Desenrasca-te sozinha
Miguel, o carro pifou. Mesmo na Avenida dos Aliados. O telemóvel já não tem bateria, estou a ligar de outro número.
Ela segurava o telefone com as duas mãos. Os dedos, protegidos pelas luvas finas de couro, já mal respondiam. O vento misturado com chuva gelada varria a rua, colava ao vidro das montras e magoava nos olhos. Sofia estava encostada à porta de um salão de beleza que não conhecia, onde a dona ao sair para fumar, olhando-a com o ar perdido e o casaco caro, simplesmente lhe estendeu o telemóvel, sem comentário.
Miguel, estás a ouvir-me?
Estou. A voz do marido tinha o tom de quem dita instruções à secretária. Seca, pausada. Estou numa reunião.
Eu percebo, mas preciso de ajuda. Ou chamas um reboque, ou diz-me ao menos para onde devo ligar. O meu telefone foi-se, não consigo procurar o número.
Pausa. Não foi longa. Uns três segundos. Mas nesses três segundos estavam o olhar para o lado, o franzir de sobrolho, e a contabilidade mental de desculpas para despachar.
Sofia, não posso agora. Desenrasca-te. És adulta.
E desligou.
Sofia ainda ficou um pouco com o telefone encostado à orelha. Depois baixou-o. A dona do salão mantinha-se ao lado, fingindo olhar para a chuva. Mulher baixa, perto dos cinquenta, de bata azul sobre a camisola, cigarro na mão que nunca chegou a acender.
Obrigada disse Sofia, devolvendo-lhe o telefone.
Conseguiu falar?
Sim.
Voltou para o passeio. A chuva entrou-lhe de imediato pelo colarinho, pelas mangas, pelo espaço entre o cachecol e a orelha. O casaco era bom, italiano, lã com forro corta-vento, mas ali, pouco valia. Sofia hesitou. O carro ficava num quarteirão próximo, trancado. Não chamou reboque. Telemóvel morto. A casa ficava a quarenta minutos a pé, mesmo sem tempo ruim. A paragem de autocarro era já ali, à esquina.
Foi para a paragem.
Algo dentro dela encolheu-se, ficou calado. Nem raiva, nem mágoa. Só aquela constatação serena e rotineira de que não há ninguém em quem confiar. Estava-lhe no sangue por camadas, como calcário numa chaleira impercetível, até o sabor mudar.
Tinha nove anos de vida com Miguel. Os dois primeiros, diferentes. Depois o trabalho dele, os projetos, as viagens de última hora. Vieram os jantares silenciosos, até que já não havia jantar, só sandes a horas diversas, cada um por si. Sofia tinha o seu emprego num pequeno atelier de arquitetura, fazia plantas, reabilitações, ia a obras. Nunca lhe faltou dinheiro. Para Miguel, era uma virtude: Independente, costumava gabar. Desenrascada. Desenrasca-te.
A paragem tinha abrigo. Sofia ficou encostada ao canto, longe do vento. Pouca gente: dois estudantes de mochila, um idoso de gabão, uma senhora com o saco de compras a abarrotar.
Olhava a chuva. Os carros passavam em turbilhão. A luz amarela do candeeiro da paragem oscilava com o vento, projectava sombras rápidas no pavimento. Por detrás do vidro, ouviam-se buzinas e aceleras.
Apareceu então.
Sofia não viu primeiro a mulher, mas o casaco. Reconheceria aquele sobretudo onde fosse. Sabia-lhe de cor o comprimento, o cair da bainha, o colarinho alto com três botões de madeira escura. A lã era especial, castanha com brilhos acobreados, espessa mas leve, quase viva ao toque. Era da Casa dos Tecidos do Norte, uma oficina do Porto pequena, sem loja, só por encomenda.
Miguel lho oferecera um ano e meio antes.
Foi uma noite estranha. Tinham discutido feio, portas a bater e palavras que deixam marcas. Sofia jurara que era o fim. De repente, ele apareceu com uma caixa grande, fita vermelha, ar fugidio, sem saber dar presentes. Olhava para o rio, enquanto ela desembalava. O casaco era lindo, quente, feito com respeito por quem o ia usar. Sofia vestiu-o logo ali no hall. Sentiu-se aquecida, com esperança: afinal, ele lembrava-se. Talvez houvesse ainda algo por debaixo da frieza.
Desapareceu-lhe seis meses depois. Do carro, no parque do marshopping. Um instante de distração, a bolsa ficou no banco de trás, na bolsa a chave do casaco. Dez minutos depois, nada. Vidro intacto, fechaduras certas, só a porta mal fechada. Perdeu a bolsa, os documentos, telefone e o casaco, que tirara meia hora antes por estar calor.
Miguel então disse: Tinhas de tomar mais atenção. E ficou por aí.
Agora via o casaco à sua frente, na paragem de autocarro, em pleno janeiro.
