«Derrubem a barraca!» — gritava o empresário, sem saber que um agente da Unidade Especial da PSP já se aproximava da casa

«Derrubem a barraca!» berrava o empresário, ignorando que já se aproximava de casa um oficial dos comandos.

Artur nunca gostou de novembro. Em novembro, a lama prendera-se-lhe aos pés como alcatrão e o céu baixava tanto que parecia tocar nas copas das árvores antigas. O autocarro deixou-o na curva, envolveu-o numa nuvem de fumo e sumiu-se na estrada envolta em nevoeiro.

Ficava-lhe uns bons dois quilómetros a pé até à aldeia. A mochila pesava-lhe nos ombros lá dentro ia um xaile de lã, uma caixa de rebuçados que a avó Rosa adorava e um frasco de café forte. Não lhe telefonara, querendo surpreender-lhe o olhar ao passar o portão. Três anos em missão, ferimentos graves, meio ano em tratamentos… Artur estava cansado. Só ansiava por silêncio, pelo crepitar da lenha no fogão e pelas delícias saídas do forno da avó.

Mas o silêncio não o esperava.

Ainda a chegar à Rua da Ribeira, ouviu um som pesado de motor. Um diesel ao ralenti ronceiro, uniforme, carregado de potência. Apressou o passo, saltitando poças. A cerca, que pintara de verde há quatro anos, uma secção dela, estava caída no chão.

Junto ao portão escancarado, estacionava um jipe preto imponente. Por perto, dois homens robustos em casacos de cabedal mastigavam tremoços, cuspindo as cascas para o chão, indiferentes ao lodaçal de outono. E, perto da escada, um homem de sobretudo cor de camelo ameaçava uma figura pequena e corcunda numa gabardina gasta.

Olhe que a senhora já não regula! a voz dele soava como corda esticada Dei-lhe uma semana! Uma semana! Tenho máquinas paradas, investidores inquietos!

Meu filho para onde é que iria eu? O tom da avó Rosa tremia, quase chorando. O inverno aí vem O meu Zé aqui ficou, o campo é tudo o que tenho…

Vai para um lar! gritou o homem, chutando um velho balde de zinco, que tiniu escada abaixo. Derrubem esta chafarica! bradou aos dois dos tremoços. Já que ela não aprende pelo bem!

Um deles riu-se e avançou.

Artur não gritou, nem correu. Entrou no pátio sem barulho, como aprendera. Deslizou a mochila para o relvado.

Um dos homens só deu por ele quando estavam a dois metros.

Olha lá, quem começou o outro, sem acabar.

De um só movimento, Artur neutralizou-o. O homem arfou, dobrando-se. O segundo hesitou ao ver-lhe o olhar.

Nos olhos de Artur, não havia raiva, mas sim um cansaço gelado e vazio, de quem vira horrores inimagináveis.

Quietos, murmurou Artur.

O do sobretudo voltou-se bruscamente, o rosto de traços suaves e cuidados descomposto de espanto.

E tu que raio és? Donde apareceste?

Artur chegou-se perto da avó. Ela olhou-o demoradamente, mão ao peito, incrédula.

Arturinho sussurrou. Vivos

Abraçou-a com um braço, percebendo como estava frágil. Cheirava-lhe a gotas de valeriana e lã guardada há anos.

Vivo, avó. Vai para dentro. Põe água para o chá.

Ouve, Rambinho! O homem do sobretudo aproximou-se, babando-se de raiva. Vais desafiar-me? Eu sou o Eduardo Mota! Mando nisto tudo! Vais pagar caro pelo que fizeste ao meu segurança!

Lentamente, Artur voltou-se e chegou-se a Eduardo. Embora mais alto, recuou instintivamente: havia em Artur um perigo imprevisível.

Ouve bem, Dudu, a voz sussurrava, quase um vento. Leva a tua trupe. Entra no carro. E que daqui a nada nem o cheiro do teu perfume fique.

Mota ficou vermelho.

Achas que ameaças quem, tu? Amanhã cá estaremos, e eu mesmo acabo com este galinheiro! Com todos vocês dentro!

Fez sinal à equipa. O homem, ainda a custo, punha-se de pé. Marcharam para o carro. Ao baterem a porta, bandos de pardais voaram do beirado. O jipe rugiu, deu meia volta, esmagando os já tombados crisântemos, e desapareceu.

