma pausa, olhos a vaguear pelo fundo da chávena:

Tentei arranjar trabalho, mas não me queriam ora pela aparência, ora por falta de experiência, ora por desprezo apenas. Dividia um quarto numa casa com gente ruidosa, água do duche a alternar entre o gelo e o vulcão. Muitas noites ceneava arroz passado e pão velho. Às vezes, nem para isso havia dinheiro…

E o que mudou agora? perguntou Beatriz, gélida, como se segurasse na mão uma moeda reluzente em vez de emoção. Por que hoje?

O rosto de Beatriz era máscara intocada, só um nervo invisível no maxilar denunciando que as palavras de Bernardete resvalavam por dentro, como peixes perdidos em aquário estranho.

Bernardete, desamparada pela ausência de reacção, aumentou o tom, voz quase soprando rachas no tecto:

Depois adoecei. Sério. Atribuí ao cansaço, mas só piorou. Não havia dinheiro para médicos. Pelas unidades públicas tratavam-se como se fôssemos sombras eles olhavam-me sem ver, receitavam comprimidos ao acaso e nada mudava.

Beatriz ergueu uma sobrancelha. Bernardete acelerou, palavras a tropeçar como se caíssem dos eléctricos:

Cheguei a dormir em estações do comboio. Envolvida neste casaco velho, perguntando-me: porquê? Mas nunca deixei de pensar em ti. Por vezes imaginava: como teria crescido, seria feliz?

Um soluço atravessou-lhe a voz. Continuou:

E então informaram-me do diagnóstico: um tumor. Benigno, diziam, mas precisava de operação, de dinheiro que não tinha. Vendi tudo móveis, recordações, até bijuterias. Não chega para nada. E penso: vou morrer sem ver como ficaste, sem te pedir desculpa…

E conta-me isso porquê? Beatriz encarou-a, sabendo bem a resposta.

Não te peço muito! Bernardete inclinava-se, tentando encurtar a distância impossível entre as duas. Só um pouco para a operação. Eu vejo que não te falta nada: carro, apartamento, roupas bonitas… Só quero uma oportunidade, talvez um dia me perdoes…

Nos olhos de Bernardete tremiam lágrimas, mas não caíam suspensas no ar da pastelaria, entre o cheiro de café ardente e flor de laranjeira.

Beatriz pousou a chávena devagar, como se compusesse um adágio num piano antigo. No olhar, não havia tristeza nem rancor só transparência, a certeza gélida de quem declamava um texto já lido.

Não veio porque me queria encontrar, disse, ecoando o sino da Sé. Veio porque precisa de dinheiro.

Bernardete vacilou, como atingida por um vento invisível. O rosto foi da dor ao orgulho, da vergonha à resignação, num segundo.

Não não é isso, só… tentou ela, sem força de continuar.

Chega, cortou Beatriz, mão erguida como cortina de teatro, já ouvi o suficiente. Sei ler nas entrelinhas: a mesma ladaínha, os mesmos pedidos de pena. Fala de estações, doenças, da dureza da vida. Mas? Nem que acreditasse não lhe darei um cêntimo.

Mas porquê? Eu sou tua mãe! voz sofrida, quase infantil.

Beatriz inclinou-se, estudando Bernardete como quem examina uma relíquia na Feira da Ladra:

Não. Quem abandona não é mãe. Mãe é quem me criou, cuidou, ficou ao meu lado em noites de febre e manhãs de felicidade. É quem me espera em casa com broas de mel e palavra de aconchego. Só ela.

Bernardete ainda abriu a boca, mas os protestos ficaram aprisionados nos azulejos do tecto, retorcidos entre espirais de fumo do café.

De carteira, Beatriz retirou umas notas de vinte euros, depositando-as junto à chávena de Bernardete.

Para o seu café, disse, neutra, e boa sorte.

Levantou-se, cachecol ao pescoço, mala à mão, passos firmes, inabaláveis, até à porta. Antes de sair, virou brevemente. A voz sóbria e dura:

E não volte a contactar-me. Nem à minha família. Ou irei à polícia. Advogados bons não me faltam.