Vestia-o uma mulher que nunca vira.
Era nova, menos de trinta anos, baixa, corpo forte. Sem maquilhagem, bochechas rubras do frio. Cabelo apanhado sob um gorro branco com risca azul, luvas sintéticas baratas, botas já gastas. No ombro, sem ligar ao resto, aquele casaco.
Sofia hesitou. Não queria acreditar. Disse a si mesma que havia outros semelhantes, simplesmente. Mas as três botões de madeira escura. A terceira, mais clara por cima foi substituída, por isso destoava. Sofia revisitava esse pormenor todas as manhãs.
Ali estava ela.
De onde tirou esse casaco? perguntou Sofia.
A mulher virou-se, estranhando o tom, mas tranquila.
Desculpe?
O casaco. Sofia avançou. É meu. Roubaram-no há um ano. Explique-me, por favor, como acabou consigo.
A mulher fixou-lhe o olhar. Os estudantes continuaram o teatro de distração. O idoso afastou-se.
Deve estar enganada respondeu baixo, mas firme. Comprei-o no mercado.
Qual deles?
O da Senhora da Hora, à comissão.
Não achou estranho venderem algo assim quase a preço de saldo?
Algo desceu-lhe às feições. Não medo. Um esforço para conter-se.
Paguei o que pediram. Foi uma compra honesta.
Compra honesta de coisa roubada.
Ficaram frente a frente. Vento, frio. A mulher tinha um saco do Pingo Doce, empoleirado no braço, mal fechado, de onde saía um gorro de criança, pequenino, com pompom.
Tem filhos? perguntou Sofia.
Um filho. Tem cinco anos. Esboçou um sorriso. Está na creche.
Quer conversar em lugar quente? Ali, veja, o café O Convívio.
Entraram. Pequeno, oito mesas, bancos de madeira, gerânios nas janelas, cheiro a canela e bolo de arroz. Música suave. Pouca gente: um casal de idosos, homem ao computador.
Sentaram-se junto ao vidro. Aqui, não se via lá fora, só brancura molhada.
A mulher tirou o gorro. Cabelo escuro, ondulado, apanhado. Mãos enrugadas, unhas partidas, mãos de quem trabalha sério, não ao computador.
A empregada aproximou-se. Sofia pediu café. A mulher, chá e uma torrada.
Caladas, por instantes. Depois, Sofia:
Como se chama?
Mariana.
Sofia.
Fale-me do mercado.
Mariana envolveu o chá entre as mãos.
Cheguei ao Porto em setembro. Precisava trabalho, casa. Quase sem nada, só o que juntei em dois meses. Arranjei emprego no hospital, como auxiliar. Um quarto pequeno, senhora porreira. O Tiago ficou na creche, depois de muita insistência.
O Tiago é o teu filho?
É.
O pai?
Mariana levantou os olhos.
Não vivemos juntos.
Sofia não insistiu.
O casaco…
Foi em novembro. Passei pelo mercado da Senhora da Hora, vi o casaco num cabide de um homem com roupa usada. Toquei na lã, senti logo. Perguntei preço. Disse trezentos euros. Era barato, sim, mas não podia perguntar de onde vinha. Sabia que não devia.
E compraste.
Comprei. Não tinha roupa de inverno. Só o blusão de outubro, e passei frio. E o miúdo. Na altura parecia milagre.
E arrependeste-te?
Um pouco. No início só chorei de alegria.
Sofia mexia o café. Havia algo aqui que travava a acusação. Algo mudara. Ela só não sabia bem o quê.
Trabalhas em que hospital?
São João, bloco operatório.
Gostas?
Achei que era só por uns tempos, mas as pessoas são boas. O Tiago fica perto e sei a que horas entro e saio.
Horários duros?
Às vezes. Nas noites, a D. Teresa do lado fica com ele. Adora-o.
Ficaram em silêncio. Sofia pensava: há tantas histórias assim, nada especial. Mulher com filho, cidade média, vida apertada. Mas como Mariana falava, sem se queixar, só com factos, impressionava.
De que terra és?
Fafe. Pequeno, a duzentos quilómetros daqui. Conheces?
Não.
Lá há fábricas e um hospital. O marido também era de lá.
E vieste porquê?
Olhar limpo, breve.
Não dava para continuar lá.
Sofia percebeu o que não era dito. Às vezes ouvimos mais pelos silêncios do que pelas palavras.
O Tiago vê o pai?
Viu no verão. Mas ouviu coisas a mais. Não queria que crescesse a achar normal o que não é.
Mariana não se alongou.
O casaco é importante para ti? perguntou Sofia.
Nuca tive nada assim. Cuido bem, limpo com escova de pêlo, ponho bolas de cedro para evitar traças. Foi a primeira vez que senti que conseguia. Pausa. Depois de tanto tempo a lutar, consegui dar-lhe um teto, e a mim, isto. Prova que não quebrei.
