Devolve a chave do nosso apartamento
Eu e teu pai já conversámos e decidimos disse Matilde, pousando a mão sobre a do filho. Vendemos a quinta. Damos-te vinte mil euros para a entrada, já chega de andares a viver em casas alugadas, como um estudante.
Jorge congelou com a chávena de café a meio caminho dos lábios. Sílvia, a esposa, suspendeu a mastigação e ficou com um pedaço de bolo empalado no garfo.
Mãe, estás brincando? Jorge pousou delicadamente a chávena. Que quinta? Aquela de Santarém? Vocês estão lá todos os verões…
Sobrevive-se! Ó António, diz tu alguma coisa.
O pai, até então entretido a mexer o doce de abóbora, levantou a cabeça.
A mãe tem razão. Quarenta anos naquela quinta, já só chateia. O telhado pinga, o portão está a cair. Só trabalho. E tu sem casa própria
Pai, nós conseguimos juntar, Jorge abanou a cabeça. Mais dois anos, talvez três…
Três anos! Matilde levantou as mãos ao céu. Três anos a saltar de aluguer em aluguer, com a Sílvia quase a dar à luz? Silvia, tu não achas?
Sílvia olhou hesitante para o marido, depois para a sogra.
Dona Matilde, é muito dinheiro Não podemos simplesmente
Podem, cortou Matilde, sem margem para discussão. Já falei com o agente imobiliário, sábado vêm ver a quinta.
Jorge abriu a boca, mas Matilde não lhe deu chance.
Filhote, nós já não vamos para novos. O teu pai anda há três anos com a tensão pelas horas, eu faço sessenta no próximo. Para quê mais aquela quinta? Para plantar tomates? Compro no mercado! E os netos, que cresçam numa casa decente. Uma casa deles, percebes?
Instalou-se o silêncio. Por baixo da mesa, Sílvia apertou a mão de Jorge. Ele esfregou o nariz, gesto que fazia sempre que ficava sem resposta.
Mãe Vamos devolver tudo. Aos poucos, mas cada cêntimo.
Ora, deixa-te disso, António fez um gesto. Pagas se quiseres. O importante é que os netos tenham espaço para engatinhar.
Um mês e meio depois, a quinta foi vendida. Matilde tratou dos papéis, contou as notas duas vezes e transferiu os vinte mil para o filho. Três meses mais tarde, Jorge e Sílvia mudaram-se para um T2 no Parque das Oliveiras prédio novo, nono andar com vista para o jardim.
Na festa de inauguração enfiaram-se lá uns quinze, pelo menos. Os pais da Sílvia trouxeram louça nova, as amigas ofertaram dúzias de toalhas, os colegas de Jorge juntaram-se para comprar uma máquina de café. Matilde desfilava pelos compartimentos, em modo inspetora, tocava nas paredes, espreitava para dentro dos armários e abanava a cabeça ora com aprovação ora com aquele ar crítico de mãe.
Ao fim da tarde, com os convidados espalhados por todo o lado, Matilde interceptou o filho no corredor.
Jorge, deixa-me falar contigo em privado.
Levou-o até à porta da entrada, longe de ouvidos alheios.
Dá-me aí uma chave.
Jorge não percebeu imediatamente.
Qual chave?
A de casa. Reserva. Não vá o diabo tecê-las, Matilde baixou o tom de voz. Não te esqueças que vos demos uma ajuda. Qualquer emergência e ficamos de fora? E olha que pessoas normais dão a chave aos pais.
Jorge balançou-se, com ar de quem queria negar, mas não tinha coragem ou nem sabia como.
Mãe, mas isto A Sílvia
O que é que há com a Sílvia? Ela não quer? Matilde semicerrava os olhos. Comprámos a casa e ela não quer dar a chave?
Não, eu só
Então dá-me lá isso. Estás com coisas de criança!
Jorge foi ao bolso das calças, tirou o molho de chaves. Separou uma, ainda brilhante.
Pronto.
Matilde rodou a chave entre os dedos, juntou ao seu molho entre a de casa e a do carro. O metal tilintou.
És mesmo um querido, disse ela, passando-lhe a mão pela cara. Anda, vamos para a mesa comer bolo antes que desapareça.
A noite correu bem.
…
Matilde inspecionava com olhar minucioso a almofada nova, beliscando-lhe as costuras. O veludo escorregava suavemente pelos dedos, num tom mostarda quente, a combinar que nem ginjas com o sofá cinzento da Sílvia. Levou duas: a outra em terracota, já a imaginar o visual final almofadas nas pontas e entre elas o xaile tricotado que viu na semana anterior.
No elétrico, Matilde aninhava o saco contra o peito. Fora, desfilavam prédios, parques, carros de vizinhança. Chegou ao Parque das Oliveiras, a sua paragem.
O prédio ainda cheirava a tinta fresca tinham pintado há pouco. Subiu ao nono andar, sacou do molho de chaves, procurou a certa. O trinco rodou manso, a porta escancarou-se silenciosa.
Ninguém.
Matilde tirou os sapatos, foi até à sala. Claro, o sofá estava nu, sem graça. Desembalou as almofadas, distribuiu-as com cuidado, recuou para avaliar. Perfeitas. Outra vida.
Só que o pó da prateleira saltou à vista. E uma chávena suja em cima do parapeito. Matilde abanou a cabeça, mas não mexeu. Não era o seu papel. Ainda não.
À noite, o telefone tocou perto das nove.
Mãe, vieste cá hoje?
Jorge soava tenso.
Sim, trouxe-vos umas almofadas novas, viste? Lindo, não são?