Saiu. O vento de Lisboa colou-se-lhe ao rosto logo na escada, mas ela não recuou. Respirou fundo, abandonando atrás si a mulher que, um dia, foi apenas um eco do seu passado.

Bernardete ficou sentada, esmagando o guardanapo até não ser mais do que papel sem remédio. Os olhos, num instante, mostraram algo de duro, quase metálico, antes de voltarem ao sofrimento teatral de quem tenta chorar sem conseguir. Depois sacou um lenço de pano da carteira e escondeu o rosto, a respirar curto, isolada no ruído calmo do café.

Mais tarde, já noite entrecortada de eléctricos e faróis, Beatriz chegou a casa. O aroma de maçã e canela era nuvem quente a recebê-la, e a mãe Graça retirava do forno tartes douradas. Beatriz demorou-se a tirar os sapatos, a organizar as ideias, antes de entrar na cozinha onde o pai Manuel lia o jornal sempre o mesmo gesto.

Mãe, pai tenho uma coisa para vos contar sentou-se, entre cheiros de infância e luzes morenas.

Contou tudo: o encontro estranho, o pedido de dinheiro, as histórias da mulher que dizia ser sua mãe biológica. Voz plana, só de vez em quando a perder-se em pequenas pausas para respirar melhor.

Graça pousou o pano quente, sorrindo com tristeza:

Há pessoas que nunca mudam; quando descobrem que alguém tem uma vida decente, acham-se com direitos. Era pena que ela queria.

Fizeste bem, filha, concordou Manuel, apertando-lhe a mão. Não deixes que ninguém faça de ti instrumento para os próprios dramas.

Beatriz acenou. Havia agora dentro dela qualquer coisa de quente e firme não alívio, mas algo mais profundo: a certeza, talvez, de que não estava só.

Nem por um instante pensei ceder, disse. Só… custa aceitar que alguém veja a vida dos outros como fonte para os seus fracassos. Que espere reconhecimento ou dinheiro, só porque sim.

Esquece-a. Tu deves tudo só a ti e àqueles que ficaram, concluiu Manuel, puxando de novo o jornal. No ar, o relógio da parede marcava o tempo com bicadas e o cheiro da canela embalava a sala: ali estava segura, e ali ninguém lhe pediria nada em troca de amor.

********************

No dia seguinte, Bernardete reapareceu perto do Instituto. Passara horas a decifrar horários no quadro de avisos, perguntando de mansinho a estudantes, medindo o tempo como quem colecciona migalhas. À entrada, o casaco já parecia mais pesado e, na mão, um envelope gasto. Ali dentro, fotos amarelecidas: bebé enroscada em mantas, sorrisos e tentativas de sentar-se provas de um passado que nunca foi futuro.

O relógio torturava Bernardete, dedos nervosos, franjas do casaco ajustadas para nada. As frases rodopiavam pela sua cabeça, todas pareciam erradas. É a última oportunidade, depois não haverá mais tempo, pensava.

Quando Beatriz apareceu, ao virar do crepúsculo, Bernardete deu um passo à frente, o envelope como um talismã inútil.

Espera. Trouxe as tuas fotos, as tuas primeiras memórias… Queres ver? Eras tu naquelas manhãs em Alfama, quando sorrias…

A voz era pressa, aflição, tentativa de prender Beatriz um segundo a mais ao mundo da infância que nunca conheceram juntas.

Mas Beatriz não parou. Lançou apenas um olhar ao envelope e à mulher à deriva do tempo.

Guarde-as. Ou deite fora é-me igual, atirou, sem quebrar o passo.

Bernardete ficou suspensa no ar. Os dedos quase largaram as memórias em papel, mas ela agarrou o envelope, olhando a rapariga que se afastava com passo leve de quem sonha por cima do chão. Observou as fotos que ninguém quis, depois baixou o braço e ficou ali, estática.