Sofia entendeu. Recordou o dia em que o vestiu pela primeira vez, sentiu precisamente isso: que nada estava perdido, que ainda havia calor verdadeiro. Era um símbolo, mas o tempo mostrou que o símbolo era frágil.
Mariana pegou na torrada, bebeu gole de chá. Sofia olhava o brilho macio do casaco de lã, bem cuidado, as três botões de madeira. Pensou no que faria agora.
O que vestes amanhã para o trabalho se não tiveres o casaco?
Blusão. Curto. Não é quente, habituei-me ao frio.
Sofia olhou o casaco com olhos claros, sem raiva:
Mariana, fica com ele.
Mariana ficou parada:
Como?
O casaco. Fica. É teu.
A sério?
A sério. Não é oferta por pena. Simplesmente, para mim já não tem o mesmo peso. Para ti tem. E pagaste por ele.
Mariana baixou o olhar, tocada.
Porquê?
Sofia procurou resposta séria.
Porque representou esperança para mim, mas não era real. Para ti, foi conquista real. Tem mais valor aí.
Mariana aceitou. Disseram obrigada. Sem enfeites.
Falaram ainda mais um bocado. Coisas de trabalho, habilidades de arquitetura, espaços para crianças. O tempo passou, Sofia nem reparou. Não tinha pressa. Quantos dias passamos sem pressa? São poucos.
Ao fim, Mariana preparou-se para ir buscar o Tiago à creche.
Queres usar o meu telefone? ofereceu.
Não vais atrasar-te?
Desenrasco-me.
Sofia ligou ao reboque, resolveu tudo.
Saíram juntas na brisa gelada.
Vais para que lado? questionou Mariana.
Para o carro. Preciso de esperar pelo reboque.
E eu sigo pela Rua do Bonfim.
Separaram-se. Sofia ficou a vê-la, muito direita, o casaco a ajeitar-se bem naquela estatura. Um casaco certo no lugar certo.
Sofia caminhou até ao carro. O vento castigava, a humidade entrava por baixo do lenço. O casaco, afinal, não fazia tanto, mas era bastante. Havia frio, mas era o frio de sempre do tempo, não de dentro.
Esperou quarenta minutos pelo reboque. Pensou em Miguel.
Não com raiva. A raiva é breve. Pensou com serenidade, como quem enfrenta uma tarefa adiada. Nove anos dois bons, sete de convivência morna, de habituar-se à distância. Era por hábito que ficava? Por medo de mudar tudo? Ou esperança de que as coisas mudassem? Certamente por tudo isto.
O casaco tinha sido esperança. Agora já não servia.
O reboque chegou. O motorista deixou Sofia carregar o telemóvel. Ela avisou o atelier:
Hoje não regresso. Preciso cuidar do carro.
Tudo bem, Sofia. Está tudo bem?
Sim, está.
Iam na carrinha pelo Porto, neve transformada já em chuva miudinha. Ela pensou na primavera. O projeto do centro infantil precisava de luz nova nas zonas de recreio. Já devia ter falado disso com o cliente, não guardar meses. Não deixar para depois.
Chegou a casa. Miguel não voltara. Pôs água para chá. Ficou à janela a ver o entardecer encharcado. Pensou em Mariana, no Tiago, a caminho de casa. O menino a falar dos cães, dos porquês da vida. Ela percebeu que não tinha pedido o contacto de Mariana não faria sentido. Há encontros assim, só de passagem, feitos só de escuta.
Mas algo ficou desse encontro. Não o casaco, qualquer coisa mais essencial.
O chá queimou-lhe as mãos. Quando Miguel voltasse, ia falar. Não de contas ou avarias, mas a sério. Não sabia o que iria sair desse diálogo, mas ia dizer o que sentia. Que não queria teorias nem comparticipações: queria respostas aos telefonemas. Voz de quem se importa. Alguém com quem conversar à mesa.
Talvez ainda houvesse solução. Ou não. Já não lhe cabia decidir tudo. Mas não ia fingir mais que não notava.
Talvez, na primavera, fizesse algo novo um curso de aguarela, ou reinventar o projeto do centro infantil por dentro. Não para mudar o mundo, só para voltar a gostar, mesmo do que era dela.
Fora, a cidade ia resistindo, sob a chuva. A noite caía.
Sofia lavou a chávena. Olhou o cabide. O casaco ainda lá. Quente, bom. Mas já não precisaria dele da mesma forma.
Já não estava propriamente à espera.
Simplesmente, estava.
Às vezes, o mais importante não é esperar ou conquistar, mas escolher o que faz mais sentido para si e aceitar que, mesmo depois da maior tempestade, há sempre alguém para ouvir ou contar histórias. Basta sermos sinceros connosco e, um dia, fazemos as pazes com o que falta.