Mãe longo silêncio. Podias ter avisado. A Sílvia chegou, viu as coisas trocadas, as almofadas…
Umas almofadas? Olha que foi mil e quinhentos euros cada uma! E diz à tua Sílvia que a vossa casa precisa de limpeza. Por todo o lado há pó, chávenas sujas. E fui dar uma olhadinha ao frigorífico meio vazio. Estão a passar fome? Não vos dei dinheiro para viverem como universitários!
Mãe, só avisa antes próxima vez, pode ser? Liga ao menos
Ó Jorge, Matilde revirou os olhos mesmo sabendo que ele não via. Vá, tenho de ir, o teu pai chama-me.
Desligou antes de ouvir resposta.
Na semana seguinte, Matilde apareceu com um conjunto de lençóis, daqueles bons, de cetim. A Sílvia estava a tomar banho Matilde ouviu a água a correr , então pousou o embrulho na cama e saiu sem bilhete. Para quê? Eles percebem.
Três dias depois conjunto de panelas. Os jovens tinha lá uns tachos chineses, já sem esmalte, uma tristeza.
Ao sábado, Jorge e Sílvia foram jantar com os pais dele. Sentaram-se à mesa, comeram raviolis caseiros, falaram da chuva e da obra do vizinho de cima. Tudo cordial, educado, sem sal.
Sílvia pousou o garfo.
Dona Matilde
Sim?
Podia avisar quando vier cá? Só para estarmos preparados.
Matilde limpou os lábios devagar.
Silvinha. Eu e o António demos-vos vinte mil euros. Vinte mil! Tenho direito de ir lá quando quiser. Aquela casa é nossa também, por sinal.
Mãe, Jorge tentou interceder.
Que mãe? Não tenho razão?
Silêncio. António espetava o garfo no ravioli, claramente neutro.
Obrigada pelo jantar, Sílvia levantou-se. Jorge, é melhor irmos.
Foram rápidos nos preparativos. As despedidas saíram pouco convincentes, meio amarelas. Matilde fechou a porta, voltou à cozinha, começou a arrumar. Sentiu-se puxada à janela, precisamente quando os jovens saiam do prédio.
A janela estava ligeiramente aberta. A voz de Sílvia chegou nítida, nada suave:
ou pagamos este empréstimo, ou separo-me. Não aguento mais.
Matilde ficou estática, prato na mão.
Que empréstimo? Que conversa era aquela?
Cá em baixo, Jorge respondeu qualquer coisa, mas já não se distinguia. Ouviu-se a porta do carro, o motor rugiu.
Matilde pousou o prato devagar na pia.
Não, aquilo não lhe estava a agradar nada.
…
Matilde rodou a chave, empurrou a porta e quase esbarrou em Jorge. Este parecia esperar por ela, no corredor. Sílvia apareceu da cozinha, enxugando as mãos a um pano.
Ah, estão em casa, Matilde vacilou, compôs-se rápido. Trouxe-vos
Mãe, espera.
A voz do filho fê-la parar. Jorge foi ao bolso de dentro do casaco no cabide, tirou um envelope branco, espesso.
Quero devolver-te isto.
Matilde pegou automaticamente. Espiou dentro quase lhe faltou o ar.
Dinheiro. Muito.
Isto?
Os vinte mil euros, Sílvia chegou ao lado do marido. Fizemos um empréstimo.
Vocês Matilde arregalou os olhos. Vocês estão doidos? Porquê um empréstimo?
Porque não queremos estar em dívida, Sílvia olhou de frente, firme. Estamos cansados. Das visitas. Das inspeções. De entrar aqui sem avisar e mexer nas nossas coisas.
Eu não mexi! Trouxe almofadas! Lençóis! Panelas!
Mãe, Jorge pousou a mão no ombro de Sílvia. Vamos trocar as fechaduras amanhã. O senhorio vem cá.
Matilde piscou, sem entender de imediato.
As fechaduras?
Sim. Já não vais ter chave.
Silêncio pesado. Matilde passava o olhar do filho para a nora, e vice-versa. Um nó na garganta, as faces em brasa.
Vocês vocês engoliu em seco. São mesquinhos. Ingratos. Vendemos a quinta por vocês! E agora, escorraçam-me como se fosse uma ladra!
Não escorraçamos, Sílvia manteve-se calma. Só pedimos que saia.
Matilde apertou as chaves no bolso, sentiu os dedos dormentes.
Jorge Mesmo assim deixas que me tratem assim?
Jorge hesitou, depois encarou a mãe.
Mãe. Foi decisão dos dois.
Matilde saiu abruptamente, sem um adeus.
Foi para casa ensaiando mentalmente o discurso para quando Jorge ligasse arrependido. Amanhã, talvez depois de amanhã. Ia perceber que exagerou.
Passou uma semana. Telefone mudo.
Matilde várias vezes pegou nele, mas nunca marcou. Não. Que venham eles primeiro. Que peçam desculpa. Ela é mãe, caramba! Nunca quis mal.
Um mês depois, António perguntou ao jantar se já se tinham reconciliado. Matilde encolheu os ombros, mudou de tema.
Dois meses: deixou de sobressaltar sempre que o telefone tocava.
Três meses: percebeu tudo.
O filho não vai ligar. Não amanhã, não para a semana, talvez nunca.
Matilde ficou sentada na cozinha, olhando o molho de chaves. A de casa, a do carro. No meio, aquela que já abriu a porta do T2 no Parque das Oliveiras.
Ela queria ajudar. Mesmo. As almofadas, as panelas, os lençóis é cuidado, não é? Não é isso a obrigação dos pais? E os filhos, agradecem, todos felizes.
Mas, por algum caminho, partiu-se qualquer coisa. E Matilde, por mais que rebuscasse conversas e visitas na memória, não conseguia encontrar onde.
Talvez nem quisesse.
Agora corrigir já era tarde.