Na casa, o calor era frágil, fugaz. Na mesa, esperava batata frita a esfriar. A avó, nervosa, ia pondo pickles, cogumelos, couve em conserva, mas as mãos tremiam-lhe tanto que a colher batia contra o prato.

Eles apareceram há um mês, contava ela, espreitando pela janela. Ao início sorriam, queriam comprar a terra. Por tostões. Depois chegou este Mota. Diz que quer erguer aqui um resort de luxo. Porque o rio está perto…

E muitos aceitaram? sorvia Artur o chá, forte e doce como quando era miúdo.

Quase toda a rua, suspirava ela. Aos Silvas sumiu-lhes a vaca, só apareceu depois… no pinhal. Aos Martins pegou-se-lhes o fogo à casa, de noite. As pessoas têm medo, Artur. O Mota tem irmão na câmara e um sobrinho na guarda. Como havemos nós, velhos, de lutar contra eles?

Artur ouvia, sentindo uma mola a comprimir-se-lhe no peito. Conhecia bem aquele tipo de gente. Não desistem. Se Mota disse que vinha amanhã, era porque vinha. E não vinha só.

Os papéis da casa estão onde?

Na caixinha do roupeiro. Está tudo certo, filho.

Vai deitar, avó. Hoje eu faço a vigia.

Nessa noite, Artur não dormiu. Contornou a horta. A cerca era pouco mais que um nome. Atrás, só pinhal fácil de se aproximar sem ser visto. A casa, de madeira antiga, arderia num instante.

Saiu ao alpendre, acendeu um cigarro. O telemóvel mal apanhava rede, teve de subir ao sótão.

Marcou um número. Chamou vezes sem conta.

Sim? respondeu uma voz, estranhamente viva para as três da manhã.

Sandro, sou eu. O Silencioso.

Silencioso! Amigo! Pensávamos que ainda estavas a recuperar.

Estou na Avó em Vale Verde. A situação está feia. Um tiranete perdeu a noção. Amanhã vem com máquinas para demolir a casa. Faz o que quer.

Quantos são?

Eram três hoje. Amanhã trará mais. E tem contactos na polícia. Via legal não dá.

Manda a localização. Estamos em Santarém, é já ali. De manhã estamos aí.

Sandro, com calma. Sem exageros.

Não temas. Somos discretos.

Artur desceu. Faltavam quatro horas para amanhecer.

A manhã raiou cinzenta e húmida. O nevoeiro escondia o rio. Artur estava à entrada, descascando uma maçã. Conveceu a avó a não sair do quarto.

Chegaram às nove certas. Mota mantinha palavra.

Primeiro ouviu-se o motor. Depois, um buldózer amarelo emergiu da névoa, com a pá levantada como viseira. Atrás vinham dois jipes pretos, seguidos de uma carrinha.

Pararam junto ao portão.

Mota saiu na dianteira. Hoje vestia uma jaqueta curta, e ao lado dele um corpulento homem com cicatriz na face sem dúvida chefe da segurança. Da carrinha saltaram uma dúzia de tipos: uns de fato de treino, outros de roupa de camuflado. Empunhavam tacos, varões.

Então, herói? sorriu Mota, predatório. Já juntaste as tralhas? Queres ajuda?

Artur levantou-se. Trincou a maçã.

Disse-te ontem, Dudu. Não entendes?

Partam a cerca! guinchou ele ao condutor do buldózer. E este atrevido merece uma lição!

O buldózer bufou, deitando fumo negro; a trupe dos tacos avançou para a porta. Artur não se mexeu. Ficou ali, no seu velho pulôver.

Sentiram-se vencedores. Eram muitos, vinham armados, apoiados no poder do dinheiro.

Ainda vais a correr mais depressa, rapazola, troçou o do corte na cara. Fica-te quieto.

Nesse instante, do lado do pinhal soou o ronco de motores. Não o peso do buldózer, mas um som agudo, raivoso.

Todos olharam.

Dois Defender surgiram, lançando lama sobre as jantes, bloqueando os jipes de Mota.

As portas abriram-se.

Sete homens saíram, calmos, sem alarido nem ostentações. Disseram-se de ombro a ombro trinta, quarenta anos, robustos. Vestiam-se como quem anda no campo, mas moviam-se como veteranos de outros combates.