Beatriz entrou no carro, ligou o motor, pôs o aquecimento. No retrovisor, viu o vulto de Bernardete, já pouco mais do que sombra. Mas não deu importância partiu, como quem acorda de um sonho estranho, e o Instituto ficou para trás, dissolvendo-se como miragem de azulejo azul ao sol de inverno.

*************************

Uma semana depois, Bernardete estava de novo sentada, agora numa pastelaria decadente dos Anjos, o vidro molhado de chuva desenhando caminhos erráticos. À sua frente, a amiga Rita sempre impecável, cabelo liso, camisola da moda, mala de marca pousada como animal de estimação. Mexia o café com alegria cruel.

E então? Alguma sorte? perguntou, espreitando por cima da chávena.

Bernardete suspirou, enrolou o fundo da chávena vazia. O rosto agora mais velho, lamacento, olhos fundos.

Nada, sussurrou, firme na desilusão. Ela é mais dura que pedra. Não é quem imaginei.

Rita torceu os lábios, séria:

Não desistas! Tenta pelos amigos, namorado… Há sempre jeito. Gente com posição detesta polémica tens de a pressionar!

Bernardete não respondeu. Só olhava a água a escorrer no vidro, pensando nas palavras cortantes de Beatriz: Só veio pelos euros.

Rita insistiu, voz de pedra:

Não vás abaixo! Tens a tua chance de resolver a vida! Se não for pela porta, vai pela janela!

Bernardete, desta vez, olhou para Rita mas o olhar ia longe, passava através dela. Só disse, baixinho:

Não sei, talvez tenha feito tudo ao contrário…

Rita bufou de impaciência, mas Bernardete já contava moedas. Colocou uma nota azul sobre a mesa e ergueu-se.

Tenho de ir.

Saiu. A rua era agora, depois da chuva, um espelho vacilante. Caminhou devagar e, pela primeira vez em muitos meses, sentiu que precisava seguir sozinha, deixar de esperar milagres.

Meses passaram. A vida de Beatriz seguia translúcida e certa, cheia de pequenos rituais: instituto, cafés com amigos, projectos murmurados ao vento. Fins-de-semana em família pequeno-almoço a cheirar a pão fresco, piadas do pai, a mãe a preparar compotas grossas. O correr dos dias era monótono e docemente confortável, como um Elétrico 28 que nunca se perde.

De vez em quando, numa madrugada plácida, relembrava o encontro com Bernardete já não com raiva, apenas como quem percebe que, às vezes, o passado é só um puzzle incompleto. Foi o que foi, pensava, e deixava a memória flutuar.

Bernardete, por sua vez, teve de inventar-se de novo. Arranjou emprego num call center sobrelotado modesto salário, contas feitas à centésima de euro, mas regularidade. Mudou-se para um quarto num pequeno lar partilhado na Amadora: cama estreita, móveis de plástico, e uma janela mínima por onde via um retalho de céu. Custou habituar-se ao novo ritmo acordar cedo, falar com desconhecidos usando frases-padrão, mas foi-se adaptando. Descobriu um grupo de apoio na igreja do bairro, de psicoterapia ao princípio relutante, depois intrigada. No círculo, uma calma nova, palavras partilhadas, ninguém ali julgava. Começou lentamente a rebentar a bolha de mágoa que lhe apertava o peito.

Certo dia, vasculhando as gavetas, encontrou, ainda, o álbum gasto com as fotografias amarelas. Folheou devagar: as minúsculas mãos de Beatriz, os sorrisos antigos, as manhãs em Campo de Ourique. Ficou muito tempo a ver, sem lágrimas. Depois fechou, guardou no fundo da gaveta, trancando tudo com um clique suave, como quem embala um sonho.

Um dia, pensou, vou conseguir olhar para tudo isto sem sentir peso. Um dia, talvez, sinta só lembrança.

Mas esse dia ainda estava longe. Por agora, bastava-lhe saber que voltou a andar, ainda que os sonhos vivessem em Lisboa, a meio caminho entre o que foi e o que nunca seria.

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