Sandro baixo, ruivo de olhos irónicos avançou.

Bom dia, senhores veraneantes, falou em tom alto. Que se passa aqui? Não recebemos convite para a festa?

Mota inquietou-se. Percebera logo a mudança de jogo.

Isto é privado! Estamos em serviço! Vocês quem são?

Nós? Sandro exibiu um sorriso. Somos os que ajudam as avós a rachar lenha, a arranjar vedações. Vocês, pelo contrário, parecem desordenados.

Ponham-nos fora! berrou Mota, já em pânico. Expulsem-nos a todos!

Avançaram, confiantes. Erro fatal.

A refrega durou menos de dois minutos.

Os amigos de Artur agiram friamente. Quem os atacou caiu logo, derrotado pela própria investida. Nada de barulho.

O cicatrizado ergueu um ferro contra Sandro, que o desviou e, num só movimento, deitou-o na relva, imóvel.

Quieto! ordenou um dos rapazes. O tom era tão sério que o motorista do buldózer desligou a máquina e ergueu as mãos.

Em minutos, todo o grupo de Mota jazia estendido, a repor ar. O próprio Mota, trémulo e lívido, recuou para o carro. Artur aproximou-se.

Dudu, murmurou. Pega no teu telemóvel.

P-para quê? gaguejou o empresário.

Consulta as notícias regionais.

Mota, mão trémula, desbloqueou o ecrã.

Sandro espreitou por cima do ombro.

Olha só, já cá está. São rápidos.

No ecrã, lia-se: Ilegalidades em Vale Verde: empresário Mota e autoridades locais pressionam idosos. Vídeo exposto.

Por baixo, um vídeo do dia anterior. Mota, aos gritos, pontapeando o balde, ameaçando a casa da avó.

Os meus amigos não se limitam ao ginásio, disse Artur. Tenho um amigo na imprensa. Gosta destas histórias. O vídeo já está na procuradoria do distrito. E no gabinete do governador.

O telemóvel caiu-lhe das mãos, cravando-se na lama.

Podemos chegar a acordo? sussurrou. Pago-vos bem.

Claro, anuiu Artur. Levas toda a tua gente, máquinas incluídas. E desapareces. Se algum cabelo da minha avó ou vizinhos se perder… percebeste?

Mota acenou apressado, tal qual boneco articulado.

A GNR chegou uma hora depois. Mas não os de cá um destacamento vindo directamente do distrito. O governador, vendo o escândalo nas redes, mandou verificar as denúncias. Mota e os homens foram levados sem contemplações.

À noite, a casa da avó Rosa encheu-se.

Juntaram a mesa ao centro. Cheirava a carne assada, pickles e fumo de lenha. Sandro contava histórias e todos riam; Artur ia servindo chá. A avó Rosa, afogueada de alegria, enchia os pratos com rissóis de batata.

Deus vos pague, filhos, dizia ela, limpando os olhos. Se não fossem vocês

Ora essa, dona Rosa, avivou Sandro Há muito que queríamos uns dias no campo. Que bem se respira aqui!

Já noite cerrada, saíram ao alpendre. O nevoeiro dissipara-se, o firmamento luzia de estrelas brilhantes, frias, próprias do fim de outono.

E agora, o que vais fazer? perguntou Sandro, acendendo um cigarro.

Artur fitou a mata escura, onde já tinham começado a erguer a cerca.

Por agora fico. O telhado precisa de arranjo, talvez construa um novo anexo. E as macieiras…

Que têm as macieiras?

As antigas não vingaram, diz a avó. É preciso plantar novas. Da variedade Domingos.

Sandro sorriu, bateu-lhe no ombro.

Isso sim, é boa obra. Criar é para a vida.

Na manhã seguinte, despediram-se os amigos. Artur ficou à porta a vê-los partir, depois entrou. Luzes acesas, a silhueta da avó na cozinha, sempre atarefada.

Pegou numa enxada. A terra estava dura e fria, mas tinha uma certeza: ao plantar uma árvore de alma, ela há de enraizar. De novembro em diante. Porque as raízes essas ninguém arranca, nem com buldózer.

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«Derrubem a barraca!» — gritava o empresário, sem saber que um agente da Unidade Especial da PSP já se aproximava da casa